21 de setembro de 2014

Saudade


Longing
Anhelo
Désir
λαχτάρα
געגועים
Özlem
Desiderans
 شوق
Saudade!
A saudade é de algo que está longe...
Em um tempo e lugar inacessível...
É como anelar, acariciar algo que “não se pode tocar”...
É um desejo que “não se pode realizar”...
No tempo e lugar atual...
Assim as almas similares se buscam...
Pelo perfume que exalam...
Por que em um tempo e lugar estiveram juntas!
E retornarão a cumprir seus destinos...
Saudade!
                                                                                             Myriam’aya 

19 de setembro de 2014

“Afetos e Estados de Desejo” – Dor e prazer

“Os resíduos dos dois tipos de experiências (de dor e de satisfação) que acabamos de examinar são os afetos e os estados de desejo. Estes têm em comum o fato de que ambos envolvem um aumento da tensão Qn (quantidade da ordem de magnitude intercelular) em sistema de neurônios impermeáveis — produzido, no caso de um afeto, pela liberação súbita e, no de um desejo, por soma. Ambos os estados são da maior importância para a passagem (da quantidade) em sistema de neurônios impermeáveis, pois deixam atrás dele motivações para isso, que se constituem no tipo compulsivo. O estado do desejo resulta numa atração positiva para o objeto desejado, ou mais precisamente, por sua imagem mnêmica; a experiência da dor leva à repulsa, à aversão por manter catexizada a imagem mnêmica da dor leva à repulsa, à aversão por manter catexizada a imagem mnêmica hostil. Eis aqui a atração de desejo primária e a defesa [repúdio] primária”.
“A atração de desejo pode ser facilmente explicada pelo pressuposto de que a catexia da imagem mnêmica agradável num estado de desejo supera amplamente em Qn (quantidade da ordem de magnitude intercelular) a catexia que ocorre quando há uma simples percepção, de modo que a facilitação particularmente boa passa do núcleo do sistema de neurônios impermeáveis, para o neurônio correspondente do pallium”.
“É mais difícil explicar a defesa primária ou recalcamento — o fato de a imagem mnêmica hostil ser regularmente abandonada o mais depressa possível por sua catexia. Apesar disso, a explicação deve estar no fato de que as experiências primárias da dor foram eliminadas pela defesa reflexa. A aparição de outro objeto, em lugar do hostil, foi o sinal para o fato de que a experiência da dor estava terminando, e o sistema de neurônios impermeáveis, pensando biologicamente, procura reproduzir o estado de sistema de neurônios impermeáveis, que assinalou a cessação da dor. Com a expressão pensando biologicamente acabamos de introduzir uma nova base de explicação, que deve ter validade independente, ainda que não exclua, mas, pelo contrário, exija o recurso a princípios mecânicos (fatores quantitativos). No caso diante de nós, poderia perfeitamente ser o aumento de Qn (quantidade da ordem de magnitude intercelular), invariavelmente produzido com a catexia de uma lembrança hostil, que força o acréscimo da atividade de descarga e, com isso, também a drenagem da lembrança”.

Esse texto faz parte dos esboços inéditos das publicações psicanalíticas nos escritos de Freud sobre Projeto para uma psicologia científica. Aqui estamos lendo o esquema geral 13. Consideramos oportuna a análise sobre dor e satisfação, que começamos a percorrer no texto anterior http://www.caminhosdapsiq.blogspot.com.br/2014/09/repressao-e-dor.html. A experiência da dor e da satisfação, por mais psíquica que possa ser é descarregada no corpo físico “na quantidade de magnitude intercelular, nos neurônios impermeáveis”, mielinizados. A modulação de energia no corpo,  psiquismo e na relação dialética entre essas instancias é complexa e demanda muitos estudos para o futuro. O que faz os afetos e  desejos trafegarem por essa via é que deixam atrás de si um rastro, que podem repetir-se. O desejo não é possível sem uma imagem mnêmica, que é desperta por uma repetição, uma condensação ou uma representação simbólica, um significante. Esse despertar, que é energizado, pode desencadear uma sensação de prazer ou de dor e assim a manifestação da defesa. A energia da “imagem mnêmica agradável”, ou seja, do significante, supera a “magnitude da energia intercelular”, da simples percepção. Por isso se diz que “ o corpo não responde à energia psíquica”, pois a limitação orgânica dos neurônios impermeáveis, controlam a quantidade de passagem da energia. É certo que a imagem mnêmica desagradável, não é energizada e rapidamente descartada. É o recalcamento. Assim as primeiras experiências desagradáveis ou de dor, na mais tenra idade são recalcadas e ao mesmo tempo “força o acréscimo de descarga” e da liberação da lembrança. Subjetivamente outro objeto é tido como substituto e biologicamente o “sistema de neurônios impermeáveis” opera a cessação da dor.

Referência
FREUD, S.  – Afetos e Estados de Desejo (1886-1889), Obras Completas de Psicanálise - volume I. Rio de Janeiro, Imago - 1996. 

13 de setembro de 2014

“Repressão” e Dor

O que tem de importante na repressão? Podemos responder tudo, mas ressaltamos a formulação de Freud sobre a formação de sintomas. Na repressão está a estrutura psíquica, pois ai está o fenômeno clínico da resistência. Quanto maior a repressão dos conteúdos psíquicos conflituosos ou de sofrimentos, maior a resistência. Podemos utilizar também o termo defesa em relação à repressão, pois se reprime aquilo do qual se necessita defender-se. Na neurose histérica a repressão funciona expulsando a ideia da consciência. Na neurose obsessiva a repressão funciona deslocando a energia emocional para outros objetos. Assim a forma como a repressão funciona depende da estrutura clínica. A repressão existe enquanto um mecanismo de defesa do ego em relação aos conflitos que desencadeiam sofrimento psíquico. Uma vez que a pulsão de energia na repressão é intensa, a ansiedade também.

O instinto transforma-se em repressão no caminho que percorre no ego para realizar-se, mas depara-se com a condenação. O livre curso do instinto sofre repressão porque sua realização causaria grandes estragos, mas estes continuam latentes em função da demanda do instinto, que necessita ser reelaborada. A demanda de um instinto pode ser tão intensa, que causa estrago em algum órgão do corpo humano. A doença é, então, uma forma de escoamento desse(s) instinto(s), contribuindo para aumentar a tensão psíquica e física, que é compreendida como dor. A dor é imperativa, difícil de ser estancada. Pode ser temporariamente “esquecida” com uso de alguma substancia ou uma distração mental. A dor só pode ser cessada mediante um evento agradável, que contribua para a sublimação.

Por certo que a dor é obscura, não é palpável, embora possa atingir órgãos, mas continua sendo subjetiva. Cada pessoa possui seu limiar, dado a suas circunstancias psíquicas. Mesmo um instinto tão primário e imperativo como a fome, quando não é possível satisfazer-se através dos alimentos, encontra outras vias, pelas substancias para “realizar-se”, e aliviar a tensão, que é gerada pela necessidade. Então a repressão age por substituição do objeto, numa relação de prazer e desprazer. Age afastando o sofrimento do consciente, tornando-o inconsciente pelo esquecimento. Enquanto fazendo parte da arquitetura psíquica é possível pensar a repressão como um mecanismo que existe desde sempre, como forma de impedir que determinados conteúdos cheguem ao consciente. É então uma marca, um ponto de fixação, em que o instinto permanece ligado.

A repressão afeta diversas sequências de pensamento, que são representes dos conteúdos reprimidos e que têm alguma ligação com o reprimido. Assim, essas sequencias de pensamento são também reprimidas. Ao tempo em que o consciente repudia os conteúdos que são reprimidos, os conteúdos reprimidos buscam ligação com “novos” conteúdos, que possam representá-los. Portando os conteúdos reprimidos necessitam ser reelaborados, desvelados, interpretados, para que a demanda dos instintos se esvazie, se reformule, seja sublimado, senão continuará se proliferando sob formas e representantes extremos perigosos. Importante ressaltar que permeia todo esse mecanismo aquilo que chamamos subjetividade, enevoada pela fantasia. Instinto e fantasia podem ser potencializadores, e comprometer a relação com o real. Nesse percurso está o tempo do inconsciente e do consciente, possibilitando que os derivados se afastem do representante reprimido, seja pelas distorções, associações, novas ligações para acessar o consciente. A intenção é que o reprimido consiga passar pela censura do consciente e então construir novas possibilidades de interpretação, mesmo que distorcidos no tempo. Fica assim o enigma do existir humano, em que o véu de Maya é o tempo do inconsciente.

As sequencias de pensamentos que ligam por associações as relações com o reprimido pode tornar evidente a tentativa de repressão, que se expressa pelos sintomas, que são “derivados do reprimido”. O afrouxamento da repressão dá-se por processos de comprometimentos do ego, as psicoses, perversões. Mas é possível na relação transferencial em análise ocorrer esse relaxamento, o que possibilita acessos a conteúdos inconscientes mais conflituosos. O delicado movimento e equilíbrio de revelação dos conteúdos que habitam o mais profundo inconsciente implicam no equilíbrio da energia do inconsciente (que ainda não é possível ser medida), quando “alcança certa intensidade”, que possibilitaria vencer a resistência. Assim a repressão age por etapas individuais, em determinadas marcas mnêmicas em espacial de forma a manter o equilíbrio. Se os sintomas, a fantasia, as distorções, modulam esse equilíbrio, por certo necessitam da energia dos neurotransmissores, podendo ser reinstalada posteriormente. O chiste, por exemplo, é um representante instintual e como tal pode ser individual, possuir movimento e reaparecer sob diversas expressões. Tanto a repressão como afrouxamento dessa exige um dispêndio de força, energia. “Podemos supor que o reprimido exerce uma pressão contínua em direção ao consciente, de forma que essa pressão pode ser equilibrada por uma contrapressão incessante” (p.156). O movimento de economia e dispêndio de energia abrange não só o estado de vigília como o estado de sono, que possibilita a formação dos sonhos.

O impulso (ideias, grupo de ideias, necessidades) pode ficar adormecido com pouca energia psíquica e semiconsciente. Ao ser energizado em diversas intensidades e formas, seja pelas vicissitudes da vida ou porque está inserido na estrutura psíquica, revela-se na consciência, sem, contudo excluir a repressão, podendo gerar muita dor. Se for algo conflitante na consciência, a repressão atua. A quantidade de energia movimenta os conteúdos e impulsos no inconsciente e muitos desses são sentidos como afetos, e expressos com sua carga de dor. É o “fator quantitativo do representante instintual”. É o mesmo que não atender um telefonema indesejável ou atender e após reconhecer a procedência do telefonema impedir que a conversação continue. Há muitos enigmas quanto ao  representante instintual. Às vezes não é possível encontrar vestígio dele, outras vezes é temporariamente suprimido, ou aparece transformado como ansiedade ou outro sintoma. Assim aquilo que pode transforma-se em dor é reprimido. Nesse sentido a repressão pode falhar e ser submetida ao nosso exame. O que sinaliza e revela a repressão é o sintoma, mesmo que seja por uma formação substitutiva, mas a repressão em seu curso deixará rastros.

A repressão possibilita a formação substitutiva do desejo e a formação de sintomas, ao mesmo tempo em que estes são também “retorno do reprimido”. Portanto a formação substitutiva e a formação de sintomas são complexas e está aliada a estrutura psíquica e esta ao mecanismo da dor. Assim, medo, ansiedade, angústia, impulsos e instintos diversos podem possuir diversas formações substitutivas e serem formações substitutivas. O trajeto consciente – inconsciente dos conteúdos e representantes ideacionais, trafega no corpo por inervações, seja sensorial, motora, inibindo, excitando, condensando, deslocando. Esse trajeto psíquico-corpo é em alguns momentos interrompido, ou segue um percurso ininterrupto. Os sintomas da defesa psíquica sejam de conversão, obsessiva, delirante, alucinatória, maníaca, depressiva, sádica, conflui em formações substitutas, que podem ser frágeis, fazendo com que a repressão fracasse. Assim as emoções reprimidas, esquecidas, desaparecidas, retorna como ansiedade, autocensura, autopunição. O fracasso da repressão ou da defesa implica como já falamos outrora no retorno do recalcado. Portanto compreender o passado é curar o presente e plantar sementes novas para o futuro.

Referência
FREUD, S.  – REPRESSÃO (1915), Obras Completas de Psicanálise - volume XIV. Rio de Janeiro, Imago - 1996. 

7 de setembro de 2014

O Inconsciente e suas Razões...


...a discípula estava diante de seu mestre...
Suas almas se tocavam como duas chamas de amor...
Então ela perguntou-lhe:
- Mestre, quando terminará essa imensa distancia entre nós?
- Sendo tão dedicada e disciplinada, amando-o com tamanha intensidade e devoção...
- Porque continuo sofrendo, enquanto vives em tão belo lugar translúcido?
Então o Mestre lhe responde:
- “pequena” aprendiz, o que vês são teus sonhos sobre mim...
- Amo-te com a mesma intensidade e devoção...
- Como podes ignorar a imensidão de meu sofrimento?
Apenas pela separação do lugar em que vivemos?
- Meu sofrimento é igual ou maior do que o teu, por ver-te tocada e ferida...
- Mas para o meu e o teu aprendizado é necessário que seja assim.
- Somente quando esse intenso amor e devoção que compartilhamos, nessa similaridade que nos une, for transmutado para toda a humanidade...
- é que nos será permitido, por Deus, nos encontrarmos novamente...
- e quem sabe se soubermos repartir esse imenso amor de Deus, que sentimos um pelo outro, a toda a humanidade, nos seja permitido caminharmos juntos por toda a eternidade...
e suas almas se tocavam como duas chamas de amor...
Myriam’aya

8 de agosto de 2014

Anotações: Psicanálise e o “Transtorno Bipolar”

As estruturas clínicas estudadas pela psicanálise e que norteiam a clínica psicanalítica diz respeito a Neurose Histérica (Os sintomas fazem a conversão no corpo), Neurose Obsessiva (Os sintomas revelam-se em um processo de repetição intrincado, que o DSM-IV irá definir como TOC), as Psicoses - Maníaco- depressiva, esquizofrenia e paranoia – (Os sintomas revelarão um afastamento da realidade, os delírios, alucinações) e Perversão (Os sintomas irão revelar um prazer sádico). A “escolha” da estrutura clínica continua como objeto de pesquisa,  embora o desenvolvimento das fases e a formação do recalque e do superego sejam potencializadores.
Essas estruturas são compreendidas como estruturas de defesa, construídas no processo de desenvolvimento do sujeito, são permeadas pelos sintomas, que são representações dos recalques - retorno do recalcado - de vivências que foram traumáticas ao longo da vida.

A compreensão de arquitetura psíquica estende-se do inconsciente, (abriga os conteúdos que não foram possíveis de resinificar, elaborar) o superego (a lei, a censura) e o consciente (aquilo do qual afirmamos como consciente).
As fases do desenvolvimento do sujeito:
Oral – o prazer pelos alimentos e tudo que a criança leva à boca, desenvolvimento da fala.
Anal – desenvolvimento do controle esfincteriano: o prazer ou desprazer em expelir partes do seu corpo.
Genital – descoberta das diferenças anatômicas entre meninos e meninas. Inicio da masturbação, descoberta do próprio corpo. 
Na triangulação do Édipo; pai, (cuidador ) mãe (cuidadora ) filho, situa-se a escolha do objeto sexual no processo de identificação.
Na descoberta do outro, enquanto separado, está situado a questão do narcisismo, que em um primeiro momento direciona toda a pulsão de amor para si mesmo e no percurso do desenvolvimento para os objetos.
Importante ressaltar que os conflitos vivenciados ao longo dessas fases e a intensidade do recalque, da castração, da lei (imersão na cultura) irão potencializar as estruturas de defesa. O tempo dessas fases, embora possa compreender períodos biológicos, lembramos, que o tempo no inconsciente não é o tempo biológico, podendo permear por toda a vida a fixação em uma fase.
A direção clínica situa-se:
Transferência – a relação com o analista.
A livre associação – associação entre os sintomas, fala e vivências primárias.
Diagnóstico Diferencial – qual ou quais estruturas em questão.
A cura pela fala – ao falar o sujeito se escuta.

Quando falamos de Bipolar estamos falando de mania e depressão. Dessa forma o Transtorno do Humor (Transtorno Bipolar I e II) podem situar-se dentro de qualquer estrutura clínica em maior ou menor intensidade. Mesmo porque de alguma forma haverá traços de mania, depressão, delírio em todas as estruturas de defesa.
Quanto à questão do diagnóstico diferencial que o DSM – IV coloca em relação à definição de Bipolar I, período distinto de humor anormal, seja com autoestima inflada ou grandiosidade, redução da necessidade de sono, pressão por falar, esquecimentos, atenção desviada, agitação psicomotora, envolvimento excessivo em atividades prazerosas com um alto potencial para consequências dolorosas. O episódio  pode ser misto (mania e depressão). A perturbação do humor é grave a ponto de causar danos a si mesmo a terceiros, ou existem características psicóticas. Essas diferenciações podem ser encontradas em todas as estruturas, podendo ser pontuais, circunstanciais.
Em relação à definição de Bipolar II, histórico de um Episódio Depressivo Maior, ou Episódio Hipomaníaco ou não ter ocorrido um Episódio Maníaco ou um Episódio Misto e não deve haver indícios de Psicoses, também podem ser encontrados nas estruturas clínicas e o que irá diferenciá-las é o maior ou menor afastamento do ego em relação à realidade.

Quando a psicanálise compreende esse outro em sofrimento psíquico, é um outro,  sujeito de sua história, com sua subjetividade, complexidade, abarcando nessa arquitetura psíquica o simbólico, imaginário o real, que confluem-se no que Lacan designa por nó borromeano, imerso na cultura da qual faz parte. Encerrá-lo em uma categoria é sentencia-lo, muitas vezes para o resto de sua vida. Quando pensamos em estruturas, pensamos de forma dialética, possíveis de serem reelaboradas e que os sintomas são possíveis de serem senão curados de todo, mas acolhidos, acalentados, atenuados, no sentido de diminuir o sofrimento psíquico, embora muitas vezes com os recursos psíquicos que o sujeito dispõe estabelecer um processo de cura. 

7 de agosto de 2014

Poesia: Não sei quantas almas tenho


Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.
Fernando Pessoa

“Por que a Guerra?”

Porque não se “ama o próximo como a si mesmo” 

Nesses tempos de tantas guerras, principalmente a violência que envolve Gaza e Israel, a pergunta do porque a guerra continua como um som que ecoa na história da humanidade. Somos ainda seres primitivos, precisamos da guerra para conquistar territórios, poder, hegemonia seja do que for. Mas a guerra possui também um componente econômico-político: é uma indústria de venda de armamentos, de obtenção de riqueza, de construção de nova arquitetura cultural, redefinição da hegemonia, de distribuição da riqueza entre os mais ricos, de teste das armas biológicas, da extinção ou hegemonia de raças, religiões, da população civil. Quando se fala de uma religião ou de uma raça como nação, que fica para o “resto” da humanidade? O que existe de humanidade em nós? Em 1931 Freud e Einstein redigiram uma correspondência acerca da guerra. A guerra sempre gera reflexões pela brutalidade, selvageria e as vida que ceifam. Enquanto o ódio for um combustível que alimenta os instintos mais primitivos do homem, não haverá paz. Na carta de Einstein-Freud muitas são as interrogações.

Recortes da carta de Einstein

“Existe alguma forma de livrar a humanidade da ameaça de guerra?,,, não obstante, apesar de todo o empenho demonstrado, todas as tentativas de solucioná-lo terminaram em lamentável fracasso”.

“O insucesso, malgrado sua evidente sinceridade, de todos os esforços, durante a última década, no sentido de alcançar essa meta, não deixa lugar à dúvida de que estão em jogo fatores psicológicos de peso que paralisam tais esforços. Alguns desses fatores são mais fáceis de detectar. O intenso desejo de poder, que caracteriza a classe governante em cada nação, é hostil a qualquer limitação de sua soberania nacional. Essa fome de poder político está acostumada a medrar nas atividades, de um outro grupo, cujas aspirações são de caráter econômico, puramente mercenário. Refiro-me especialmente a esse grupo reduzido, porém decidido, existente em cada nação, composto de indivíduos que, indiferentes às condições e aos controles sociais, consideram a guerra, a fabricação e venda de armas simplesmente como uma oportunidade de expandir seus interesses pessoais e ampliar a sua autoridade pessoal”.

“como é possível a essa pequena súcia dobrar a vontade da maioria, que se resigna a perder e a sofrer com uma situação de guerra, a serviço da ambição de poucos? (Ao falar em maioria, não excluo os soldados, de todas as graduações, que escolheram a guerra como profissão, na crença de que estejam servindo à defesa dos mais altos interesses de sua raça e de que o ataque seja, muitas vezes, o melhor meio de defesa.) Parece que uma resposta óbvia a essa pergunta seria que a minoria, a classe dominante atual, possui as escolas, a imprensa e, geralmente, também a Igreja, sob seu poderio. Isto possibilita organizar e dominar as emoções das massas e torná-las instrumento da mesma minoria”.

“como esses mecanismos conseguem tão bem despertar nos homens um entusiasmo extremado, a ponto de estes sacrificarem suas vidas? Pode haver apenas uma resposta. É porque o homem encerra dentro de si um desejo de ódio e destruição. Em tempos normais, essa paixão existe em estado latente, emerge apenas em circunstâncias anormais; é, contudo, relativamente fácil despertá-la e elevá-la à potência de psicose coletiva”.

“É possível controlar a evolução da mente do homem, de modo a torná-lo à prova das psicoses do ódio e da destrutividade?”

“Estou, porém, bem consciente de que o instinto agressivo opera sob outras formas e em outras circunstâncias. (Penso nas guerras civis, por exemplo, devidas à intolerância religiosa, em tempos precedentes, hoje em dia, contudo, devidas a fatores sociais; ademais, também nas perseguições a minorias raciais”.

Recortes da carta de Freud

“O senhor apanhou-me de surpresa, no entanto, ao perguntar o que pode ser feito para proteger a humanidade da maldição da guerra”.

“O senhor começou com a relação entre o direito e o poder. Não se pode duvidar de que seja este o ponto de partida correto de nossa investigação. Mas, permita-me substituir a palavra ‘poder’ pela palavra mais nua e crua violência’? Atualmente, direito e violência se nos afiguram como antíteses. No entanto, é fácil mostrar que uma se desenvolveu da outra”

“É, pois, um princípio geral que os conflitos de interesses entre os homens são resolvidos pelo uso da violência. É isto o que se passa em todo o reino animal, do qual o homem não tem motivo por que se excluir”.

“No início, numa pequena horda humana, era a superioridade da força muscular que decidia quem tinha a posse das coisas ou quem fazia prevalecer sua vontade. A força muscular logo foi suplementada e substituída pelo uso de instrumentos: o vencedor era aquele que tinha as melhores armas ou aquele que tinha a maior habilidade no seu manejo. A partir do momento em que as armas foram introduzidas, a superioridade intelectual já começou a substituir a força muscular bruta; mas o objetivo final da luta permanecia o mesmo — uma ou outra facção tinha de ser compelida a abandonar suas pretensões ou suas objeções, por causa do dano que lhe havia sido infligido e pelo desmantelamento de sua força. Conseguia-se esse objetivo de modo mais completo se a violência do vencedor eliminasse para sempre o adversário, ou seja, se o matasse”.

“À intenção de matar opor-se-ia a reflexão de que o inimigo podia ser utilizado na realização de serviços úteis, se fosse deixado vivo e num estado de intimidação. Nesse caso, a violência do vencedor contentava-se com subjugar, em vez de matar, o vencido. Foi este o início da ideia de poupar a vida de um inimigo, mas a partir daí o vencedor teve de contar com a oculta sede de vingança do adversário vencido e sacrificou uma parte de sua própria segurança”.

”Esta foi, por conseguinte, a situação inicial dos fatos: a dominação por parte de qualquer um que tivesse poder maior — a dominação pela violência bruta ou pela violência apoiada no intelecto. Como sabemos, esse regime foi modificado no transcurso da evolução. Havia um caminho que se estendia da violência ao direito ou à lei. Que caminho era este? Penso ter sido apenas um: o caminho que levava ao reconhecimento do fato de que à força superior de um único indivíduo, podia-se contrapor a união de diversos indivíduos fracos. ‘L’union fait la force.’”

“Vemos, assim, que a lei é a força de uma comunidade. Ainda é violência, pronta a se voltar contra qualquer indivíduo que se lhe oponha; funciona pelos mesmos métodos e persegue os mesmos objetivos. A única diferença real reside no fato de que aquilo que prevalece não é mais a violência de um indivíduo, mas a violência da comunidade... A união da maioria devia ser estável e duradoura... e o jogo se repetiria ad infinitum”.

“Acredito que, com isso, já tenhamos todos os elementos essenciais: a violência suplantada pela transferência do poder a uma unidade maior, que se mantém unida por laços emocionais entre os seus membros”.

“Na realidade, a situação complica-se pelo fato de que, desde os seus primórdios, a comunidade abrange elementos de força desigual — homens e mulheres, pais e filhos — e logo, como consequência da guerra e da conquista, também passa a incluir vencedores e vencidos, que se transformam em senhores e escravos. A justiça da comunidade então passa a exprimir graus desiguais de poder nela vigentes. As leis são feitas por e para os membros governantes e deixa pouco espaço para os direitos daqueles que se encontram em estado de sujeição”.

“Primeiramente, são feitas, por certos detentores do poder, tentativas, no sentido de se colocarem acima das proibições que se aplicam a todos — isto é, procuram escapar do domínio pela lei para o domínio pela violência. Em segundo lugar, os membros oprimidos do grupo fazem constantes esforços para obter mais poder e ver reconhecidas na lei algumas modificações efetuadas nesse sentido — isto é, fazem pressão para passar da justiça desigual para a justiça igual para todos”.

“o direito pode gradualmente adaptar-se à nova distribuição do poder; ou, como sucede com maior frequência, a classe dominante se recusa a admitir a mudança e a rebelião e a guerra civil se seguem, com uma suspensão temporária da lei e com novas tentativas de solução mediante a violência, terminando pelo estabelecimento de um novo sistema de leis. Ainda há uma terceira fonte da qual podem surgir modificações da lei, e que invariavelmente se exprime por meios pacíficos: consiste na transformação cultural dos membros da comunidade. Isto, porém, propriamente faz parte de uma outra correlação e deve ser considerado posteriormente”.

“um rápido olhar pela história da raça humana revela uma série infindável de conflitos entre uma comunidade e outra, ou diversas outras, entre unidades maiores e menores — entre cidades, províncias, raças, nações, impérios —, que quase sempre se formaram pela força das armas. Guerras dessa espécie terminam ou pelo saque ou pelo completo aniquilamento e conquista de uma das partes”.

“um poderoso governo central torna impossíveis outras guerras. Contudo, ela falha quanto a esse propósito, pois os resultados da conquista são geralmente de curta duração: as unidades recentemente criadas esfacelam-se novamente, no mais das vezes devido a uma falta de coesão entre as partes que foram unidas pela violência”.

“O resultado de todos esses esforços bélicos consistiu, assim, apenas em a raça humana haver trocado as numerosas e realmente infindáveis guerras menores por guerras em grande escala, que são raras, contudo muito mais destrutivas”.

“A Liga das Nações é destinada a ser uma instância dessa espécie, mas a segunda condição não foi preenchida: a Liga das Nações não possui poder próprio, e só pode adquiri-lo se os membros da nova união, os diferentes estados, se dispuserem a cedê-lo”.

“Por exemplo, a ideia do pan-helenismo, o sentido de ser superior aos bárbaros de além-fronteiras — ideia que foi expressa com tanto vigor no conselho anfictiônico, nos oráculos e nos jogos —, foi forte a ponto de mitigar os costumes guerreiros entre os gregos, embora, é claro, não suficientemente forte para evitar dissensões bélicas entre as diferentes partes da nação grega, ou mesmo para impedir uma cidade ou confederação de cidades de se aliar com o inimigo persa, a fim de obter vantagem contra algum rival. A identidade de sentimentos entre os cristãos, embora fosse poderosa, não conseguiu, à época do Renascimento, impedir os Estados Cristãos, tanto os grandes como os pequenos, de buscar o auxílio do sultão em suas guerras de uns contra os outros”.

“Estaremos fazendo um cálculo errado se desprezarmos o fato de que a lei, originalmente, era força bruta e que, mesmo hoje, não pode prescindir do apoio da violência”.

“O senhor expressa surpresa ante o fato de ser tão fácil inflamar nos homens o entusiasmo pela guerra, e insere a suspeita, ver em[[1]], de que neles exige em atividade alguma coisa — um instinto de ódio e de destruição — que coopera com os esforços dos mercadores da guerra. Também nisto apenas posso exprimir meu inteiro acordo. Acreditamos na existência de um instinto dessa natureza, e durante os últimos anos temo-nos ocupado realmente em estudar suas manifestações”.

“os instintos humanos são de apenas dois tipos: aqueles que tendem a preservar e a unir — que denominamos ‘eróticos’, exatamente no mesmo sentido em que Platão usa a palavra ‘Eros’ em seu Symposium, ou ‘sexuais’, com uma deliberada ampliação da concepção popular de ‘sexualidade’ —; e aqueles que tendem a destruir e matar, os quais agrupamos como instinto agressivo ou destrutivo. Como o senhor vê, isto não é senão uma formulação teórica da universalmente conhecida oposição entre amor e ódio, que talvez possa ter alguma relação básica com a polaridade entre atração e repulsão,”

“Entre eles está certamente o desejo da agressão e destruição: as incontáveis crueldades que encontramos na história e em nossa vida de todos os dias atestam a sua existência e a sua força. A satisfação desses impulsos destrutivos naturalmente é facilitada por sua mistura com outros motivos de natureza erótica e idealista. Quando lemos sobre as atrocidades do passado, amiúde é como se os motivos idealistas servissem apenas de excusa para os desejos destrutivos; e, às vezes — por exemplo, no caso das crueldades da Inquisição — é como se os motivos idealistas tivessem assomado a um primeiro plano na consciência, enquanto os destrutivos lhes emprestassem um reforço inconsciente. Ambos podem ser verdadeiros”.

“O instinto de morte torna-se instinto destrutivo quando, com o auxílio de órgãos especiais, é dirigido para fora, para objetos. O organismo preserva sua própria vida, por assim dizer, destruindo uma vida alheia. Uma parte do instinto de morte, contudo, continua atuante dentro do organismo, e temos procurado atribuir numerosos fenômenos normais e patológicos a essa internalização do instinto de destruição”.

“Nossa teoria mitológica dos instintos facilita-nos encontrar a fórmula para métodos indiretos de combater a guerra. Se o desejo de aderir à guerra é um efeito do instinto destrutivo, a recomendação mais evidente será contrapor-lhe o seu antagonista, Eros... Em primeiro lugar, podem ser relações semelhantes àquelas relativas a um objeto amado,... ‘Ama a teu próximo como a ti mesmo.’ Tudo o que leva os homens a compartilhar de interesses importantes produz essa comunhão de sentimento, essas identificações. E a estrutura da sociedade humana se baseia nelas, em grande escala”.

“A situação ideal, naturalmente, seria a comunidade humana que tivesse subordinado sua vida instintual ao domínio da razão. Nada mais poderia unir os homens de forma tão completa e firme, ainda que entre eles não houvesse vínculos emocionais”.
“Por que o senhor, eu e tantas outras pessoas nos revoltamos tão violentamente contra a guerra? Por que não a aceitamos como mais uma das muitas calamidades da vida?”

“A resposta à minha pergunta será a de que reagimos à guerra dessa maneira, porque toda pessoa tem o direito à sua própria vida, porque a guerra põe um término a vidas plenas de esperanças, porque conduz os homens individualmente a situações humilhantes, porque os compele, contra a sua vontade, a matar outros homens e porque destrói objetos materiais preciosos, produzidos pelo trabalho da humanidade... Tudo isso é verdadeiro, e tão incontestavelmente verdadeiro, que não se pode senão sentir perplexidade ante o fato de a guerra ainda não ter sido unanimemente repudiada”.

“Penso que a principal razão por que nos rebelamos contra a guerra é que não podemos fazer outra coisa. Somos pacifistas porque somos obrigados a sê-lo, por motivos orgânicos, básicos... Durante períodos de tempo incalculáveis, a humanidade tem passado por um processo de evolução cultural. (Sei que alguns preferem empregar o termo ‘civilização’). É a esse processo que devemos o melhor daquilo em que nos tornamos, bem como uma boa parte daquilo de que padecemos”.

“mas ainda não nos familiarizamos com a ideia de que a evolução da civilização é um processo orgânico dessa ordem. As modificações psíquicas que acompanham o processo de civilização são notórias e inequívocas. Consistem num progressivo deslocamento dos fins instintuais e numa limitação imposta aos impulsos instintuais. Sensações que para os nossos ancestrais eram agradáveis, tornaram-se indiferentes ou até mesmo intoleráveis para nós; há motivos orgânicos para as modificações em nossos ideais éticos e estéticos. Dentre as características psicológicas da civilização, duas aparecem como as mais importantes: o fortalecimento do intelecto, que está começando a governar a vida instintual, e a internalização dos impulsos agressivos com todas as suas consequentes vantagens e perigos”.

“E quanto tempo teremos de esperar até que o restante da humanidade também se torne pacifista? tudo o que estimula o crescimento da civilização trabalha simultaneamente contra a guerra”.

As interrogações de Einstein e Freud no início do século passado por ocasião das duas grandes guerras “existe alguma forma de livrar a humanidade da ameaça de guerra?”, continua instigando perguntas, hipóteses, interpretações, análises. Sem o desejo de poder é possível que essas não existissem. A fome de poder é capaz de criar todas as fomes no planeta, pois mobiliza para além de um mercado de armas, um mercado diverso de controle cultural das vidas humanas. Se o desejo de poder remete a um desejo de poder fálico porque os instintos mais primários do homem, continuam  com sua demanda brutalizada. Em uma economia globalizada, onde se detém o controle de todas as instituições, a guerra é um produto, que se vende a custa de vidas humanas, uma profissão que se exerce ceifando vidas. Em um desejo brutalizado a pulsão condutora é o ódio, “fácil despertá-la e elevá-la à potência de psicose coletiva”. Por certo que só a evolução psíquica do homem, pode levá-lo a sublimar seus instintos primitivos. As guerras sejam sob quais formatos forem: políticas, econômicas, religiosas, raciais, estarão potencializadas pelo ódio, pelo desprezo aos direitos humanos. Como a violência do vencedor, não elimina o adversário, e vencedor e vencido não superam seus ódios ou este é a pulsão, que os domina, haverá sempre uma continuidade de violência e ódios. Há que refletirmos sobre o esvaziamento do ódio e a construção de laços emocionais potencializadores de perdão e respeito. Direito e  lei deve ser subjetivado para que seja solidificado culturalmente. Muito se falou e se fala de uma terceira guerra mundial, mas o que vemos como constituinte da sociedade atual são infindáveis guerras localizadas, em sua maioria comandadas por grupos rivais, sejam político-econômicos, tribais, religiosos, milícias urbanas. Se a destrutividade é maior ou igual a uma guerra em escala mundial fica a questão.

Quando lutamos por um tempo, uma sociedade de paz, lutamos para que os instintos de preservação, união, perdão e amor vençam os instintos agressivos e desagregadores do ódio, lutamos para que preservemos a própria vida, sem destruir outras vidas, sejam elas em quais formas se expressam e que a morte, quando por certo vier, seja parte do ciclo natural de renascimento da vida. Freud acreditava que “a situação ideal, naturalmente, seria a comunidade humana que tivesse subordinado sua vida instintual ao domínio da razão. Nada mais poderia unir os homens de forma tão completa e firme, ainda que entre eles não houvesse vínculos emocionais”. Mas não sabemos se a razão por si é suficiente para uma sociedade de paz, pois como Kant, sonhamos com algo mais, entre a terra e o céu estrelado. A evolução do homem e da civilização nos atesta o desejo de sonharmos com um mundo de ideais éticos, estéticos, um mundo onde se “ame o próximo como a si mesmo”.

Referência
FREUD, S.  – POR QUE A GUERRA? (EINSTEIN E FREUD) (1933 [1932]), Obras Completas de Psicanálise - volume XXII. Rio de Janeiro, Imago - 1996.

19 de julho de 2014

Carta Jung-Freud: Demência Precoce

Burgholzli-Zurique, 31 de marco de 1907
 Caro Professor Freud,
Sem duvida alguma o senhor há de ter tirado suas conclusões do prolongamento de meu tempo de reação. Tive uma forte resistência em escrever, pois ate recentemente me incomodava o tumulto dos complexos despertados em Viena. Só agora as coisas se acalmaram um pouco e assim espero ser capaz de escrever-lhe uma carta mais ou menos sensata. O item mais difícil, sua ampla concepção da sexualidade, já foi a essa altura assimilado, até certo ponto, e posto a prova em diversos casos concretos. De modo geral acredito que o senhor esta certo. O autoerotismo como essência da Demência Precoce se impõe cada vez mais a mim como um aprofundamento importante de nosso conhecimento — onde, de fato, ele ira findar? Seus critérios do estádio agudo podem também ser convincentes, mas qualquer tentativa de prova vai de encontro a grandes dificuldades, principalmente de ordem técnica: a Dem. Precoce só nos permite uma compreensão interna limitada da personalidade. Um determinado caso pode parecer totalmente diverso se o “afastamento da libido” ocorrer num complexo acessível a consciência, ou se, pelo contrario, ocorrer em complexo inconsciente. As conexões entre infantilismo e autoerotismo também se tornam cada vez mais claras. Tenho de confiar agora; mais que antes, em meu próprio julgamento independente, pois as resistências do Prof. Bleuler nunca foram tão vigorosas. Particularmente ele contesta a intencionalidade dos sonhos, o que equivale a negar o efeito dissimulador dos complexos, verdadeiro cerne da interpretação onírica. Bleuler tem insuperáveis resistências inconscientes a analise dos próprios sonhos e associações. Em minhas frequentes discussões com ele, patenteou-se-me que a expressão “libido”, e em geral todos os termos (sem duvida justificados em si mesmos) transpostos para a concepção mais ampla de sexualidade, são incompreendidos ou pelo menos não tem valor didático. Na realidade, evocam inibições emocionais que tornam impossível qualquer tipo de ensinamento. Fui assim forcado a uma longa discussão a fim de deixar claro a Bleuler o que o senhor pretende dizer com “libido”. Não seria concebível, tendo em vista a limitada concepção de sexualidade que prevalece em nossos dias, que a terminologia sexual se reservasse apenas as formas mais extremas de sua “libido” e que um termo coletivo menos ofensivo fosse estabelecido para todas as manifestações libidinais? Rank e outro que simplesmente toma a concepção mais ampla de sexualidade como um dogma de tal modo que até eu, que há mais de 4 anos estudo intensamente seu pensamento, tenho dificuldade em compreendê-la. O público para o qual Rank escreve não a compreendera em absoluto. A relação libidinal entre pessoas hipersensíveis e o objeto precisa ser ilustrada por incontáveis exemplos de intensidade variável. O publico, desse modo, pouco a pouco chegaria a ver que sua terminologia (em especial a “pan-sexualidade”!) se justifica plenamente. Em relação a Rank, fica também a impressão incomoda de que ele “jurat in verba magistri” e carece de empirismo. Mais de uma vez, ao lê-lo, fui levado a pensar em Schelling e Hegel. Mas a teoria que o senhor postula é puro empirismo e empiricamente e que deve ser apresentada. Essa, seja como for, e a tarefa fundamental com que o futuro me acena. Procuro, por conseguinte, métodos capazes de desenvolver a psicanalise da maneira mais exata possível, esperando assim lançar as bases para uma popularização cientifica de seus ensinamentos. Uma de minhas próximas tarefas será documentar os sonhos que exprimem desejos, na Demência precoce, com uma quantidade maior de dados empíricos. Só depois de realizados esse e outros trabalhos preparatórios idênticos, posso esperar chegar mais perto do amago da teoria sexual. Como o senhor disse, os sonhos são decerto mais apropriados para uma “confirmação” subjetiva, e o mesmo foi capaz de demonstrar recentemente com alguns exemplos muito bons. Não mais me assaltam duvidas quanto a correção de sua teoria. Os últimos vestígios foram dispersos por minha estada em Viena, que para mim foi um acontecimento de importância imensa. Binswanger já deve ter lhe falado da tremenda impressão que o senhor me causou. Nada mais direi sobre isso, mas faço votos de que meu trabalho pela sua causa lhe demonstre a extensão de minha gratidão e respeito. Espero, chego mesmo a sonhar, que possamos recebê-lo em Zurique no próximo verão ou no outono. Pessoalmente eu me sentiria no auge da alegria com uma visita sua; foram efêmeras demais as poucas horas que passei a seu lado. Riklin prometeu enviar-lhe o trabalho dele sobre contos de fadas tão logo o tenha terminado, embora isso não seja para já. Forel esteve recentemente em Zurique e aproveitei a oportunidade para pedir a um amigo que se avistasse com ele. Vim a saber que o ignora por completo e que a objeção dele ao meu trabalho e que dou muito pouca atenção a hipnose. Ai é que esta o problema. Minha mulher e eu lhe agradecemos muito, bem como a sua esposa e a toda a sua família, pela maneira gentil com que nos receberam.
Cordialmente, Jung

7 de abril de 1907
Caro colega,
Para sentir-me mais a vontade ao lhe falar que uso um papel diferente. Sua visita foi sobremodo prazerosa e gratificante; gostaria de repetir por escrito várias coisas que lhe confiei verbalmente, em particular que o senhor me encheu de confiança em relação ao futuro, que agora me dou conta de ser tão substituível quanto qualquer outro e que não poderia desejar ninguém melhor do que o senhor, tal como o conheci, para continuar e completar minha obra. Estou certo de que não abandonara essa obra, pois já se aprofundou muito nela e com seus próprios olhos pode ver como é belo, amplo e excitante o nosso tema. Certamente tenho planos de fazer-lhe uma visita em Zurique, durante a qual espero que me demonstre seu famoso caso de Dem. precoce, mas não creio que isso ocorra em breve. Preocupa-me também no momento a incerteza de nossas relações com seu chefe. A defesa de nossa posição recentemente feita por ele na Miinchener medizinische Wochenschrift levara-me a considera-lo digno de confiança, mas eis que o senhor me fala de um grave desvio em direção contraria, desvio que, como eu, o senhor provavelmente interpreta como uma reação às convicções que o senhor levou quando regressou. Como o “complexo pessoal” obscurece todo pensamento puramente logico! Em relação a Dem. Precoce. tenho uma proposta a lhe fazer. Depois de sua partida esbocei algumas ideias sobre o assunto que discutimos. Gostaria de transmiti-las ao senhor, a não ser que prefira — por duas razoes — ignora-las. Primeiro, porque o senhor mesmo as pode ter, e segundo porque talvez não lhe agrade aceitar o que quer que seja. Devo dizer que considero uma formula altamente valiosa um tipo de comunismo intelectual, onde nenhuma das partes se preocupa em tomar nota do que da e recebe. Diga-me por favor, com franqueza analítica, se gostaria ou não de examinar esse material, e peco-lhe que não superestime sem saber. Compreendo suas razões quando tenta suavizar o assunto, mas não acredito que o senhor tenha êxito. Mesmo que chamemos o ics. de “psicoide”, ele continuará a ser o ics.; mesmo que não chamemos de “libido” a forca impulsiva da concepção mais ampla de sexualidade, ela continuara a ser libido, e em cada inferência que tirarmos dela voltaremos ao ponto exato do qual tentáramos desviar a atenção com nossa nomenclatura. Se não podemos evitar as resistências, porque não enfrentá-las desde o inicio? O ataque é, em minha opinião, a melhor forma de defesa. E, talvez, por subestimar a intensidade dessas resistências que o senhor espera desarmá-las com pequenas concessões. O que nos pedem e, nem mais nem menos, que abjuremos nossa crença no impulso sexual. A única resposta e professa-la abertamente. Estou certo de que Rank não ira muito longe. O modo como escreve e decididamente auto erótico e ele carece completamente de tato pedagógico. Além disso, como o senhor observa, não superou a influência da dieta intelectual anterior e se perde em abstrações nada fáceis de seguir. Mas a independência de Rank em relação a mim é maior do que talvez pareça; e um homem capaz, muito moco e profundamente honesto, característica sobremodo valiosa na idade dele. Desnecessário dizer que esperamos muito mais do senhor e da maneira como tratará o assunto. O estudo de Bezzola, que ele me enviou recentemente, de modo muito impessoal e talvez por pura “piedade”, não me parece honesto. As observações anexas são produto de uma covardia pessoal, o que justifica a expectativa de um fim melancólico para esse individuo. Encobrir o fato de que síntese é o mesmo que analise parece impostura grave. Afinal, se pela analise tentamos descobrir os fragmentos reprimidos, é apenas com o fim de junta-los novamente. A diferença essencial — o fato de ele não fazer uso de associações, mas só de sensações — significa simplesmente que o trabalho dele se limita a casos de histeria traumática; em outros casos não se encontra esse material. E pelo que sei da estrutura das neuroses e geralmente impossível solucionar o problema terapêutico pela mera revelação das cenas traumáticas. Consequentemente, ele retorna onde Breuer e eu estivemos, ha doze anos, e desde então nada terá aprendido. Pela “piedade”, merece um puxão de orelha, mas temos mais o que fazer. Ainda esse mês você há de receber duas pequenas publicações minhas, uma das quais e a Gradiva,s que talvez o estimule, espero que sem demora, a contribuir com algo de apelo mais geral para os Papers. Muito grato pela promessa de Riklin. Espero que o trabalho dele corresponda as nossas exigências especiais. Entrarei em contato direto com o senhor quando lhe enviar Gradiva. Na Pascoa estive em visita ao estabelecimento de Kahlbaum em Gorlitz e vi um caso dos mais instrutivos, sobre o qual lhe falaria ainda se essa carta, a primeira desde sua visita, já não tivesse se alongado tanto. Minha mulher gostou muito da carta que sua esposa lhe escreveu. Cabe ao anfitrião, não a visita, agradecer pelo prazer e a honra. Infelizmente ela não pode responder agora, pois sofre de iridociclite (benigna), consequência de uma indisposição estomacal. Na expectativa de sua resposta, subscrevo-me Cordialmente, Dr. Freud.

C.G.Jung - Sigmund Freud – CARTAS - (p. 65-70)

Ao seguirmos as correspondências entre Freud e Jung visualizamos os percursos realizados, as incógnitas, dificuldades, incompreensões e o muito do porvir na ciência. Nessa em especial, deparamo-nos com as questões relativas ao estudo da Demência Precoce, que instigou Freud, Jung e Lacan. Ao analisar as memórias de Dr. Schreber, Freud irá delinear a psicose paranoica, e interrogar do quanto esta se ocupará da arquitetura psíquica consciente e inconsciente, bem como a importância da resistência, principalmente no que diz respeito à Demência Precoce ou Psicose Paranoica. Lacan também irá se deter nessa questão em sua tese de doutorado e no seminário III. O tema continua ainda a ser motivo de grandes estudos, pela forma como compromete a personalidade, ou o ego do sujeito. O conceito de sexualidade é ainda motivo de enigmas, ficando esses pesquisadores com a concepção de “libido”, que é ampla e diz respeito à energia pulsional do sujeito. É encantador a forma como Freud compreende a psicanálise, não só no que diz respeito à livre associação, onde de fragmento em fragmento se reconstitui uma história com novos significados. Louvável as expressões “pan-sexualidade”, “comunismo científico” e a importância do rigor científico. 

14 de julho de 2014

Insensatez Juvenil e Família

Ao longo da história ser jovem, mudam as faixas etárias, e hoje está entre a faixa de idade dos 15 aos 24 anos; teve e tem vários significados para as diversas culturas em seus momentos históricos. Os jovens ao longo da história estiveram inseridos em suas famílias, seus destinos influenciados por estas, sejam quais forem os sistemas políticos, econômicos em que essas famílias estiveram ou estão envolvidas. Dos rituais de iniciação através de lutas físicas, “provas” diversas, o uso da força, a dedicação aos estudos e pesquisas, a arte, os jogos esportivos ou games lúdicos ou patológicos, o uso de substancias psicoativas, enfim diversos objetos de representação da vida em grupo e das estruturas psíquica. Assim a juventude passa por diversos significados ao longo do tempo: força, coragem, habilidades, virilidade, inovação, descobertas, irreverencias. A cultura de cada época exerce influência, mas não é determinante, uma vez que o psiquismo traz a história da hereditariedade, bem como o funcionamento próprio das estruturas psíquicas. Há que ressaltar que a subjetividade da juventude, sua composição biológica, onde os hormônios e redirecionamento dos objetos de amor são a ênfase para algumas das características dos jovens. A influência da história ancestral que habita a memória de cada indivíduo permeia o funcionamento psíquico, influenciando seu destino e suas escolhas.

Um pequeno recorte do percurso da juventude desde as grandes guerras mundiais, em que a mulher deixou o cuidado prioritário do lar, dos filhos, para o mercado de trabalho, que precisava de mão de obra barata, e a reposicionava em relação ao seu lugar na família. Foi importante sua recolocação diante da relação em família, bem como na sociedade, na construção de sua autonomia. Mas se esse novo lugar do feminino discutiu sua sexualidade e significados, importantes de serem realizados, colocou-a frente a enigmas que a distanciam de sua feminilidade, sua função materna, sua essência biológica. Essa desconstrução materna contribui na formação de profundos conflitos psíquicos para ela e para os filhos. Tão pouco a desconstrução materna seja possível sem a desconstrução paterna. Por outro lado, a desconstrução paterna coloca em questão a virilidade masculina, a essência masculina, potencializando recuos em sua evolução intelectual e moral. Na medida em que busca em escala ascendente a confirmação de sua masculinidade, seja pela negação da mãe, como pelo grande acesso a pornografia, hoje tão em alta na internet, na prostituição, no alcoolismo e nas drogas, na troca de parceiras e parceiros. Quebram-se as fronteiras da lei subjetiva, e tudo é possível e permitido. E vamos estar diante de traços de uma estrutura perversa. Em cada cultura com suas características e significados. A família se redefine a ser um agrupamento que se encontram para dormir no mesmo local, com laços frágeis de afeto.

Alguns graduados do Direito propalam que a família é uma instituição falida. Isso é transformar uma máxima em um imperativo categórico. As novas configurações de família atendem a uma demanda econômica e política e a fomentação de novos produtos de consumo, pois os padrões de consumo são regidos pelas relações em sociedade e pelos interesses econômicos e políticos. Assim o movimento feminista colocou-se diante de questões difíceis, pois as mulheres em suas duplas ou triplas jornadas potencializa a família em um campo de luta e competição. A função pai, a função mãe está confusa, pois há uma subversão na lei subjetiva e seus significantes. É a geração que deseja a liberdade e seus filhos também, pois além das questões subjetivas que envolve a lei interna, temos uma geração de filhos, jovens, que possuem todos os objetos tecnológicos, mas não tem pais, foram educados pelas creches, babás, ou sozinhos, sendo “os donos da casa”. Eles gritam e são autoritários com os pais, os avós. A cultura da sabedoria “dos mais velhos” não existe. A relação dos filhos com os pais, não são de filhos, mas de iguais em autoridade. A geração sem pais, tudo pode, não trabalha, vivem ligado em sua maioria mais de 15 horas na internet, em festas, drogas e sexo. Propalam nas redes sociais que são a geração Y, Z, “nem-nem”, que não estuda nem trabalha. Hoje já ocupa as estatísticas em mais de 20% no Brasil. Os valores humanos estão “fora de moda”. É conseguir de qualquer jeito o que quer. Onde estão os pais? Vivendo a sua juventude supostamente “esquecida”. A casa, não é mais o lar, o “porto seguro”, a referência. Os papeis e funções estão confusas, em conflito. O filho conhece todas as transgressões do pai e da mãe. Como encontrar seu lugar?

Para que a juventude tenha o status de época da insensatez é necessário que as funções, os lugares sejam resgatados. O pai deve ser um educador magnânimo de coração. A mãe deve ser como a terra, doação e sabedoria. O respeito, a compreensão devem ser em todas as direções. Há que retomar o lugar de exemplo e referência que os pais já ocuparam, onde mesmo no erro dos filhos acolhe e ensina o discernimento entre o certo e errado, o justo e injusto.  Teoricamente, se pensarmos em um adulto maduro emocionalmente, havemos de compreender que a única época que cabe a insensatez é a juventude, pela imaturidade que lhe é própria. Algum caminho de volta, ou alguns significados hão de ser resgatados ou resinificados, para não corremos o risco de caminharmos para a barbárie da vida fácil, sem trabalho, autonomia, valores morais e caráter.