19 de julho de 2014

Carta Jung-Freud: Demência Precoce

Burgholzli-Zurique, 31 de marco de 1907
 Caro Professor Freud,
Sem duvida alguma o senhor há de ter tirado suas conclusões do prolongamento de meu tempo de reação. Tive uma forte resistência em escrever, pois ate recentemente me incomodava o tumulto dos complexos despertados em Viena. Só agora as coisas se acalmaram um pouco e assim espero ser capaz de escrever-lhe uma carta mais ou menos sensata. O item mais difícil, sua ampla concepção da sexualidade, já foi a essa altura assimilado, até certo ponto, e posto a prova em diversos casos concretos. De modo geral acredito que o senhor esta certo. O autoerotismo como essência da Demência Precoce se impõe cada vez mais a mim como um aprofundamento importante de nosso conhecimento — onde, de fato, ele ira findar? Seus critérios do estádio agudo podem também ser convincentes, mas qualquer tentativa de prova vai de encontro a grandes dificuldades, principalmente de ordem técnica: a Dem. Precoce só nos permite uma compreensão interna limitada da personalidade. Um determinado caso pode parecer totalmente diverso se o “afastamento da libido” ocorrer num complexo acessível a consciência, ou se, pelo contrario, ocorrer em complexo inconsciente. As conexões entre infantilismo e autoerotismo também se tornam cada vez mais claras. Tenho de confiar agora; mais que antes, em meu próprio julgamento independente, pois as resistências do Prof. Bleuler nunca foram tão vigorosas. Particularmente ele contesta a intencionalidade dos sonhos, o que equivale a negar o efeito dissimulador dos complexos, verdadeiro cerne da interpretação onírica. Bleuler tem insuperáveis resistências inconscientes a analise dos próprios sonhos e associações. Em minhas frequentes discussões com ele, patenteou-se-me que a expressão “libido”, e em geral todos os termos (sem duvida justificados em si mesmos) transpostos para a concepção mais ampla de sexualidade, são incompreendidos ou pelo menos não tem valor didático. Na realidade, evocam inibições emocionais que tornam impossível qualquer tipo de ensinamento. Fui assim forcado a uma longa discussão a fim de deixar claro a Bleuler o que o senhor pretende dizer com “libido”. Não seria concebível, tendo em vista a limitada concepção de sexualidade que prevalece em nossos dias, que a terminologia sexual se reservasse apenas as formas mais extremas de sua “libido” e que um termo coletivo menos ofensivo fosse estabelecido para todas as manifestações libidinais? Rank e outro que simplesmente toma a concepção mais ampla de sexualidade como um dogma de tal modo que até eu, que há mais de 4 anos estudo intensamente seu pensamento, tenho dificuldade em compreendê-la. O público para o qual Rank escreve não a compreendera em absoluto. A relação libidinal entre pessoas hipersensíveis e o objeto precisa ser ilustrada por incontáveis exemplos de intensidade variável. O publico, desse modo, pouco a pouco chegaria a ver que sua terminologia (em especial a “pan-sexualidade”!) se justifica plenamente. Em relação a Rank, fica também a impressão incomoda de que ele “jurat in verba magistri” e carece de empirismo. Mais de uma vez, ao lê-lo, fui levado a pensar em Schelling e Hegel. Mas a teoria que o senhor postula é puro empirismo e empiricamente e que deve ser apresentada. Essa, seja como for, e a tarefa fundamental com que o futuro me acena. Procuro, por conseguinte, métodos capazes de desenvolver a psicanalise da maneira mais exata possível, esperando assim lançar as bases para uma popularização cientifica de seus ensinamentos. Uma de minhas próximas tarefas será documentar os sonhos que exprimem desejos, na Demência precoce, com uma quantidade maior de dados empíricos. Só depois de realizados esse e outros trabalhos preparatórios idênticos, posso esperar chegar mais perto do amago da teoria sexual. Como o senhor disse, os sonhos são decerto mais apropriados para uma “confirmação” subjetiva, e o mesmo foi capaz de demonstrar recentemente com alguns exemplos muito bons. Não mais me assaltam duvidas quanto a correção de sua teoria. Os últimos vestígios foram dispersos por minha estada em Viena, que para mim foi um acontecimento de importância imensa. Binswanger já deve ter lhe falado da tremenda impressão que o senhor me causou. Nada mais direi sobre isso, mas faço votos de que meu trabalho pela sua causa lhe demonstre a extensão de minha gratidão e respeito. Espero, chego mesmo a sonhar, que possamos recebê-lo em Zurique no próximo verão ou no outono. Pessoalmente eu me sentiria no auge da alegria com uma visita sua; foram efêmeras demais as poucas horas que passei a seu lado. Riklin prometeu enviar-lhe o trabalho dele sobre contos de fadas tão logo o tenha terminado, embora isso não seja para já. Forel esteve recentemente em Zurique e aproveitei a oportunidade para pedir a um amigo que se avistasse com ele. Vim a saber que o ignora por completo e que a objeção dele ao meu trabalho e que dou muito pouca atenção a hipnose. Ai é que esta o problema. Minha mulher e eu lhe agradecemos muito, bem como a sua esposa e a toda a sua família, pela maneira gentil com que nos receberam.
Cordialmente, Jung

7 de abril de 1907
Caro colega,
Para sentir-me mais a vontade ao lhe falar que uso um papel diferente. Sua visita foi sobremodo prazerosa e gratificante; gostaria de repetir por escrito várias coisas que lhe confiei verbalmente, em particular que o senhor me encheu de confiança em relação ao futuro, que agora me dou conta de ser tão substituível quanto qualquer outro e que não poderia desejar ninguém melhor do que o senhor, tal como o conheci, para continuar e completar minha obra. Estou certo de que não abandonara essa obra, pois já se aprofundou muito nela e com seus próprios olhos pode ver como é belo, amplo e excitante o nosso tema. Certamente tenho planos de fazer-lhe uma visita em Zurique, durante a qual espero que me demonstre seu famoso caso de Dem. precoce, mas não creio que isso ocorra em breve. Preocupa-me também no momento a incerteza de nossas relações com seu chefe. A defesa de nossa posição recentemente feita por ele na Miinchener medizinische Wochenschrift levara-me a considera-lo digno de confiança, mas eis que o senhor me fala de um grave desvio em direção contraria, desvio que, como eu, o senhor provavelmente interpreta como uma reação às convicções que o senhor levou quando regressou. Como o “complexo pessoal” obscurece todo pensamento puramente logico! Em relação a Dem. Precoce. tenho uma proposta a lhe fazer. Depois de sua partida esbocei algumas ideias sobre o assunto que discutimos. Gostaria de transmiti-las ao senhor, a não ser que prefira — por duas razoes — ignora-las. Primeiro, porque o senhor mesmo as pode ter, e segundo porque talvez não lhe agrade aceitar o que quer que seja. Devo dizer que considero uma formula altamente valiosa um tipo de comunismo intelectual, onde nenhuma das partes se preocupa em tomar nota do que da e recebe. Diga-me por favor, com franqueza analítica, se gostaria ou não de examinar esse material, e peco-lhe que não superestime sem saber. Compreendo suas razões quando tenta suavizar o assunto, mas não acredito que o senhor tenha êxito. Mesmo que chamemos o ics. de “psicoide”, ele continuará a ser o ics.; mesmo que não chamemos de “libido” a forca impulsiva da concepção mais ampla de sexualidade, ela continuara a ser libido, e em cada inferência que tirarmos dela voltaremos ao ponto exato do qual tentáramos desviar a atenção com nossa nomenclatura. Se não podemos evitar as resistências, porque não enfrentá-las desde o inicio? O ataque é, em minha opinião, a melhor forma de defesa. E, talvez, por subestimar a intensidade dessas resistências que o senhor espera desarmá-las com pequenas concessões. O que nos pedem e, nem mais nem menos, que abjuremos nossa crença no impulso sexual. A única resposta e professa-la abertamente. Estou certo de que Rank não ira muito longe. O modo como escreve e decididamente auto erótico e ele carece completamente de tato pedagógico. Além disso, como o senhor observa, não superou a influência da dieta intelectual anterior e se perde em abstrações nada fáceis de seguir. Mas a independência de Rank em relação a mim é maior do que talvez pareça; e um homem capaz, muito moco e profundamente honesto, característica sobremodo valiosa na idade dele. Desnecessário dizer que esperamos muito mais do senhor e da maneira como tratará o assunto. O estudo de Bezzola, que ele me enviou recentemente, de modo muito impessoal e talvez por pura “piedade”, não me parece honesto. As observações anexas são produto de uma covardia pessoal, o que justifica a expectativa de um fim melancólico para esse individuo. Encobrir o fato de que síntese é o mesmo que analise parece impostura grave. Afinal, se pela analise tentamos descobrir os fragmentos reprimidos, é apenas com o fim de junta-los novamente. A diferença essencial — o fato de ele não fazer uso de associações, mas só de sensações — significa simplesmente que o trabalho dele se limita a casos de histeria traumática; em outros casos não se encontra esse material. E pelo que sei da estrutura das neuroses e geralmente impossível solucionar o problema terapêutico pela mera revelação das cenas traumáticas. Consequentemente, ele retorna onde Breuer e eu estivemos, ha doze anos, e desde então nada terá aprendido. Pela “piedade”, merece um puxão de orelha, mas temos mais o que fazer. Ainda esse mês você há de receber duas pequenas publicações minhas, uma das quais e a Gradiva,s que talvez o estimule, espero que sem demora, a contribuir com algo de apelo mais geral para os Papers. Muito grato pela promessa de Riklin. Espero que o trabalho dele corresponda as nossas exigências especiais. Entrarei em contato direto com o senhor quando lhe enviar Gradiva. Na Pascoa estive em visita ao estabelecimento de Kahlbaum em Gorlitz e vi um caso dos mais instrutivos, sobre o qual lhe falaria ainda se essa carta, a primeira desde sua visita, já não tivesse se alongado tanto. Minha mulher gostou muito da carta que sua esposa lhe escreveu. Cabe ao anfitrião, não a visita, agradecer pelo prazer e a honra. Infelizmente ela não pode responder agora, pois sofre de iridociclite (benigna), consequência de uma indisposição estomacal. Na expectativa de sua resposta, subscrevo-me Cordialmente, Dr. Freud.

C.G.Jung - Sigmund Freud – CARTAS - (p. 65-70)

Ao seguirmos as correspondências entre Freud e Jung visualizamos os percursos realizados, as incógnitas, dificuldades, incompreensões e o muito do porvir na ciência. Nessa em especial, deparamo-nos com as questões relativas ao estudo da Demência Precoce, que instigou Freud, Jung e Lacan. Ao analisar as memórias de Dr. Schreber, Freud irá delinear a psicose paranoica, e interrogar do quanto esta se ocupará da arquitetura psíquica consciente e inconsciente, bem como a importância da resistência, principalmente no que diz respeito à Demência Precoce ou Psicose Paranoica. Lacan também irá se deter nessa questão em sua tese de doutorado e no seminário III. O tema continua ainda a ser motivo de grandes estudos, pela forma como compromete a personalidade, ou o ego do sujeito. O conceito de sexualidade é ainda motivo de enigmas, ficando esses pesquisadores com a concepção de “libido”, que é ampla e diz respeito à energia pulsional do sujeito. É encantador a forma como Freud compreende a psicanálise, não só no que diz respeito à livre associação, onde de fragmento em fragmento se reconstitui uma história com novos significados. Louvável as expressões “pan-sexualidade”, “comunismo científico” e a importância do rigor científico. 

14 de julho de 2014

Insensatez Juvenil e Família

Ao longo da história ser jovem, mudam as faixas etárias, e hoje está entre a faixa de idade dos 15 aos 24 anos; teve e tem vários significados para as diversas culturas em seus momentos históricos. Os jovens ao longo da história estiveram inseridos em suas famílias, seus destinos influenciados por estas, sejam quais forem os sistemas políticos, econômicos em que essas famílias estiveram ou estão envolvidas. Dos rituais de iniciação através de lutas físicas, “provas” diversas, o uso da força, a dedicação aos estudos e pesquisas, a arte, os jogos esportivos ou games lúdicos ou patológicos, o uso de substancias psicoativas, enfim diversos objetos de representação da vida em grupo e das estruturas psíquica. Assim a juventude passa por diversos significados ao longo do tempo: força, coragem, habilidades, virilidade, inovação, descobertas, irreverencias. A cultura de cada época exerce influência, mas não é determinante, uma vez que o psiquismo traz a história da hereditariedade, bem como o funcionamento próprio das estruturas psíquicas. Há que ressaltar que a subjetividade da juventude, sua composição biológica, onde os hormônios e redirecionamento dos objetos de amor são a ênfase para algumas das características dos jovens. A influência da história ancestral que habita a memória de cada indivíduo permeia o funcionamento psíquico, influenciando seu destino e suas escolhas.

Um pequeno recorte do percurso da juventude desde as grandes guerras mundiais, em que a mulher deixou o cuidado prioritário do lar, dos filhos, para o mercado de trabalho, que precisava de mão de obra barata, e a reposicionava em relação ao seu lugar na família. Foi importante sua recolocação diante da relação em família, bem como na sociedade, na construção de sua autonomia. Mas se esse novo lugar do feminino discutiu sua sexualidade e significados, importantes de serem realizados, colocou-a frente a enigmas que a distanciam de sua feminilidade, sua função materna, sua essência biológica. Essa desconstrução materna contribui na formação de profundos conflitos psíquicos para ela e para os filhos. Tão pouco a desconstrução materna seja possível sem a desconstrução paterna. Por outro lado, a desconstrução paterna coloca em questão a virilidade masculina, a essência masculina, potencializando recuos em sua evolução intelectual e moral. Na medida em que busca em escala ascendente a confirmação de sua masculinidade, seja pela negação da mãe, como pelo grande acesso a pornografia, hoje tão em alta na internet, na prostituição, no alcoolismo e nas drogas, na troca de parceiras e parceiros. Quebram-se as fronteiras da lei subjetiva, e tudo é possível e permitido. E vamos estar diante de traços de uma estrutura perversa. Em cada cultura com suas características e significados. A família se redefine a ser um agrupamento que se encontram para dormir no mesmo local, com laços frágeis de afeto.

Alguns graduados do Direito propalam que a família é uma instituição falida. Isso é transformar uma máxima em um imperativo categórico. As novas configurações de família atendem a uma demanda econômica e política e a fomentação de novos produtos de consumo, pois os padrões de consumo são regidos pelas relações em sociedade e pelos interesses econômicos e políticos. Assim o movimento feminista colocou-se diante de questões difíceis, pois as mulheres em suas duplas ou triplas jornadas potencializa a família em um campo de luta e competição. A função pai, a função mãe está confusa, pois há uma subversão na lei subjetiva e seus significantes. É a geração que deseja a liberdade e seus filhos também, pois além das questões subjetivas que envolve a lei interna, temos uma geração de filhos, jovens, que possuem todos os objetos tecnológicos, mas não tem pais, foram educados pelas creches, babás, ou sozinhos, sendo “os donos da casa”. Eles gritam e são autoritários com os pais, os avós. A cultura da sabedoria “dos mais velhos” não existe. A relação dos filhos com os pais, não são de filhos, mas de iguais em autoridade. A geração sem pais, tudo pode, não trabalha, vivem ligado em sua maioria mais de 15 horas na internet, em festas, drogas e sexo. Propalam nas redes sociais que são a geração Y, Z, “nem-nem”, que não estuda nem trabalha. Hoje já ocupa as estatísticas em mais de 20% no Brasil. Os valores humanos estão “fora de moda”. É conseguir de qualquer jeito o que quer. Onde estão os pais? Vivendo a sua juventude supostamente “esquecida”. A casa, não é mais o lar, o “porto seguro”, a referência. Os papeis e funções estão confusas, em conflito. O filho conhece todas as transgressões do pai e da mãe. Como encontrar seu lugar?

Para que a juventude tenha o status de época da insensatez é necessário que as funções, os lugares sejam resgatados. O pai deve ser um educador magnânimo de coração. A mãe deve ser como a terra, doação e sabedoria. O respeito, a compreensão devem ser em todas as direções. Há que retomar o lugar de exemplo e referência que os pais já ocuparam, onde mesmo no erro dos filhos acolhe e ensina o discernimento entre o certo e errado, o justo e injusto.  Teoricamente, se pensarmos em um adulto maduro emocionalmente, havemos de compreender que a única época que cabe a insensatez é a juventude, pela imaturidade que lhe é própria. Algum caminho de volta, ou alguns significados hão de ser resgatados ou resinificados, para não corremos o risco de caminharmos para a barbárie da vida fácil, sem trabalho, autonomia, valores morais e caráter.

A Beleza do Amor


“Cumpridas todas as tarefas, ficou tudo na mesma”.
“As leis não são corretas. Tudo está um caos. Contudo insiste em praticar a sua ética: música, humanidade e harmonia. O sábio não deve ter apego. Como sabes, se voltar às costas não será o melhor?”
“Ceder não é ser frouxo. A água é frouxa; no entanto a força e a agressividade não a vencem. O protetor, às vezes tem que ser como a água”.
“A verdadeira benevolência é o amor pela humanidade”.
“Beleza é aquilo que o cavalheiro busca fora de si. Quando corteja, o cavalheiro deve ser educado. No verdadeiro amor não existe o mal”.
Lao Zi

13 de julho de 2014

Funcionamento Obsessivo

A representação é uma defesa e uma lembrança do que foi recalcado

O chamado “Transtorno” Obsessivo Compulsivo está no contexto da neurose obsessiva. É assim que em todas as épocas da história da humanidade, o homem necessitou repetir suas experiências para aprender, reaprender ou vivenciá-las de forma diferente, com outras representações, porque não foi, não é possível reelabora-las, contendo ainda conteúdos de muita dor. Esse é o percurso da estruturação da defesa e funcionamento psíquico na história humana. Então quando falamos em defesa ocorre-nos à lembrança, os perigos que podem nos surpreender durante a vida e que nos ameaçam e como nosso corpo reage e as substancias neuroquímicas envolvidas. A vida na terra é repleta de belezas naturais e de profundos sofrimentos. O mundo moderno vem sendo construído a custa da devastação do planeta e da violação da própria vida, seja do corpo, que a expressa, como do arcabouço moral que a sustenta culturalmente. Nessas ações e reações o conceito de defesa é mais profundo envolvendo o funcionamento ou estrutura psíquica, que implica num recalcamento. Se a estrutura de defesa é formada por experiências traumáticas, sejam ativas ou passivas, que poderiam estar envolvidas não só eventos traumáticos externos, circunstanciais, relacionados à natureza, como também eventos subjetivos, que dizem respeitos às experiências vividas pelo indivíduo, há que indicarmos as experiências relacionadas ao gozo que o sujeito estabelece em relação aos seus instintos primitivos. Seja referente aos vícios referentes ao consumo de objetos,  substancias psicoativas, o sexo, o mundo virtual, o jogo seja em cartas, os games, o jogo psicológico patológico, os conteúdos violentos viciantes, a exposição virtual viciante. Fica cada vez mais difícil estabelecer um tempo para a potencialização de experiências traumática, que apresentam diversos objetos como sintomas.

Todos temos uma história que começa com a hereditariedade. O fato de o psiquismo ser estruturado como defesa e de que o retorno do recalcado é uma “falha” na defesa, mas no sentido da cura, elaboração, novos significados, nos leva a percorrer o caminho dos sintomas, como trilhas, que podem levar-nos às forças do recalque, que emerge muitas vezes em oposição ao ego e por isso conflituosa. Essas estruturas de defesa ou funcionamento psíquico estão sempre em movimento. Não são estáticas, rígidas e a  direção é sempre a preservação do ego, mesmo que para isso a “escolha”, seja uma psicose ou perversão. Haverá sempre algo, ao qual o sujeito não possuía recursos psíquicos para significar, elaborar. Na histeria os sintomas, em geral, por conversão, podem desencadear males físicos graves. É tarefa árdua e difícil tornar consciente algo inconsciente. Os sintomas são as pistas do caminho, que podem ser potencializados com o inicio da vida sexual. O abuso sexual de crianças e adolescentes estão na história da humanidade, deixando marcas de muito sofrimento. No mundo moderno, apesar da existência das leis jurídicas, essa é uma patologia, que persiste. Se os abusadores são cuidadores, pais, professores, irmãos, parentes em diversos graus, vizinhos, religiosos, amigos da família, ou crianças e adolescentes maiores, o fato é que o abuso ocorre na maioria das vezes por muito tempo sob ameaça, e deixa danos difíceis de serem elaborados. A baixa na autoestima, “excesso” de masturbação, a depressão, medos, angústia, exacerbação da libido, e em alguns casos a defesa psicótica, seja mania e depressão, acompanhada ou não de delírios, mas o padrão obsessivo é mantido, como forma de fluir a ansiedade e angústia. Em geral o abusador é alguém que de alguma forma sofreu abuso. Então, temos um padrão de repetição.

Desde o nascimento vemos que as crianças adoecem em função de um funcionamento psíquico neurótico histérico ou obsessivo, cheio de autoacusações. Muitas vezes as incursões sexuais que ocorre entre crianças ou entre essas e adolescentes e adultos não são possíveis de serem recalcadas, por atingirem a idade entre oito e dez anos. Ao retroceder as lembranças a mais tenra idade é possível identificar em que circunstancias ocorreu o trauma sexual, que potencializou o desencadeamento da neurose. Hábitos repetitivos, fobias expressam marca mnêmicas, que uma vez despertadas pelas descargas de afeto levam a eclosão da neurose histérica ou obsessiva ou a funcionamentos psicóticos e perversos que variam em intensidade e “qualidade”, de acordo com a carga de experiências vivenciadas e os recursos psíquicos que o sujeito dispõe para ativar as marcas mnêmicas. Importante reconhecer que preexistem experiências, talvez mais profundas que o trauma vivido e que este pode ser a “ponta do iceberg”. Assim a experiência traumática recalcada, existindo como um traço mnêmico, que ao ser ativado por uma experiência do tempo presente, faz o sintoma.

Pressupõem as obsessões experiências que diz respeito a traumas e a pulsão da energia sexual em uma remota idade ou em circunstancias de violência, cujos traços mnêmicos serão revelados pelos sintomas psíquicos e físicos. O que aparece nos sintomas da neurose obsessiva, não são os traumas ou experiências sexuais que se vivenciou de forma passiva, “mas de atos de agressão praticados com prazer e de participação prazerosa em atos sexuais — ou seja, trata-se de atividade sexual” (Freud, 1896 p.168). A idade cronológica, o amadurecimento emocional, e a forma constitutiva de defesa do sujeito irá determinar, como os traumas e as experiências sexuais precoce potencializarão a saúde mental do sujeito. As vivências recalcadas retornam como autoacusações, que se vinculam as lembranças, pois de alguma forma foram sentidas como prazer. Ao retornarem demandam ressignificação no sentido de se tornarem conscientes, surgindo o sentimento de vergonha e nojo, na reelaboração da defesa. Assim lembrar é baixar as defesas e reelaborar o sofrimento, a formação de compromisso, que substitui as lembranças dolorosas, expressa nas representações e afetos obsessivos. 

Quando falamos de autoacusações inerentes a determinados funcionamentos da neurose obsessiva é importante ressaltar que estas estão vinculadas a conteúdos mnêmicos, que  se ligam a experiências do “presente”, mas pertencem ao passado. O que aparece são as representações patológicas, como um compromisso que o sujeito faz consigo próprio. Os atos repetitivos ou de punição do presente assumem o lugar dos traços de memória, de um sofrimento que não é possível muitas vezes localizar no tempo e no espaço. Articular o substrato dos eventos psíquicos, consciente e inconsciente nem sempre é possível pela força com que o recalque se apresenta.  O conteúdo da representação está articulado aos eventos recalcados, embora nem sempre seja possível revelar. A autoacusação pode revelar-se de forma hipocondríaca, compulsão de asseio, limpeza, consumo, comida, bebidas, controles obsessivos de trabalho e pessoas, angústia social, certificar-se das ações realizadas, angústia religiosa, delírios de ser observado e outras representações que precedem um sentimento, de culpa. Os sintomas são retorno do recalcado. Um conjunto de sintomas de espectro mais amplo e de espectro menor se forma para sustentar a defesa. A neurose obsessiva estabelece um compromisso de “acerto de contas”, expresso na luta defensiva para “recalcar o retorno do recalcado” que evolui  para ações obsessivas, repetitivas, no sentido de barrar as lembranças.

Várias são os recursos utilizados pelas pessoas para lidar com o funcionamento obsessivo: desviar os pensamentos obsessivos em um sentido contrário, racionalizar os pensamentos no intuito de retirar o afeto existente, centrar-se nas lembranças conscientes, o que pode levar a um gasto de energia, que esgota o ego. Isso possibilita medidas de penitencia, cerimoniais opressivos (os tiques), medidas de precaução referentes a fobias, superstição, fixação em detalhes. “Os casos graves desse distúrbio terminam na fixação das ações cerimoniais, ou num estado generalizado de mania de duvidar, ou numa vida de excentricidades condicionada pelas fobias” (Freud, 1896 p.173). Na época do primeiro recalcamento da lembrança, surge a consciência da responsabilidade, da implicação do sujeito nos fatos que desencadearam sua neurose. O que fortalece a neurose é a intuição de que algo houve. Então permanece a dúvida que confronta com a “certeza” de viver uma vida moralmente correta, ao menos durante o período em que a defesa é bem sucedida. A essência obsessiva das formações psíquicas é a possibilidade das lembranças virem a se tornar consciente, assim as representações se ligam as obsessões de forma mais ou menos forte, “esclarecida” ou “investida de energia”. Quanto mais consciente as ligações entre as representações e as lembranças forem se tornando, maior o percurso realizado no sentido da “cura”, que é um percurso longo, doloroso, implica em renúncias, autoconhecimento, desenvolve-se lentamente, mas possível de ser trilhado.

Referências
FREUD, S.  – OBSERVAÇÕES ADICIONAIS SOBRE AS NEUROPSICOSES DE DEFESA (1896), Obras Completas de Psicanálise - volume III. Rio de Janeiro, Imago - 1996. 

6 de julho de 2014

O Caminho e o Desejo


O Caminho é uma constante não-ação
Que nada deixa por realizar
Se reis e príncipes pudessem resguardá-lo
Os dez mil seres iriam se transformariam por si
Porém, se na transformação despertassem desejos
Eu iria estabilizá-los através da simplicidade do sem-nome
A simplicidade do sem-nome também se inicia no não-desejo
O não-desejo traz quietude
O céu e a terra, por si, estarão em retidão

TAO TE CHING -O Livro do Caminho e da Virtude - Lao Tse - Tradução do Mestre Wu Jyn Cherng

4 de julho de 2014

Poesia - Fala da Alma


É uma brisa leve
É uma brisa leve
Que o ar um momento teve
E que passa sem ter
Quase por tudo ser.
Quem amo não existe.
Vivo indeciso e triste.
Quem quis ser já me esquece
Quem sou não me conhece.
E em meio disto o aroma
Que a brisa traz me assoma
Um momento à consciência
Como uma confidência.
Fernando Pessoa 

30 de junho de 2014

"Subestimação do CONCEITO DE PERIGO"



O que é assustador nesse caso da criança Marina de 8 anos na França é o fato de que todas as evidencias de abuso infantil estavam visíveis, mas nenhum profissional ou instituição enxergou: as ausências na escola, não foram consideradas relevantes, os vizinhos silenciaram-se, “os pais de Marina, particularmente manipuladores encontravam uma explicação para tudo (se ela come lanches de outras pessoas, é porque ela é bulímica, se tiver inchado o rosto, é uma conjuntivite muito reativo, etc.) Suas palavras são raramente questionada”. Na noite de sofrimento que levou à morte da criança, em agosto de 2009 (privação de refeições, banho de água fria à noite, espancamentos, insultos, isolamento à noite no porão). Quando no hospital, na frente de seu pequeno tamanho, especialmente o rosto, que carrega as marcas de abuso, e atraso no desenvolvimento, os médicos procuram uma doença rara.
O caso é novamente tornado público por ocasião da Conferência Nacional de Proteção das Crianças, na França, em 30 de Junho e 1 de Julho 2014. É possível novas resoluções quando todo um sistema de proteção falha. Que dizer das crianças no Brasil e em todos os países do mundo?
Os pais foram condenados a 30 anos de prisão em 2012. Importante ressaltar que crianças e adolescentes “têm o reflexo de proteger os seus pais”, mesmo que esses sejam seus abusadores. Se os adultos não elaboraram, resinificaram, os abusos dos quais foram vítimas, como vão enxergar no outro algo que não capazes de enxergar em si próprios? Lembramos então a experiência do reflexo espelhar.

19 de junho de 2014

A “Carta 18” e os Afetos Sexuais

“…Existe ainda uma centena de lacunas, grandes e pequenas, em minhas ideias a respeito das neuroses. Mas estou-me aproximando de um ponto de vista abrangente e de alguns critérios gerais de abordagem. Conheço três mecanismos: transformações do afeto (histeria de conversão), deslocamento do afeto (obsessões) e (3) troca de afeto (neurose de angústia e melancolia). Em todos os casos, é a excitação sexual que parece sofrer essas alterações, mas o estímulo para elas não é, em todos os casos, algo sexual. Ou seja, em todos os casos em que as neuroses são adquiridas, elas o são devido a perturbações na vida sexual; mas existem pessoas nas quais o comportamento de seus afetos sexuais é perturbado hereditariamente, e elas desenvolvem as formas correspondentes de neuroses hereditárias. Os aspectos mais gerais a partir dos quais posso classificar as neuroses são os seguintes:
(1) Degeneração.
(2) Senilidade. E o que significa isto?
(3) Conflito
(4) Conflagração.
Degeneração: significa o comportamento inatamente anormal dos afetos sexuais; desse modo, os processos da conversão, do deslocamento e da transformação em angústia ocorrem na proporção em que os afetos sexuais desempenham um papel no decurso da vida.
Senilidade: é evidente. Por assim dizer, é uma degeneração normalmente adquirida na velhice.
Conflito: coincide com minha concepção de defesa [rechaço]; compreende os casos de neurose adquirida em pessoas que não são hereditariamente anormais. O que é rechaçado é sempre a sexualidade.
Conflagração: é uma concepção nova. Significa o que se pode chamar de degeneração aguda (por exemplo, nas intoxicações graves, nas febres, no estágio inicial da paralisia geral) — ou seja, catástrofes em que há perturbações dos afetos sexuais sem causas desencadeantes sexuais. Talvez as neuroses traumáticas pudessem ser abordadas sob esse enfoque.
Naturalmente, o ponto central e principal de todo esse assunto continua sendo o fato de que, em consequência de determinados fatores nocivos sexuais, até mesmo as pessoas sadias podem adquirir as diferentes formas de neurose. O acesso a uma visão mais ampla é proporcionado pelo fato de que, nos casos em que uma neurose se desenvolve sem um fator nocivo, pode-se demonstrar a presença, desde o início, de uma perturbação similar dos afetos sexuais. “Afeto sexual”, naturalmente, é tomado no seu sentido mais amplo, como uma excitação de quantidade definida.
Posso apresentar-lhe o meu mais recente exemplo para apoiar essa tese:
Um homem de 42 anos, forte e elegante, de repente desenvolveu uma dispepsia neurastênica, aos 30 anos, perdendo uns 25 quilos de peso, e a partir daí viveu uma vida limitada e neurastênica. Na época em que isso aconteceu, aliás, ele tinha combinado seu casamento e estava emocionalmente abalado pela doença da noiva. Salvo esse aspecto, porém, não havia fatores sexuais nocivos. Ele se masturbou mais ou menos por um ano, dos 16 anos aos 17 anos; dos 17 em diante, passou a ter relações sexuais normais; muito raramente, coitus interruptus; nenhum excesso, nenhuma abstinência. Ele próprio atribui a causa à sobrecarga a que submeteu sua constituição até a idade de 30 anos: trabalhava, bebia e fumava muito, levava uma vida irregular. Mas esse homem vigoroso, sujeito [apenas] a fatores nocivos corriqueiros, nunca (nunca, entre os 17 e os 30 anos) foi propriamente potente: jamais conseguiu praticar mais de um coito em cada ocasião; sempre ejaculava rapidamente, nunca fez pleno uso de seu sucesso [inicial] junto às mulheres, nunca conseguiu penetrar com facilidade a vagina. Qual era a origem de sua limitação? Não sei dizer. O interessante, todavia, é que isso estava presente justamente nele. Aliás, tratei de duas de suas irmãs, portadoras de neuroses; uma delas está entre as minhas mais bem-sucedidas curas de dispepsia neurastênica”.

Dirigido a Fliess, este extrato de documento, é mais um escrito em que Freud aborda seus estudos sobre as neuroses, seus mecanismos, ou seja,  a transformações do afeto (histeria de conversão), quando os sintomas surgem no corpo como doenças físicas. Deslocamento do afeto (obsessões), quando a formação de compromisso e as compulsões, as dúvidas assumem importância.   Troca de afeto (neurose de angústia e melancolia), que aproximará da psicose, onde os delírios e alucinações passam a ocupar-se do real.

Interroga acerca da energia sexual e seus problemas, quando não equilibrada e alinhada ao sentido do destino que o sujeito percorre, não deixando de levar em consideração as questões relativas à defesa e à hereditariedade. Na classificação das neuroses sugere algo de inato, ou seja, aquilo que “nasce com o sujeito”, é constitucional. Isso significa que pode revelar-se em qualquer momento da vida, mesmo que a madureza tenha alcançado uma idade avançada. Ressalta as neuroses desencadeadas por catástrofes outras, e que afetam a vida sexual do sujeito ou neuroses desencadeadas por sujeitos sadios em função de “determinados fatores nocivos sexuais”. Fica então bem exemplificado o caso tratado por Freud.

Importante ressaltar que “fatores sexuais”, não se referem necessariamente ao sexo biológico, mas principalmente à pulsão de energia que diz respeito à sexualidade, aos afetos, que pode expressar-se nas mais variadas formas: sejam por sentimento exacerbado de narcisismo, de vaidade, arrogância, poder, ou seja, aquilo a que o sujeito desloca seu prazer e que pode causar-lhe sofrimento.

Referência
FREUD, S.  – CARTA 18 (1894), Obras Completas de Psicanálise - volume I. Rio de Janeiro, Imago - 1996.

15 de junho de 2014

Homem e Natureza


Nós somos seres da natureza!

“Ele foi escolhido como mascote da Copa do Mundo no Brasil por ter a capacidade de se transformar em uma bolinha, mas essa característica do tatu-bola acaba funcionando como um gol contra a espécie, se o time adversário que ele encontrar pela frente for de seres humanos”.
“Toda vez que se assusta, em vez de correr em disparada ou cavar um buraco, como outros tatus, o bola se enrola dentro de uma dura carapaça. O que ao longo da evolução foi uma excelente estratégia para evitar a maioria dos predadores, no convívio com humanos, porém, faz com que ele seja facilmente pego pelas mãos por caçadores. O mamífero aparece como "vulnerável" na Lista Vermelha de espécies ameaçadas de extinção divulgada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN)”.

7 de junho de 2014

Poesia - As sem-razões do amor


Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
Carlos Drummond de Andrade  

Movimento Psíquico

Eventos traumáticos podem ter diversos encadeamentos e consequências. Diversas causas que podem pré-dispor a uma patologia. Eventos traumáticos não se resumem a um único fato, até porque possui um percurso, difícil de ser situado no tempo. As situações traumáticas podem desencadear um obstáculo interno a satisfação existencial, um sentimento de frustração, de autopunição, baixa autoestima, um sentimento de desagregação do ego, que sinaliza uma frustração narcísica. Enquanto a necessidade de amor é satisfeita, enquanto suas relações estão em harmonia é possível o sujeito está em equilíbrio, se ele possui um funcionamento, recursos psíquicos, que suportam as provações da vida. Embora seja mais “fácil para o destino que para o médico ocasionar uma cura”, quando este se compreende fazendo parte do destino do paciente, torna mais fácil o acesso ao sofrimento do sujeito.

A frustração seja ao que diz respeito às relações e funções sociais, cuidadoras, subsistência, afetivas, trabalho, do sujeito, submete-o a uma tensão psíquica. Para não adoecer necessita transformá-la em energia criativa no sentido do mundo externo e sublimar a tensão. Diante da frustração, seja por quais motivos se manifeste, ela pode afastar o sujeito da realidade, voltando-o para a fantasia, um mundo a parte, criando “novas estruturas de desejo, revivendo traços esquecidos” e que estariam “distantes” da realidade de seu mundo atual, mas que se contrapõe em um laço com o mundo externo, no sentido de torná-lo suportável, ou seja, a fantasia é um recurso psíquico que testa o nível de contato do psiquismo com a realidade e o quanto se move de retroativo. Os sintomas são assim satisfações substitutas e incompatíveis no sentido da mudança no mundo externo, que revelará o conflito, a se defrontar com uma fragilidade na resistência.

Outro movimento possível do psiquismo é realizar um grande esforço interno para que o sujeito sinta-se satisfeito, apesar das frustrações. Nesse sentido ele adoece pelo esforço de adaptar-se ou atender as exigências da realidade, acumulando grandes dificuldades internas, devido à inflexibilidade. O esforço para não fazer mudanças internas e ao mesmo tempo modificar-se gera um conflito, muito maior do que a tentativa de mudança no mundo externo, que se revela nos sintomas no corpo. Então vamos ter na sociedade atual, principalmente entre os jovens, que vivenciam suas frustrações, a tatuagem para marcar a identidade a que pertence, marcar no corpo os conteúdos difíceis de serem incorporados, assimilados pelo sujeito, marcar virilidade, uma vez que esta pode está ausente no pai, marcar algo traumático através de símbolos, encontrar um lugar para determinados conteúdos que estão na história do sujeito e são difíceis de serem simbolizados. Se forem lembranças, sentimentos ficam no corpo como um evento de passagem ao ato, que não é aprofundado, ficando na superfície. Uma linguagem do inconsciente que remete a um sofrimento  ainda difícil de ser falado, elaborado, acalentado, curado, que necessita de empatia. A marca no corpo reflete o horror das experiências que são difíceis de serem faladas, elaboradas. Esse é um esforço interno manifestado no corpo, para adaptar-se ao mundo externo.

No corpo está sempre a manifestação do psiquismo e neste há sempre a manifestação do corpo. Todos os esforços de “superação”, elaboração, simbolização, são louváveis, mas em sua grande maioria fracassam ante o teste de realidade. Se fatores como disposição, hereditariedade, experiências que antecedem a concepção forem potencializadas no sentido de fragilizar os recursos psíquicos da pessoa, então marcar seu corpo vai possibilitar um curso de sofrimento maior, pois também estará em curso os mecanismos de autoflagelação, autopunição, baixa autoestima.

As frustrações, as perdas, as decepções podem ao longo do tempo desencadear doenças, não só pela ausência de recursos psíquicos, contextos de vida, como pelo excessivo gasto de energia do corpo, principalmente quando atingem vários aspectos da vida, principalmente aqueles em que o psiquismo está mais pré-disposto. É possível também que uma forma de retardar o aparecimento de uma neurose ou processo psíquico é inibir o desenvolvimento psíquico e biológico, “adquirindo” determinadas “limitações”, para lidar com as exigências da realidade, mantendo um estado de “doença”, que funciona como defesa frente a realidade. Isso remete a fixações em determinadas vivências, onde as exigências da realidade são remetidas a repetição de experiências, de grande pulsão, energia e que não se dissipa, mesmo com o amadurecimento, adquirindo novas roupagens, a não ser que se tratem, se curem. O esforço ou a ausência de superar as fixações irá pulsionar a “escolha” do funcionamento psíquico.

O fato de pessoas permanecerem “saudáveis” até determinado percurso da vida, quando então, se defrontam com determinadas experiências, ligadas a algum traço de memória, que ainda requer elaboração, superação e que se apresenta aparentemente como se não houvesse conexão com seu percurso de evolução, revela que apesar das mudanças que ocorrem ao longo do processo evolutivo, o sujeito, está submetido a quantidade e qualidade de energia, de pulsão em sua economia mental, que pode ser alterada para mais ou para menos. Esse desequilíbrio entre o mais e o menos irá perturbar o equilíbrio de sua saúde mental. Essa quantidade não é absoluta, mas a quantidade de energia que o ego consegue lidar, de manter a tensão em equilíbrio, sublimar, por isso que a fala enquanto instrumento de linguagem e as diversas formas de linguagem contribui para descarregar essa energia, elaborá-la.

Essa dinâmica psíquica, tão delicada e ao mesmo tempo forte, uma vez afetada por doença orgânica, por alguma exigência de energia, pode ser um facilitador do desenvolvimento de uma doença psíquica, que poderia ficar latente. Mas como tudo demanda cura, há que se formarem as circunstancias para tal. Há sempre o conflito entre o ego e as energias circulantes e as pessoas que melhor harmoniza esse conflito tendem a manterem-se sadias.
Sabemos que não existem estruturas de funcionamento puras e que o ciclo de conflito ou crises psíquicas dá-se como ondas sucessivas com intervalos mais harmonizados, semelhante ao equilíbrio entre quantidade e qualidade de energia, que compõe as substancias que formam o sujeito. As diferentes formas de economia ou energia mental faz parte da constelação patogênica, que o ego não pode desviar-se sem algum dano, pois se articula com os meios que dispõe a individualidade peculiar do sujeito e da realidade. A essência dos fatores precipitantes dificilmente é acessível, enquanto subjetividade. Para isso há que se retornar como uma onda infinitesimal, cujo calculo matemático é impossível.

Referências
FREUD, S.  – TIPOS DE DESENCADEAMENTO DA NEUROSE (1912), Obras Completas de Psicanálise - volume XII. Rio de Janeiro, Imago - 1996.

Equilíbrio


Para querer iniciar o recolhimento
É necessário consolidar a expansão
Para querer iniciar o enfraquecimento
É necessário consolidar o fortalecimento
Para querer iniciar o abandono
É necessário consolidar o amparo
Para querer iniciar a subtração
É necessário consolidar o aumento
Isto se chama breve iluminação (ampliação da consciência)
O suave e o fraco vencem o rígido e o forte
Os peixes não podem separar-se do lago
O reino que tem o instrumento afiado
Não pode colocá-lo à vista do homem
TAO TE CHING - O Livro do Caminho e da Virtude - Lao Tse - Tradução do Mestre Wu Jyn Cherng

11 de maio de 2014

Jung e Freud - “Estou a caminho, é verdade, mas ainda não cheguei ao destino”...

Burgholzli-Zurique, 29 de dezembro de 1906
Caro Professor Freud,

Com toda a sinceridade lamento que seja eu, justamente eu, quem lhe causa um aborrecimento. Compreendo muito bem que o senhor só possa estar insatisfeito com meu livro, já que ele é por demais implacável ao tratar de suas pesquisas. Tenho perfeita consciência disso. O principio fundamental que me guiou ao escrevê-lo foi: consideração pelo publico acadêmico alemão. Se não nos dermos ao trabalho de apresentar a esse monstro de sete cabeças todo o alimento servido com bom gosto numa bandeja de prata, ele não mordera como vimos em incontáveis ocasiões anteriores. Por conseguinte e de perfeito interesse para nossa causa dar atenção a todos os fatores potencialmente capazes de estimular-lhe o apetite. No momento atual, infelizmente, ai se incluem certa reserva e a insinuação de um julgamento independente em relação as suas pesquisas. Foi isso que determinou o teor geral de meu livro. As reformulações especificas de seus enfoques procedem do fato de não haver entre nós uma concordância absoluta quanto a certos pontos. E talvez isso se deva a que: I - o material de que disponho é totalmente diferente do seu. Trabalho em condições extremamente difíceis, quase sempre com pacientes insanos sem instrução, e ainda por cima com as evidencias invulgarmente ardilosas da Demência precoce. II - minha educação, meu ambiente e minhas premissas cientificas são radicalmente diferentes dos seus. III - minha experiência, comparada a sua, e mínima. IV - quer em quantidade, quer em qualidade de talento psicanalítico, a balança pende distintamente em seu favor. V. há de pesar muito na balança a ausência de contato pessoal com o senhor, uma falha lamentável em minha formação preparatória. Por todas essas razoes considero provisórias e meramente introdutórias as formulações contidas em meu livro. Sou-lhe, portanto extraordinariamente grato por qualquer tipo de critica, mesmo as desagradáveis, pois o que mais necessito é de oposição, uma oposição, evidentemente, que se justifique. Lamento muito que sua interessante carta tenha sido interrompida de modo tão brusco.
O senhor acertou em cheio nos pontos fracos da minha analise do sonho. De fato conheço os dados e os pensamentos do sonho bem melhor do que disse. Conheço intimamente o sonhador — que sou eu. O “fracasso do casamento rico” refere-se a algo essencial que indubitavelmente esta contido no sonho, mas não do modo que o senhor pensa. Minha mulher é rica. Por varias razoes fui recusado, da primeira vez que lhe pedi a mão; mais tarde fui aceito e me casei. Sob todos os aspectos sou feliz com minha mulher (não por mero otimismo), embora, naturalmente, isso não seja suficiente para impedir tais sonhos. Portanto nunca houve um fracasso sexual; mais provável seria existir um fracasso social. A explicação racionalista “restrição sexual” e, como eu disse, um simples anteparo conveniente posto em primeiro plano e que oculta uma vontade sexual ilegítima, que não deveria ver a luz do dia. Um determinante do pequeno cavaleiro, que em minha analise em principio evoca a ideia de meu chefe, e a vontade de ter um menino (temos duas meninas). O fato de ter dois filhos homens o condiciona totalmente meu chefe. Fui incapaz de descobrir uma raiz infantil em qualquer parte. Tenho também a impressão de que o “fardo” não foi suficientemente esclarecido. Mas não consigo chegar a uma interpretação. Apesar de o sonho não ter sido completamente analisado, julguei que poderia usa-lo como um exemplo de simbolismo onírico. A analise e o uso de nossos próprios sonhos é, na melhor das hipóteses, uma empresa arriscada; por mais objetivos que pensamos ser, sucumbimos repetidamente às inibições que emanam do sonho.
Quanto ao conceito de “indistinção”, compreendo perfeitamente que ele pareça bem desagradável de seu ponto de vista. Não é a ultima palavra, decerto, e como conceito não presume muita coisa. Mas em minha opinião tem as vantagens de: I. ligar-se a psicologia de Wundt e II. proporcionar uma imagem visual que torna acessíveis, a compreensão humana ordinária, as ideias vagas a ela associadas. A meu ver esse conceito explica apenas que a imagem onírica e suscetível de substituição, falhando em explicar a procedência e destino. Em lugar de uma ideia “indistinta”, poder-se-ia igualmente dizer uma ideia “pobre em associações”. Mas prefiro “indistinta”. Não sei se um erro de principio se oculta na obscuridade. No momento só o senhor pode decidir. Mas não se deixe levar pela impressão de que estou loucamente disposto a diferençar-me do senhor pela maior divergência de opinião possível. Falo das coisas como as compreendo e como as julgo certas. Qualquer diferenciação, de resto, chegaria tarde, posto que as sumidades da psiquiatria já me deram por perdido.
Basta-lhes ler, num informe, que assumi a defesa de sua posição. O estudo de Aschaffenburg ergueu uma onda de protesto contra o senhor. Diante dessas dificuldades terríveis não ha provavelmente outra alternativa senão a dosis refracta e uma nova forma de medicação.
Atenciosamente, Jung

1 de janeiro de 1907
Caro colega,

O senhor incorre em grave erro supondo que seu livro sobre a demência precoce não me tenha entusiasmado. Ora, nem pense nisso. O simples fato de eu ter proposto uma critica deve bastar para convencê-lo. Fosse outra minha opinião, a solução seria utilizar meios diplomáticos para disfarçá-la, pois seria sobremodo imprudente ofender o colaborador mais capaz, ate agora, de se ligar a mim. Na verdade considero seu ensaio sobre D. pr. como a mais rica e significativa contribuição aos meus esforços de que já tive noticia, e entre meus alunos de Viena, que levam sobre o senhor a vantagem talvez questionável de um contato pessoal comigo, sei de apenas um cuja compreensão pode ser igualada a sua; nenhum porem se mostra tão capacitado e disposto a fazer pela causa o mesmo que o senhor. Eu pretendia escrever uma carta mais longa; fiquei a meio caminho por motivos alheios, mas também porque o palpite sobre a autoria do sonho, que o senhor confirma, recomendava que me mantivesse em silencio. Achei apenas que, sem se trair, o senhor poderia ter chegado a acentuar a interpretação tora = pênis e o galope “alternativo”, cavalo – carreira, sabendo que foi por simples precaução diplomática que deixou de demonstrar o primeiro ponto. O único ponto que me pareceu incorreto foi sua identificação do desejo realizado no sonho, que, como não ignora, só pode vir à luz ao termino da analise, mas que por razoes teóricas fundamentais deve diferir do que o senhor afirma. Caso não leve a mal uma tentativa de influencia-lo, gostaria de lhe sugerir que desse menos atenção a oposição que nos enfrenta e não a deixasse afeta-lo tanto em seus escritos. As “sumidades” da psiquiatria na realidade não contam muito; o futuro nos pertence, a nós e as nossas ideias, e as gerações mais novas — ao que tudo indica por toda parte — enfileiram-se ativamente conosco. Vejo isso em Viena, onde como sabe sou sistematicamente ignorado pelos colegas e periodicamente aniquilado por um escriba qualquer, mas onde minhas aulas, apesar disso, atraem quarenta ouvintes atentos vindos de todas as faculdades. Agora que o senhor, Bleuler e de certo modo Lowenfeld conseguiram arranjar-me uma audiência entre os leitores de livros científicos, o movimento em favor de nossas novas ideias continuará irresistivelmente, malgrado todos os esforços das autoridades moribundas. Creio que seria uma boa politica dividirmos o trabalho de acordo com o caráter e a posição de cada um de nós, que o senhor e seu chefe tentassem agir como mediadores enquanto eu continuo a fazer o papel do dogmatista intransigente que espera que o publico engula essa pílula amarga. Mas peco-lhe que nada sacrifique de essencial ao tato pedagógico, a afabilidade, e que não se desvie muito de mim, quando na realidade esta tão perto, pois se o fizer poderemos um dia ser jogados um contra o outro. Estou firmemente convencido, no intimo, de que nas circunstancias especiais em que atuamos nossa melhor diplomacia e a absoluta franqueza. Inclino-me a tratar os colegas que oferecem resistência exatamente como tratamos pacientes na mesma situação. Muito poderia ser dito acerca da “indistinção” que supostamente torna supérflua grande parte do trabalho habitual sobre sonhos; mas não cabe numa carta. Talvez lhe seja possível dar um pulo a Viena antes de sua ida a América (não falta muito). Eu teria imenso prazer em passar algumas horas discutindo essas questões com o senhor. Se nada escrevi sobre parte considerável de seu livro é porque estou inteiramente de acordo; ou melhor, cumpre-me apenas aceitar sem discussão suas explicações. (Ainda assim acredito que meu caso deva ser diagnosticado como autentica paranoia.) Mas também aprendi muita coisa nova. Por algum tempo preocupei-me a fundo com o “problema da escolha da neurose”, que como diz acertadamente não é esclarecido adequadamente em minhas observações. Errei por completo na primeira tentativa de explicação e desde então passei a ter mais cautela. Estou a caminho, e verdade, mas ainda não cheguei ao destino. Quanto a sua inclinação de recorrer, a proposito disso, as toxinas, permito-me observar a omissão de um fator ao qual, sei muito bem, atribuo muito mais importância que o senhor, no presente momento; refiro-me, como já ha de ter notado, a + + + sexualidade. O senhor a põe de lado, ao tratar do problema, enquanto eu me sirvo dela, mas não chego a uma solução; nada surpreendente assim que nenhum de nós saiba algo a respeito. “Nemo me impune lacessit”, que aprendi na escola, ecoa ainda em meus ouvidos. Os antigos sabiam que Eros é um deus inexorável. Meus melhores votos pelo Ano Novo. Espero que continuemos a trabalhar juntos e não permitamos que mal-entendidos se interponham entre nós.
Cordialmente, Dr. Freud

C.G.Jung - Sigmund Freud – CARTAS - (p. 56-60)

Maravilhosas preciosidades de dois grandes estudiosos e suas interrogações. Desde as condições de trabalho de cada um, o estudo sobre os sonhos, os conceitos de “indistinção” e “associações”. O respeito, afetividade, e aproximações teóricas existente entre eles, as oposições e divergências e dificuldades, principalmente ao que Freud refere-se a “escolha da neurose”. E não poderíamos deixar de lembrar, aquilo que “as sumidades” construíram como uma oposição ou divergência fica a frase: “Espero que continuemos a trabalhar juntos e não permitamos que mal-entendidos se interponham entre nós”. E assim interrogamos: quantos mal-entendidos são construídos por questões egoicas.

10 de maio de 2014

“Escolha” e Defesa

É possível supor que quando falamos de escolha temos alternativas, caminhos, ou formas de existir. Nem sempre as escolhas são possíveis, pois quando há um rompimento com a lei, o que fica diz respeito ao compulsório, obrigatório, ou seja, um retorno à lei. Assim quando falamos da escolha da neurose ou da estrutura é mais complexo, porque nos vem a imagem de várias possibilidades de estrutura diante de um sujeito em desenvolvimento e ele, por razões enigmáticas “escolhe” uma em detrimento da outra.  Freud pensou o que ele denominou de “a escolha da neurose”, em diversas formas, indo e vindo, mas permanecendo o enigma da “escolha”. Da passagem pela questão da hereditariedade ou às etapas do desenvolvimento cronológico do ser humano, do período em que ocorreu uma experiência traumática, e que o único recurso foi  determinada defesa. Embora a questão da gênese situa-se “na mais remota infância”, assim como os conteúdos recalcados.

A onda pulsional, de energia, que cerca o desenvolvimento do ser humano irá possibilitar ou não a repressão, algo que deveria ser experimentado como repugnância, é experimentado como prazer. A sexualidade na constituição do humano e sua provação na triangulação familiar, acrescido do enigma que habita cada um, desde que é gerado, há muito de complexo nos caminhos que percorre. Se da neurose histérica, obsessiva, as psicoses e perversões, os traços que se intercruzam são “arestas” “depurações” a serem percorridas por cada indivíduo. Se na histeria há uma identificação com a pessoa amada, nas psicoses e perversões  é desfeita a identificação, para figuras exteriores, mas os traços existentes do narcisismo deixa obscuro esse rompimento, pois algo de amor existiu e permanece, sendo difícil identificar em que tempo.

É certo que a ciência há que avançar no estudo do psiquismo humano, fora do materialismo, aproximando-se de outras áreas do conhecimento. Como diz Freud: “O problema de saber por que e como uma pessoa pode ficar doente de uma neurose acha-se certamente entre aqueles aos quais a psicanálise deveria oferecer uma solução” (p.341). É o que remete a “escolha” do funcionamento psíquico. Todos trazem ou não disposições ao nascer de determinantes patogênicos, assim como as circunstancias da vida constitui provações de “escolhas” de caminhos, defesas, que vão inserindo o constitucional. Todas as funções psíquicas sejam a função intelectual, sexual, emoções, sentimentos, raciocínios de juízo de valor, ou capacidade de julgamento racional imparcial, sublimações, passam por um longo e complicado desenvolvimento, por caminhos tortuosos, que demandam muito discernimento. Nesses caminhos tortuosos do desenvolvimento, é possível que algumas funções fixem-se em determinadas etapas, que pode evoluir ou regredir em função de circunstancias internas ou externas.

As interrogações sobre a “escolha” do funcionamento psíquico, não deve ficar como um problema para a pesquisa biológica. É fato que algumas pré-disposições para desenvolver estarão vinculadas a eventos que venham pulsioná-las a repetição, desde a gestação. Seu aparecimento tardio revela a cronificação de fixações e disposições primitivas. Complexo identificar em que ponto ocorreu inibições de uma ou mais função psíquica. Todos os fatores envolvidos estão marcados no inconsciente e num processo de livre associação “todos possuem, em seu próprio inconsciente, um instrumento com que podem interpretar as elocuções do inconsciente das outras pessoas” (p.344), na medida em que se desenvolve o autoconhecimento e um distanciamento “crítico”, onde o afeto não se configura como um véu a encobrir a essência dos seres, que se inter-relacionam.

É possível dizer que na dialética história do sujeito o objeto de escolha, suas determinações, devem se possível, em um desenvolvimento saudável está mais distante do ego, possibilitando um acalento de sua ferida narcísica, de sua vaidade, arrogância e egoísmo. As sutilezas e particularidades da escolha do objeto de identificação são complexas e no que diz respeito ao psiquismo há que analisar cada caso. A disposição a determinado funcionamento psíquico pode seguir um curso crônico estável, como pode também passar por variadas oscilações, como uma onda. A antítese masculina e feminina, o ativo e o passivo, estão presentes desde o início da gestação, vindo a se constituir em significado e significantes diante das vicissitudes da vida, que vão se modelando e remodelando através dos instintos e suas sublimações.

Ao interrogarmos sobre “escolhas” de funcionamento, estruturas psíquicas, há que pensarmos no que diz respeito ao desenvolvimento do caráter. “As mesmas forças instituais” que estão em operação nos recursos de funcionamento e defesa, estão presentes na formação do caráter. Aqui um fracasso da repressão e o retorno do reprimido seguem livre curso no sentido das sublimações ou do sadismo, num percurso de experiências primitivas, em que a “passagem ao ato” é desprovido de emoções como compaixão, empatia e o outro assume a característica de objeto de pesquisa, conhecimento e não de afeto. É certo que “os estádios de desenvolvimento dos instintos do ego” ainda necessitam, no presente, de muitos estudos. A aceleração ou retardamento desse ou daquele instinto, sejam por quais circunstancias forem, podem ser facilitadores para o desenvolvimento da neurose histérica, obsessiva, psicoses ou perversões. Se todas as intervenções na vida buscam relações amorosas sublimadas no sentido daquilo que podemos falar como cura, há que supormos que “escolha” está mais para procura, evolução e cura do que para uma opção.

Referências
FREUD, S.  – A DISPOSIÇÃO À NEUROSE OBSESSIVA - UMA CONTRIBUIÇÃO AO PROBLEMA DA ESCOLHA DA NEUROSE (1913), Obras Completas de Psicanálise - volume XII. Rio de Janeiro, Imago - 1996.
FREUD, S.  – RASCUNHO K, Obras Completas de Psicanálise - volume I. Rio de Janeiro, Imago - 1996. 

2 de maio de 2014

O Caminhar do Sábio


O Grande Caminho é vasto
Pode ser encontrado na esquerda e na direita
Os dez mil seres dele dependem para viver
E ele não os rechaça
Conclui a obra sem mostrar a sua existência
É o manto que cobre os dez mil seres, sem agir como senhor
Podendo ser chamado de pequeno
Os dez mil seres voltam para ele, sem que aja como senhor
Podendo ser chamado de grande
Assim o Homem Sagrado nunca age como grande
Por isso pode atingir sua grandeza

TAO TE CHING - O Livro do Caminho e da Virtude - Lao Tse - Tradução do Mestre Wu Jyn Cherng