22 de abril de 2013

"O céu é constante, a terra é duradoura"


 O céu é constante, a terra é duradoura
O que permite a constância e a duração do céu e da terra
É o não criar para si
Por isso são constantes e duradouros
Assim
O Homem Sagrado deixa seu corpo para trás e o Corpo avança
Além do corpo, o Corpo permanece
Através do não-corpo, conclui o Corpo

TAO TE CHING - O Livro do Caminho e da Virtude - Lao Tse - Tradução do Mestre Wu Jyn Cherng

21 de abril de 2013

Psiquismo e Cura



“Um egoísmo forte constitui uma proteção contra o adoecer, mas num último recurso, devemos começar a amar a fim de não adoecermos, e estamos destinados a cair doentes se, em consequência da frustração, formos incapazes de amar”. Freud

“Chamamos um comportamento de ‘normal’ ou ‘sadio’ se repudia a realidade tão pouco quanto uma neurose, mas se depois se esforça, como faz uma psicose, por efetuar uma alteração dessa realidade”. Freud

14 de abril de 2013

A “Ilusão” necessária ao real e o real como algo “intangível”

No mundo midiático em que vivemos, falar sobre ilusão, ciência e o que é real é tarefa complexa e difícil. Ao nos propormos a leitura do texto “O futuro de uma Ilusão” deparamo-nos com as grandes ilusões do mundo em que vivemos, não só no que diz respeito às suas instituições, como as ilusões que cada sujeito constrói, para suportar a realidade. Muitas falas o próprio sujeito inconscientemente sabe que não se realizará, mas ele precisa delas como suporte da realidade. Freud foi cauteloso ao escrever o texto e esclareceu: “Tome minha tentativa pelo que ela é. Um psicólogo que não se ilude sobre a dificuldade de descobrir a própria orientação neste mundo, efetua um esforço para avaliar o desenvolvimento do homem, à luz da pequena porção de conhecimento que obteve através de um estudo dos processos mentais de indivíduos, durante seu desenvolvimento de crianças a adultos” (p. 60 – 61). É importante pontuarmos que entendemos por civilização humana tudo aquilo que se elevou a condição animal, ou seja, por certo, ainda existe nesta civilização, circunstancias que estão no humano, mas pertencem ao animal.

Muitos se interrogam neste momento não só quanto ao destino da humanidade, dos fazeres profissionais, das religiões, das economias. Alguns falam de uma nova época da civilização, ou seja, como diz Freud “qual o destino que a espera e quais as transformações que está fadada a experimentar”. (p.15) Mas isso só é possível quando se conhece o passado e o presente, apropriando-se dos conteúdos de forma a compreender suas determinações, o que só é possível pelo distanciamento crítico.

Civilização humana é tudo aquilo que se eleva a condição animal. O conhecimento adquirido pelo homem implicou em certo “controle das forças da natureza” e assim extrair a riqueza que ela fornece para suas necessidades, que através de relações humanas equitativas e distribuição da riqueza disponível da vida na terra. As relações são influenciadas pela satisfação instintual que a riqueza torna possível; em outro sentido o homem pode, ele próprio, funcionar como riqueza em relação a outro homem da mesma forma “as criações humanas são facilmente destruídas, e a ciência e a tecnologia, que as construíram, também podem ser utilizadas para sua aniquilação” (p.16). Será que é possível distanciarmo-nos e avaliar o grau de evolução da civilização do humano ou se pouco avançou e esse avanço fica mascarado pelas descobertas tecnológicas? As tendências destrutivas, antissociais, são muito fortes e determinam o comportamento dos indivíduos em sociedade. Necessário é diminuir o custo das demandas instintuais reconciliando-os, direcionando-os, encontrando no autoconhecimento a possibilidade de renuncias a domínios próprios dos desejos instintuais. Assim a educação pela supremacia da razão e sublimação dos instintos agressivos e violentos podem levar os homens à construção de uma nova civilização.

As privações e as proibições ou vicissitudes que afetam a todos os indivíduos são as mais antigas da história da humanidade, há milhares de anos. Dos desejos instintuais que vão do canibalismo ao incesto e desejo de matar, apenas o canibalismo parece ser condenado. Os desejos incestuosos são a todo o momento fatos nos noticiários, principalmente envolvendo crianças e adolescentes. O matar é algo ordenado por nossa sociedade através de seus diversos conflitos. É possível que desejos antes censurados pela sociedade sejam com o passar do tempo liberado por interesses econômicos e políticos como outros liberados sejam proibidos pelos mesmos interesses. Em todos eles veremos discursos de defesa do moderno, para o mundo do consumo. Se interrogarmos que grupos são potencialmente consumidores e cujos conceitos devem ser modificados ai residirá a “mudança”. No mundo atual pouco se discute de renúncias instintuais. Mas como discutir essa questão tão importante no sentido do humano em um mundo de consumo. Toda renúncia instintual passa pelo fator psicológico. Que a mente humana tenha passado por desenvolvimentos desde os tempos primitivos pela imersão na cultura e suas leis e proibições de construção do superego é um fato. E como diz Freud: “é só por esse meio que ela se torna um ser moral e social. Esse fortalecimento do superego constitui uma vantagem cultural muito preciosa no campo psicológico. Há incontáveis pessoas civilizadas que se recusam a cometer assassinato ou a praticar incesto, mas que não se negam a satisfazer sua avareza, seus impulsos agressivos ou seus desejos sexuais, e que não hesitam em prejudicar outras pessoas por meio da mentira, da fraude e da calúnia, desde que possam permanecer impunes; isso, indubitavelmente, foi sempre assim através de muitas épocas da civilização” (p.21). O conjunto das pessoas que vivem em sociedade possui um ideal, que tem algo de narcísico e orgulho. E são essas formas de existir que fazem com que “a partir da intensidade dessas diferenças que toda cultura reivindica o direito de olhar com desdém para o resto” (p.22 – 23). A arte em suas mais variadas expressões é via de regra uma satisfação substitutiva para antigas renúncias e uma forma de reconciliar os homens, bem como as ideias religiosas a que Freud irá interrogar em que reside o seu valor.

A civilização enquanto normas e leis morais, “parece” alheia às leis da natureza, que em seus diversos elementos sucumbe a todo controle humano pelos terremotos, enchentes, tsunamis, vulcões, tempestades, as doenças que desafiam o homem e para a ciência o “enigma da morte”. O certo é que diante das catástrofes os homens esquecem suas discordâncias, ressentimentos, indiferenças e as interações fraternas revelam que a vida para todos é difícil de suportar, que diante do destino a autoestima do homem exige consolação. Fala-se muito da humanização da natureza, mas com essa humanização, com o domínio das ferramentas, o homem também a tem destruído de forma voraz. “De forças e destinos impessoais ninguém pode aproximar-se; permanecem eternamente distantes. Contudo, se nos elementos se enfurecerem paixões da mesma forma que em nossas próprias almas, se a própria morte não for algo espontâneo, mas o ato violento de uma vontade maligna, se tudo na natureza forem Seres à nossa volta, do mesmo tipo que conhecemos em nossa própria sociedade, então poderemos respirar livremente, sentir-nos em casa no sobrenatural e lidar com nossa insensata ansiedade através de meios psíquicos” (p.25). Não há segurança possível. Ela é uma ilusão. O desamparo de cada um permanece e cada um dá a ele o significado e significantes que acomodam  ou aliviam a ansiedade, o medo e a angústia do existir. Na antiguidade os deuses eram os senhores da natureza, mas com referência aos destinos “persistia a desagradável suspeita de que a perplexidade e o desamparo da raça humana não podiam ser remediados” (p.27). O homem sempre personificou as forças da natureza, como forma de compreendê-las, mas também não compreende as forças da natureza que se personificam. O que ele tenta dominar psiquicamente personificando ele tenta dominar fisicamente tentando materializá-las.

O desamparo a que se vê no mundo desde o nascimento necessita encontrar acolhimento no adulto. É nesse sentido que Freud irá responder a significação psicológica das ideias religiosas: “As ideias religiosas são ensinamentos e afirmações sobre fatos e condições da realidade externa (ou interna) que nos dizem algo que não descobrimos por nós mesmos e que reivindicam nossa crença. Visto nos fornecerem informações sobre o que é mais importante e interessante para nós na vida, elas são particular e altamente prezadas. Quem quer que nada conheça a respeito delas é muito ignorante, e todos que as tenham acrescentado a seu conhecimento podem considerar-se muito mais ricos” (p. 34). O fato de todas as informações sobre religiões, erigidas pelo patrimônio cultural da humanidade desde nossos ancestrais, estar cheios de contradições, coloca questões de inúmeros enigmas sobre o universo, que “solucionados nos reconciliaria com os sofrimentos”. Freud compreende a importância das doutrinas religiosas para a manutenção da sociedade humana e em sua “angustia”, pois o texto O futuro de uma ilusão (1927 - 1931), escrito entre a primeira e a segunda guerra mundial se interroga: “se a verdade das doutrinas religiosas depende de uma experiência interior que dá testemunho dessa verdade, o que se deve fazer com as muitas pessoas que não dispõem dessa rara experiência?” (p. 37).  Vemos  que somente quando o homem se vê diante de sofrimentos aparentemente intransponíveis, tragédias pessoais, coletivas é que ele se interroga sobre Deus, espiritualidade e busca um sentido para sua vida, e isso não foi diferente com Freud, que remete essa necessidade ao desamparo na infância, que perdura por toda a vida, fruto de desejos humanos e estes ilusórios que são colocam uma contradição, embora afirme que definir como ilusão ou não “dependerá da própria atitude pessoal”. É certo que os enigmas do universo só há bem pouco tempo vem sendo revelados e que nossa civilização se ergue sobre as crenças religiosas e os achados arqueológicos têm sinalizado em relação a suas verdades históricas. E sinalizando isso escreve que o homem... “possui necessidades imperiosas de outro tipo, que jamais poderiam ser satisfeitas pela frígida ciência, sendo muito estranho... que um psicólogo, que sempre insistiu em que a inteligência, quando comparada à vida dos instintos, desempenha apenas um papel de menor vulto nos assuntos humanos, tente agora despojar a humanidade de uma preciosa realização de desejos e proponha compensá-la disso com um alimento intelectual” (p.43). Em seu imenso conhecimento e sabedoria Freud ao tempo que argumenta o papel da psicanálise, “como instrumento imparcial de pesquisa”, analisa as religiões, questionando seus dogmas como ilusões ao mesmo tempo afirma que, “os defensores desta, com o mesmo direito, poderão fazer uso da psicanálise para dar valor integral à significação emocional das doutrinas religiosas” (p.45)  e assim percorreu este caminho Françoise Dolto em "A fé à luz da psicanálise". Sabemos que existe uma grande maioria de pessoas insatisfeitas com o mundo atual, com a cultura da qual faz parte, mas há que se interrogar e se implicar em seus sintomas, mecanismos de projeção e em suas defesas. Convém um mundo “faltante”, em que a castração pode ser ignorada, (é o sintoma que se agrega ao ego) para que seja preenchido por um ignorar a lei ou pelo rompimento com esta. Lei aqui entendido como aquilo que barra os instintos primitivos. O pai primeiro, o pai primitivo, “primevo” “constituiu a imagem de Deus, o modelo a partir do qual as gerações posteriores deram forma à figura de Deus. Daí a explicação religiosa ser correta” (P.51). A criança que sobrevive no homem é para lembrá-lo de que seu processo de educação não termina nunca como dizia Sócrates. Se a psicanálise resistirá ao teste de confrontar as doutrinas religiosas e resinificar a existência de Deus, entregue a seus próprios recursos, nos próximos 14 anos o texto “O futuro de uma Ilusão” completará 100 anos e então podemos repensá-lo, da mesma forma que a física quântica com Anton Zeiliger, apontado como o primeiro cientista a demonstrar a teleportação quântica recoloca questões hoje impensáveis a nível da ciência há 100 anos atrás. Mas Freud lembra que os conhecimentos científicos da humanidade “ensinou muito, desde os dias do Dilúvio, e aumentará seu poder ainda mais. E quanto às grandes necessidades do Destino, contra as quais não há remédio, aprenderão a suportá-las com resignação”(p.57). O fato de em alguns trechos o texto “O Futuro de uma Ilusão” ser narrado na terceira pessoa, e na página 59 Freud propor uma troca de papéis: “você surge como um entusiasta que permite ser arrebatado por ilusões, e eu represento as reivindicações da razão, os direitos do ceticismo. O que você expôs me parece ser construído sobre erros que, seguindo seu exemplo, eu poderia chamar de ilusões, por traírem de modo bastante claro a influência de seus desejos. Você prende sua esperança à possibilidade de que gerações, que não experimentaram a influência das doutrinas religiosas na primeira infância, alcançarão facilmente a desejada primazia da inteligência sobre a vida dos instintos. Isso é decerto uma ilusão; nesse aspecto decisivo, a natureza humana dificilmente tem probabilidade de mudar... Se você quiser expulsar a religião de nossa civilização... só poderá fazê-lo através de outro sistema de doutrinas, e esse sistema, desde o início, assumiria todas as características psicológicas da religião” (p.59).  É que em milhares de eras para o desenvolvimento da psique e do intelecto possibilitaram profundas interrogações que persistirão por muitos séculos. Muitas vezes assenhorear-se dessa angústia implica em construir rótulos, diagnósticos, que “aliviem” a própria angústia e o sentimento de desamparo.

A questão da sublimação dos instintos é algo a ser aprofundado. Como cada ser humano sublima seus instintos e assim evolui na sua condição de humano é da determinação de cada sujeito. Bem como o que cada um toma para si como ilusão ou real. Os sonhos é um exemplo disso. A ciência ao longo de toda a história da humanidade ainda não conseguiu resolver essa angústia e as pesquisas sejam da neurociência ou da física quântica parecem buscar um apaziguamento entre ciência e religião. O intelecto estará sempre interrogando e ainda bem, pois esse é seu trabalho no sentido de apaziguar o antagonismo como diz Freud entre religião e ciência que “é apenas temporário e não irreconciliável”, independente muitas vezes dos propósitos das religiões, que servem ao homem, se para aprisiona-lo, coloca-lo em estado de servidão ou libertá-lo no sentido de seu autoconhecimento. A psicanálise não possui todas as respostas, tão pouco é seu propósito e nenhuma área da ciência a possui, portanto pode ser que daqui a 100 ou 200 anos o homem olhe seu passado e se interrogue: mas como eles acreditaram nisso? A ortodoxia que não se permite questionar é uma religião no sentido pleno de seus dogmas. É certo que vimos ao longo do tempo substituindo símbolos religiosos por outros como a fotografia, os livros, a casa e até móveis dos mestres. Interrogar-mo-nos sobre o que Freud e Lacan diriam se ao invés de encontrar nas clínicas de saúde, consultórios, como era tão comum em sua época, crucifixos, principalmente porque essas instituições eram dirigidas por religiosos e encontrar hoje suas fotos ou fotos de seus objetos e o divã sendo apenas um ícone de decoração. A pratica constituinte do mundo demonstra como o mundo nos deve aparecer, pelas coisas que nos influenciaram, que incorporamos ou rejeitamos e aqui surge o conflito. Mas não podemos deixar de levar em conta nosso “aparelho psíquico perceptivo” e toda sua estrutura em nossa leitura do mundo que nos cerca. A “ilusão” ou o “real” tão necessário à vida estará sempre como o véu de Maya a ser desvendado, única forma de tornar-se tangível.
Referencia: FREUD, S.  -  O FUTURO DE UMA ILUSÃO – (1927 - 1931). Obras Completas de Psicanálise - volume XXI. Rio de Janeiro, Imago-1996.        

7 de abril de 2013

Violência e Instintos

Em um momento em que se discute pelo mundo e no Brasil, vide artigos nossos anteriores, sobre a violência no sistema prisional e se inicia o julgamento dos responsáveis pelo massacre do Carandiru reportagem de 07.04.3013 do http://www.uol.com.br a ser acessada http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2013/04/07/acao-da-pm-no-carandiru-comeca-a-ser-julgada-em-sp-apos-20-anos-e-com-crimes-prescritos.htm Iniciamos nossas reflexões com a  correspondência entre Einstein e Freud no texto intitulado “Porque a guerra”? (Einstein e Freud -1933 [1932]), acerca da guerra. Podemos hoje interrogar: Por que a violência? Por que tanto o sujeito que comete, como quem sofre e quem é expectador possuem muitas vezes sentimentos e potencial semelhantes de agressividade e violência?

Na carta Einstein em setembro de 1932 interroga sobre como livrar a humanidade da ameaça da guerra e de como todas as tentativas de solucioná-lo terminaram em fracasso. Questiona a criação de uma instituição acima dos Estados, pois suas ações seriam “anuladas por pressões extrajudiciais”, pois segundo Einstein lei e poder  “andam de mãos dadas”. (Grifos nossos) Interroga ele que fatores psicológicos estariam em jogo, mas identifica alguns deles como o “intenso desejo de poder que caracteriza a classe governante em cada nação, é hostil a qualquer limitação de sua soberania nacional. Essa fome de poder político está acostumada a medrar nas atividades, de outro grupo, cujas aspirações são de caráter econômico, puramente mercenário... considera a guerra, a fabricação e venda de armas simplesmente como uma oportunidade de expandir seus interesses pessoais e ampliar a sua autoridade pessoal” ( p. 194). Para tal necessidade de poder ele designa a classe dominante, as escolas, a imprensa e a Igreja, como instituições que influenciam as emoções do povo, mas essa influencia só é possível porque dentro do homem habita o ódio e a destruição, em que eles só fazem despertá-la para que se eleve a “potência de psicose coletiva”. Como última questão coloca: É possível controlar a evolução da mente do homem, de modo a torná-lo à prova das psicoses do ódio e da destrutividade? (Grifos nossos) Levanta a hipótese do instinto agressivo do homem, as guerras por intolerância religiosa a violência e massacre das minorias pelo mundo. O Carandiru seja paulista, gaúcho ou paraibano é só mais algumas histórias de massacres como outras pelo mundo como as prisões francesas, turcas, iraquiana, Guantánamo e tantas outras que poderíamos listar afora o massacre de refugiados. Poderíamos falar que já estamos em uma terceira guerra a qual Einstein diz que a quarta seria com paus e pedras.

Freud responde a carta abordando a questão do direito e poder e coloca que a palavra “PODER” deve ser substituída por violência e considera que direito e violência se desenvolveram uma da outra e que os conflitos entre os homens são resolvidos pelo uso da violência. Resgata a origem da história humana da seguinte forma: “No início, numa pequena horda humana, era a superioridade da força muscular que decidia quem tinha a posse das coisas ou quem fazia prevalecer sua vontade. A força muscular logo foi suplementada e substituída pelo uso de instrumentos: o vencedor era aquele que tinha as melhores armas ou aquele que tinha a maior habilidade no seu manejo. A partir do momento em que as armas foram introduzidas, a superioridade intelectual já começou a substituir a força muscular bruta;” (p.198) No caso que volta a discussão essa semana (o massacre do Carandiru) vemos que a força bruta aliada às armas continua em vigor acompanhada de nuanças perversas. Neste caso em 1992, há 20 anos, “sobreviventes são obrigados a passar por corredor polonês formado por PMs; policiais ordenam que eles tirem a roupa e corram pelados. Detentos são convocados para ajudar a empilhar os corpos no 1º andar”. Situações semelhantes viveram os prisioneiros de Guantánamo e no Iraque.

Mas Freud considera que na história da humanidade é “comum” o vencedor aquele que matasse o adversário ou de acordo com a conveniência deixa-o como escravo na realização de trabalhos, ou seja, subjugar ao invés de matar, e arrisca sua segurança com a sede de vingança do inimigo. Então ele coloca que isso se modificou no transcurso da evolução e que havia um caminho que se estendia da violência ao direito ou a lei. A força da comunidade passa a ser uma expressão de violência sob a forma de lei que pode se voltar contra qualquer oponente. Isso nos lembra das organizações criminosas que surgiram depois do massacre do Carandiru. Então escreve: “desde os seus primórdios, a comunidade abrange elementos de força desigual — homens e mulheres, pais e filhos — e logo, como consequência da guerra e da conquista, também passa a incluir vencedores e vencidos, que se transformam em senhores e escravos. A justiça da comunidade então passa a exprimir graus desiguais de poder nela vigentes. As leis são feitas por e para os membros governantes e deixa pouco espaço para os direitos daqueles que se encontra em estado de sujeição”. (p. 199-200) A humanidade desde sua origem viveu infindáveis guerras e conflitos entre comunidades, nações pelos motivos de domínio dos recursos naturais, por extensão de domínios territoriais e por estabelecimento de ideias sejam políticas ou religiosas e as armas sempre foram sua força. A guerra e a violência nunca foi uma forma de estabelecer a paz e seus resultados têm sido cada vez mais destrutivos. 

Se a guerra e a violência foi ou é uma forma de estabelecer a lei é porque há como diz Freud há um “instinto de ódio e destruição”. Se a espécie humana ainda é movida por instintos de selvageria é porque nos habita  o desejo da agressão e destruição. Por isso Freud dirá que: “uma parte do instinto de morte, contudo, continua atuante dentro do organismo, e temos procurado atribuir numerosos fenômenos normais e patológicos a essa internalização do instinto de destruição” (p. 204).  Na sequencia interrogará sobre como contrapor o instinto de destruição e afirma: “A psicanálise não tem motivo porque se envergonhar se nesse ponto fala de amor, pois a própria religião emprega as mesmas palavras: “Ama a teu próximo como a ti mesmo”. Isto, todavia, é mais facilmente dito do que praticado. O segundo vínculo emocional é o que utiliza a identificação. Tudo o que leva os homens a compartilhar de interesses importantes produz essa comunhão de sentimento, essas identificações. E a estrutura da sociedade humana se baseia nelas, em grande escala” (p. 205).  Freud sugere evoluirmos na substituição dos instintos pela razão, afirmando de forma belíssima:  “Nada mais poderia unir os homens de forma tão completa e firme, ainda que entre eles não houvesse vínculos emocionais. Por que o senhor, eu e tantas outras pessoas nos revoltamos tão violentamente contra a guerra (e a violência)? Por que não a aceitamos como mais uma das muitas calamidades da vida? A resposta à minha pergunta será a de que reagimos à guerra (e à violência) dessa maneira, porque toda pessoa tem o direito à sua própria vida, porque a guerra (e a violência) põe um término a vidas plenas de esperanças, porque conduz os homens individualmente a situações humilhantes, porque os compele, contra a sua vontade, a matar outros homens e porque destrói objetos materiais preciosos, produzidos pelo trabalho da humanidade”. (p. 206) A verdade dessa fala nos causa perplexidade ante a violência, os conflitos armados e a guerra. Se “nada podemos fazer”, podemos nos rebelar e defender uma cultura de paz, onde cada um busque percorrer o caminho de cura interior de seus instintos mais violentos e agressivos e que o gozo do poder possa fazer uma passagem do perverso a uma estrutura mais sublimada. Sabemos que no processo de evolução da humanidade o psiquismo tem evoluído, pois sensações que para os nossos ancestrais eram agradáveis tem se tornado intolerável para nós. 

Psiquismo e corpo têm evoluído para modificações éticas e estéticas, para o uso da razão do fortalecimento intelectual e assim esperamos que a energia ou a catexia dos instintos rasteiros vão se reduzindo como dirá Freud: “E quanto tempo teremos de esperar até que o restante da humanidade também se torne pacifista? Por quais caminhos ou por que atalhos isto se realizará, não podemos adivinhar. Mas uma coisa podemos dizer: tudo o que estimula o crescimento da civilização trabalha simultaneamente contra a guerra”. (p. 206-207-208) Se a palavra instinto vem do latim Latim INSTINCTUS, “instigação, impulso”, “incitar, impelir”, de IN-, “em”, mais STINGUERE, “fincar, espetar”. A questão é que milhões de objetos, significantes nos instigam, impulsionam, incita, impele então saber qual instinto está vinculado a essa ou aquela ação de violência e sintomas patológicos é a questão.  Porque podemos está falando de algo sem controle, cheio de impulsividade, incapaz do uso da razão. No reino animal fome e procriação, preservação da espécie é o motor que impulsiona o equilíbrio da vida. E no mundo humano? Podemos falar de quais instintos impulsionam o equilíbrio ou desequilíbrio da vida mental e da violência? A origem, objeto e finalidade (Esse “Trieb”) do instinto é muito diverso de indivíduo para indivíduo e em um mesmo indivíduo, podem passar por muitas modificações. Se a finalidade é ativa ou passiva elas podem se interpor e conter a mesma carga de energia. Um impulso que vem de uma origem pode ligar-se a outro que provem de outra origem e compartilhar de suas vicissitudes. 

A satisfação de um impulso pode ser substituído por outro, bem como a modificação de finalidade e objeto pode determinar a sublimação. Surpreendentemente na perfeição que a espécie humana é formada...  “os instintos sexuais fazem-se notar por sua plasticidade, sua capacidade de alterar suas finalidades, sua capacidade de se substituírem, que permite uma satisfação instintual ser substituída por outra; e por sua possibilidade de se submeterem a adiamentos”. (p.100) Ou seja, por maiores demandas instintuais que possa haver, principalmente com a finalidade de destruição, violência, é possível exercer o controle sobre eles no caminho da evolução. A questão que Freud coloca “porque necessitamos de tempo tão longo para nos decidirmos a reconhecer um instinto agressivo?”, (p.105) nos remete a colocação de que se fosse para atribuir ao mundo animal não haveria problemas, mas o narcisismo humano “não permite” que cada um se implique como um agressor, chegando como diz Freud a ser um “sacrilégio”, pois o homem deve ser bom e acreditamos que muitos conseguem a sublimação de seus instintos, mas que muitos se mostram sádicos, cruéis e perversos, vindo a se constituir em estruturas patológicas, onde seus objetos, mesmo estando muitas vezes ressarcindo seus débitos com a sociedade, devem sofrer dor, maus-tratos e humilhações. Essa ainda é a história da humanidade, nas guerras, conflitos armados, violação dos Direitos Humanos, violência doméstica, abuso com crianças e adolescentes, maus tratos de trabalhadores. Necessário ressaltar que não vamos falar aqui sobre os instintos de morte, aos quais Freud fala em Além do Princípio do Prazer(1920) e O Ego e o Id(1923). Aprofundaremos em outra oportunidade. Se é necessário destruirmos o outro para não destruirmos a nós mesmos estamos repetindo o ato violento do outro que está dentro de nós e a existência dos animais inferiores, qual seja a capacidade de regenerar órgãos perdidos em seu instinto de recuperação. 

Em nossa busca  terapêutica de retorno do recalcado (falamos no artigo sobre Lembranças e Paranoia) ficamos aqui com o trecho de Freud: “Peixes que migram para a desova, pássaros que voam em migração, e possivelmente tudo o que qualificamos como manifestação de instinto em animais, realizam-se sob as ordens da compulsão à repetição, que exprime a natureza conservadora dos instintos. E não temos de procurar muito por suas manifestações na área mental. Chamou-nos a atenção o fato de que experiências reprimidas e esquecidas da infância são reproduzidas, durante o trabalho da análise, nos sonhos e nas reações, particularmente naquelas ocorrentes na transferência, embora seu revivescimento vá de encontro ao interesse do princípio de prazer.” (p. 108) Se a guerra, a violência em todas as suas formas é uma repetição dos instintos primários, sintomas de estruturas patológicas que se repetem em um primeiro momento dirigido aos outros, mas em prejuízos das próprias pessoas e que estas obtém satisfação com o próprio sofrimento ou o sofrimento do outro remete a uma sintomatologia patológica a ser tratada. Que a resistência será erigida e a dificuldade de desvinculação dos sintomas do Ego são aspectos a serem “vencidos”, não há dúvida. Se no processo de evolução humana, na “passagem de matéria inorgânica” a matéria orgânica há um instinto de preservação do inorgânico, ou seja, um instinto de morte; estamos falando da matéria e se o que anima essa matéria ao longo dos bilhões de anos no planeta é um processo vital que a ciência busca incessantemente desvendar, que é a psique humana, temos a considerar nesse circuito de vida-morte-vida, a vida a despeito de todas as patologias seja psíquica, social, tem sido vencedora, senão não estaríamos aqui.

Referencia
FREUD, S. POR QUE A GUERRA? (EINSTEIN E FREUD) (1933 [1932]). Obras Completas de Psicanálise - volume XXII. Rio de Janeiro, Imago-1996.
FREUD, S. CONFERÊNCIA XXXII - A VIDA INSTINTUAL Obras Completas de Psicanálise - volume XXII. Rio de Janeiro, Imago-1996. 

6 de abril de 2013

História da Arte - História da Vida

Imagem: Gombrich, E.H - A História da Arte




Por que viver é uma arte? Por que viver é a possibilidade de milhões de representações e significantes a serem elaborados, sublimados em benefício do próprio ego e da humanidade.

É nesse sentido que refletimos um pouco sobre “A história da arte”, como a história dos mitos e da humanidade vão se fundir no percurso de sua caminhada. Se a arte e os mitos são representações do psiquismo, da vida humana em todas as suas dimensões, daquilo que para o homem sempre foi fonte de interrogações e enigmas, ou seja, aquilo do qual não é possível compreender é possível representar, simbolizar, para alcançar o estatuto de significante. Assim nada existe que se possa dar o nome de arte, pois esta sempre foi representação. Assim é que ao olharmos um quadro, uma escultura são as expressões, formas que nos representam que nos leva a gostar ou não. O que chamamos “obra de arte”  é objeto feito por seres humanos para seres humanos. Quando nos deparamos com pinturas, esculturas, desenhos em paredes muitas vezes admiramos e pensamos nelas como obra de arte, mas quando foram realizadas não se destinavam a ser exibidas ou admiradas como tal, foram feitas para um determinado propósito. Porque adquirem com o passar do tempo a categoria de arte? Todas as construções humanas poder vir a ser categorizadas dessa forma, embora tenham sido construídas para uma finalidade. Nas sociedades “primitivas” as cabanas existiam para protegê-los das intemperes da natureza, as imagens e desenhos para protegê-los contra outros poderes e espíritos da natureza, dar significado aos seus medos e elaborá-los. É por isso que a história da arte é uma história de concepções, ideias, necessidades, onde a técnica faz parte dessas concepções e ideias. Assim o que faz com que as construções humanas se transformem em objetos de arte está nas ideias que transmitem. Não podemos esquecer que imagens e palavras “são parentes consanguíneos”. Quem nunca ouviu a frase de  que “uma imagem pode valer mais que mil palavras”. E por quê? Porque uma imagem possui com certeza muito mais que mil significantes.

"Viver é uma Arte"

Não vivemos isolados nesse mundo. A cada dia entramos em contato com diversas pessoas e contextos, sejam eles habituais a nós ou totalmente novos. Em nossas interações trocamos vivências, experiências, aprendizados. Sempre deixamos algo de nós e levamos algo do nosso próximo, no entanto, o que deixamos ou o que levamos nem sempre se trata de coisas boas, agradáveis

Cada pessoa tem um modo singular nesse mundo, ao mesmo tempo em que somos todos iguais, somos todos diferentes e quanto! Seria muito mais fácil se nós nos relacionássemos com pessoas que só pensassem, agissem e fizessem coisas iguais a nós. É...realmente seria bem mais fácil. Viver em um lugar onde o atrito, a discordância, o ponto de vista diferente ao seu não existisse. Já pensou? Como se fosse uma língua universal, um único padrão a ser seguido.

 Tomara que você não tenha cogitado essa ideia! Pense no quão fastidioso seria. Já pensou que às vezes nem mesmo a gente se aguenta? Então, já pensou o que seria de nós se não tivéssemos nosso amigo que não precisa ouvir nada de nós, só de olhar percebe algo de errado conosco ou aquele outro amigo mal humorado, mas tão mal humorado que chega a ser engraçado, ou daquela pessoa que nem conhecemos, mas nos consola simplesmente ao dizer: “oi, tudo bem”?

 A comunicação e as interações sociais são essenciais em nossas vidas, seja para transmitirmos ou compartilharmos informações, experiências ou vivências pessoais. Alguém já disse que “viver é uma arte”. É sim! E nesse mundo somos todos artistas. Artistas na arte de conviver com nossos semelhantes.

 Para que essa convivência seja mais harmônica nos é exigido algumas habilidades para que nossas interações possam ser mais agradáveis e bem sucedidas. A assertividade se enquadra como uma dessas habilidades. Mas, o que significa ser assertivo? A pessoa assertiva é habilidosa em expressar o que sente, deseja e pensa de modo socialmente adequado, ou seja, consegue expor a sua posição sem desrespeitar o seu interlocutor.

Você já vivenciou ou já ouviu falar que alguém ficou chateado, nem tanto pelo o que a pessoa disse, mas pelo modo como ela se expressou? Talvez, essa pessoa tenha dito tudo o que gostaria de falar, mas de forma agressiva, irritada. Dessa maneira a outra pessoa pode se sentir ofendida com esse tipo de postura. Avaliar as circunstâncias em que se está envolvido, ponderar o tom de voz e as palavras ditas pode permitir um êxito maior quando se está presente em alguma situação adversa ou diante de um problema que nos exige uma posição para solucioná-lo. Saber o que, como e quando falar permite uma melhor convivência com a diversidade de sentimentos, pensamentos e opiniões com que nos deparamos cotidianamente e também permite uma maior qualidade nas nossas interações.

 Por Camilla Silva Baltazar 

5 de abril de 2013

Filosofia - Caminho e Virtude


Quando os seres sob o céu reconhecem o belo como belo
Então isso já se tornou um mal
E reconhecendo o bem como bem
Então já não seria um bem
A existência e a inexistência geram-se uma pela outra
O difícil e o fácil completam-se um ao outro
O longo e o curto estabelecem-se um pelo outro
O alto e o baixo inclinam-se um pelo outro
O som e a tonalidade são juntos um com o outro
O antes e o depois seguem-se um ao outro
Portanto
O Homem Sagrado realiza a obra pela não-ação
E pratica o ensinamento através da não-palavra
Os dez mil seres fazem, mas não para se realizar
Iniciam a realização mas não a possuem
Concluem a obra sem se apegar
E justamente por realizarem sem apego
Não passam

O homem de consciência pura e infinita fala e age sem intenção, sem interesses pessoais. Os ensinamentos do Livro do Caminho e da Virtude ( Lao Tse) nos revela que, só existem homens sagrados pela união  da Consciência Pura com a Vida Infinita, em que palavra e ação devem ser sem intenção, ou seja, sem egoísmo.  
TAO TE CHING - O Livro do Caminho e da Virtude - Lao Tse - Tradução do Mestre Wu Jyn Cherng

4 de abril de 2013

Direitos Humanos - Prisões


Em 19/03/2013 o Zamanfrance, (desativado) par Mehmet Dinc publicou a matéria sobre a prisão e morte de turcos que vivem na França com o título “A abertura de uma investigação após a morte suspeita de prisioneiros turcos”. A reportagem coloca que “Segundo o relatório do Observatório Internacional das Prisões, as condições de detenção na França são as mais execráveis da Europa. De mortes misteriosas e suicídios são reportados a cada três dias".  A associação que apoia as famílias em processos judiciais, disse que, desde 2010, 309 presos morreram ou cometeram suicídio após negligência encontrada nas prisões.

Somos uma só humanidade, com diversas arquiteturas psíquicas. Se esses prisioneiros (296 nos últimos três anos e condenados de forma duvidosa; as famílias estão vivendo uma verdadeira batalha jurídica para apuração dos fatos) como diz suas famílias: estão sendo exterminados nas “precárias prisões francesas” desde 1994, sob o argumento de suicídio, nos deparamos com as mesmas práticas “bárbaras” de extermínios de seres humanos. A prática do extermínio sejam por quais meios: nas guerras em suas diversas formas, conflitos armados, prisões ao redor do mundo, bases militares, navios mercantes, extermínio de pessoas em situações de pobreza absoluta, de negros, das minorias, dos usuários de substancias psicoativas, os tão falados grupos de extermínio sejam institucionais ou a “margem” nos remete a algo do perverso. Quantas práticas de extermínio existem hoje no planeta sejam com seres humanos, animais, ou na natureza. Nossa reflexão é o que diz respeito a nossa razão e subjetividade como condição do humano e as práticas e estruturas patológicas. Podemos falar do “Carandiru Gaúcho” que tem população maior que 40% das cidades do Rio Grande do Sul”. Mais de um século de depósito de seres humanos. Essa é a “passagem ao ato do Estado.”  o “genocídio na Paraíba” e as facções “autônomas” que disputam bairros, situação dos “Médicos sem Fronteira no Congo”. Podemos citar inúmeras tragédias no  Brasil e no planeta. A subjetividade não pode ser diluída no social e assim perdemos a dimensão do outro e de nós mesmos.  “Mas eu me pergunto se o trabalho penal não foi organizado precisamente para produzir entre os delinquentes e os operários este desentendimento tão importante para o funcionamento geral do sistema. O que temia a burguesia era esta espécie de ilegalismo sorridente e tolerado que se conhecia no século XVIII. Não é preciso exagerar: os castigos do século XVIII eram de grande selvageria. Mas não é menos verdadeiro que os criminosos, pelo menos alguns dentre eles, eram tolerados pela população. Não havia uma classe autônoma de delinquentes. Alguém como Mandrin era recebido pela burguesia, pela aristocracia, bem como pelo campesinato, pelos lugares em que passava, sendo protegido por todos. A partir do momento em que a capitalização pôs nas mãos da classe popular uma riqueza investida em matérias−primas, máquinas e instrumentos, foi absolutamente necessário proteger esta riqueza. Já que a sociedade industrial exige que a riqueza esteja diretamente nas mãos não daqueles que a possuem, mas daqueles que permitem a extração do lucro fazendo−a trabalhar, como proteger esta riqueza? Evidentemente por uma moral rigorosa: daí esta formidável ofensiva de moralização que incidiu sobre a população do século XIX. Veja as formidáveis campanhas de cristianização junto aos operários que tiveram lugar nesta época. Foi absolutamente necessário constituir o povo como um sujeito moral, portanto separando−o da delinquência, portanto separando nitidamente o grupo de delinquentes, mostrando−os como perigosos não apenas para os ricos, mas também para os pobres, mostrando−os carregados de todos os vícios e responsáveis pelos maiores perigos. Donde o nascimento da literatura policial e da importância, nos jornais, das páginas policiais, das horríveis narrativas de crimes.” Pg,75 Microfísica do Poder Michel Foucault

A narrativa de Foucault reflete os tempos atuais. Hoje além de punir há a vigilância ostensiva, com os mesmos argumentos, pautado na construção do medo. O recente filme dedicado às prisões turcas “Un film sur les prisons turques" projetado em Paris produzido pela banda Yorun Grup é um apelo contra a solitária, como uma forma extrema de prisão, muito “comum pelo mundo”. Há uma dilaceração psíquica programada no sentido de quando o sujeito “retorna” a sua liberdade ele está dilacerado psicologicamente, ele já possui a identidade de criminoso e não de um sujeito que cometeu um ato ilícito. “Ele é o ato” há uma prisão interna que demanda liberdade. Quando nos remetemos ao artigo anterior sobre Arquitetura Psíquica podemos interrogar  sobre o que “resta” desses sujeitos.

É oportuno lembrar o "Tratado sobre a Tolerância" de Voltaire e o que o motivou. Em 10 de Março de 1762, na cidade de Toulose, um homem é torturado, supliciado na roda até à morte e seu cadáver lançado ao fogo. Assim se cumpria a condenação sentenciada, pelo Parlamento local. Supostamente, fazia-se justiça contra um monstro que enforcara o próprio filho, jovem mártir que apenas pretendera converter-se ao catolicismo numa terra de católicos, contra a vontade de um pai calvinista. O suposto assasinato revelava-se ainda mais hediondo, pois não poderia ter sucedido sem o conluio da mãe, de um dos irmãos e de um amigo da vítima. Este caso não é diferente de muitos outros pelo mundo, nem sequer pelo facto de três anos mais tarde a França inteira ter reconhecido a inocência do condenado, de nome Jean Calas, homem trabalhador, respeitado pela comunidade, pai de seis filhos, um dos quais aliás já era católico antes da morte do irmão. O que se tornou digno de registo não foi tanto o erro da justiça, nem sequer o horror da prática da tortura, mas aquilo que realmente motivou a condenação de um homem inocente: a intolerância religiosa. Um marco na história da França. Um ano após a morte de Jean Calas, Voltaire escreve em Dezembro de 1763, o "Tratado sobre a Tolerância". Expõe aí as inconsistências do processo judicial e a brutalidade com que se chegou o suplício. Segundo Voltaire, ninguém ficaria indiferente "quando o velho, agonizando na roda, tomou Deus por testemunha da sua inocência e lhe pediu perdão para os juízes." O erro de justiça era óbvio, mas igualmente óbvio era reconhecer que o erro não resultara de negligência ou de precipitação, mas sim de praticar, a intolerância religiosa. Mesmo o calendário convinha — aproximava-se o dia, escreve Voltaire, "desses singulares festejos que as gentes de Toulouse celebram todos os anos em memória de um massacre de quatro mil huguenotes; e 1762 era o ano de mais um centenário." O “Tratado” revela o grande crime, que é a intolerância, que percorre a história humana.

3 de abril de 2013

Poesia - Rifa


Rifa-se um coração quase novo. Um coração idealista. Um coração como poucos. Um coração à moda antiga. Um coração moleque que insiste em pregar peças no seu usuário. Rifa-se um coração que na realidade está um pouco usado, meio calejado, muito machucado e que teima em alimentar sonhos, e cultivar ilusões. Um pouco inconsequente que nunca desiste de acreditar nas pessoas. Um leviano e precipitado, coração que acha que Tim Maia estava certo quando escreveu... "não quero dinheiro, eu quero amor sincero, é isso que eu espero...". Um idealista... Um verdadeiro sonhador... Rifa-se um coração que nunca aprende. Que não endurece, e mantém sempre viva a esperança de ser feliz, sendo simples e natural. Um coração insensato que comanda o racional sendo louco o suficiente para se apaixonar. Um furioso suicida que vive procurando relações e emoções verdadeiras. Rifa-se um coração que insiste em cometer sempre os mesmos erros. Esse coração que erra, briga, se expõe. Perde o juízo por completo em nome de causas e paixões. Sai do sério e, às vezes revê suas posições arrependido de palavras e gestos. Este coração tantas vezes incompreendido. Tantas vezes provocado. Tantas vezes impulsivo. Rifa-se este desequilibrado emocional que, abre sorrisos tão largos que quase dá pra engolir as orelhas, mas que também arranca lágrimas e faz murchar o rosto. Um coração para ser alugado, ou mesmo utilizado por quem gosta de emoções fortes. Um órgão abestado indicado apenas para quem quer viver intensamente e, contra indicado para os que apenas pretendem passar pela vida matando o tempo, defendendo-se das emoções. Rifa-se um coração tão inocente que se mostra sem armaduras e deixa louco o seu usuário. Um coração que quando parar de bater ouvirá o seu usuário dizer para São Pedro na hora da prestação de contas: " O Senhor poder conferir", eu fiz tudo certo, só errei quando coloquei sentimento. Só fiz bobagens e me dei mal quando ouvi este louco coração de criança que insiste em não endurecer e, se recusa a envelhecer". Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por outro que tenha um pouco mais de juízo. Um órgão mais fiel ao seu usuário. Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser que o abriga. Um coração que não seja tão inconsequente. Rifa-se um coração cego, surdo e mudo, mas que incomoda um bocado. Um verdadeiro caçador de aventuras que, ainda não foi adotado, provavelmente, por se recusar a cultivar ares selvagens ou racionais, por não querer perder o estilo. Oferece-se um coração vadio, sem raça, sem pedigree. Um simples coração humano. Um impulsivo membro de comportamento até meio ultrapassado. Um modelo cheio de defeitos que, mesmo estando fora do mercado, faz questão de não se modernizar, mas vez por outra, constrange o corpo que o domina. Um velho coração que convence seu usuário a publicar seus segredos e, a ter a petulância de se aventurar como poeta.
Clarice Lispector

2 de abril de 2013

Arquitetura Psíquica


Quando falamos do humano estamos sempre nos referindo a “personalidade psíquica” e desta, seus sintomas, que são derivados do que se reprime sendo os sintomas os representantes no ego do reprimido. Sintomas estes que são conflitos entre instintos, estímulos do ego, do sujeito e a resistência que se interpõe. Compreender a arquitetura psíquica é difícil, mas é possível tangenciar algumas possibilidades como as que Freud nos sinalizou e a qual nos detemos aqui. Falar de reprimido é falar como diz Freud de um “território estrangeiro interno”, pois é adentrar o desconhecido inconsciente. O sujeito pode tomar o outro como objeto e pode ser objeto de si próprio e fazer-se objeto de outro. É a dialética dessa relação que determina a divisão do ego como Freud dirá: “como um cristal”.

É por isso que a questão da loucura ou do desequilíbrio psíquico, sempre causou certo “medo” desde a antiguidade, pois sempre foi sua forma de funcionamento o afastamento da realidade externa e o mergulho na realidade interna, que é inacessível. Conhecer a história do sujeito pertence à realidade externa, como ele a elabora e a expressa possui componentes de sua realidade interna, que nem sempre se externalizou. É nesse sentido que a colocação de Freud: “Como seria se essas pessoas insanas estivessem certas, se em cada um de nós estivesse presente no ego uma instância como essa que observa e ameaça punir, e que nos doentes mentais se tornou nitidamente separada de seu ego e erroneamente deslocada para a realidade externa?”  (p. 65) O que nos vigia, julga, pune e faz com que sintamos remorso não é outra coisa senão a nossa consciência, uma instancia interna, mas, como diz Freud independente do ego e que ele descreve como “superego”, ou seja, possui certa autonomia e independência. A severidade da consciência ou “superego” irá depender da estrutura psíquica do sujeito e de qual destino dá aos seus conflitos. Assim o superego pode tornar-se severo, maltratando e humilhando o ego exaurindo suas próprias energias, “permitindo” então ao ego exaltar-se e liberar suas “manias” de prazer. Mas é possível também que o superego em muitos momentos esteja fundido ao ego. Se não há sintomatologia de conflito e sofrimento patológico torna-se uma convivência pacífica. Na formação do superego está implicada a cultura, os cuidadores, os pais possibilitando os limites e leis referentes ao real que poderá desencadear uma “ansiedade realística”, “precursora da ansiedade moral”. 

A Identificação de um ego ao de outra pessoa é o que chamamos semelhanças. Sendo uma forma importante de formação de vínculos, principalmente na idade infantil, mas é algo que percorre toda nossa existência, e é diferente de escolha objetal, ou seja, os objetos que escolhemos não somente para manter nosso “gozo” como diria Lacan, e assim nossa estrutura. É possível também que a identificação se dê por uma regressão, restabelecendo o objeto perdido de uma outra forma. Assim o superego diz respeito à identificação parental, mas é possível que essa identificação vá no sentido contrário e então teremos um enigma, que talvez possa ser explicado pelo destino que o sujeito dá a provação edipiana. Se a passagem edipiana não for superada com o êxito desejado a força do superego regride. Quando se fala de Édipo, não podemos tomar ao pé da letra a mitologia grega, assim não só pais, mas professores, cuidadores, pessoas escolhidas como modelos fazem parte desse arcabouço de desejos, sublimados, “superados” ou não. A ressignificação das imagens primitivas desse ideal do ego, dos pais vai sendo reelaboradas ao longo da vida, o que é importante para a formação do caráter. É aqui que Freud explicita: “a prolongada dependência da criança em relação a seus pais e o complexo de Édipo, ambos intimamente inter-relacionados. O superego é para nós o representante de todas as restrições morais, o advogado de um esforço tendente à perfeição — é, em resumo, tudo o que pudemos captar psicologicamente daquilo que é catalogado como o aspecto mais elevado da vida do homem” (p.72). O superego dos pais influenciam seus filhos, mas o destino que cada sujeito dá a essa influencia pertence à subjetividade de cada um, algo que fluirá de geração a geração.

Vivemos em coletividade, e nesta uma infinidade de egos se encontram continuamente, assim os grupos ou indivíduos que se afinam entre si “introduzem a mesma pessoa em seu superego” (p.72), ou seja, os indivíduos por afinarem-se entre si possuem semelhanças evolutivas. Freud ao desenvolver a psicologia do ego, ego que força repressão, considera que foi o primeiro passo e que do lado oposto do ego está a resistência de deixar fluir em uma tendência ascendente, irrompendo na consciência os conteúdos do inconsciente. Geralmente grande parte dos conteúdos psíquicos que diariamente veem à tona seja do ego ou do superego são inconscientes, desconhecidos. Há um vasto oceano ou universo a ser descoberto, mas a relação consciente – inconsciente é dinâmica e o que em um instante é consciente pode tornar-se inconsciente e vice-versa.

Nem tudo pode ser transformado em consciente. Quando algo é transformado em consciente, existirá sempre aquilo que mesmo com todos os esforços despendidos não se revelará ao consciente, (Falamos sobre isso no artigo Lembranças e Paranoia) assim se estabelece não de forma descritiva, mas dinâmica o sistema consciente, o sistema pré-consciente e o sistema inconsciente, sistemas esse ao qual Freud dá o nome de “sistema Inc.”, e pode entrar em conflito com o ego, porque existe parte do ego que é consciente e parte que é inconsciente. Esse inconsciente é também chamado de id (um pronome impessoal). Assim a arquitetura da mente fica “definida” até então como superego (consciência), está mais distante do sistema perceptual do que do ego (o eu, personalidade) e o id (inconsciente), que se relaciona com o mundo externo através do ego. Compreendemos que o id é obscuro, inacessível, o pouco que dele é revelado é através dos sonhos, dos sintomas e das influencias do corpo. Repleto de energia dos instintos, mas sem organização. É uma terra sem lei em todos os sentidos, pois coisas aparentemente contraditórias somam-se. Faço uma citação grande pela importância da mesma, ainda muito a ser pesquisada: Freud dirá: “Impulsos contrários existem lado a lado, sem que um anule o outro, ou sem que um diminua o outro: quando muito, podem convergir para formar conciliações, sob a pressão econômica dominante, com vistas à descarga da energia... No id não há nada que se possa comparar à negativa. No id, não existe nada que corresponda à ideia de tempo; não há reconhecimento da passagem do tempo... nenhuma alteração em seus processos mentais é produzida pela passagem do tempo...Impulsos plenos de desejos, que jamais passaram além do id, e também impressões, que foram mergulhadas no id pelas repressões, são virtualmente imortais; depois de se passarem décadas, comportam-se como se tivessem ocorrido há pouco. Só podem ser reconhecidos como pertencentes ao passado, só podem perder sua importância e ser destituídos de sua energia, quando tornados conscientes pelo trabalho da análise”. p.78  (Grifos nossos).

No id a energia desses impulsos é móvel, deslocam-se, condensam-se. No ego e superego apesar de haver conteúdos inconscientes são menos primitivos, pois o sistema Pcpt-Cs está voltado para o mundo externo, atento a todas as percepções, mesmo sem uma ideia precisa de tempo, mas também as excitações que vem do interior, para que se tornem conscientes. É possível que em nosso processo de evolução desde que foi possível a vida no planeta terra a parte de nossa mente que ficou em contato com o mundo externo, o ego passou por modificações maiores sob a ótica da razão e a parte obscura, que não pode vir a tona ficou instintiva e o sistema Pcpt-Cs servindo de recepção de estímulos e de “escudo protetor” em relação aos mesmos estímulos e o id permanece, mesmo com bilhões de anos inacessível, devemos supor que esses dois mundos estão integrados e se representam mutuamente. Se esse mundo obscuro possui poder, pelos seus instintos, o real é um “imperativo categórico” do qual o id não tem como escapar: “o que é uma sorte para o id, que não poderia escapar à destruição se..., não atentasse para esse poder externo supremo... o ego deve observar o mundo externo, deve estabelecer um quadro preciso do mesmo nos traços de memória de suas percepções, e, pelo seu exercício da função de “teste de realidade”, deve excluir tudo que é um acréscimo decorrente de fontes internas de excitação. O ego controla os acessos mas, entre uma necessidade e uma ação, interpõe uma protelação sob forma de atividade do pensamento, durante a qual se utiliza dos resíduos mnêmicos da experiência” (p.80). Enquanto no Id, por ser a sede de “paixões indomadas” não há síntese, combinação e unificação dos conteúdos, no ego existe. Pois o ego evolui da “percepção dos instintos” e significa a razão e bom senso, então quando alguém diz que “não está usando de razão e bom senso”, está sob o comando instintual do Id. Através do uso da razão, a qual Kant irá compreender como a capacidade de julgar, mas temos que lembrar que o ego é uma parte do Id e toma dele também sua energia. 

O Id provê energia, mas é o ego que dá a direção de acordo com seus objetivos, mas muitas vezes o ego é conduzido pelo Id, que dá livre curso as suas demandas. Esse papel de mediador do ego entre o Id e a realidade, possui um custo alto. Muitas vezes o ego tem de “encobrir as ordens do Id” através da razão, racionalizando, e assim com habilidade “oculta os conflitos do Id com a realidade”, mesmo diante de sua intolerância. Ao mesmo tempo é vigiado pelo severo superego, que não leva em conta nenhuma de suas dificuldades e se necessário pune-o. São os sentimentos de culpa, remorsos. Manter em harmonia essas forças e a influencia que recebe, não é tarefa fácil para o ego. “Não existe saída para o ego” se admite sua fraqueza, fica ansioso — “ansiedade realística referente ao mundo externo, ansiedade moral referente ao superego e ansiedade neurótica referente à força das paixões do id”. (p.82) Como diz Freud o ego serve a três tirânicos senhores, tenta está em harmonia com os três e lembra o provérbio de que não é possível servir a dois senhores, quanto mais a três. Essas “divisões” diferem em cada sujeito, possuindo variações, avanços e retrocessos não só de ordem psíquica, social, mas também filogenética, no que diz respeito às três áreas, não só na doença mental, quando as três áreas vivem um intercambio sem delimitações, mas como diz Freud em mais uma longa citação necessária ao nosso ver:“Também é fácil imaginar que determinadas práticas místicas possam conseguir perturbar as relações normais entre as diferentes regiões da mente, de modo que, por exemplo, a percepção pode ser capaz de captar acontecimentos, nas profundezas do ego e no id, os quais de outro modo lhe seriam inacessíveis. Pode-se, porém, com segurança, duvidar se a esse caminho nos levará às últimas verdades das quais é de se esperar a salvação. Não obstante, pode-se admitir que os intentos terapêuticos da psicanálise têm escolhido uma linha de abordagem semelhante. Seu propósito é, na verdade, fortalecer o ego, fazê-lo mais independente do superego, ampliar seu campo de percepção e expandir sua organização, de maneira a poder assenhorear-se de novas partes do id. Onde estava o id, ali estará o ego” (p.84) - A figura abaixo (Quando Freud sugeriu esse diagrama, fez considerações de que o inconsciente deveria ser representado de forma maior e deveria ser pintado de forma que as cores se intercalassem na “divisão” de fronteiras). Ilustra esses embates e nos faz pensar no quanto devemos ser acolhedores com nosso próprio ego e com o ego do outro, ou seja, o exercício do acolhimento, tolerância, do não julgamento deve fazer parte de nossas vidas, num mundo tão conturbado como o que vivemos. Os processos psíquicos são intangíveis, por isso muitas vezes vamos falhar e fazer um sintoma, principalmente ante as vicissitudes da vida, que não são poucas. Satisfazer simultaneamente tantos senhores internos e muitos externos que em muitos momentos vão se confundirem e se representarem não é tarefa fácil é quase como “um violinista no telhado”, que por sinal é um filme belíssimo.
Referencia
FREUD, S.  -  CONFERÊNCIA XXXI – (1933[1932]). Obras Completas de Psicanálise - volume XXII. Rio de Janeiro, Imago-1996.  

1 de abril de 2013

Ética - Entre o Público e o Privado

AS “MÁXIMAS” E O “IMPERATIVO CATEGÓRICO” -   ENTRE O PÚBLICO E O PRIVADO

“Age sempre como se a máxima da tua ação deverá ser erigida por tua vontade como uma lei universal da natureza”.

 “Age de tal modo que possas tratar sempre a humanidade, seja em tua pessoa, seja na do próximo, como um fim; não te sirvas jamais disso como um meio”.  

       É certo que vivemos em uma sociedade em que os limites entre o público e o privado são cada vez mais tênues, quando não inexistentes. Vemos nos meios de comunicações às vidas sendo expostas de forma desagregada, no que diz respeito à própria individualidade. Essa exposição não é da essência do ser em si, mas do ser que é possível na sociedade do sucesso, não importa a que custo subjetivo. Nesta sociedade não é mais a discussão entre o Ser e o Ter do humanismo, do existencialismo, mas o parecer Ser e Ter. É o mundo virtual. Basta parecer, não é preciso Ter, muito menos Ser. É na contramão dessa construção que refletimos sobre a construção da estrutura do sujeito entre o público e o privado e da “lei a priori” que se dá por complexas determinações da sensibilidade e da razão a caminho do ser moral. Então estamos falando de Kant e da distância da “máxima” ao “imperativo categórico”, do subjetivo aos fatos do mundo, do privado ao público é a forma como o sujeito se pensa representar nos objetos. O sujeito cujo trabalho deve ser entendido como um acréscimo ao seu próprio bem-estar, o êxito desses como seu maior patrimônio que se integra na vida particular de cada sujeito, sendo os fatos, atos, verificados na conduta do dia-a-dia em sua vida privada acrescido ou diminuído os seus bom conceito na vida profissional, colocando-o sob a tutela disciplinar do Estado, ou Instituição, obscurecendo a realização do uso prático de sua razão a se realizar enquanto lei moral,  liberdade. Para Kant a razão pura é prática e desta forma imanente, ou seja, ela se realiza, mas pode ser patologicamente afetada:

“Admitindo-se que a razão pura pode encerrar em si um fundamento prático, suficiente para a determinação da vontade, então há leis práticas, mas se não se admite o mesmo, então todos os princípios práticos serão meras máximas. Em uma vontade patologicamente afetada por um ser natural pode observar-se um conflito das máximas diante das leis práticas conhecidas pelo mesmo. Exemplo: alguém pode adotar o axioma de não suportar qualquer ofensa sem vingá-la, compreendendo, todavia que isso não constitui nenhuma lei prática, mas apenas a sua máxima e que, de modo inverso, como regra para a vontade de todo ser racional, idêntica máxima não pode concordar em si mesma”. (p.37-38)

Como a razão na prática se ocupa da faculdade de desejar, prescrevendo a ação, que tem um efeito, uma intenção, “síntese” de múltiplas determinações, o sujeito formula princípios em si mesmo, conhecimento prático, determinando sua vontade, que nem por isso constitui leis a que inevitavelmente esteja submetido. A razão enquanto “imperativo”, um “dever ser”, de determinação da vontade, é distinta das “máximas”, que constitui princípios subjetivos, determinando a “causalidade de ser racional”. O que seria expresso do domínio privado ao domínio público, poderia ser colocado como “imperativo hipotético”, as habilidades; ou seja, as ações são boas em função de algo possível. O Estado e Instituições deveriam ser um exercer o poder de corrigir o juízo dos profissionais sobre o valor das ações que poderão executar como fins e assim evitar Estado e Instituições o “deixa fazer”.

O que se expressa do domínio público para o domínio privado seria sempre o “imperativo categórico”, uma vez que são leis necessárias e independentes de condições patológicas. O sujeito enquanto categoria, estruturado numa individualidade racionaliza sua subjetividade, seus preceitos práticos, cuja vontade é determinada somente como vontade, que visa apenas um efeito.  É como se não houvesse no percurso da razão as condições para o estabelecimento da lei moral. O trem que possui um freio que o faz parar em todas as estações, não se instalou então este dispositivo não se instala no sujeito. A vontade deve manifestar-se no sujeito antes que este se pergunte se tem a capacidade necessária para produzir um efeito desejado, de desejo, ou o que deve fazer para produzir um “imperativo categórico”, um “dever ser”, para além da legalidade do Estado e instituições.

É desta forma que, segundo Kant, toda questão ética assenta na liberdade, ou seja, na “razão autônoma”. A liberdade é liberdade para a lei, o “dever ser”. Nos códigos de ética a liberdade está no “dever”, no “imperativo hipotético”, constituindo o cumprimento dos deveres positivados e negativados. Kant fala da liberdade como chave para autonomia da vontade:

“A vontade é uma espécie de causalidade dos seres vivos, enquanto racionais, e liberdade seria a propriedade dessa causalidade, pela qual ela pode ser eficiente, não obstante as causas estranhas que possam determiná-la; assim como a necessidade natural é a propriedade da causalidade de todos os seres irracionais de serem determinados à atividade pela influência de causas estranhas”(p.79).

Para Kant, esta condição de autonomia da vontade significa o desejar, o escolher máximas que possam ser “leis universais”. Para tanto “seria necessário sair do conhecimento dos objetos e passar a uma crítica do sujeito”, ou seja, como o sujeito pensa que se representa como pensa que representa seus objetos constitui um princípio moral. Nos códigos de ética a liberdade atribuída à vontade está associada à vocação do Estado e instituições, aos deveres positivados e negativados. Portanto não à “autonomia da razão”. Há que se pensar que o sujeito (enquanto representante do Estado e instituições), quando se faz representar nos seus vários objetos, adota pontos de vista diversos das representações destes. E estas representações possibilitam a este sujeito conhecer os objetos da forma como eles o afetam, não podendo ser conhecidos em si mesmo, mas somente enquanto fenômenos e enquanto fenômenos pertencem ao mundo sensível, mas é o conhecimento pertencente ao mundo inteligível, que estrutura a lei e assim a liberdade, que está na essência entre o público e o privado. O fato de a consciência ser afetada pelo conhecimento que o sujeito tem de si o eleva enquanto inteligência. Como todas as ações humanas são de causalidade e efeito, o que resulta em liberdade, nem por isso é desprovida de leis naturais, morais, universais. 
Referências
GIOVANNI, Reale, ANTISERI, Dario. Historia da Filosofia: Do humanismo a Kant. 1990 São Paulo- Edições paulinas.
KANT, Immanuel. Crítica da Razão Prática – 1788. Tradução de Bertagnoli, Afonso. 3ª edição. Edições e Publicações Brasil Editora S.A – São Paulo 1959.
 KANT, Immanuel. Textos Seletos - Prefácio Primeira Edição da Crítica da Razão Pura -1781- Editora Vozes 1974.