16 de fevereiro de 2013

Freud


Freud sempre esteve ligado a arte em todas as suas formas e aos artefatos arqueológicos que colecionava. Nesse escrito ele fala sobre a arte de Romain Rolland e o quanto essa arte o emocionava e o fazia refletir sobre suas concepções de vida.

Romain Rolland - francês (1866-1944) doutorou-se em Arte, professor da Arte e História da Música, crítico de música, escritor de peças de teatro, romances e biografias, um idealista e humanista.

15 de fevereiro de 2013

Lembranças e Paranoia - Lembranças

A relação entre as experiências vivenciadas e os conteúdos na paranoia

Lembranças

Podemos começar estas falas da seguinte forma: se quiser viver tem que esquecer se quiser sobreviver tem que esquecer se quiser superar tem que lembrar. Se as lembranças encobridoras são como o véu de Maya, que é necessário para encobrir outra face de lembranças é possível pensar o delírio e a alucinação como uma lembrança encobridora ou como uma lembrança. Resta saber o que é delírio e o que é lembrança e o que encobre.

Recordar, repetir e reelaborar através da associação livre é descobrir, o que deixamos de recordar, pois o que entra em cena é a resistência e aquilo que a censura “não permite” que seja recordado é realizado através do que Freud chama de atuação, ou seja, repetimos aquilo que ainda não conseguimos recordar. Interpretar, o que não deixa de ser uma forma de identificar nossas resistências, superá-las e assim preencher as lacunas em nossa memória dos eventos, impressões, cenas esquecidos, ou seja, interceptados; e que uma vez vencidas as resistências e recordados sempre  acrescentaremos algo. Assim o valor de nossas lembranças encobridoras está no fato de restringir o esquecimento de nossas vivências e contrabalançar o que esquecemos em nossa idade mais remota, embora a totalidade do que é fundamental em nossa infância é retido como lembranças. Se nunca foi consciente, nunca foi notado, portanto não pode ser esquecido. Mas se foi esquecido houve uma dissolução das vinculações de pensamento, as conclusões corretas não foram tiradas e as lembranças isoladas são difíceis de serem recuperadas, pois trata-se de experiências remotas, que não foram compreendidas quando ocorreram, mas que na sequencia são compreendidas e interpretadas. Mas o recordar não se dá somente pela palavra. Muitas vezes não recordamos coisa alguma de nossas experiências passadas, mas expressamos pela atuação ou atuando, seja na vida em vigília ou através dos sonhos em sono.

É o que Freud (1911-1913, p. 165) fala “reproduz não como lembrança, mas como ação; repete-o, sem, naturalmente, saber que o está repetindo”. Assim compulsão, repetição é uma transferência do passado esquecido o que irá se repetir na relação transferencial. Então a repetição substituirá o recordar quanto maior for a resistência, (Freud 1911-1913 p.167) “repete tudo o que já avançou a partir das fontes do reprimido, suas inibições, suas atitudes inúteis e seus traços patológicos de caráter, seus sintomas”, medos, atitudes, que evoca fragmentos na vida real, por onde repete. São fragmentos de história, que constitui a personalidade, que tem razões para existir e com as quais se precisa reconciliar. Através do recordar, repetir põe-se a nu os inimigos internos, ao alcance para serem reelaborados. Para Freud o despertar das lembranças podem dar-se através das reações repetitivas enquanto resistência, que só é possível de ser elaborada na medida em que o sujeito se familiarize com a resistência, ou seja, a repetição.  Há que lembrarmos que o manejo da transferência é transformar a compulsão em um motivo para recordar.

O esquecimento das lembranças, ou a retenção na memória de forma incompleta, ou omitida, dos tempos remotos são modificações realizadas através de árduo trabalho, onde há gradativamente um debilitamento afetivo, para que os processos inconscientes possam ser abordados. É assim que o inconsciente se coloca sob o domínio do pré-consciente e o grau de nossa normalidade psíquica é estabelecido. Lacan (2008, p. 180) nos fala dessa ressurgência de impressão, que é a restauração de lembranças e que se organiza na continuidade histórica como uma reminiscência.
Observação: As referências bibliográficas serão publicadas com as considerações finais.

Poesia - Memória



Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão
Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

João Cabral de Melo Neto

12 de fevereiro de 2013

Lembranças e Paranoia - Memória

A relação entre as experiências vivenciadas e os conteúdos na paranoia

Memória

Ao escrever sobre memória materializo parte das lembranças dos estudos teórico-práticos articulados em minha memória, apreendidos por mim. A questão é que na folha de papel não é possível outras notas, já os traços permanentes das experiências vivenciadas são preservados em “sistemas mnêmicos”, que não só se superpõe, mas se equivalem e se unem em uma rede de conexões receptiva e sempre pronta em suas diversas camadas que são o pré-consciente e o consciente, que servem de anteparo na redução das excitações que serão guardadas como marcas mnêmicas, que realizam um trajeto dialético, permeável entre o mundo interno e externo da consciência. A noção de tempo nesta complexa rede não segue o calendário convencional.

Ausência de lembranças das impressões de outrora, parecem problemas de menor monta na reconstrução da história dos pacientes e das pessoas em geral, o que não deixa de fazer parte da visão corriqueira de que crianças não possuem lembranças e que o que elas falam não podem ter conteúdos de verdades vivenciadas e sim somente de fantasias. É fato que Freud (1899) irá nos lembrar que quanto mais recuado no tempo estão as lembranças maiores são as possibilidades de reprodução da cadeia de lembranças e assim “toda a função da memória pode ser avançada ou retardada”.  (Freud 1899). E Lacan (2008) nos lembra que “compreender o que há em Freud é assinalar a importância da linguagem e da fala”, seja o inconsciente enquanto linguagem ou sua expressão pela fala.

Falar de memória é falar de como se constrói, gravam e conservam os traços que vão sendo formados ao longo do tempo, como retornam e seus efeitos. Assim a memória é um tempo e um espaço que não podem ser compreendidos de forma linear. O que se propaga nestes espaços-tempos não é possível ser apropriado de forma concreta. O tempo na memória é complexo, sem garantia de exatidão, misturam-se com infinitas emoções, impressões, vivências e resinificações. O que é atraente, misterioso na construção da memória é a complexa dinâmica psíquica que Freud mergulhou para compreender, formulando uma teoria da memória quando afirma que o material das marcas mnêmicas reordena-se de tempos em tempos, formando novas lembranças. Ele explica a memória como um sistema: “Em nosso aparelho psíquico, permanece um traço das percepções que incidem sobre ele. A este podemos descrever como “traços mnêmicos”, e à função que com ele se relaciona damos o nome de “memória”. (Freud 1900-1901 – p. 568-569)

Portanto sem a retenção das experiências, e fatos da vida em marcas mnêmicas através de associações, condensações, cadeias de significantes, não há memória, Explicar as lembranças que vão constituindo a memória significa remontar alguma coisa já conhecida. Assim a lembrança que a memória não consegue reter diz respeito a eventos traumáticos que o ego não consegue suportar. O esquecimento e o recalque serve então como defesa para aquilo que este ego não consegue lidar e neste percurso de “arquivamento” resistências vão sendo erguidas passo a passo.

Essas marcas, traços revelam o prazer, o desprazer que os objetos ausentes ou presentes deixaram ou continuam deixando. Ou seja, há um passado que se cria e se recria em novas articulações. Assim a historia que vai sendo construída desde sempre é traçada pelas tramas do vivido que se entrecruzam, forçando a presença do passado no momento presente, e a construção de uma realidade psíquica que não coincide totalmente com a realidade atual ou mesmo do passado.

Esses traços que constituem nossa memória no processo de regressão do tempo passam por “retranscrição”, rearranjos para adaptar-se a novas situações. Freud (1950(1892-1899) p.281) vai nos lembrar na carta 52 que “a memória não se faz presente de uma só vez, mas se desdobra em vários tempos; que ela é registrada em diferentes espécies de indicações”. Como esses diferentes registros são “armazenados” e em que topografia. Para Freud ainda são um enigma que transcende o tempo e a própria topografia da mente. Os registros, as vivências vão sendo inscritos ao longo da vida e na fronteira entre essas épocas vão sendo traduzidos, transcritos de forma a manter o equilíbrio psíquico.

Nesta mesma carta Freud alerta-nos que cada tradução, ou transcrição subseqüente refaz o processo de excitação. É possível supor que se a tradução não se faz em uma parte do material pode ocorrer lacunas, que Freud (1950 (1892-1899) p. 283) denomina “fueros” e que “estamos em presença de sobrevivências”, do “recalcamento”, ou seja, se determinadas experiências não puderam ser refeitas de forma que pudessem continuar sendo lembradas, formar-se-á lacunas que serão recalcadas  e “seu motivo é sempre a produção de desprazer que seria gerada por uma tradução; é como se esse desprazer provocasse um distúrbio do pensamento que não permitisse o trabalho de tradução”(p.283), o que forma uma defesa normal em função do desprazer. Freud irá nos lembrar que “a defesa patológica somente ocorre contra um traço de memória de uma fase anterior, que ainda não foi traduzido”, é o que Lacan irá referendar como cadeia de significantes.

Quando fatos ocorrem e produzem uma sensação de desprazer, em épocas sucessivas da vida ao ser relembrado, redespertado, irá produzir um novo desprazer então não pode ser inibido porque “a lembrança se comporta como um evento atual”, ou seja, assim a lembrança assume conotações do aqui, agora no real. (Freud carta 52 p. 283-284)

A ocorrência de um evento anterior desprazeiroso pode desencadear uma defesa, que é o recalcamento.  Mas nem todas as experiências produzem desprazer; em sua maioria está o prazer, que não é inibido; e uma vez não inibido manifesta-se como compulsão. Assim o prazer de uma lembrança referente a uma experiência em uma fase diferente da vida é acompanhada de uma compulsão e o desprazer pelo recalcamento (Freud carta 52 p. 284).

Se a tradução a uma nova fase da vida é inibida ou não é uma interrogação. Na sequência de nossas reflexões iremos falar de como as lembranças recalcadas que dizem respeito ao que era atual no caso da paranoia este recalcado (Freud carta 52 p. 284) irá ocorrer entre os 8 e os 14 anos.

O preenchimento das lacunas na memória ao longo do tempo tem como função superar as resistências devidas a repressão de experiências que precisavam ser esquecidas, ou que nunca poderia ter sido “esquecido” como nos lembra Freud (1900 -1901 p.570) (1911-1913 p. 164) “porque nunca se tornou consciente”.  Mas há experiências cujas lembranças não podem ser recuperadas pois aconteceram em um tempo remoto e que não foram compreendidas quando ocorreram, mas quando imediatamente compreendidas e interpretadas não podem, segundo ele serem recuperadas.

Na sequencia de construção da memória e das lembranças, uma lembrança anterior pode ser usada como um véu para encobrir uma lembrança posterior ou um acontecimento anterior é encoberto por uma lembrança posterior. A questão a saber quais lembranças impossíveis de serem erradicadas na profundeza de nossa mente vão influenciar até o fim de nossa vida. O que for considerado importante de imediato é recordado e o que é julgado não importante é esquecido. O princípio que rege a escolha das lembranças diz respeito ao tempo vivido pelo indivíduo. 

O que Lacan (2008 p.126) irá nos lembrar ao falar da carta 52 é que está na rememoração dos distúrbios  a noção de defesa. E que ao explorarmos os distúrbios de rememoração, procurando o que se tornou os acontecimentos da vida é que vamos descobrir que eles podem estar onde não esperamos, ou seja, não é possível reencontrar a “localização mnésica, cronológica dos acontecimentos, de restituir uma parte do tempo perdido, mas que há também coisas que se passam no plano tópico”. Assim o que conta são os pontos de articulação simbólica rememorada pelo sujeito. Ao citar a carta 52 (p.180) Lacan irá afirmar que “o fecundo na experiência da cura, são os fenômenos de memória” e que a construção do aparelho psíquico em Freud é feito para explicar os fenômenos de memória.
Observação: As referências bibliográficas serão publicadas com as considerações finais.

10 de fevereiro de 2013

Lembranças e Paranoia - Introdução

A relação entre as experiências vivenciadas e os conteúdos na paranoia
Resumo

Este artigo que será publicado aqui em várias etapas, em função do espaço por páginas, objetiva refletir sobre a articulação das lembranças na paranoia e como o recalque e o nome-do-pai, a lei retorna pela alucinação e  delírio. Desta forma esperamos contribuir na intervenção clínica com a ênfase no resgate dos traços mnêmicos, das lembranças remotas, de um sujeito histórico. Quando nos propomos a escrever sobre a questão de como as lembranças retornam na paranoia estava delineado que a direção possível para a compreensão da historia do sujeito são suas lembranças. Sabemos que em nossa vivência mais remota as memórias, os traços mnêmicos que compõem nosso psiquismo, vão sendo transcritos, condensados, retranscritos, significados, em um curso dialético. Assim ao realizarmos este estudo bibliográfico, com o cruzamento das categorias memória, lembranças, recalque, paranoia em Freud e nome-do-pai e paranoia em Lacan percorremos um caminho de reflexões que ecoa na compreensão da história do sujeito e não em seus sintomas. Ao termino deste percurso vamos nos haver com um sujeito que conduz e é conduzido em sua história, suas relações por lembranças em repetições, compulsões, por experiências que foram recalcadas ou ficaram de fora, mas que relembra, remonta em sua alucinação em seu delírio.

Introdução

Vamos delinear nestas páginas, em cada etapa, a forma como as lembranças habitam nossa memória, que muitas vezes difícil de datar no tempo cronológico, pois o tempo do qual falamos é um tempo de representações, significados e significantes e de como essas lembranças retornam pelo recalque e reaparece na paranoia. Então lembramos para não esquecer que um comportamento “normal”, “deve” combinar características de repudio da realidade e de alteração dessa mesma realidade, ou seja, vivemos em um equilíbrio que oscila como é próprio da natureza e da natureza humana dada suas circunstancias. E somente assim podemos trilhar a dialética do equilíbrio entre o consciente pré-consciente e inconsciente onde as lembranças trafegam. Sem elas seríamos seres sem história, sem subjetividade, sem existência no tempo, sem passado. As lembranças estão na construção da memória e a construção da memória é feita de lembranças.

Aqui refletiremos as lembranças em Freud, àquilo que necessita ser esquecido, por defesa, por falta de estrutura do ego em suportar ou rememorado pela linguagem, pela repetição, pela alucinação, delírio. Se um pensamento não permanece consciente por muito tempo, se é transitório em  sua permanência na consciência, retorna ao inconsciente podendo ficar latente  por muito tempo, ou por toda a vida, embora em certas circunstâncias retorna a consciência. Esse retorno dialético passa pelo recalque, pela lei. Aqui estará o superego e as pulsões conflituosas. É nesse conflito que revela um retorno que a paranoia será pensada.

Escreveremos sobre este psiquismo que na mais tenra idade está o fundamento das lembranças que pode desencadear uma paranoia. Desde as lembranças recalcadas, vencidas as resistências, a lei, a forma como irão se manifestar na paranoia diz respeito à construção de relações conflituosas de afetos, seja entre irmãos, filhos e/ou figuras parentais. Mais que isso, diz respeito à como são vividas, marcadas e rememoradas essas experiências.

Então, este trabalho tem como objetivo refletir sobre o papel das lembranças na paranoia e que estatuto fornece o recalque e o que Lacan denomina como nome-do-pai no retorno que é realizado na alucinação e no delírio. Objetiva também contribuir na intervenção clínica com a ênfase no resgate dos traços mnêmicos, das lembranças remotas, de um sujeito que é antes de tudo histórico. E como Lacan (2008, p.33) irá lembrar “por sempre ter desconhecido, na fenomenologia da experiência patológica, a dimensão dialética, é que a clínica se perdeu”.

Consultas realizadas na base de dados de universidades públicas e privadas do eixo Rio de Janeiro-São Paulo-Paraná, pouco se discutem sobre a Memória-Lembranças em psicanálise e sua articulação com os sintomas e estruturas clínicas.  A academia centra-se nos estudos nosológicos, a clínica na adequação do referencial teórico aos sintomas. Pensar as lembranças em uma estrutura como a paranoia é refletir também sobre a história dialética do sujeito, suas difíceis escolhas e provações. Espera-se contribuir com a reflexão sobre o conteúdo das lembranças na construção da paranoia e de sua expressão através do delírio, das alucinações, bem como contribuir ao debate na saúde mental acerca da memória em psicanálise.

A pesquisa é de caráter bibliográfico, onde foi realizado na obra freudiana o cruzamento das categorias memória, lembranças, recalque, paranoia. E na obra Lacaniana o estatuto da psicose paranoica e o que foi repensado de Freud com o nome-do-pai. O caráter bibliográfico possui também a importância de caminhar nos caminhos percorridos por esses dois descobridores da psicanálise e assim não só nos familiarizarmos com suas incursões facilitando nossa escuta enquanto sujeito e colocando-nos numa condução ética quanto ao nosso desejo.
Observação: As referências bibliográficas serão publicadas com as considerações finais.

7 de fevereiro de 2013

Poesia - Nem tudo é fácil


É difícil fazer alguém feliz, assim como é fácil fazer triste. 
É difícil dizer eu te amo, assim como é fácil não dizer nada.
É difícil valorizar um amor, assim como é fácil perdê-lo para sempre.
É difícil agradecer pelo dia de hoje, assim como é fácil viver mais um dia. 
É difícil enxergar o que a vida traz de bom, assim como é fácil fechar os olhos e atravessar a rua. 
É difícil se convencer de que se é feliz, assim como é fácil achar que sempre falta algo. 
É difícil fazer alguém sorrir, assim como é fácil fazer chorar. 
É difícil colocar-se no lugar de alguém, assim como é fácil olhar para o próprio umbigo. 
Se você errou, peça desculpas... 
É difícil pedir perdão? Mas quem disse que é fácil ser perdoado? 
Se alguém errou com você, perdoa-o... 
É difícil perdoar? Mas quem disse que é fácil se arrepender? 
Se você sente algo, diga... 
É difícil se abrir? Mas quem disse que é fácil encontrar 
alguém que queira escutar? 
Se alguém reclama de você, ouça... 
É difícil ouvir certas coisas? Mas quem disse que é fácil ouvir você?
Se alguém te ama, ame-o...
É difícil entregar-se? Mas quem disse que é fácil ser feliz? 
Nem tudo é fácil na vida...Mas, com certeza, nada é impossível.
Precisamos acreditar, ter fé e lutar para que não apenas sonhemos, mas também tornemos todos esses desejos, realidade!!!
Cecília Meireles
 

Ética: Entre o Público e Privado

“Age sempre como se a máxima da tua ação deverá ser erigida por tua vontade como uma lei universal da natureza”. Kant 
A construção da estrutura do sujeito da “lei a priori” dá-se assim por complexas determinações da sensibilidade e da razão a caminho do ser moral. A distância da “máxima” ao “imperativo categórico”, do subjetivo aos fatos do mundo, do privado ao público é a forma como o sujeito se pensa representar nos objetos.
Todos têm deveres no fazer diário, assim o “dever” é uma categoria cujo olhar é não somente “privado”, mas “público”, de forma que o denominado “público” e “privado” sejam extensão de “máximas” e “imperativos categóricos”. Quando falamos destes, antes de tudo é necessário num primeiro momento pensar a lei moral como um “imperativo categórico” que faz parte da vida. Mas a razão possui a sua autonomia e então, no percurso das “máximas” e “imperativos categóricos”, é possível uma legalidade cuja finalidade seja o “bem comum”. Desta forma na articulação de todas as condutas se justifica na compreensão que para Kant o dever é ordenado como lei moral. É o dever a necessidade de uma ação por respeito à lei. Pensar na questão do “dever”, é projetar um pensar pedagógico do tempo e do lugar do “cidadão”, como sujeito de direitos. Esta janela de sujeitos de direitos se encontra diante das possibilidades do mesmo “dever”: Suas ações devem ser pautadas por uma lei moral!
Na análise do “dever” há que pensar a própria moralidade investida de legalidade. Moralidade que se contradiz entre o público e o privado. A tutela das condutas já que mesmo fora da função pública, encontra-se investido dela, função pública que integra na vida particular de cada pessoa. O dever negativado ou positivado enquanto necessidade diz respeito ao direito, que o fazer diário haverá de confessar para valer moralmente. Se as ações de respeito à lei, constituem não só “vocação” deste fazer diário, mas um exercício do Estado de direito, ou seja o estado que é de “menoridade” deve ser elevado ao “esclarecimento” para que a  liberdade seja liberdade do sujeito, e não liberdade tutelada. Assim se alguém adotar o axioma de não suportar uma ofensa sem vingá-la, sabendo que isso está fora da lei prática, e que essa não pode concordar em si mesma, pois não pode ser um "imperativo categórico", ela deve se desfazer.         
Os fazeres diários engloba os deveres que são pertinentes á vida, portanto há deveres, que fazem parte da constituição maior e não se faz presente, sendo assim a liberdade do sujeito está submetida a uma legislação mais universal. O imperativo da obrigação do esforço moral constitui fundamento da finalidade. A lei para dar conta da moral necessita que o histórico de representações do sujeito, possibilite a este utilizar-se da razão longe de influências patológicas, com “máximas” que possam transformar-se em “imperativos categóricos”.    

Os escritos sobre Ética possuem como referência:
DUSSEL, Enrique. Ética da Libertação – na idade da globalização e da exclusão. 2002- Editora Vozes – Petrópolis.
 GIOVANNI, Reale, ANTISERI,Dario. Historia da Filosofia: Do humanismo a Kant. 1990 São Paulo - Edições paulinas.
 HERRERO, Francisco Javier. Religião e história em Kant - Edições Loyola.
LECLERCQ, Jacques. As grandes linhas da filosofia  Moral. 1967 - Editora Herder da Universidade de são Paulo.
 OLIVEIRA, Manfredo A. Ética e racionalidade moderna - Edições Loyola.
 PASCAL, Georges. Compreender Kant – Editora Vozes 2ª Edição 2005
 PEREZ, Daniel Omar - Kant Pré-crítico. “A desventura filosófica da pergunta ....”. Editora Universitária Edunioeste – Cascavél-Pr. ISBN 85-86571-19-9 ANO 1998
 KANT, Immanuel. Textos Seletos -Resposta a Pergunta: Que é “Esclarecimento”? 1787 - Editora Vozes 1974
 KANT, Immanuel. Crítica da Razão Prática – 1788. Tradução de Bertagnoli, Afonso. 3ª edição. Edições e Publicações Brasil Editora S.A – S.Paulo 1959 
 KANT, Immanuel. Textos Seletos - Prefácio Primeira Edição da Crítica da Razão Pura -1781 - Editora Vozes 1974 
 KANT, Immanuel. Textos Seletos - Prefácio Segunda Edição da Crítica da Razão Pura -1787 - Editora Vozes 1974 
 KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes - Editora Martin Claret - 2006
 KANT, Immanuel. Textos Seletos – Sobre a Discordância entre a Moral e a Política a Propósito da Paz Perpétua - Editora Vozes 1974.                                           
 KANT, Immanuel. Textos Seletos – Que Significa Orientar-se pelo Pensamento? Editora Vozes 1974. 
KANT, Immanuel. Textos Seletos – Sobre um Suposto Direito de Mentir por Amor à Humanidade - Editora Vozes 1974. 
 VAZ, Henrique C. de Lima. Escritos de filosofia IV – Introdução à ética filosófica. 1999 - Edições Loyola. 

26 de janeiro de 2013

“Tempos Bárbaros” - Tempos de mal-estar

A história de cada um de nós, do país onde vivemos e o planeta que habitamos é guardada em nossas memórias ancestrais. Nossos heróis sejam pessoais ou públicos há que descansar. Não devemos entronizar as lutas, heróis e mestres ancestrais e em nome destes perpetuar a violência com um discurso de valores morais, éticos, de identidade seja nacional ou das subjetividades para reconstruir o caos do mundo em que vivemos.

É nesse caminho de reflexão que Nagib Aoun no jornal on-line L’Orient-Le Jour  de 29/10/2012 vem em sua crônica “Tempo de Bárbaros”, colocar que desencadear em um momento de conflitos a autoflagelação, sentimento de culpa, lamentações “só levam a mais frustação e vingança”. E o que temos haver com isso? falamos de sujeitos em sofrimento. Sujeitos que justificam suas ações em construções de suas histórias passadas e lavadas em sangue, fundamentadas no prazer que o “poder” pode representar. O que se chamou de primavera árabe e que se estende nos conflitos da Síria, hoje Mali, faz parte de uma história complexa que envolve religião, poder político. Muito se fala de estresse pós-traumático, de trauma psíquico. Que falar do psiquismo desse povo mergulhado em dolorosas lutas não só políticas, mas de famílias, clãs que ainda se movimentam no “dente por dente, olho por olho”? Se pensarmos o funcionamento de uma região como o oriente médio como uma estrutura plasmada por instintos e consciência, há que pensarmos num superego, numa lei e que sem Estado de Direito, não pode haver dignidade.   

Se há um caminho para o caos da região, esse caminho é a lei e não a guerra, seja de Estado ou pessoal dos que ocupam lugar no Estado, ou seja a “opção” pelo exercício do perverso, porque a guerra seja ela qual for é perversa, precisa terminar. Mas a lei comporta o dever, a justiça, de forma que a convivência em sociedade seja parte da cultura. Se os apaziguamentos dos sofrimentos psíquicos passam pela palavra, por rever os significados, por exercício de auto domínio, dos impulsos e instintos o apaziguamento civil não está longe disso. Há que repensar os interesses individuais em função dos grupais ou coletivos, há que se pensar em governos da razão e dos instintos. Se estamos vivendo em “tempos bárbaros” fica como questão sobre que tipo de barbárie é a do mundo “moderno” onde a proteção individual justifica o estado de vigilância eletrônica diária, a defesa da liberdade vira uma forma de opressão e a política uma forma de religião. A vida humana continua valendo o preço da quantidade de ódio presente nas sociedades e por sua vez nos indivíduos, e as questões existenciais não se colocam mais no sentido do “ter ou ser”, mas no sentido do parecer ter ou ser. Esse estado e superficialidade pode ser chamado de bárbaro. Em nome da liberdade garante-se o estado da perversidade. Onde “pode tudo”, não há lei e onde não há lei resta o estado de barbárie seja a nível dos sujeitos ou dos Estados.

 Cabe a cada um de nós refletirmos sobre esse mal-estar permanente do mundo “moderno”, construir no dia a dia uma sociedade justa, onde a lei interdita os instintos que violam a plenitude do outro enquanto sujeito, gestando alternativas e estratégias saudáveis de convivência das questões egóicas que se revelam como patológicas, aos narcisismos que se sobrepõe a relações saudáveis.

21 de janeiro de 2013

Poesia - Tecendo a Manhã



Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.
João Cabral de Melo Neto

Ética - Lei Moral

Na reflexão acerca do idealismo transcendental em Kant que é a questão moral, “predicado” de um sujeito e o “dever”, uma “razão posteriormente determinante” em que a lei moral em si é um “imperativo categórico”, estruturante do sujeito. Portanto, orientar-se pela razão prática, implica em compreender que, o florescer do idealismo Kantiano evoluiu como um modelo de ciência, viabilizado pelo movimento, que as ciências físicas e da natureza possibilita. Assim, é possível pensar a metafísica no espaço e no tempo, numa reestruturação metodológica, de forma que as representações do objeto, quando conhecidas a “priori”, pela formulação de conceitos, redefine o lugar do sujeito como aquele que pensa e sente o objeto e suas representações. Nas sociedades orientais, em que o estatuto do casamento é tratado como coisa de Estado e o povo manifesta-se em relação a isso vemos a inexistência de alteridade. Em todo o espaço e tempo da existência humana, a razão percorre sempre os caminhos e problemas metafísicos. Kant irá interrogar que princípios são adequados a tais pensamentos, o que é a crítica da própria razão no seu fazer científico. Na Crítica da Razão Pura percorrerá o caminho para conhecer a razão independente de toda experiência. Os limites de todo conhecimento puro à priori. Mas, a razão também é capaz de determinar a vontade e a ação moral, ou seja, esta não é “empiricamente condicionada”, e então, se estabelece os “imperativos categóricos”, ou seja, a lei moral.  

 As questões que se colocam, quando é exposto tais discussões, que regem um ser e um fazer, numa perspectiva de uma razão prática, são Estado, política e sujeito. Compreendendo que, para Kant, o sujeito é um sujeito moral, e o Estado, como um Estado de direitos. Desta forma a “sabedoria do Estado”, é o direito público, o direito das gentes e o direito cosmopolita. Já a política, é “uma doutrina do exercício do dever”, que não deve vivenciar conflitos com a moral enquanto tal. A vida comunitária só é possível compreender-se com princípios práticos a priori, que constitui “imperativos categóricos”, cujo enunciado Kant nos fala: “ Age de tal modo que possas tratar sempre a humanidade, seja em tua pessoa, seja na do próximo, como um fim; não te sirvas jamais  disso como um meio”; Sem eles seria desprovida de mecanismos de contenção, que limita as ações humanas, como o faz as leis da natureza, estabelecendo a possibilidade da liberdade e assim o ser sujeito. Liberdade que, pela representação do dever determina a vontade do sujeito. Desta forma a lei, sob as suas diversas objetividades (legalidade) e subjetividades (moralidade), constitui-se como realidade estruturante. Kant na Crítica da Razão Prática, “... a lei moral exige a sua observância por dever e não por uma predileção ou por amor ao dever, o que não se deve nem se pode supor” (P.238). No dever da ética kantiana, é possível uma compreensão da razão fundamentada em leis práticas, cujas máximas (princípios subjetivos) não podem conflitar-se, pois representariam uma “vontade patologicamente afetada”. Estar o sujeito “livre” das condições patológicas possibilita a razão, mais que um imperativo, um “dever ser”, uma boa vontade em si mesma; A razão que produz a boa vontade, a produz como um bem supremo. É neste ponto que o conceito de dever contem em si o de boa vontade. Assim amar o outro é se descobrir a si e este prazer é igualmente um dever, uma devoção e o “dever ser”, pode dar um estatuto de alteridade ao sujeito, sem a intervenção das instituições.

20 de janeiro de 2013

A infância é para brincar


E brincando a criança dá significados, ressignifica, constrói e desconstrói seu universo, sua vida na relação triangular com os pais e daí com amigos, colegas. E a infância na modernidade? É a infância do trabalho, da ausência dos pais, da solidão, da internet, da ausência de relações sociais, é a infância adulta, sem limites, sem lei. Aos pais, professores, pediatras, psicólogos, há que refletir nas “doenças” modernas da infância e na presença implicadas como cuidadores. Essa presença possibilita à criança um “fazer sentido” de sua vida do nascimento à morte, garante a continuidade, de sua existência. Não nos sentimos existir, não conquistamos um senso de realidade se alguma continuidade não estiver sendo oferecida e experimentada, é a continuidade corpo-psiquismo, que precisa ir sendo construída e reconstruída a cada passo. São as famílias, grupos, profissionais os objetos mais aptos a oferecer sustentação ao longo da vida, principalmente quando o que está em jogo é a continuidade na posição simbólica do sujeito. Mas, é preciso crescer, expandir-se, se possível, sem rupturas excessivas, e também sem meras repetições. Conter nos oferece condições e vias para a transformação. Sustentar, dar continuidade, transformar são formas importantes do cuidar. Quando falta, há os sofrimentos com a sobrecarga de experiências emocionais obscuras e perturbadoras.

A criança está desde o nascimento frente a frente com esse “outro” diferente, marcado desde sempre pela diferença e pela incompletude; é o outro sexuado e, ele mesmo, desejante, vulnerável, dotado de um inconsciente. Assim o outro cuidador deve ser também uma fonte de questões e enigmas e nesta condição, ele introduz ou desperta uma pulsão, um movimento corpo-psiquismo e uma exigência de resposta; apenas como resposta a esta exigência alguém vem-a-ser.  Está implicado ou em reserva é aprender a dar tempo e espaço, esperar, manter-se disponível sem intromissões excessivas. Há que ressaltar a necessidade de equilíbrio entre estas diferentes formas de presença e alertar-se sobre a possibilidade dos cuidados serem oferecidos não em função das necessidades do cuidador e em prejuízo do cuidado dos sujeitos a quem se destinam. 

O cuidado que não dá sossego, instala a dependência diante da atenção e da aprovação alheia, constrói um estado de alienação.  A moderação da presença implicada e a presença em reserva dependem da capacidade do agente de cuidados conseguir manter-se em reserva e desapegar-se. Ele “deixa ser” e o não-cuidar converte-se em uma maneira muito sutil e eficaz de cuidado. Deixar-se cuidar pelo objeto do cuidado passa a ser em si mesmo uma forma eficaz de cuidar.  Cuidar bem é, entre outras coisas, transmitir bem as funções cuidadoras, é a construção da autonomia. O cuidar converte-se em algo prazeroso e lúdico. Assim o cuidado que se faz presente na “modernidade” em relação à infância é permeado de extremos onde se revela de um lado um acumulo de tarefas e responsabilidades a um desenvolvimento em construção e por outro lado uma ausência, limites, um “tudo pode” na sociedade de consumo. Pode o celular de última geração, internet ilimitada, streaming, ilimitada, o tablet, programação acessada por todas as idades, e como não poderia deixar de ser “roupas de marcas”. Vão sozinhos para a escola, estão sozinhos em casa, onde o cuidado restringe-se ao mínimo, não levando em conta as subjetividades, pois para isso estão aí os profissionais da área de saúde, os professores, e as cobranças do “tem tudo”. E onde fica a falta estruturante? Adultos em miniaturas, distantes da natureza, do brincar, do inventar brinquedos e brincadeiras, não são escutados tampouco escutam. Como quem cuida escuta e toda palavra é apelo e todo apelo implica em resposta, mesmo que tome a forma do silêncio, então não escutam os pais, os professores, os conteúdos escolares. Estão distraídos com objetos que os levam a diagnósticos de TDH, pelo alto índice de exposição à vida on-line e aos jogos competitivos, a quantidade de horas na televisão ou de jogos online ou de Playstation é muito grande. Com a ausência familiar cada vez maior é natural que toda uma sintomatologia apareça.  E a construção do sujeito faltante, porque a falta é estruturante, fica em “suspenso”.

19 de janeiro de 2013

EDITORIAL


Nas reflexões sobre Caminhos da Psique percorreremos pelos caminhos das palavras, das intuições, das representações, dos significantes... Que caminhos são esses que o homem desde os tempos primeiros se interroga? E de qual psiquismo? Um psiquismo que através dos tempos, se interroga se auto define e se autodenomina: alma, psique, psicológico, consciência, inconsciente? Caminhos tecidos, enriquecidos nas lutas, conquistas e provações da vida; Caminhos de sublime luz única; Caminhos que ao percorrerem espinhos e asperezas vão se lapidando, brilhando em todas as cores; Caminhos que vão se transformando em diamantes valiosos; Caminhos que se perdem e se encontram como destinos cujas leis seguem o curso dos rios; Caminhos de dor que se tornam fortes, transformadores; Caminhos que transcendem os instintos da condição de ignorância do homem e alcançam sublime amor; Caminhos que não possuem tempo nem lugar; Caminhos incontáveis como a areia do mar, as estrelas, as galáxias; Caminhos infinitos que se cruzam tecendo fios invisíveis de ternura dando a condição do humano, um Ser que pertence ao universo, integrado a sua harmonia, como o átomo, o éter, a gravidade, a energia, a luz, o som, o desdobramento.

Por certo vivemos em um planeta que passa por constantes transformações, mas que faz uma órbita de perfeito equilíbrio em torno de uma estrela para manter a vida dentro de si equilibrada, pelas leis que regem a natureza e a vida. Sem a lei não é possível o caminho da transformação. Difícil para nós integrarmos esse equilíbrio: muitas dores, sofrimentos, fomes, ódios, guerras, entre indivíduos, comunidades, países, para que o “vencedor” ocupe um “lugar”, um “tempo” de poder como troféu, como se esse existisse. Pura fantasia, ilusão, delírio, alucinação? Assim nos distanciamos do equilíbrio interno e alimentamos a vaidade, a prepotência, arrogância, o narcisismo, a perversão. Nessa complexidade entre a luz e a escuridão, a ignorância vai lentamente se dissipando através do conhecimento, como uma nevoa de ilusão, A ferida narcísica continua demandando um dispêndio de energia para manter esse lugar fictício. Mas “sair” desse lugar é ocupar outra posição, é se implicar, lidar com sua falta, com o seu ser falível, com seu Ser "dividido", com um inconsciente, um consciente e quem sabe um supra consciente a caminho de uma unidade indissolúvel. É assumir a condição de “demasiado humano” e assim tornar-se mais que humano. Portanto os caminhos da psique são complexos, individuais, coletivos, infinitos, mas estão de alguma forma entrelaçados em toda sua beleza, como fios de luz dourada a percorrer, onde um encontra o outro, se encontra e se encontram, caminham juntos. A paz tão sonhada dentro de cada um, em cada país, em cada região deve ser construída no dia a dia nas pequenas transformações que cada pessoa, comunidade, consegue fazer nesta direção. Aqui é um dos pequenos pontos que se ligarão a outros pontos de encontros, para percorrerem juntos esses caminhos, como a fictícia linha do tempo, do amor, mas que se reflete nas formas invisíveis de todo o universo.