23 de setembro de 2013

Aprender e Saber


Aprender é apropriar-se de um saber sobre si mesmo

Várias são as terminologias para o estudante que não apresenta os resultados estabelecidos desde a infância para o “sucesso e carreira profissional”: “queixa escolar”, “dificuldade de aprendizagem”, “fracasso de aprendizagem”, “fracasso escolar”. Dificuldades para que exigências e resultado no mercado de trabalho? Por que a demanda é geralmente da escola e não da criança ou adolescente? Qual o nível de pressão que a criança ou adolescente vive seja no ambiente familiar ou na comunidade para resultados de sucesso competitivo? Desde cedo as crianças são confrontadas pelo mercado de trabalho, pois as falas dizem que: “quando chegar sua vez vai ser difícil encontrar um emprego, portanto tem que começar desde cedo”. “Vivemos em um mundo competitivo”. E assim um bebê em frente ao computador é uma “questão importante”.

 Pouco se fala em ritmos diferentes de aprendizagem, em subjetividade. Ao educador cabe “diagnosticar” a criança ou adolescente com “dificuldade de aprendizagem” e encaminhá-la ao reforço escolar. Cabe apresentar para a instituição um bom desempenho, esse é seu indicador. O que “fica de fora” do indicador deve retornar como “dificuldade de aprendizagem”. Já se fala em “diagnóstico de dificuldade de aprendizagem”. Por que a criança ou adolescente é o sintoma? Que transferência está em jogo? A escola tem assumido um papel de “trabalho pedagógico infantil” e os educadores “coordenadores de formação de indivíduos para o trabalho”. A escola tem ao longo do tempo, com a pressão social por sucesso, se colocado não enquanto um lugar de saber, mas de trabalho, o significado enquanto instituição que “prepara” para o trabalho, exerce sobre as crianças e adolescentes um desprazer pouco compreendido, como se o estudar acadêmico fosse a “única” forma de prazer possível para essa forma de relação . Aprende-se pela repetição e não pela aquisição de um saber permeado pela compreensão conceitual e abstrata das realidades vivenciadas. As crianças e adolescentes não sabem por que estão estudando determinados conteúdos. Que o recurso da projeção é exaustivamente utilizado nos grupos sociais, onde é preciso eleger um sintoma e dar um diagnóstico para que todas as ansiedades se acalmem e finalmente seja dado um lugar aquele “não saber” é visível.

Aprender é algo que pertence ao saber. Saber que começa ao nascer. O bebê se apropria de um saber sobre o mamar, sobre as funções excretoras, engatinhar, andar, sobre as diferenças anatômicas entre meninos e meninas. O saber sobre o lugar na relação com os pais, e o saber acadêmico. Assim o saber é algo que se desenvolve de forma dialética com as vivências e o desenvolvimento físico-emocional. Sabemos que o recém-nascido tem a tendência para evitar a dor, e fixar-se nas experiências prazerosas. Durante o desenvolvimento a disciplina e autodisciplina pelo processo da educação, não exclui a tendência para evitar a dor e o psiquismo continua a regular-se num equilíbrio entre dor e prazer mesmo no adulto.

Não cabe aqui ser localizacionista sobre funções cerebrais até porque depois das últimas descobertas da neurociência sobre a plasticidade neuronal, as chamadas zonas cerebrais cada vez mais se expandem. As questões que se apresentam não são para diagnósticos individuais, dizem sim respeito ao processo do viver. Existe a dificuldade de se lidar com o diferente, pois isso é o padrão de valores da sociedade “moderna”, mas levar as “traquinices” próprias da infância a serem inseridas como “distúrbios” é não considerar a história de cada sujeito e tornar a criança adulta “antes do tempo”, sem a infância.

Há que interrogar sobre adequação de conteúdos, de metodologia e a pressão por resultados e o amadurecimento emocional dos profissionais e cuidadores para lidar com questão tão complexa que é o educar. O lar e a escola são espaços do educar. Gerar nomenclaturas é induzir uma demanda generalizada de mercado e de medicamentos. Se vivemos em uma sociedade com diz Ferenczi “a humanidade é atualmente educada para uma cegueira introspectiva”; (p.41) é por que não escutamos o outro, seja esse outro nós mesmos e o outro sujeito separado de nós companheiros(as), filhos, pais, amigos etc. Escutar é compreender as representações, os significantes que nos habita do inconsciente ao consciente de forma dialética. Essa escuta supõe que existe um sujeito que “já sabe sobre si próprio”. Isso implica a cuidadores, educadores, profissionais, “sair” do lugar de “sujeito suposto saber”.

Se o problema da aprendizagem é um sintoma cabe interrogar o que o sujeito não quer saber ou de que forma ele não quer saber? A questão é de que sujeito se trata, ou sob qual olhar vemos o sujeito. Esse sujeito possui uma história e se apropria dela de que forma? como diz Ferenezi compreender “os sentimentos e as ideias assim reprimidos, nem por isso foram suprimidos, e no decorrer do processo educativo, eles se multiplicam, se avolumam, aglomeram-se” (p.40) e demandam uma escuta, uma resinificação. Que os processos emocionais inconscientes interferem substancialmente nos processos intelectuais conscientes não há dúvida. Mas de que forma, as transferências, a personalidade dos educadores influencia? Em que estas bloqueiam ou facilitam o aprendizado? É certo que estudantes imaginam simpatias e antipatias que provavelmente não existam ou que existam. Ao darem ênfase na submissão provocam oposição. Que os estudantes sejam inclinados a amá-los e a odiá-los, a criticá-los e a respeitá-los, faz parte da ambivalência para atitudes contraditórias.

Importante refletir que quando a criança nasce ela já vem sendo inserida no contexto familiar desde a concepção, em suas expectativas, ansiedade. Esse pai e essa mãe são detentores de uma história familiar que comporta desejos, estrutura moral, funções, expectativas masculinas e/ou femininas, possuem uma estrutura psíquica. É nesse e em tantos outros contextos que a criança será inserida. A qualidade das relações da criança com as pessoas do sexo oposto e do próprio sexo será permeada inicialmente nos primeiros seis anos pelas experiências de seus cuidadores. Que ela dará um destino, transformando-as em suas direções é certo. Assim pais irmãos e suas formas de funcionamento estarão irremediavelmente ligados à criança e adolescente. Quando a criança atinge a idade escolar outras relações passarão a fazer parte de seu universo - são os professores. E assim as imagens que a criança tem dos pais, irmãos ou cuidadores serão uma primeira extensão dessa herança emocional, defrontando-se com simpatias, antipatias. Mas, não só isso, as escolhas de amizades e amor seguem as lembranças desses primeiros tempos da infância. Para cada dificuldade apresentada por uma criança, caberá a pergunta: que subjetividade, determinações e forma de relacionamento ela traz em sua vida que a faz agir assim?

No percurso do desenvolvimento os pais amados são um modelo a ser imitado, mas também a ser eliminado para que a autonomia seja construída. Os impulsos afetuosos e hostis convivem lado a lado, às vezes até o fim da vida. Nessa existência de sentimentos contrários, muitas vezes não compreendidos por pais e professores que surgem os conflitos. Que é mais fácil dizer a um professor o que não pode dizer ao pai ou a mãe é certo. Como também é muitas vezes mais fácil ao professor dizer ao aluno o que não pode dizer aos pais ou filhos é também possível. E assim as relações de transferências vão sendo construídas e os conflitos internos de cada um não vão sendo elaborados. Os pais e professores vão se deparar com a criança, o jovem de hoje e com a criança que um dia eles foram e as crianças vão descobrir que os pais não são os mais poderosos e sábios, que possuem equívocos, mentem, quando dizem para eles não mentirem, colaram em provas quando falaram para eles estudarem, não são leais quando exigem deles lealdade incondicional. Então esse jovem revela-lhe isso e assim é inscrito como jovem desrespeitoso, aluno com falta de atenção, indisciplinado etc. Nesse desligamento dos pais e professores ideais, como pais e professores que muitas vezes não se apropriaram do saber sobre seu si próprio, fica esse jovem insatisfeito, aprende a criticá-lo sem compreender qual seu lugar na sociedade; em geral age de forma a que “paguem” pelo desapontamento que lhe causou. A elaboração dessas frustrações, do desligamento dos pais tão importantes na vida da criança, do jovem irá habitar a forma de ser do adulto.

Os professores e alunos são de certa forma pais e filhos substitutos e os colegas possíveis irmãos ou até sentimentos relativos aos pais. Transferindo para eles respeito e expectativas da infância e começam a tratá-los, confrontando com as ambivalências existentes nas famílias. Há que os pais, cuidadores e professores se apropriarem de suas subjetividades, infâncias, histórias acolherem seus sofrimentos, resinificá-los para o pleno exercício de suas funções e talvez assim o processo educacional valorizará não a “cegueira introspectiva”, mas a “verdade interior que liberta”. 

22 de setembro de 2013

Saúde Mental - Sobrevivendo nos conflitos de guerra

O fato de estarmos diante do conflito na síria, bem descrito no artigo: http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2013/09/1342442-horror-na-siria-vai-muito-alem-das-armas-quimicas-diz-presidente-de-comissao-da-onu.shtml leva-nos inevitavelmente à reflexão entre direitos humanos e saúde mental. Das milhares de morte, assassinatos, armas químicas, execuções de pessoas, comunidades, torturas de adultos, crianças, idosos por todas as partes envolvidas no conflitos parece tão grave quanto aos fatos da segunda guerra com judeus, negros, ciganos, homossexuais. A forma de concepção “religião-guerra” é uma questão difícil. São muitos interesses políticos, econômicos, religiosos, estratégicos no jogo do poder. Compreender as origens de um ódio que se estende de geração a geração e marcas traumáticas que alimentam esse ódio, constrói e estruturam o perverso é compreender que algo para além de um obstáculo externo, alcança um obstáculo interno de satisfação, na construção de uma moralidade e dignidade pela vida. Se o superego cultural é esmagado é porque a consciência interna está fragmentada. Qual a história de frustração narcísica dos grupos envolvidos no sentido de construção e irrupção de um Estado doentio? As disposições e os fatores precipitantes sempre estiveram nos sujeitos, grupos envolvidos, e as influências do mundo externo presentes desde o nascimento. É possível que esses sujeitos, grupos tenham sido saudáveis enquanto suas necessidades de amor foram satisfeitas e na perda desse(s) objeto(s) não foi possível substitutos. Assim se não é possível para o destino possibilitar uma cura, há que se pensar no quanto esses sujeitos necessitam de acolhimento, escuta e tratamento, que atendam suas  demandas, cujo cotidiano é marcado pela tragédia, e facilitador a instalação de patologias.

O processo de frustração continuada, dos conflitos armados, e o quanto um sujeito pode tolerar de tensão psíquica e que saída ou recursos psíquicos dispõe para lidar com isso é a questão. Um dos recursos possíveis é transformar a tensão psíquica em “energia ativa”, através de ações que possibilitem permanecerem voltados, para o mundo externo, ou “resolver” a tensão psíquica sublimando. A questão das sucessivas frustrações pode impulsionar o sujeito a virar às costas para a realidade, pois esta perde o seu valor e volta-se para uma perspectiva de fantasia, construindo novas estruturas de desejo, através dos traços mnêmicos esquecidos e alimenta, por exemplo, a ilusão de que nos campos ou nos países em que serão refugiados a realidade pode ser menos ameaçadora. Como confluir subjetividades, identidades, histórias tão diversas entre si, diante do teste de realidade e suas expectativas? O fato é que as frustrações com a realidade vivenciada é considerável. Portanto os sintomas são inevitáveis sejam no nível dos sujeitos ou dos grupos, uma vez que não são possíveis substitutos satisfatórios.

Para os sujeitos que estão envolvidos em conflitos de guerra, a realidade externa é tão adversa, que para manter sua “saúde” é necessário um esforço interno para conseguir a satisfação, que pode não lhe ser acessível pela realidade externa. Mas se esse esforço não é suficiente, em quantidade de energia desprendida, por dificuldades internas insuperáveis, o sujeito adoece, por tentar adaptar-se à realidade. Guerrear pode ter inúmeros significados. Toda guerra por maiores que sejam os interesses econômicos, políticos, religiosos, começa internamente em cada sujeito, pois não é possível diluir este enquanto conjunto. Mas a questão do poder e do ódio inevitavelmente estão envolvidos e diz respeito a uma estrutura perversa. Se a mudança externa é difícil, longa, exige talvez séculos, a mudança interna. 

Uma mudança interna dá-se através de sintomas, que pode ou não, ao renunciar a satisfação cair doente pela incapacidade de reagir. Ou levar a busca de uma resinificação, de “cura”, que sucumbe se não houver flexibilidade. O conflito para permanecer como se é e para modificar-se é inevitável e exige grande dispêndio de energia e aproximações e afastamentos da realidade. Se as escolhas forem incompatíveis, fixações surgirão como consequência de frustrações externas. Essas fixações podem dizer respeito a locais e eventos passados, presentes ou futuros e pode ser tão fortes que impossibilite descolamentos, o que é um ponto importante no destino da saúde mental do sujeito. Transpor as demandas instintivas  e buscar um ideal ético, também pode levar a frustrações devido à incapacidade de correspondência com a realidade externa, que frustra as possibilidades de satisfação, de sentir-se seguro.

Se há confluência entre determinadas tendências do ego e a realidade externa a formação de sintomas é maior, pois já habitavam o sujeito. As experiências adversas e traumáticas da realidade potencializam a formação de sintomas de acordo com o funcionamento estrutural do sujeito. Quando essas exigências ocorrem nos anos da infância, quando ainda não há um amadurecimento emocional, um ser integral, os efeitos na idade adulta ou no sujeito idoso, podem cronificar-se. Pensar a saúde mental nos conflitos armados é pensar a saúde mental de todos os sujeitos envolvidos. Assim talvez sejam possíveis os prognósticos dos enlaces em questão, para os diversos grupos e características etárias. Portanto os efeitos para uma criança, um adulto e um idoso, possam apresentar-se diversos, ou em alguns casos inversos, se o debilitamento do ego fizer parte da disposição do sujeito, facilitando os conflitos internos. Nestas situações a arquitetura psíquica busca estabelecer uma constelação de defesas que preservem o sujeito, ante as ameaças internas e externas, tentando acomodar a individualidade do sujeito as suas condições de vida. Nossa solidariedade aos refugiados de todos os conflitos armados no mundo. O exílio é sempre algo doloroso, pois exige de quem o vive, o desenvolvimento de recursos psíquicos nem sempre disponíveis ou difíceis de serem construídos.  
Referência
FREUD, S.   TIPOS DE DESENCADEAMENTO DA NEUROSE (1912)  Obras Completas de Psicanálise - volume XII. Rio de Janeiro, Imago-1996. 

9 de setembro de 2013

Diálogo entre Almas


...o vento sempre me traz...a melodia de sua voz,
...ouço...sinto sua alma, estarei sempre com você,
...estamos ligados  pelos mesmos caminhos,
...minh ‘alma desde sempre ama você,
...nos desviamos, nos afastamos,
...nos perdemos, mas, sempre estive com você,
...sei que sente minha falta...
...vi seus sofrimentos... seus erros... sua dedicação...sua mudança,
...é difícil está separado de mim,
...por que é difícil  está do outro lado... separada de você,
...sinto falta de seu abraço... de abraçar você,
...do calor de sua alma...de sua amorosidade,
...de ser envolvida em meu manto,
...amo você com devoção,
...um dia... em um tempo,
...meu amor eterno... incondicional,
....já estamos juntos, por toda a eternidade...
Myriam’aya

8 de setembro de 2013

“O valor da transitoriedade”

 “Minha palestra com o poeta ocorreu no verão antes da guerra. Um ano depois, irrompeu o conflito que lhe subtraiu o mundo de suas belezas. Não só destruiu a beleza dos campos que atravessava e as obras de arte que encontrava em seu caminho, como também destroçou nosso orgulho pelas realizações de nossa civilização, nossa admiração por numerosos filósofos e artistas, e nossas esperanças quanto a um triunfo final sobre as divergências entre as nações e as raças. Maculou a elevada imparcialidade da nossa ciência, revelou nossos instintos em toda a sua nudez e soltou de dentro de nós os maus espíritos que julgávamos terem sido domados para sempre, por séculos de ininterrupta educação pelas mais nobres mentes. Amesquinhou mais uma vez nosso país e tornou o resto do mundo bastante remoto. Roubou-nos do muito que amáramos e mostrou-nos quão efêmeras eram inúmeras coisas que consideráramos imutáveis”.

A vida e tudo que a compõe são transitórias. Seja em um sentido de termino, de mudança de ciclo, de acontecimentos trágicos, que mudam o rumo de pessoas, países, e continentes. O ciclo nascimento, crescimento e morte são universais no que diz respeito ao universo e a tudo que nele existe, mas pelos indícios da astronomia tudo caminha no sentido da transformação e expansão. No cotidiano não sentimos muito esse impacto e por vezes a vida parece lenta, “o tempo que não passa”. Muitas vezes o lugar ocupado, já pertence a uma “zona de conforto intocável”, até serem acometidas por turbulências que pareciam impossíveis, mas que sempre estiveram ali. É assim que objetos, circunstancias, lugares, muitas vezes admiradas, podem perder o valor, ao perceberem e realizarem-se transitórias. O certo é que grande parte de tudo que vivemos é transitório. Mas isso não é razão para desalento ou rebelião. No percorrer seu caminho, todas as sensações vivenciadas serão lapidadas pelo tempo: as experiências, os aprendizados, como o carvão que se transforma ao longo de bilhões de anos. O “tempo” humano? Não sabemos. Mas as sensações e impressões vão esmaecer no transcurso de uma época, até mesmo as referências teóricas.

O que é a escuta do real senão, o seu representante. Assim no encadeamento das representações realizamos a imortalidade tão sonhada, no contraponto do imediato cotidiano. Ansiedade pela imortalidade, continuidade, principalmente aquilo que se compreende e sente como belo faz parte da desventura do humano. Então o “valor da transitoriedade é o valor da escassez no tempo”. A uma estação, segue-se outra, o inverno é a semente da primavera e sucessivamente, as marés, a noite, o dia, os astros no céu, etc. assim “nossa vida pode ser considerada eterna”, e não é seu “pouco” tempo, que a destitui de beleza e possibilidades. “Uma flor que dura apenas uma noite nem por isso nos parece menos bela”. O que guardamos é o significado para nossa existência e é assim que sobrevive a nós. O que nos dá o sentido do real na transitoriedade é a morte e com ela todos os objetos e investimentos de nossas vidas. Inexoravelmente perecerão. Permanecendo aquilo que de nós elevou da nossa condição de humanos.

Por certo o mundo em que vivemos é complexo, conflituoso, mesmo depois de uma segunda grande guerra, 98 anos depois de Freud ter escrito o artigo sobre transitoriedade, ainda nos vemos diante dos mesmos enigmas. O luto, esse “grande enigma”, é então uma vivência, que se inicia ao nascer. Nosso destino de amor seja, por nosso próprio ego ou aos objetos que amamos, uma vez perdidos, é muito sofrido. Esse investimento afetivo há que transcender para sobreviver num movimento espontâneo de substituição por outros objetos iguais ou mais preciosos. Resta-nos a ilusão de que a ancestralidade nos dará a condição que tanto almejamos, diante da finitude.

E assim na entrevista O VALOR DA VIDA concedida ao jornalista G.S.Viereck, com Tradução de Paulo Cesar Souza, Freud com sua inigualável sabedoria diz: “A velhice, com suas agruras, chega para todos. Eu não me rebelo contra a ordem universal. Afinal, mais de setenta anos. Tive o bastante para comer. Apreciei muitas coisas - a companhia de minha mulher, meus filhos, o pôr-do-sol. Observei as plantas crescerem na primavera. De vez em quando tive uma mão amiga para apertar. Vez ou outra encontrei um ser humano que quase me compreendeu. Que mais posso querer?”
Referência
 FREUD, S.  - SOBRE A TRANSITORIEDADE (1916 [1915]). Obras Completas de Psicanálise - volume XIV. Rio de Janeiro, Imago-1996.

3 de setembro de 2013

A CARTA 56: Divisão da Consciência e Dor


“…Aliás, que diria você se eu lhe contasse que toda aquela minha história da histeria, história original e novinha em folha, já era conhecida e tinha sido publicada repetidamente uma centena de vezes — há alguns séculos? Você se lembra de que eu sempre disse que a teoria medieval da possessão pelo demônio, sustentada pelos tribunais eclesiásticos, era idêntica à nossa teoria de um corpo estranho e de uma divisão (splitting) da consciência? Mas por que é que o diabo, que se apossava das pobres bruxas, invariavelmente as desonrava, e de forma revoltante? Por que as confissões delas sob tortura tanto se assemelham às comunicações feitas por meus pacientes em tratamento psíquico? Dentro em breve, precisarei pesquisar a bibliografia do assunto. Aliás, as crueldades possibilitam o entendimento de alguns sintomas da histeria, que até agora têm permanecido obscuros. Os alfinetes que aparecem das formas mais surpreendentes, as agulhas que fazem com que as pobres criaturas tenham seus seios operados, e que são invisíveis aos raios X, embora possam ser encontradas na história de sua sedução… Mais uma vez, os inquisidores espetam agulhas para descobrir os estigmas do demônio, e, numa situação parecida, as vítimas inventam a mesma cruel e velha história (ajudadas, talvez, pelos disfarces do sedutor). Assim, não só as vítimas, mas também os seus algozes, relembram nisso os primórdios de sua adolescência”.

Quando falamos em dor recordamos que em algumas de suas cartas, Freud inquietou-se com a crueldade da inquisição e seus representantes psíquicos. Dentre eles a tortura, dor. Nesta carta enigmática sugere que a suposta possessão alegada pelos meios eclesiásticos, seria um processo de divisão de consciência, processo ao qual, as mulheres poderiam desenvolver em função da opressão a que estavam submetidas na época. Recusar a relação com um homem ou ter habilidades que lhes desse autonomia, era motivo para serem encarceradas, possuídas, queimadas. As agulhas enquanto instrumento de tortura, possibilitavam os estigmas que procuravam os inquisidores, para possuí-las, encarcerá-las e queimá-las.

Assim “uma bruxa disfarçada, era enviada para o calabouço, fogueira”, seu ego dividido, como consequência da tortura. Necessário que fossem “bruxas”, mulheres com autonomia diferenciada, que ao recusarem ser “possuídas”, eram possuídas pelos mandatários eclesiásticos e então alvo fácil da inquisição. Como iriam possuir essas mulheres, encarcera-las e queimá-las, se não tivesse a designação de “bruxas”? “Bruxas” seriam as que passaram por um processo de desagregação da consciência pela “possessão”, de que? Lembremos o filme “Sombras de Goya”, 2007 de Milos Forman ao narrar à inquisição espanhola. 

1 de setembro de 2013

Percorrendo o Caminho do Meio


Curvar-se permite a plenitude
Submeter-se permite a retidão
Esvaziar-se permite o preenchimento
Romper permite a renovação
Possuir pouco permite a aquisição
Possuir muito permite a ganância
Por isso, o Homem Sagrado abraça a unidade
Tornando-a o modelo sob o céu
Não julga por si, por isso é óbvio
Não vê por si, por isso é resplandecente
Não se vangloria, por isso há realização
Não se exalta, por isso cresce
Só por não disputar, nada pode disputar com ele
Antigamente se dizia: “Curvar-se permite a plenitude”
Como poderiam ser palavras vazias?
Assim, ao alcançar a plenitude encontra-se o retorno
TAO TE CHING - O Livro do Caminho e da Virtude - Lao Tse - Tradução do Mestre Wu Jyn Cherng

29 de agosto de 2013

Dor e Com-paixão

 Vivemos em uma civilização hedonista, em que a concepção materialista do “aqui e agora”, o sofrimento, a dor, é inaceitável e “todos estamos no mundo de férias, para ser feliz, sem nenhuma vicissitude da vida em função das escolhas ou circunstancias a que possamos estar envolvidos ou acometidos”. Assim fica mais difícil acolher a própria dor, ser generoso para consigo próprio, e para com as dores do outro, que não deixa de ser a própria dor; buscar ajuda e ser ajudado.

Na civilização atual procuramos a dor, no corpo. Onde ela se manifesta. Possuímos uma visão materialista, biologista e ao fazermos o percurso no psiquismo, damos “meia volta” e interrogamos o corpo, como se fosse o único caminho possível. A dor mesmo quando sinalizada no corpo, é sempre um enigma pela complexidade dos significados e representações que possui. A relação de movimento e troca psiquismo – corpo é inevitável e interdependente. Além da concepção filosófica, metafísica, e psicológica do psiquismo (inconsciente, superego e ego), a compreensão que no mundo humano se expressa também em um corpo, que apesar de pensado simbolicamente, materializa seus efeitos. Há que integrar estes saberes. Os avanços da ciência ainda não são suficientes, no sentido de compreensão da dor psíquica, seja ela em que circunstancia da vida se dê: nos hospitais, nos presídios, nos campos de refugiados, nas guerras, nas catástrofes atmosféricas ou acidentes, no grande número de moradores de rua, em sua maioria com grandes problemas de saúde mental, nas situações de pressão do dia a dia.

Assim é que a dor de existir é expressa em sintomas no corpo, quando os dispositivos de “natureza biológica”, falham ao serem sobrecarregados. A falha dos dispositivos psíquicos e biológicos é a dor, seja a enxaqueca, a diabete, o Alzheimer, o cálculo renal, o colesterol, a dor na coluna, nos ossos, a pressão arterial, o câncer, a depressão, o ódio, o preconceito, o medo daquilo que não representa ou ameaça o narcisismo primário, as doenças mentais, a dependência de substancias psicoativa e tantos outros sintomas, que serve para anestesiar, colocar um véu, ou afastar-se da realidade. Se nosso instinto de defesa é pelo equilíbrio entre a pulsão de prazer, de vida e de morte é porque temos sempre o instinto de fugir da adversidade, da dor, pelo sintoma, e nesse mecanismo funciona o sistema nervoso.

Há sempre uma tendência contra o aumento da quantidade de pressão, que possa causar dor. Seja em qual forma se apresente, se a quantidade de pressão é de ordem psíquica, passa pelo feixe de neurônios, que compõe o corpo humano, se é física em função de um “acidente”, há que ser elaborada na sua representação. São caminhos que se cruzam e interdependem. A dor está sempre em busca de uma via de descarga, que é sentida como desprazer. Esse é o mecanismo de defesa da vida.

A lembrança de um evento traumático ao retornar é novamente energizada, por uma nova percepção e desencadeia um estado igual ou semelhante ao da dor primeira, pois o desprazer e a necessidade de descarga são inerentes à experiência da dor, no afeto. A intensidade e frequência com que a lembrança retorna é semelhante a de qualquer outra percepção. Assim  o desprazer é liberado e ao mesmo tempo transmitido internamente como marca mnêmica. Esse delicado mecanismo utiliza-se do sistema neuronal e seus neurotransmissores.

A forma como lidamos com a própria dor é a forma como lidamos com a dor do outro. Essa relação espelhar, de similitude, implica na relação de prazer que se tem com a dor. Se para um sujeito é possível ganhos secundários com a própria dor e essa serve como forma de dissimulação e manipulação do outro é porque algo de estrutura perversa sinaliza, que a dor do outro também é fonte de prazer. Então fica mais difícil à relação com a lei e estruturas familiares patológicas e nebulosas  são mantidas. Essa mesma dor, quando tratada no sentido de compreendê-la, interpretá-la, implicar-se, estimula o sentimento de compaixão para consigo próprio e para com o outro. Assim apazigua-se o próprio espírito e torna-se possível a construção de relações mais sensíveis e facilitadoras de compaixão, do poder viver em paz, apesar de, com e sem o outro.

Referência
FREUD, S.   A DOR. Obras Completas de Psicanálise - volume I. Rio de Janeiro, Imago-1996.
FREUD, S.   A EXPERIENCIA DA DOR. Obras Completas de Psicanálise - volume I. Rio de Janeiro, Imago-1996. 

24 de agosto de 2013

Poesia - Uma fração de tempo


Por uma fração de tempo...
a dor parece ir embora...
o medo desaparece...
e a vida que parece não ser possível ...
é tomada por uma brisa leve....
uma sensação de leveza no ar...
um suave cheiro de lírio...
um suave abraço a sentir...
a doçura de suas palavras invade meu coração...
“em um outro tempo nos encontraremos novamente”...
“e não mais nos separaremos”...
Por um instante a vida parece como uma leve pluma de ganso e minh ‘alma,
flutua por todos os espaço-tempo sem nenhuma dor, medo, desamor...
uma leve brisa de amor, como um raio de sol,
invade minh ‘alma e desapareço no universo unida a você.
Myriam ‘aya 

19 de agosto de 2013

Anotações: O fetiche nos tempos atuais

Muitas são as questões “novas” que se apresentam para a clínica psicanalítica, a cada instante. Falar de fetiche nos tempos atuais parece banal, corriqueiro, mas essa forma de se relacionar com o outro, com a vida, sempre esteve presente na história da humanidade. O fetiche sempre esteve presente como um objeto animado ou inanimado, feito pelo homem ou produzido pela natureza, ao qual se atribui poder sobrenatural e se presta culto. Muitos filósofos falaram sobre o tema, mas Karl Marx  e Freud aprofundou a compreensão sobre o fetiche. Marx discorre em sua obra “O Capital” que a mercadoria, quando concluída, não mantinha o seu valor real de venda, seu “valor de uso”, ou seja, da quantidade de trabalho contida e sim adquire um valor de venda irreal, perdendo sua relação com o trabalho, isso é o que Marx chama de “fetiche da mercadoria”.  O homem trata os produtos (sapatos, bolsas, roupas, eletrônicos, mídias, automóvel, etc.) com adoração. Assim os produtos deixam de ter sua utilidade e passa a ter um valor simbólico, quase divino. Não se compra o produto real, mas a subjetividade representada no produto. Assim tudo aquilo que se constitui em um objeto pode vir a ser um fetiche.

Na sociedade do marketing neurológico, onde se fala do neuro-marketing, ou seja, fala-se na criação de produtos que possuem valor subjetivo, não importando o valor de uso, ou a quantidade de trabalho nele inserida, potencializa o fetiche. Há que se pensar no sujeito cujas demandas internas em suas relações, necessita que os objetos possuam um valor simbólico de prazer mítico envolvido. O prazer é alcançado mediante o  deslocar para outro objeto que o da sua finalidade. Esse deslocamento ocorre porque a experiência de prazer nos primeiros anos da infância deixou marcas, que são potencializadas, valorizadas pela cultura e deslocadas para outros objetos. É fato que o objeto “escolhido” como fetiche, em geral, apresenta diferenças entre homens e mulheres. Do ato de cheirar, o nariz enquanto fetiche, muito comum entre os animais, a “origem do fetichismo do pé”, é o movimento de um deslocamento, que pode significar “os órgãos genitais da mulher”.

Diante do mecanismo da repressão, onde não foi possível simbolizar a falta, a castração, o deslocamento para outros objetos facilita a vida sexual. O fetiche rememora ao prazer das primeiras experiências infantis, na medida em que é uma substituição das mesmas, das primeiras descobertas da sexualidade, principalmente no que diz respeito aos órgãos sexuais masculinos e femininos. Assim sapatos, pés, carros, roupas e tantos outros objetos de uso, que assume um valor simbólico quase divino, pode ser uma forma de substituição da falta fálica, que representa o órgão sexual masculino mercadologicamente explorado na sociedade capitalista. Como a questão fálica diz respeito a energia da sexualidade e não a um órgão específico, desloca-la a um órgão ou objetos é sempre fonte de conflitos internos entre o ego e superego. O fetiche pode ser uma forma de proteção, acomodação a “ameaça de castração”, e de escolhas sexuais, que podem trazer conflitos. Como o significado do fetiche só é conhecido pelo próprio sujeito “é facilmente acessível e pode prontamente conseguir a satisfação sexual ligada a ele”, enquanto outros “têm de implorar e se esforçar”, pelo seu prazer, “pode ser tido (obtido) pelo fetichista sem qualquer dificuldade”. Para que algo seja tomado como objeto de fetiche é necessário que um fragmento da realidade interna do inconsciente induza o ego a se desligar de um fragmento de realidade em função de um objeto que o represente, no caso, o fetiche. No fetiche está-se diante da angústia da castração. Muitos são os exemplos na história que poderíamos citar, mas Freud nos lembra de que o costume chinês de mutilar o pé feminino e depois reverenciá-lo como um fetiche é uma forma de “agradecer à mulher por se ter submetido a ser castrada”.
Essas complexas questões nos traz as reflexões de nossa subjetividade e das dificuldades na busca do equilíbrio ao qual todos temos que “dar conta”. Assim as questões novas da psicanálise, muitas vezes, não passam de antigas questões da existência humana,  com novas roupagens, às vezes não tão novas assim, como a interrogação que retorna sobre a existência do inconsciente. É um retorno de algo recalcado. A questão é quando isso é tema de uma conferência e não de uma pesquisa. É um fetiche.

Referência

FREUD, S.  - FETICHISMO (1927). Obras Completas de Psicanálise - volume XXI. Rio de Janeiro, Imago-1996.  

16 de agosto de 2013

O Lugar da Mãe


“A antiga cidade grega de Éfeso na Ásia Menor, pela exploração de cujas ruínas, incidentalmente, tem-se de agradecer à nossa arqueologia austríaca, era especialmente célebre na antiguidade por seu esplêndido templo, dedicado a Artêmis (Diana). Os invasores jônicos — talvez no século VII antes de Cristo — conquistaram a cidade, que por muito tempo fora habitada por povos de raça asiática, e encontraram nela o culto de uma antiga deusa-mãe que possivelmente portava o nome de Oupis, e identificaram-na com Artêmis, deidade de sua terra natal. A prova das escavações mostra que, no decurso dos séculos, diversos templos foram erguidos no mesmo local em honra da deusa. Foi o quarto destes templos que foi destruído por um incêndio iniciado pelo louco Heróstrato, no ano de 356, durante a noite em que Alexandre, o Grande, nasceu. Ele foi reconstruído, mais magnífico que nunca. Com a afluência de sacerdotes, mágicos e peregrinos, e com suas lojas em que amuletos, lembranças e oferendas eram vendidas, a metrópole comercial de Éfeso poderia ser comparada à moderna Lourdes.”
“Por volta de 54 D.C, o apóstolo Paulo passou diversos anos em Éfeso. Pregou, realizou milagres e encontrou muitos seguidores entre o povo. Foi perseguido e acusado pelos judeus; separou-se deles e fundou uma comunidade cristã independente. Em consequência da disseminação de sua doutrina, houve uma queda no comércio dos ourives, que costumavam fazer lembranças do lugar sagrado — figurinhas de Artêmis e modelos do templo — para os fiéis e peregrinos que chegavam de todo o mundo. Paulo era um judeu estrito demais para deixar a antiga deidade sobreviver sob outro nome; rebatizou-a, como os conquistadores jônicos haviam feito com a deusa Oupis. Foi assim que os piedosos artesãos e artistas da cidade tornaram-se apreensivos quanto a sua deusa, bem como quanto a seus ganhos. Revoltaram-se e, com gritos infindavelmente repetidos, de ‘Grande é Diana dos Efésios!’, afluíram pela rua principal, chamada ‘Arcádia’, até o teatro, onde seu líder, Demétrio, pronunciou discurso incendiário contra os judeus e contra Paulo. As autoridades tiveram dificuldade em reprimir o tumulto, o que conseguiram pela garantia de que a majestade da deusa era inatingível e achava-se fora do alcance de qualquer ataque.”
“A igreja fundada por Paulo em Éfeso não lhe permaneceu fiel muito tempo. Caiu sob a influência de um homem chamado João, cuja personalidade apresentou aos críticos alguns difíceis problemas. Ele pode ter sido o autor do Apocalipse, que abunda em invectivas contra o apóstolo Paulo. A tradição o identifica com o apóstolo João, a quem o quarto evangelho é atribuído. Segundo este evangelho, quando Jesus achava-se na cruz, exclamou para seu discípulo favorito, apontando para Maria; ‘Eis tua mãe!’ E, a partir daquele momento, João dedicou-se a Maria. Desse modo, quando João foi para Éfeso, Maria o acompanhou, e, por conseguinte, ao lado da igreja do apóstolo de Éfeso, foi construída a primeira basílica em honra da nova deusa-mãe dos cristãos. Sua existência é confirmada a partir do século IV. Agora, mais uma vez, a cidade tinha sua grande deusa e, fora o nome, pouca modificação houve. Também os ourives recuperaram o trabalho de fazer modelos do templo e imagens da deusa para os novos peregrinos. A função de Artêmis, contudo, expressa pelo atributo de kovpotpoϕoç (Criadora de Meninos) foi transmitida a um Santo Artemidoro, que assumiu a proteção das mulheres em trabalho de parto.”
“Depois veio a conquista pelo Islã, e finalmente, sua ruína e abandono, devido ao rio sobre o qual ficava haver-se tornado entulhado de areia. Mas, mesmo então, a grande deusa de Éfeso não abandonou suas reivindicações. Em nossos próprios dias, ela apareceu como uma virgem santa a uma piedosa menina alemã, Katharina Emmerich, em Dülmen. Descreveu a esta sua viagem a Éfeso, os móveis da casa em que lá vivera e na qual morrera, o formato de seu leito, e assim por diante. E tanto a casa quanto o leito foram de fato encontrados, exatamente como a virgem os descrevera, e são mais uma vez a meta das peregrinações dos fiéis.”

A antiga cidade grega de Éfeso na Ásia Menor, hoje pertencente à província de Izmir na Turquia, nos deixa com seu legado desde o culto a deusa grega da lua, do parto, virgindade e protetora das meninas e a substituição do culto a Artêmis (Diana) pela deidade Oupis, outra deusa-mãe, a importância desse ser feminino protetor. O surgimento do cristianismo levou a substituição dos cultos, pois o homem necessita do divino, para sublimar seus instintos. E coube a Senhora mãe de Cristo essa divindade.
Nesse Breve Escrito de Freud, um recorte da história, nos coloca a reflexão dessa mãe sonhada; imaculada. Do lugar dessa mãe, que não é o lugar do pai ou do filho. Encontrar esse lugar não é tarefa fácil, foi assim que no mesmo contexto histórico, por ocasião da abertura do túmulo, relata um abade do Mosteiro dos Beneditinos, que João correu a frente, mas parou à entrada do túmulo, pois esperava Pedro, para que esse entrasse primeiro. Novamente temos a questão do lugar. João sabia que seu lugar era à entrada e o de Pedro era adentrar-se para primeiro constatar que o corpo não estava. A questão do lugar remete à questão da função de todas as relações humanas. O lugar do primogênito, do filho do meio, do filho mais novo, e de todos os parentes, remete, portanto a questão da lei.

Referência
FREUD, S.  – BREVES ESCRITOS – ‘GRANDE É DIANA DOS EFÉSIOS’(1911), Obras Completas de Psicanálise - volume XII. Rio de Janeiro, Imago - 1996.

10 de agosto de 2013

Os Realizadores da Antiguidade


Os bons realizadores da antiguidade eram sutis
Maravilhosos, misteriosos e despertados
Eram profundos e não podiam ser compreendidos
E justamente por não poderem ser compreendidos
É preciso esforçar-se para ilustrá-los
Receosos como quem atravessa um rio no inverno
Cautelosos como quem teme seus vizinhos
Reservados como o hóspede
Solúveis como o gelo fundente
Genuínos como a madeira bruta
Vazios como os vales
Entorpecidos como as águas turvas
O turvo, através da quietude, torna-se gradualmente límpido
O quieto, através do movimento, torna-se gradualmente criativo
Aquele que resguarda este Caminho não tem desejo de se enaltecer
E justamente por não se enaltecer, mesmo envelhecido, pode voltar a criar
TAO TE CHING - O Livro do Caminho e da Virtude - Lao Tse - Tradução do Mestre Wu Jyn Cherng

7 de agosto de 2013

Ciência, História e Subjetividade

O livro de Jaime Pinsky em "Porque Gostamos de História", traz a reflexão acerca da paixão de escrever, porque escrever é contar história em suas diversas formas, metodologias, intenções, desejos. É uma relação especular com o ego e com o outro. Escreve-se para si e para o outro.
A História não é como a estatística que, devidamente manipulada, diz o que queremos. Mesmo assim há quem insista em torturá-la, exigindo que ela confesse crimes que não cometeu”.
“Por que gostamos de História?”
“Para um historiador é sempre agradável constatar a simpatia com que as pessoas comentam sua atividade: "Puxa, se eu não fizesse Medicina, faria História", ou "adoro livros de História", ou "eu adorava as aulas de História no colégio", e ainda "deve ser gostoso fazer pesquisa histórica". Claro, pode ser que as gentes estejam apenas querendo agradar ao exercerem a proverbial cordialidade brasileira. Contudo, convenhamos, fica difícil imaginar as frases equivalentes dirigidas a profissionais como, por exemplo, economistas, advogados ou dentistas. De modo que tendo a acreditar na sinceridade dos brasileiros nesse particular, mesmo porque a declaração de amor à História vem respaldada por números muito expressivos de venda de livros da área, escritos ou não por historiadores de ofício. Se acrescentarmos às obras especificamente históricas os romances históricos, as biografias e, ainda, a "militária" (livros sobre estratégias, guerras e guerreiros), veremos que o setor é muito querido e repete por aqui o sucesso que tem conquistado em muitos outros países”.
“Dois motivos parecem explicar a popularidade dos livros de História. O primeiro é que temos enorme curiosidade em saber de onde viemos, onde estão nossas raízes familiares, étnicas, nacionais, culturais. Visitar e compreender o passado é uma tentativa de nos entendermos melhor, de buscar - nem sempre com sucesso - explicações sobre o aqui e agora. "Sou assim porque tenho sangue espanhol", ou "é tradição entre os mediterrâneos valorizar mais o filho homem", ou ainda "somos os herdeiros do povo do livro" são constatações de caráter supostamente histórico que teriam por função nos situar como agentes históricos. O mundo ocidental tem, no mínimo, sérias dúvidas sobre uma suposta vida depois da morte, desistiu de responder a uma das inquietações vitais do ser humano: "para onde vou?" Resta-lhe o consolo de, pelo menos, tentar explicar de onde vem”...
“O outro motivo é explicado, ou melhor, foi explicado pelo dramaturgo grego Sófocles, há 25 séculos. Ele dizia que, de todas as maravilhas do mundo, o homem é a mais interessante para os próprios seres humanos. De fato, nós nos percebemos espelhando-nos nos outros: ao utilizar o próximo como referência é que podemos medir nossa inteligência ou estultice, nossa beleza ou falta de graça, nossa habilidade ou falta de jeito. Olhar e ver outros seres humanos, verificar como estão vivendo, como se organizam socialmente, quais os tabus que respeitam, qual o papel que desempenham os velhos, as crianças, as mulheres em diferentes sociedades, tudo isso nos fascina. Será que aquele povo encontrou uma forma política mais eficiente que a nossa? Quem sabe aquele outro achou deuses mais benevolentes e eficazes que os nossos? Adoramos civilizações antigas, devoramos livros sobre egípcios (de então, não de agora), gregos (idem), hebreus, romanos (idem, idem). Por vezes, até o leitor se atrapalha e confunde povos que de fato existiram e sobre os quais temos provas documentais com outros que se originam da imaginação de espertalhões”.
“Além de tudo, os bons livros de História têm uma... história. As narrativas, os processos, estabelecem conexão entre os episódios. Desde a infância, gostamos de boas histórias; por que não gostar daquelas, por assim dizer, verdadeiras?”
“Claro que o mundo está cheio de falsos historiadores (dentro e fora da universidade), aqueles que partem de uma tese pronta e vão buscar apenas os argumentos que a comprovam, rejeitando, no processo investigativo, todos os documentos que poderiam contradizer seu ponto de partida. É aquela história de "se os fatos negarem minha teoria, pior para os fatos". Por meio de manipulação do acontecido pode-se provar qualquer coisa e até o contrário dessa coisa. Esse método tem sido muito usado para se "provar" superioridade nacional, racial e de gênero. Tem sido usado para se "provar" direitos territoriais. Tem sido usado para desqualificar e mesmo ridicularizar heróis, desde que não sejam os "nossos". Daí a necessidade de os leitores, amantes da História, tomarem certas precauções com relação à origem das "verdades" que encontram e reproduzem. A internet, assim, genérica, não é fonte. Mesmo quando os textos são apresentados com assinaturas que parecem confiáveis. Não apenas nossos textos são apropriados indevidamente na web, como as pessoas nos atribuem afirmações que nunca fizemos. Operar uma crítica de fontes é, pois, fundamental”.
“De resto, nada como se assegurar da formação do suposto historiador. Não, não é preciso fazer curso de História para publicar livros, mas é preciso ser rigoroso no que se pesquisa e responsável no que se escreve para ser confiável. Do contrário, serão apenas histórias da carochinha”.

O livro reflete a realidade de como se lida com os fatos. Em tudo que escrevemos, seja a que área pertence o saber profissional ou pesquisa há que contextualizarmos o momento cultural, social, político, econômico e principalmente a subjetividade do autor. Não é possível escrever sem se implicar, não existe a ciência neutra, imparcial. A história do processo “civilizatório” deu-se em grande medida sob o imperialismo da dominação cultural, onde o mundo chamado civilizado coopta a essência de outra cultura. Foi assim a relação entre os civilizados e os chamados povos bárbaros. É assim a relação entre ocidente e oriente, em que dessacraliza as culturas orientais para tornar seus arcabouços filosóficos, “científicos” nos moldes ocidentais, ou fazer uma leitura da filosofia oriental, retirando sua essência, transformando-a em um objeto de consumo. As construções cientificas estão sempre articuladas, politicamente, seja de que forma for. Podemos lembrar também, as questões em torno do DSM V e do uso da Ritalina em crianças e adolescentes. A questão é a quais interesses correspondem. No que diz respeito à subjetividade, há que lembrarmos para além do politicamente articulado, os aspectos da subjetividade em questão: a estrutura de defesa do pesquisador, seu funcionamento, seu narcisismo, sua relação com o prazer, sua lei interna, e tudo que o compõe. Assim não há verdades absolutas, imparciais, e os “imperativos categóricos” estão submetidos às circunstancias históricas que os determinam, ou seja, no processo de evolução da humanidade e humanidade aqui, no sentido de um Ser Humano, mais humano, mais ético e menos materialista e com maior capacidade de sublimação de seus instintos primários.

5 de agosto de 2013

Caminhos - dos pensamentos às palavras


“Em sonhos e associações, nomes que têm de ser encobertos parecem ser substituídos por outros que se lhes assemelham apenas por conterem a mesma sequência de vogais. Uma analogia notável, contudo, é proporcionada pela história da religião. Entre os antigos hebreus, o nome de Deus era tabu; não podia ser falado em voz alta, nem registrado por escrito. (Isto está longe de ser um exemplo isolado da significação especial dos nomes nas civilizações arcaicas). Esta proibição foi tão implicitamente obedecida que, até o dia de hoje, a vocalização das quatro consoantes do nome de Deus[YHVH] permanece desconhecida. Ele era, contudo, pronunciado ‘Jehovah’, sendo suprido pelas vogais da palavra ‘Adonai’ (‘Senhor’), contra a qual não havia tal proibição”.

Freud – A Significação das Sequências de Vogais (1911)

2 de agosto de 2013

As sem-razões do amor


Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,

e nem sempre sabes sê-lo.

Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,

na cachoeira, no eclipse.

Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.

Porque amor não se troca,

não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,

por mais que o matem (e matam)

a cada instante de amor.
Carlos Drummond de Andrade

1 de agosto de 2013

Winnicott e a análise de criança

“A criança joga (brinca), para expressar agressão, adquirir experiência, controlar ansiedades, estabelecer contatos sociais como integração da personalidade e por prazer”.

No trabalho de Winnicott possui relevância a teoria do “amadurecimento pessoal” e o uso dos fenômenos de regressão à dependência, na interação paciente/analista, que fornece o holding necessário e deve decidir quando falar e quando silenciar, particularmente nas situações de “descongelamento” do trauma, sobretudo em casos de pacientes graves. O respeito à individualidade e singularidade da criança em desenvolvimento, os ritmos e as peculiaridades de cada uma devem ser sagradamente respeitados. Embora seja uma teoria aplicável às crianças em geral, será na prática clínica a realização de seus conceitos.


Esses momentos de “descongelamentos” o analista não deve se justificar nem interpretar  devendo aguardar o momento oportuno para comentar o assunto. As situações traumatizantes estão aquém das recordações e verbalizações, só podendo ser resgatadas através da exteriorização do paciente, com os consequentes turbilhões emocionais na relação analítica, com a imprescindível continência do analista. Dessa forma, a técnica clássica de recordação e explicação foi cedendo lugar ao vivenciar e compartilhar com o analista.


O núcleo do desenvolvimento psíquico só poderá ser retomado na interação paciente-analista em nova versão da relação mãe-bebê. Diferentemente da posição neutra e “espelhadora” da análise clássica, a interação, que assume conscientemente o impacto sobre o paciente e a responsabilidade do analista, são fatores de êxito do trabalho psicanalítico. O modo pré-verbal de comunicar do paciente é a maneira de a criança “falar” com sua mãe. Dentro da concepção winnicottiana, a regressão deixa de ser um mecanismo de defesa a ser evitado a todo custo, por provocar acting-out, para se tornar indispensável, pois provê a oportunidade de experimentar, na relação analítica, as falhas ambientais e de vivenciar partes dissociadas na relação primitiva mãe-bebê.


Cabe ao analista, após a tormenta emocional, encontrar as palavras para a realidade do sofrimento do paciente. A regressão ocorre por se reconhecer a experiência intrusiva ou de privação e pela capacidade do analista de conter a raiva, a dor e o temor sem ser destruído, sem interromper a análise. Sempre haverá objetos subjetivos e objetivos e o incessante caminhar para a realidade e o uso de objetos, sempre persistirá uma comunicação silenciosa com o objeto subjetivo, como um refúgio e uma forma preventiva de não se ligar tão facilmente com algum grau de relações objetais falsas ou submissas; a comunicação silenciosa e secreta com objetos subjetivos restaura o senso de real para o si-mesmo. Todos esses elementos fazem parte do que ele denominou de “manejo do setting. A experiência analítica é um processo muito maior do que um conjunto de interpretações. O silêncio do analista faz parte do manejo técnico do setting, juntamente com outros elementos, como prolongar a duração da sessões, permitir que o paciente ande pela sala, que se sente ou fique de pé etc. O analista suprirá a necessidade do jogo ilusório materno privilegiando a criatividade em todos os níveis, cuidando para que o “fazer analítico” não paralise o processo criativo. A técnica winnicottiana, assim, recoloca o problema do “lugar do analista” juntamente com a constituição do sujeito psíquico e sua relação com o ambiente facilitador, sendo essa interação o elemento estruturante por excelência, não se podendo aceitar a vida psíquica como subproduto da organização libidinal.


O importante é que a criança sinta-se à vontade, desarmada, confiante de que possa se expressar e de que suas questões serão acolhidas. O desenho ou qualquer outro recurso é apenas um instrumento para que o diálogo se estabeleça de forma natural e o terapeuta possa quando for possível inserir elementos, possibilidades alternativas de ser e fazer.


Referências

Winnicott, D. W. (1978). Aspectos clínicos metapsicológicos da regressão dentro do setting psicanalítico. In Da pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro: Francisco Alves. (Trabalho original publicado em 1954.)