13 de maio de 2015

Sándor Ferenczi

"Não muitos anos após sua publicação (em 1900), A Interpretação de Sonhos caiu nas mãos de um jovem médico de Budapest que, embora fosse neurologista, psiquiatra e especialista em medicina legal, estava avidamente em busca de novos conhecimentos científicos. Ele não foi muito adiante na leitura do livro; muito cedo jogou-o de lado — se por tédio ou repugnância, não se sabe. Pouco depois, porém, a invocação de novas possibilidades de trabalho e descoberta levou-o a Zurique e, de lá, foi conduzido a Viena a fim de encontrar o autor do livro que um dia, com desprezo, deixara de lado. Essa primeira visita foi sucedida por uma longa, íntima e até hoje imperturbada amizade, no decorrer da qual também efetuou a viagem aos Estados Unidos, em 1909, a fim de pronunciar conferências na Universidade Clark, em Worcester, Mass."
"Esses foram os começos de Ferenczi, que, desde então, se tornou, ele próprio, mestre e professor de psicanálise e que, no presente ano, 1923, completa igualmente o quinquagésimo aniversário de seu nascimento e a primeira década de sua liderança da Sociedade Psicanalítica de Budapest."
"Ferenczi repetidas vezes também teve um desempenho nos assuntos externos da psicanálise. Será lembrado seu aparecimento no Segundo Congresso Analítico, de Nuremberg, em 1910, onde propôs e ajudou a realizar a fundação de uma Associação Psicanalítica Internacional, como meio de defesa contra o desprezo com que a análise era tratada pela medicina legal. No Quinto Congresso Analítico, em Budapest, em setembro de 1918, foi eleito presidente da Associação. Indicou Anton von Freund como secretário e não há dúvida de que a energia combinada dos dois homens, juntamente com os generosos planos de doação de Freund, teriam transformado Budapest na capital analítica da Europa, não tivessem as catástrofes políticas e a tragédia pessoal posto um fim inexorável a essas belas esperanças. Freud caiu enfermo e faleceu em janeiro de 1920. Em vista do isolamento de contato da Hungria com o resto do mundo, Ferenczi renunciou à sua posição em outubro de 1919 e transferiu a presidência da Associação Internacional para Ernest Jones, em Londres. Pelo espaço de duração da República Soviética na Hungria, foram atribuídas a Ferenczi as funções de professor universitário e suas conferências atraíam multidões. A Sociedade Filial, que ele fundara em 1913, sobreviveu a todas as tormentas e, sob sua orientação, tornou-se um centro de trabalho intenso e produtivo; e distinguiu-se por um acúmulo de capacidades, como não foram exibidas em combinação por nenhuma outra sociedade filial. Ferenczi, que, como filho do meio numa grande família, teve de lutar com um poderoso complexo fraterno, tornou-se, sob a influência da análise, um irmão mais velho irrepreensível, um professor bondoso e um promovedor de talentos jovens."
"Os escritos analíticos de Ferenczi tornaram-se universalmente conhecidos e apreciados. Foi somente em 1922 que suas Conferências Populares sobre Psicanálise foram publicadas por nossa Verlag (casa editora), como o volume XIII da ‘Internationale Psychoanalytische Bibliotek’. Essas palestras, claras e formalmente perfeitas, às vezes escritas de forma deveras fascinante, oferecem o que é de fato a melhor ‘Introduction to Psycho-Analysis’  para aqueles que não estão familiarizados com ela. Ainda não existe uma compilação (alemã0) de seus escritos médicos (psicanalíticos) puramente técnicos, dos quais certo número foi traduzido para o inglês por Ernest Jones. A Verlag cumprirá essa tarefa assim que tempos mais favoráveis o tornem possível. Aqueles de seus livros e artigos que apareceram em húngaro, tiveram muitas edições e tornaram a análise familiar aos círculos cultos da Hungria."
"A realização científica de Ferenczi é impressionante, sobretudo em virtude de sua multilateralidade. Além dos casos clínicos bem escolhidos e comunicações clínicas agudamente observadas (‘A Little Chanticleer’ [1913a)], ‘Transitory Symptom-Construction during the Analysis’ [1912a] e trabalhos clínicos mais breves), encontramos escritos clínicos exemplares, tais como aqueles sobre Wandlungen und Symbole der Libido [1913b] de Jung, sobre as opiniões de Régis e Hesnard sobre a psicanálise [1915], assim como eficazes escritos polêmicos, como aqueles contra Bleuler sobre o álcool [1911] e contra Putnam sobre a relação existente entre a psicanálise e a filosofia [1912b], moderados e dignos, malgrado seu caráter de resolução. No entanto, ao lado de todos esses estão os trabalhos sobre os quais a fama de Ferenczi principalmente repousa, onde sua originalidade, sua riqueza de ideias e seu domínio de uma imaginação científica bem dirigida encontram tão feliz expressão, e onde ampliou importantes seções da teoria psicanalítica e promoveu a descoberta de situações fundamentais da vida mental: ‘Introjection and Transference’, incluindo um debate da teoria da hipnose [1909], ‘Stages in the Development of the Sense of Reality’ [1913c] e o seu exame do simbolismo [1912c]. Finalmente, há os trabalhos desses últimos anos — ‘The Psycho-Analysis of the War Neuroses’ [1919b], Hysterie und Pathoneurosen [1919c] e, em colaboração com Hollós, Psycho-Analysis and the Psychic Disorder of General Paresis [1922] (em que o interesse médico progride das condições psicológicas para os determinantes somáticos), e suas abordagens a uma terapia ‘ativa’."
"Por incompleta que essa enumeração possa parecer, seus amigos sabem que Ferenczi reteve até mais do que tenha sido capaz de resolver comunicar. Em seu quinquagésimo aniversário, eles estão unidos para desejar que lhe possa ser garantida força, lazer e disposição de mente, a fim de trazer seus planos científicos à efetivação em novas realizações."

“Este escrito da tradução inglesa, da autoria de James Strachey, parece ser a primeira em inglês. Este trabalho apareceu pela primeira vez, sobre a assinatura ‘Herausgeber und Redaktion (Editor e Redação)’, como introdução a um número especial da Zeitschrift que comemorava o quinquagésimo aniversário de Ferenczi.”
É interessante a história relatada nessa introdução, a relação entre Freud e Ferenczi e a dedicação desse último às descobertas cientificas, mesmo vivendo uma história pessoal conflituosa e difícil, própria dos grandes mestres. “Filho do meio numa grande família, teve de lutar com um poderoso complexo fraterno, tornou-se, sob a influência da análise, um irmão mais velho irrepreensível, um professor bondoso e um promovedor de talentos jovens”. Quase  podemos afirmar, que em todo grande estudo, há um ser humano mergulhado em muito sofrimento e que esse estudo é uma forma sublimada de elaborar esse sofrimento.

Referência
FREUD, S. DR. SÁNDOR FERENCZI (EM SEU 50º ANIVERSÁRIO) (1923). Obras Completas de Psicanálise - volume XIX. Rio de Janeiro, Imago-1996. 

8 de maio de 2015

Pensando a estrutura tonal do inconsciente


Quando pensamos em o inconsciente e a música, há que lembrarmos de que a tonalidade exerce uma influência pouco estudada. Confúcio acreditava que a boa música poderia ajudar a aprimorar o caráter do homem. Disse ele:
“A música do homem de espírito nobre, suave e delicada, conserva um estado d’alma uniforme, anima e comove. Um homem assim não abriga o sofrimento nem o luto no coração; os movimentos violentos e temerários lhe são estranhos. Mais do que isso: uma vez que os indivíduos são os materiais básicos de construção da sociedade, a música também poderia afetar nações inteiras, melhorando-as ou piorando-as”.

No filme Atravessando a Ponte (O som de Istambul) – Fatih Akin, faz um percurso pelo mundo dos sons e começa por citar Confúcio: “Se alguém desejar saber se um reino é bem ou mal governado, se a sua moral é boa ou má, examine a qualidade da sua música, que lhe fornecerá a resposta. Para se entender a cultura de um lugar você precisa ouvir a música que é feita ali”.

Como diz “a musica sempre conta tudo sobre o lugar. Istambul é uma ponte para 72 nações”. A interessante na fala de Orham Gencebay de que “na música ocidental são usados os compassos 2/4, 3/4, 4/4 em grupos de 3, por exemplo: 12/8 fica: 3, 3, 3... 3, 3, 3... 3, 3, 3... na Turquia usa-se o compasso 5/8: 1, 2... 1, 2, 3... é o que chamam de “acento turco”.  1, 2... 1, 2... 1, 2... 1, 2, 3... divide-se em 9 tempos. O ocidente é limitado em termos de sons, porque não olha os sons do mundo”. Questão interessante, pois o oriente não se desvincula da concepção filosófica que permeia a Ásia que são os escritos de Confúcio e Lao Tsé, como se compreende os números e dessa forma como se divide as tonalidades de forma que mantém a harmonia da melodia no sentido da harmonia psíquica e espiritual. Importante ressaltar que a música no oriente é emotiva, fala de sentimentos, que o ocidente compreende em uma concepção materialista.
Orham Gencebay – um dos maiores astros da Turquia.
Instrumento “Orhan Baba”.
Música: Hatasız Kul Olmaz

 

Hatasız Kul Olmaz Hatamla Sev Beni
Dermansız Dert Olmaz Dermana Sal Beni
Kaybettim Kendimi Ne Olur Bul Beni
Yoruldum Halim Yok Sen Gel De Al Beni
Feryada Gücüm Yok Feryatsız Duy Beni
Sevenlerin Aşkına, Ne Olur Beni Sev Beni
Bu Feryat Bu Hasret Öldürür Aşk Beni
Uzaktan Olsa Da Razıyım Sev Beni Razıyım Sev Beni
Ümitsiz Yaşanmaz Sevmemek Elde Mi
Can Demek Sen Demek Gel De Gör Bende Mi
Sözümde Sitem Var Kalpte Mi Dilde Mi
Tez Elden Haber Ver O Gönlüm Elde Mi
Feryada Gücüm Yok Feryatsız Duy Beni
Sevenlerin Aşkına Ne Olur Sev Beni

Ninguém é sem falhas
Ninguém é sem falhas, ama-me com a minha culpa
Nenhuma tristeza é sem cura, dá-me a cura
Eu me perdi, por favor, me encontrar
Eu não tenho força vir e me levar
Eu não posso gritar me ouvir
Em nome dos amantes, por favor me ame
Este grito este desejo este amor me matar
Aceito se você ama de distância me ama
Não se pode viver sem esperança, é que é possível não amar
Coração significa que você, venha e veja se eu tenho ainda
Minhas palavras tem censura é no coração ou na língua
Por favor, informe rapidamente é que o coração em suas mãos
Eu não posso gritar me ouvir
Em nome dos amantes, por favor me ame

21 de abril de 2015

"Sem sair da porta"


Sem sair da porta
Pode-se conhecer o mundo
Sem ver através da janela
Pode-se conhecer o Caminho do céu
Quanto mais longe saímos
Tanto menos conhecemos
Por isso, o Homem Sagrado
Conhece sem caminhar
Reconhece sem ver
Realiza sem agir

TAO TE CHING - O Livro do Caminho e da Virtude - Lao Tse - Tradução do Mestre Wu Jyn Cherng

18 de abril de 2015

“Profundidade do Recalcamento”


Na arquitetura das estruturas de defesa estão as imagens dos sofrimentos, nem sempre acessíveis. Outras são acessíveis através das fantasias, que se erguem de acordo com a ordem crescente da resistência. Se o recalque ocorreu com pouca energia é mais fácil retornarem, mas se associarem às lembranças que possui maior energia no recalque são difíceis de serem acessadas. O caminho percorrido através dos sintomas segue para o aprofundamento na medida em que as resistências vão sendo vencidas. Então, em um circuito modular os sintomas vão se revelando, deslocando de acordo com a quantidade de energia investida no recalque. Assim é que as fantasias assumem um papel importante, pois originam-se de uma combinação inconsciente, seja de situações vivenciadas, ouvidas, pensadas. A função da fantasia na infância é possibilitar a elaboração da realidade e aqui é também tornar inacessível às lembranças, na medida em que as lembranças se fundem no imaginário. O trabalho em análise requer “separá-las” no sentido do sujeito encontrar seu lugar, e destino no mundo. A fantasia acessa fragmentos recalcados da memória e os traz de volta, na busca de um tempo que não é possível acessar no estado de consciência alerta, tornando “impossível determinar a conexão original”. A fantasia é uma forma de burlar a defesa, ou um véu que encobre lembranças, que não são possíveis detectar no espaço-tempo, mas continuam se revelando através de sintomas. O movimento entre fantasia e real é mediado pela quantidade de energia envolvida no recalque, ou seja, quanto maior a energia investida, maior gasto de energia e de associações terão que realizar para emergir. Na histeria o deslocamento das lembranças se dá por associação, de forma sistematizada em harmonia, na neurose obsessiva por uma semelhança entre as lembranças e na paranoia ocorre um deslocamento causal, a causa é o outro e a fantasia assume a forma de um delírio e alucinação. Embora o recalcado afete os eventos presentes, ele faz um percurso de retorno, de acordo com o desenvolvimento, a resistência, autoconhecimento e evolução do sujeito. O recalque no inconsciente tem muito de obscuro, portanto percorrer o universo da fantasia e a função desta na defesa requer pensar quais recalcados estão na fantasia e como são representados.

Referência
FREUD, S. RASCUNHO M - (NOTAS II) – 25 de maio de 1897. Obras Completas de Psicanálise - volume I. Rio de Janeiro, Imago-1996.

12 de abril de 2015

A avenida das lágrimas


Quando a primeira vez a harmonia secreta
De uma lira acordou, gemendo, a terra inteira,
- Dentro do coração do primeiro poeta
Desabrochou a flor da lágrima primeira.

E o poeta sentiu os olhos rasos de água;
Subiu-lhe à boca, ansioso, o primeiro queixume:
Tinha nascido a flor da Paixão e da Mágoa,
Que possui, como a rosa, espinhos e perfume.

E na terra, por onde o sonhador passava,
Ia a roxa corola espalhando as sementes:
De modo que, a brilhar, pelo solo ficava
Uma vegetação de lágrimas ardentes.

Foi assim que se fez a Via Dolorosa,
A avenida ensombrada e triste da Saudade,
Onde se arrasta, à noite, a procissão chorosa
Dos órgãos do carinho e da felicidade.

Recalcando no peito os gritos e os soluços,
Tu conheceste bem essa longa avenida,
- Tu que, chorando em vão, te esfalfaste, de bruços,
Para, infeliz, galgar o Calvário da Vida.

Teu pé também deixou um sinal neste solo;
Também por este solo arrastaste o teu manto...
E, ó Musa, a harpa infeliz que sustinhas ao colo,
Passou para outras mãos, molhou-se de outro pranto.

Mas tua alma ficou, livre da desventura,
Docemente sonhando, às delícias da lua:
Entre as flores, agora, uma outra flor fulgura,
Guardando na corola uma lembrança tua...

O aroma dessa flor, que o teu martírio encerra,
Se imortalizará, pelas almas disperso:
- Porque purificou a torpeza da terra
Quem deixou sobre a terra uma lágrima e um verso.

Olavo Bilac

A poesia é aquilo que a alma não tem como expressar, as palavras não significam o que deveriam significar, para cada pessoas possui um significado, não possui tempo nem lugar e pertence a muitas almas, muitas vidas.

5 de abril de 2015

Páscoa, Passagem

Páscoa
Passagem
Toda passagem exige uma via dolorosa,
de renúncia ao velho para o novo,
da arrogância a humildade,
do ódio ao amor,
da ambição de poder a igualdade,
do materialismo a espiritualidade,
do egoísmo a caridade,
da vaidade a simplicidade de alma,
do desejo e da vontade,
a sublimação.

3 de abril de 2015

Anotações - Kant com Sade - “A razão é discípula de si própria” – Kant

É natural na psicanálise, quando se fala de Kant a interrogação: E o texto de Lacan: Kant com Sade? Refere-se como duas leituras excludentes. Talvez até por desconhecer que Freud frequentava os círculos Kantianos de Viena, o se interrogar por uma escolha. Importante advertir que Kant trata da questão da razão prática e a liberdade. Então o agir por dever é o modo de conferir à ação o valor moral; mas, a perfeição moral só pode ser atingida por uma vontade livre. Kant causa desconforto ao discurso de relativização da moral, da lei. O que incomodou Lacan não foi Kant, foi a impossibilidade de um discurso livre sobre Sade, de escrever um prefácio para “A filosofia da alcova” de Sade “sem” Kant, pois este, discorre sobre a razão estruturada na lei, que é ignorada em Sade. Que o lugar da ética vem sendo retificado para que possa abarcar a ciência ou justificá-la é fato. Essa via deste as mais remotas academias possui um caminho decisivo em Kant, e continua incomodando, mesmo mais de 200 anos depois de sua morte. O princípio do prazer está em Kant como instinto sublimado, excluído do patológico.

A primeira interrogação é porque “com”? Porque ler Kant sem Sade é da ordem da falta, mas o sujeito só se estrutura como Ser faltante. Mas Lacan só consegue ler Kant com Sade, ou seja, sem a falta e necessita da falta para ler Sade. O que tanto encanta Lacan em Sade? o que é insuportável em Kant para Lacan é a falta. É certo que Sade não antecipa Freud tão pouco “prepara-se a ciência retificando a posição da ética”. Quando Freud enunciou a tese do princípio do prazer, o que estava em discussão no que diz respeito à ética, era e é a ética pela vida. O prazer iguala-se a vida e o desprazer à morte, e essa é a luta pela vida. Isso, ao contrário do que diz Lacan, não diz respeito a “felicidade no mal”. Então dizer que a “filosofia” da alcova fornece a verdade da Crítica da Razão Prática é algo da ordem de uma profunda divergência pela incompreensão da obra de Kant. O que Kant irá delinear na Crítica da Razão Prática é que a razão pura é prática e desta forma imanente, ou seja, ela se realiza, sendo vinculada á consciência de sua necessidade. Então sem a imortalidade da alma, qual a “finalidade” da perpetuidade obrigatória do esforço moral? Como é possível então Lacan argumentar que a questão da imortalidade abordada por Kant é um “álibi” para que o bem justifique o bem, pois a subversão que Lacan propõe é “que fiquemos bem no mal, ou, se preferirmos, que o eterno feminino não eleve às alturas”, porque uma vez subvertido o feminino, toda a subversão masculina está justificada.

Se a vontade inteiramente boa é independente de todas as influências das contingências, que a experiência possa dar então ao contrário do que diz Lacan: “Não se pode enunciar nenhuma lei: fenômeno pode prevalecer-se de uma relação constante com o prazer”, não é verdadeira. Por que para Lacan se constitui em um problema “a investigação do bem seria um impasse, se ele não renascesse – das Gute, o bem que é objeto da lei moral. Ele nos é apontado pela experiência que temos de ouvir dentro de nós ordens cujo imperativo se apresenta como categórico, ou seja, incondicional” (Lacan - p.777). Se a liberdade real se manifesta por meio da lei moral; e se não conhecemos nem penetramos a possibilidade de realidade, mas a realidade é a aplicação da condição da vontade, a seu objeto facultado a priori, assim o bem não exclui pulsão ou sentimento como afirma Lacan. Se o bem arrefece os instintos primitivos e é constitutivo do amor-próprio, então não há razão de ser denominado como arrogância por Lacan. A questão é o que tanto incomoda Lacan em Kant e o que tanto o encanta em Sade?

O incomodo que Lacan demonstra em relação à questão da liberdade na Crítica é porque a liberdade real se manifesta por meio da lei moral, que para ele deveria está desvinculada, então ele resolve esse paradoxo pela “filosofia” da alcova. Quanto à questão da lei moral, nenhuma intuição oferecer a um objeto fenomênico, devemos citar Kant: “Vida é a faculdade que possui um ser de agir segundo as leis da faculdade de desejar. A faculdade de desejar é a faculdade desse mesmo ser, de ser, por meio de suas representações, causa da realidade dos objetos dessas representações”. Então se Lacan não percebeu a questão da intuição nas representações é porque através da lei moral ele não as encontraria. Qual a intenção de Lacan de estabelecer um suposto elo entre a obra de Kant e o panfleto da “filosofia” da alcova? A suposta crítica política pelo sadismo das relações sexuais não passa de uma mistificação anarquista, onde não cabe nenhuma comparação com as máximas da lei moral em Kant. A máxima que Lacan enuncia: “Tenho o direito de gozar de tu corpo, pode dizer-me qualquer um, e exercerei esse direito, sem que nenhum limite me detenha no capricho das extorsões que me dê gosto de nele saciar”. Nessa questão o humor serve para revelar a verdade escondida no real. Deseja ele que essa máxima se constitua enquanto imperativo categórico? Mas esse discurso do “direito” é da ordem do perverso. Não é o imperativo da lei moral que exerce influencia à demanda ao "direito" ao gozo? Assim como diz Kant na Crítica “a liberdade é indubitavelmente a ratio essendi da lei moral, mas a lei moral é a ratio cognoscendi da liberdade...” então o vínculo entre liberdade e lei moral é indissociável em qualquer sociedade, que se constitui culturalmente.

Essa reciprocidade, a qual Lacan contestará, pois sugere que a moral não pode ser reconhecida como uma prática incondicional da razão. É temeroso colocar a categoria do “imperativo categórico” enquanto uma possibilidade geral e não universal, pois os imperativos categóricos constituem leis práticas, e devem ser independentes de condições patológicas, pois sem essa condição como se daria a sobrevivência cultural? Quanto à questão da “fenda” na lei moral, é aquilo do qual o sujeito dará um destino, que é sua lei interna. Se o que torna válida a lei é ser pronunciada pelo outro e não como algo que demanda “uma voz interior”, não procede a dicotomia que Lacan coloca, pois se trata de uma questão dialética. Colocar essa questão de forma positivista é o recurso que ele utiliza para se aproximar de Sade; “Neste aspecto, a máxima sadiana é, por se pronunciar pela boca do outro, mais honesta que o recurso à voz interior” (Lacan - p.782). Quanto ao argumento de que “nenhum homem pode ser de outro homem propriedade”, não pode ser “um pretexto para suspender o direito de todos de usufruírem dele, cada qual a seu gosto”, pois então não haveria liberdade ao gozo, um argumento que o aproxima de Sade e o afasta de Kant. Para Sade não existe a lei moral, sua “filosofia” da alcova serve de base a toda exploração do outro “que se faça necessário”. Esse necessário não considera o inconsciente, tão pouco o retorno do recalcado, colocando o sujeito preso ao desejo do outro para acessar seu próprio desejo.

A interrogação do sujeito e sua essência remete a Coisa em si. O sentimento de prazer ou dor é determinado pelo que é bom ou mau. Assim o objeto não é separado do sujeito. A razão pura prática é a representação de um objeto produzido pela liberdade, e o objeto é a significação da relação de desejar. Julgar se determinada coisa é ou não objeto da razão pura prática é discernir a impossibilidade de querer a ação, mediante a qual se fossemos dotados de poder seria necessário realizar o objeto, objeto que é o motivo de nossa faculdade de desejar. Objeto fisicamente possível. O juízo deve estabelecer, se é ou não um objeto da razão prática. Querer uma ação que tem como finalidade um objeto que esteja dentro do nosso poder, neste caso o objeto não é mais do que a lei da vontade. Que Lacan necessite de Sade para afirmar seu ateísmo é uma questão de suporte da ordem da lei, a qual ele remete a Kant.

Ao pensar a experiência sadiana como da ordem do sensível porque coloca o sujeito no limiar entre o prazer e a dor é pensar na experiência do prazer de forma sádica, patológica, no limite da morte, na medida em que o sujeito se esvai. Nessa articulação Lacan estabelece sua máxima, mas afasta-se daquilo que seria um imperativo categórico, a lei moral. Assim é necessário um argumento de universalidade, para fazer valer seu discurso de sujeito “a”: “o aparecimento do objeto “a”. No lugar da causa se esclarece pelo caráter universal de sua relação com a categoria da causalidade, o qual, ao forçar o limiar da dedução transcendental de Kant, instauraria no eixo do impuro “uma nova crítica da razão”. Então é possível o argumento de como comparar princípios da determinação da vontade inteiramente diversos, o prazer e a dor, quanto ao modo de representação para preferir aquele que mais afete a faculdade de desejar? E se há algo que afeta a faculdade de desejar é da ordem da falta, como Lacan resolve isso? Da seguinte forma: “É realmente com a vontade de Kant, portanto, que se encontra no lugar dessa vontade, que só se pode dizer de gozo explicando que se trata do sujeito reconstituído da alienação, ao preço de ser apenas o instrumento do gozo. Assim, Kant por ser questionado por “com Sade”, ou seja, com Sade fazendo às vezes, tanto para nosso pensamento quanto em seu sadismo, de instrumento, confessa o que está incluído no sentido do “Que quer ele? Que doravante não falta a ninguém” (Lacan - p.785). Mas não faltar é da ordem do patológico. Então que resta a Sade ao ignorar a lei moral? O perverso.  

Analisar a “filosofia” da alcova pela via kantiana diz respeito a uma demanda de lei interna, que coloca o sujeito na incógnita de sua existência, no limite de sua vida, pois a relação com a dor diz respeito a um limite que não é possível, porque o que impera é o que Sade denomina como um “tormento eterno”. Se a “saída” proposta por ele é o gozo sádico, ele enreda-se em sua armadilha, pois o que resta é o crime, porque o gozo sádico pressupõe um crime. Se Lacan deseja transgredir as filosofias religiosas citando “Burnouf, ou seja, em algum ponto dos anos cinquenta (do século passado) – para eles “não é possível que haja pessoas tão burras assim””(Lacan - p.788), para “resolver”  ao que Freud denominou de a “transitoriedade da vida”, há um distanciamento de Freud , pois este ainda concebe uma transcendentalidade, até por ser judeu, e ele assim o afirma. Se o sádico “nega a existência do Outro”, porque Sade com Kant? Para que Lacan possa afirmar que “o sadismo rechaça para o Outro a dor de existir, mas sem ver que, através disso, ele mesmo se transmuda num “objeto eterno”” (Lacan - p.789), ou seja, ele deseja dar uma função para o sadismo através de Kant, e se utiliza de um recurso que são as interrogações kantianas sobre a razão e a transcendentalidade. Então antecipadamente Kant teria respondido: “a lei que impus a mim próprio obriga-me a que nesta ordem de considerações, de modo algum seja permitido emitir opiniões e que tudo que se pareça com uma hipótese seja mercadoria proibida, que não se deve vender, nem pelo mais baixo preço, mas que urge confiscar logo que seja descoberta.” (CRP - p.7). Se Lacan deseja vender uma função para Sade, fica a questão; pois o objeto deve guiar-se pela natureza da nossa faculdade da intuição e a experiência pela qual são conhecidas, reguladas por conceitos.

Então, dar um status conceitual aos objetos e representações de Sade através do conceito de fantasia é simplificar a questão que ele mesmo propôs da “passagem ao ato”. Sade escreve da “passagem ao ato”, do sadismo como gozo. Que a lei moral é da ordem da falta, não há dúvida. Que o sujeito se insere na cultura pela lei moral é certo. Como o sujeito se implica e a interrogação e o destino que dá a sua lei interna, à castração e ao Édipo, pertence a subjetividade de cada um, a qual é intransponível. Portanto é capcioso Lacan utilizar o argumento de Kant sob o olhar de um seu leitor: “Suponham”, diz ele, “alguém que alegue não poder resistir a sua paixão quando o objeto amado e a oportunidade se apresentam; será que, se lhe houvesse erigido um cadafalso em frente a casa em que ele encontra essa oportunidade, para nele o acorrentar tão logo houvesse saciado seu desejo, ainda lhe seria impossível resistir a este?” Resistir ou não diz respeito a sua lei interna, a sua lei moral. E mais adiante o exemplo continua: “Mas, se seu príncipe lhe ordenasse, sob pena de morte, prestar falso testemunho contra um homem de bem a quem ele quisesse arruinar por meio de um pretexto capcioso, consideraria ele possível, em tal caso, vencer seu amor a vida, por maior que pudesse ser?” O perverso ou até o psicótico poderia subverter a lei e mentir, mas se estamos falando do campo da neurose Kant diz: “Um sagrado mandamento da razão: ser verídico (honesto) em todas as declarações”. Importante lembrarmos que Kant está se referindo há homens cujo superego mantém o controle de seus instintos e não de estruturas patológicas e ele adverte: “Tal é o verdadeiro móvel da razão pura prática: outra coisa não é senão a própria lei moral pura, a fazer-nos sentir a sublimidade da nossa própria existência supra-sensível e produzindo subjetivamente, nos homens que tem consciência, tanto de sua existência sensível como da consequente dependência de sua natureza fortemente sujeita, sob esse aspecto, à afecção patológica, o respeito a sua destinação superior” (CRPr - p.93-158). A lei ao ser prática é simbólica, destituída do patológico.

Não é necessário se ocupar de Sade com Kant para reconhecer em Kant que o que sustenta o desejo é a lei, por isso o desejo é recalcado. As máximas de Lacan sobre Sade o leva a considerar os escritos de Sade como “estripulias” e Pinel como a “loucura moral”. Supor que o lugar de Sade e Pinel poderia ser invertido e que Sade estaria na esquerda e Pinel na direita é do estilo Lacan um sarcasmo perverso, porque em Pinel a liberdade de desejar não é em vão. Desejar no campo do perverso? Que ele considere o sadismo de Sade, amor, e o amor erudito em Kant uma palhaçada, afirmando que o que falta a Kant é Sade, então o que falta a Lacan é Kant. E isto é o que o incomoda. Não encontrar um lugar em Kant, que não seja via Sade. Ele desejava saber onde a Crítica levava e deparou-se com a complexidade da obra kantiana. Então Lacan enuncia os atos simples da razão, pois nas palavras de Kant “ocupo-me unicamente da razão e do seu pensar puro e não tenho necessidade de procurar longe de mim o seu conhecimento pormenorizado, pois o encontro em mim mesmo e já a lógica vulgar me dá um exemplo de que se podem enunciar, de maneira completa e sistemática, todos os atos simples da razão” (CRP – p.7). Retorna então, Lacan a seu desejo sem encontrar um caminho para ele na obra kantiana. Interrogando: “Acaso a solução conforme a Razão Prática seria eles ficarem girando em círculos?” Então, a “bandeira” de Lacan é a tirania do desejo e o recalque um véu a encobri? Pois se para ele a obra sadiana “se se pretende má não pode permitir-se ser má obra” e segue dizendo: “Sem dúvida, é um tratado de educação para moças, e como tal está sujeito às leis de um gênero. Apesar do proveito que tira de expor às claras o “sádico-anal” que enfumaçava esse tema, em sua insistência obsedante nos dois séculos anteriores, ele continua a ser um tratado educativo. O sermão ali é maçante para a vítima, e enfatuado por parte do professor” (Lacan - p.799). A questão final do desejo avesso à lei é somente um incomodo do “desejo” lacaniano, perante Kant.

A sequencia do texto expõe palavras e frases que nada acrescenta ao estudo dos sofrimentos psíquicos, tão pouco da evolução do homem, subjetivo, simbólico, espiritual, afirmando que o desejo está vinculado á lei, mas que o objetivo seria “acabar com a lei do lado de dentro com o veredito sobre a submissão de Sade à lei” (Lacan – p.802). A submissão à lei ocorre pela passagem ao ato, no qual foi configurada a prisão de Sade. Mas não há representantes da lei em Sade, pois se revelaria simbolicamente no Dever. E o Dever ao qual Lacan “esquece” na sua leitura kantiana é o “Dever! Nome sublime e grande, tu que nada conténs de amável ou lisonjeiramente sedutor, mas exiges submissão, e todavia, para mover a vontade não despertas na alma, com ameaças, nenhuma aversão natural ou temor, mas propões simplesmente uma lei que por si mesma encontra acolhida na alma e, não obstante, e mesmo a nossa revelia, conquista a veneração (embora nem sempre a observância), uma lei que faz emudecer todas as inclinações, ainda que secretamente a contrariem: que origem haverá que seja digna de ti? E onde se encontra a raiz  de tua nobre estirpe, que recusa com altivez todo parentesco com as inclinações, raiz donde é mister proceda, como de sua origem, a condição indispensável daquele único valor que os homens podem dar-se a si mesmos?” (CRPr – 91 -154)  Então o valor que os homens podem dar a si mesmos é o agir por Dever, uma vez que a lei moral representa o desejo inserido na falta, que não é externa e sim interna. O que falta não é o sujeito é o significante do objeto de ordem transcendental.

Referências
LACAN, J. –ESCRITOS – KANT COM SADE – 1962 - Campo Freudiano no Brasil
KANT, Immanuel. CRÍTICA DA RAZÃO PRÁTICA – 1788. Tradução de Bertagnoli, Afonso. 3ª edição. Edições e Publicações Brasil Editora S.A – S.Paulo 1959 
KANT, Immanuel. CRÍTICA DA RAZÃO PURA – 1781. Tradução de Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Mojurão. 6ª edição. Edição da Fundação Calouste Gulbenkian, 2008 

13 de março de 2015

O caminho suficiente


Existindo o Caminho sob o céu
Conduzem-se os cavalos para estercar
Não existindo o Caminho sob o céu
Armam-se os cavalos para viver nas fronteiras
Não há delito maior do que estimar os desejos
Não há calamidade maior em não saber se contentar
Não há erro maior do que desejar possuir
Por isso, com a suficiência de quem sabe que é suficiente
Terá sempre o suficiente

TAO TE CHING - O Livro do Caminho e da Virtude - Lao Tse - Tradução do Mestre Wu Jyn Cherng

9 de março de 2015

3 – HISTERIA – “a relação “simbólica” entre a causa determinante e o sintoma histérico”

As razões que levam ao desenvolvimento dos sintomas histéricos, os traumas, aquilo que possui o significado ou significante de ameaça a vida, ou as “moções pulsionais”, estão no psiquismo e são repetidas no corpo como um sintoma, como uma doença física, um delírio ou uma alucinação. Os sentimentos, desejos, conflitos que a memória não consegue acessar, retorna, mas o complexo é relacionar os traumas, conflitos com os sintomas específicos, pois nem sempre as associações são suficientes para o acesso aos conteúdos. Quando não há um trauma e o que está operando é uma série de impressões aflitivas, fobias, que apesar de existirem circunstancias ameaçadoras, não são suficientes ou não encontram ressonância no real, que “justifique” a complexidade dos sintomas, temos que interrogar de onde vêm essa desagregação. Na anorexia e no vômito, por exemplo, é possível interrogar quais relações inspira nojo e repulsa que é transferida para a comida. Na insônia ou na dificuldade de conciliar o sono temos que interrogar que noites foram aterrorizantes, quais situações traumáticas ou impossibilidade de dormir, ressoa na insônia como sintoma.  

Os sintomas histéricos são a relação simbólica com as causas determinantes da histeria. As dores, antes de serem dores do corpo, são dores da alma. Desvendar as dores da alma é buscar a sua cura no corpo e n’alma. A palavra exerce função preponderante, mas é no interior do psiquismo que se dará a elaboração, pois nem sempre a lembrança da origem dos conflitos ocorrerá, principalmente se seu afeto é extremamente forte. Isso nos remete a questão das lembranças e esquecimento, não sofrerem desgaste ao longo da existência. Elas são preservadas porque dizem respeito a totalidade do ego do sujeito, que não pode ser desintegrado. Em que tempo estarão preparadas para emergir é questão de difícil resposta.

Diante de novas experiências, novas “impressões psíquicas”, há um somatório que se condensa, reelaborando-se ou não, cujo objetivo é manter a saúde psíquica. Esse acumulo reelabora-se ou torna-se mais complexo de acordo com os recursos que o psiquismo possui para aumentar, diminuir ou sublimar seus impulsos. Não é possível mensurar os restos mnêmicos, que daí resulta e as formas que poderá assumir no “futuro”. Se a reação de atitude adequada, não ocorre e o que se revela é “novos” sintomas, como choro, agressão, insulto, é da ordem dos recursos psíquicos do sujeito. A resolução por assim dizer, está sempre no interior do sujeito, pois a reação ou ao que Freud chama de “ab-reação”, pode levar a conflitos maiores ainda, pois o confronto com o outro é sempre um ponto de interrogação e de grande desgaste psíquico. Então o saber de uma “ab-reação”, não deve ser movido por impulsos, mas fruto de alguma reflexão sobre com que se vai deparar. Os conteúdos dos fenômenos histéricos possuem representações, cujas lembranças são bloqueadas pelo superego, pela força impactante que pode exercer sobre o ego. Mas como a demanda continua existir terá que escoar por outros sintomas. Quando se fala em “ab-reação” tem-se sempre a impressão que diante das ofensas, mágoas, ressentimentos, deve-se reagir para não adoecer. É famosa a expressão “não levar desaforo para casa”. Mas o “desaforo” que se leva para casa é além do que o sujeito sofreu e a reação que ele teve. Porque aquilo que não foi “resolvido” pelo amor, só retorna pela dor.

Referências
FREUD, S.  – SOBRE O MECANISMO PSÍQUICO DOS FENÔMENOS HISTÉRICOS: UMA CONFERÊNCIA (1893), Obras Completas de Psicanálise - volume III. Rio de Janeiro, Imago - 1996. 

2 de março de 2015

Poesia - Assim São as Almas


Para ser uma Turmalina Paraíba
é preciso viver bilhões de anos,
em lugares inimagináveis,
na dor...
e quando estiver pronta,
ser encontrada,
por um garimpeiro dedicado,
que a colocará,
nas mãos de um artista devotado,
que irá lapidá-la,
e será encontrada por uma alma,
similar, como presente 
 Myriam’aya

1 de março de 2015

2 - HISTERIA – “As pedras falam”

As defesas do ego “dependem do desenvolvimento moral, intelectual” e espiritual.

Como cada sujeito compreende seu funcionamento mental, é algo que pertence a sua subjetividade. Se seu superego lhe permite uma reflexão mais criteriosa sobre si mesmo, então se aproximará da “verdade” de sua essência. Por certo que os fatos traumáticos da vida de uma pessoa irão repercutir como uma onda sonora durante toda sua vida. A neurose histérica, tão afastada dos diagnósticos de saúde mental na atualidade, principalmente diante da complexidade da vida, vai aumentando as dificuldades, não só em relação ao sujeito, mas aos profissionais de saúde mental de articularem um diagnóstico diferencial para a neurose histérica. Há também a questão do modismo e dos interesses mercadológicos dos medicamentos e produtos voltados a determinados grupos sociais. Nesse sentido o DSM a cada período redefine “doença mental”, muitas vezes alinhado às demandas  “econômicas” e “sociais”. Em toda anamnese as causas que sustentam a neurose histérica, são complexas e muitas vezes difíceis de encontrar um “fio condutor”. Da “predisposição hereditária derivada de seus antepassados”, a infinidade de marcas mnêmicas, esse trecho do artigo de Freud é elucidador no sentido da investigação da história do sujeito:

“Imaginemos que um explorador chega a uma região pouco conhecida onde seu interesse é despertado por uma extensa área de ruínas, com restos de paredes, fragmentos de colunas e lápides com inscrições meio apagadas e ilegíveis. Pode contentar-se em inspecionar o que está visível, em interrogar os habitantes que moram nas imediações — talvez uma população semibárbara — sobre o que a tradição lhes diz a respeito da história e do significado desses resíduos arqueológicos, e em anotar o que eles lhe comunicarem — e então seguir viagem. Mas pode agir de modo diferente. Pode ter levado consigo picaretas, pás e enxadas, e colocar os habitantes para trabalhar com esses instrumentos. Junto com eles, pode partir para as ruínas, remover o lixo e, começando dos resíduos visíveis, descobrir o que está enterrado. Se seu trabalho for coroado de êxito, as descobertas se explicarão por si mesmas: as paredes tombadas são parte das muralhas de um palácio ou de um depósito de tesouro; os fragmentos de colunas podem reconstituir um templo; as numerosas inscrições, que, por um lance de sorte, talvez sejam bilíngues, revelam um alfabeto e uma linguagem que, uma vez decifrados e traduzidos, fornecem informações nem mesmo sonhadas sobre os eventos do mais remoto passado em cuja homenagem os monumentos foram erigidos. Saxa loquuntur! (As pedras falam). (p.190)

O trabalho psíquico, de autoconhecimento, de revelação das “causas últimas”, da essência, é de certa forma um trabalho arqueológico que não é possível mensurar no tempo. A complexidade dos símbolos mnêmicos remonta a experiências traumáticas de longo tempo. O que determinou o sintoma, quando e onde e de qual forma, é a questão a si defrontar, com a força das cenas traumáticas, ou seja, a quantidade de economia, de energia psíquica para manter o equilíbrio. Encontrar o caminho de volta à lembrança, ou as lembranças que desencadeiam os sintomas histéricos, é como percorrer um caminho que vai se desdobrando em diversas direções até encontrar uma lembrança que se articula com o sintoma. É a cadeia de associações que funcionam como transições na reprodução dos traumas vividos. É como seguir por fios que possuem sequencias em direções diversas onde em algum ponto estará à lembrança ou uma lembrança que dará significado ao sintoma, possibilitando o encadeamento a outras lembranças que dê um significado mais profundo aos sintomas. Como os escombros de uma escavação a cadeia de associações possui vários elos, que se ramificam e se interligam. Assim a cada experiência somam-se lembranças inconscientes, fazendo com que o sintoma esteja ligado a experiências adormecidas e que são despertas na cadeia de associações que as novas experiências vinculam.

As lembranças podem contribuir na compreensão e interpretação dos sintomas histéricos. Nos estudos do inconsciente, na civilização em que vivemos, não é possível esgotar a cadeia de lembranças, até onde se estendem e quais significam uma repetição. Grande parte daquilo que é a essência do humano diz respeito a uma repetição, que dificilmente se localizará no tempo e em qual período de vida. A cadeia de lembranças ramificada, se articula para proteger o psiquismo de sofrimentos, assim ao mesmo tempo em que regride, avança, revelando-se. As ramificações podem estar ligadas a cadeia principal ou pode, devido a circunstancias vir a se constituir em uma cadeia principal, como também uma lembrança pode revelar-se em diversas formas dificultando a identificação da cena “primeira”, que é circunstancial. A ordem cronológica aqui é diferente no sentido arqueológico, pois enquanto essa é material, aqui é subjetiva e organizada pelo psiquismo de acordo com uma sequência que corresponde à razão. Como as cadeias associativas de lembranças podem convergir, encontramos uma enxaqueca e uma taquicardia sendo desencadeada por um grande aborrecimento, da mesma forma que um grande aborrecimento pode ligar-se a dor no peito e enxaqueca de uma outra experiência no tempo. 

Os traumas sejam banais ou graves afetam o sujeito com seus sintomas no corpo ou no psiquismo, nas diversas reações que produz. Sem a cooperação das lembranças os sintomas histéricos emergem, mas são de difícil compreensão. Retroceder a memória levará a causas que geralmente envolvem as pulsões mais primitivas do humano sendo satisfeitas no grupo familiar ou por pessoas próximas: essas pulsões dizem respeito ao assedio, sedução sexual ou relações sexuais entre crianças, adolescentes e estes e os adultos e o destino que essas crianças ou adolescentes direcionam essas experiências, delineará o funcionamento psíquico do sujeito. Uma vez esquecidas, necessitam vir à consciência para serem reelaboradas. O esquecimento necessário à sobrevivência psíquica tem sua função na dor, que uma revelação provoca. Articular sintomas tais como: controle excessivo de situações, pessoas, objetos, higiene, limpeza, rebaixamento do pudor sexual, exposição excessiva do corpo, exacerbação da necessidade sexual, cuidado excessivo com a aparência física, delírios de grandeza, são alguns dos sintomas que se evidenciam. Os dados do Ministério da saúde revelam a extensão dessas experiências para crianças e adolescentes:

 “A violência sexual em crianças de 0 a 9 anos de idade é o segundo maior tipo de violência mais característico nessa faixa etária, ficando pouco atrás apenas para as notificações de negligência e abandono. A conclusão é de um levantamento inédito do Ministério da Saúde. A pesquisa mostra que, em 2011, foram registrados 14.625 notificações de violência doméstica, sexual, física e outras agressões contra crianças menores de dez anos. A violência sexual contra crianças até os 9 anos representa 35% das notificações. Já a negligência e o abandono tem 36% dos registros”. 
“A maior parte das agressões ocorreram na residência da criança (64,5%). Em relação ao meio utilizado para agressão, a força corporal e espancamento foi o meio mais apontado (22,2%), atingindo mais meninos (23%) do que meninas (21,6%). Em 45,6% dos casos o provável autor da violência era do sexo masculino. Grande parte dos agressores são pais e outros familiares, ou alguém do convívio muito próximo da criança e do adolescente, como amigos e vizinhos”.

Os danos mnêmicos resultantes dessa realidade requer um acolhimento especial, uma vez que desperta prematuramente a libido. As experiências que representaram sofrimento na infância repetem-se ao longo da existência. O sexo tem a função de procriação e de liberação de uma energia pulsional, que se expressa pela sexualidade. Quando essas relações são vivenciadas na infância, onde o desenvolvimento psicofísico ainda não ocorreu em sua plenitude, às experiências tornam-se traumáticas, principalmente porque a maioria ocorre no meio familiar. Então o sujeito que sofre o abuso tende a repetir esse abuso quando adulto até como um sintoma. Assim “Haverá a constituição hereditária e pessoal do sujeito, a importância intrínseca das experiências sexuais infantis e, acima de tudo, seu número — um relacionamento breve com um garoto estranho, que depois se torna indiferente, deixará um efeito menos poderoso numa menina do que relações sexuais íntimas mantidas por vários anos com seu próprio irmão.” Ou mesmo com o pai, mãe, padrasto, madrasta, tios, avós.

Essas experiências geram conflitos psíquicos, que são recalcados, guardados no mais profundo inconsciente, desencadeando sintomas de neurose histérica. A lógica da defesa é pressionar os conteúdos do inconsciente a romperem a barreira do superego para serem “curadas”. Como o sofrimento da “revelação” é doloroso, torna-se difícil a eclosão das lembranças inconscientes. As defesas do ego dependem do desenvolvimento moral, intelectual e espiritual do sujeito. Cada sintoma vai se constituindo ao longo da vida nas diversas experiências conflituosas vivenciadas, fruto de experiências sexuais prematuras. Essas experiências encontrarão seus representantes, que possuem uma conexão associativa através de elos com a lembrança das experiências passada. Freud em 1986 ao falar de um tema que é tão atual, descreveu a questão do abuso sexual infantil e das experiências sexuais prematuras da seguinte forma:

“E isso porque a ideia dessas cenas sexuais infantis é muito repelente para os sentimentos de um indivíduo sexualmente normal; elas incluem todos os abusos conhecidos pelas pessoas depravadas e impotentes, entre as quais a cavidade bucal e o reto são indevidamente usados para fins sexuais. Nos médicos, o espanto diante disso logo cede lugar a um entendimento completo. Das pessoas que não hesitam em satisfazer seus desejos sexuais com crianças não se pode esperar que relutem ante nuanças mais sutis dos métodos para obter essa satisfação; e a impotência sexual inerente às crianças força-as inevitavelmente às mesmas ações substitutivas a que se rebaixam os adultos quando se tornam impotentes. Todas as singulares condições em que esse par inadequado conduz suas relações amorosas — de um lado, o adulto que não consegue escapar de sua parcela na dependência mútua necessariamente implicada por uma relação sexual, mas que, apesar disso, está munido de completa autoridade e do direito de punir, e que pode inverter esses papéis para a satisfação irrestrita de seus caprichos; e de outro lado, a criança, que em seu desamparo fica à mercê dessa vontade arbitrária, que é prematuramente despertada para todo tipo de sensibilidade e exposta a toda sorte de desapontamentos, e cujo desempenho das atividades sexuais que lhe são atribuídas é frequentemente interrompido pelo controle imperfeito de suas necessidades naturais —, todas essa incongruências grotescas, mas trágicas, mostram-se impressas no desenvolvimento posterior do indivíduo e de sua neurose, em incontáveis efeitos permanentes que merecem ser delineados nos mínimos detalhes. Quando a relação se dá entre duas crianças, o caráter das cenas sexuais não é de espécie menos repulsiva, já que todo relacionamento dessa natureza entre crianças pressupõe a sedução prévia de uma delas por um adulto. As consequências psíquicas dessas relações entre crianças são extraordinariamente abrangentes; os dois indivíduos permanecem ligados por um elo invisível durante toda a vida.”(p.210)

Os sintomas histéricos assim desencadeados vão reproduzindo-se em uma escala de associação, que vão se superpondo. “Escavar” as camadas e encontrar os fragmentos das representações é caminho terapêutico de autoconhecimento, pois isso supõe compreender o choro, o desespero, a tentativa de suicídio, as “pequenas” ofensas que desencadeias as lembranças das grandes ofensas, ou ofensas que nunca foram superadas.

O despertar de uma lembrança ocorre quando se interroga um ponto do psiquismo, que causa sofrimento ou quando este é fonte de um conflito. Há que lembrarmos que possui um papel importante a resistência, a relação de transferência, e os recursos psíquicos que o sujeito possui para lidar com suas “verdades”. Ao discursar sobre “essas verdades” muitas vezes o que se revela é, “falsas ligações entre a causa mais recente, da qual estão conscientes, e o efeito, que depende de inúmeros elos intermediários”. As experiências que desagregaram o ego continuam gerando estímulos, que causam sofrimento. Então, diante de uma experiência atual, o mesmo estímulo do passado continua atuando, pois está ligado na cadeia de associações. No sentido de adaptar seus conflitos que trazem uma carga de culpa e remorso, é realizado um discurso delirante, distorcido, em que as implicações necessárias são abolidas. O que influenciará a forma de defesa é o abuso sexual na infância ser experimentado com prazer ou desprazer. Muito há que se estudar, pesquisar e desenvolver uma escuta “fina”, novas técnicas, no sentido de compreender os fatores na “escolha” das neuropsicoses de defesa e de como possibilitar a revelação de conteúdos que são “inadmissíveis à consciência”. As “pedras falam” em seus significados e significantes, que nem sempre são visíveis.

Referências
FREUD, S.  – A ETIOLOGIA DA HISTERIA (1896), Obras Completas de Psicanálise - volume III. Rio de Janeiro, Imago - 1996.