18 de setembro de 2016

Para compreender-me...


Não vou pedir que você me compreenda,
Porque é muito difícil...
Para compreender-me você,
tinha que escutar minha alma.
Para compreender-me você,
tinha que ver-me com meus olhos.
Para compreender-me você,
tinha que conhecer e sentir,
minhas dores, minhas feridas.
Para compreender-me você,
tinha que entender cada olhar,
cada suspiro, cada gesto.
Para compreender-me você,
tinha que entender cada lágrima,
cada tristeza, cada esperança.
Para compreender-me você,
tinha que conhecer os caminhos de brasas, as vidas de penúria,
que percorri.
Para compreender-me você,
tinha que lê os meus pensamentos em meus olhos.
Para compreender-me você,
tinha que vibrar, no mesmo tom que minh'alma.
Para compreender-me você,
tinha que sentir o perfume de minh'alma.
Para compreender-me você,
tinha  que me amar incondicionalmente.
Myriam”aya

As Sutilezas do Insulto


Por certo que vivemos uma época em que 0 acesso quase imediato  aos acontecimentos na sociedade, contribui para acentuar desvios de caráter, quando se trata de informação. Difícil saber a fonte, a origem e se é verdade ou não. Há no mundo atual uma “fábrica de mentiras” que se autodenomina “jornalismo”, ou “compromisso democrático”. É o terrorismo da informação. Mas isso não fica somente no geral da sociedade. Essa forma de viver permeia as relações mais íntimas entre familiares e amigos: que manipulam, dissimulam, mente, distorcem situações para favorecerem a si próprias, obtendo um gozo de poder sobre o outro. Nesse sentido esse trecho do livro de Arthur Schopenhauer – A Arte de Insultar, nos coloca diante da estrutura perversa do insulto:

1. O insulto como "extrema ratio"
“A presente Arte de insultar é o complemento ideal da Arte de ter razão, o primeiro dos pequenos tratados de Schopenhauer que tiramos de seus escritos póstumos. Concluindo aquele prontuário de estratagemas inventados para se ter sempre razão, Schopenhauer reconhecia, entretanto o limite de toda técnica argumentativa: se discutirmos com um adversário mais inteligente e mais hábil do que nós, não haverá astúcia que resolva; no plano da dialética, não há escapatória, acabaremos fatalmente sendo derrotados. Isso não significa, todavia, que a partida esteja irremediavelmente perdida. De fato, resta um derradeiro, pérfido expediente, o trigésimo oitavo, que aconselha:”

"Quando perceber que o adversário é superior e que você acabará por perder a razão, torne-se ofensivo, ultrajante, grosseiro, isto é, passe do objeto da contestação (dado que aí a partida está perdida) ao contendor e ataque de algum modo sua pessoa".

Como Schopenhauer acrescenta, e como é natural, "essa regra é muito popular, já que qualquer um é capaz de aplicá-la, e portanto é empregada com frequência". Insultar será, pois, como a experiência cotidiana confirma, o término inevitável de nossas discussões. Mas Schopenhauer não vê com bons olhos esse resultado. Para ele, o melhor que há é tentar evitar de qualquer maneira ser arrastados a esse ponto, para o que oferece um par de sugestões práticas:
1) por exemplo, fazer-se de desentendido e ignorar os insultos do adversário; uma série de anedotas clássicas, por ele recolhidas com tal fim, mostram como os homens sábios sabem manter a impassibilidade diante das ofensas e dos insultos mais irritantes.
2) ou, melhor ainda, como Aristóteles já sugeria nas confutações sofisticas e como nosso filósofo também recomenda, evitar discutir com o primeiro que aparecer ou com gente que fala só por falar à maneira dos sofistas, portanto escolher com clarividência os interlocutores com os quais entabular seriamente controvérsias e discussões.
No entanto, como todos bem sabem, apesar de todas as cautelas, muitas vezes acabamos levados ao insulto pelos acasos da vida, inclusive quando menos gostaríamos. Em certas situações, é impossível recuar porque — explica Schopenhauer — quem insulta nos faz perder a honra, mesmo se for o "mais indigno canalha, o mais estúpido animal, um vagabundo, um jogador, um facadista". Portanto, "uma só grosseria supera qualquer argumentação e faz sombra a qualquer espiritualidade". Em outras palavras, como reza a máxima n° 4 da Arte de se fazer respeitar: "A vileza é uma qualidade que, nas questões de honra, supera e suplanta qualquer outra. Se, por exemplo, durante uma discussão ou um colóquio, outro demonstra um conhecimento de causa mais exato, um amor mais rigoroso à verdade e um juízo mais sadio que nós, ou uma superioridade intelectual qualquer que nos faça sombra, podemos logo eliminar essa e qualquer outra superioridade, para não dizer nossa própria inferioridade assim posta a nu, e por nossa vez sermos superiores, tornando-nos vis: uma vileza prevalece e leva a melhor sobre qualquer argumento e, a não ser que nosso adversário não replique com uma vileza ainda maior... somos nós os vencedores, a honra fica conosco, e a verdade, o conhecimento, o espírito e o engenho devem cair fora, derrotados e encurralados pela vileza. Trata-se então de não estarmos despreparados para tal caso.

Esse cotidiano tão comum, que é o insulto obscurece a verdade, através de um recorte de base fundamentalista. É uma agressão perversa, calculada, pensada, para atingir o outro em sua liberdade. Quando um sujeito faz determinada coisa moralmente duvidosa, e aquilo é de certa forma “revelado”, mesmo que seja de forma velada, ele diz que é o outro que está fazendo, seja lá o que for. Ele coloca o moralmente duvidoso no outro. Essa projeção paranoica é sutil, difícil de identificar e demanda desse outro um grande autoconhecimento.

10 de julho de 2016

Alma na poesia de Nâzim Hikmet...


O que você acha?”
“é claro que você sente
         talvez perceba
                mas duvido que entenda.
De qualquer modo – e daí?
Mesmo que você entenda, vai acabar esquecendo.
Foi algo instantâneo que veio e foi embora
           ou está prestes a ir.
E se não for embora, você vai acabar se acostumando.
E uma vez que se acostume, não haverá problemas.
O hábito restaura
    o conforto de nunca ter sentido
              percebido
         ou compreendido nada.”
                                        p.189
Nâzim Hikmet 

3 de julho de 2016

A Música não possui idioma...


As lendas falam da história oral dos povos e suas culturas. Uma delas, que não conheço a referência, por ser muito antiga em meus arquivos, diz respeito à música. Cito um trecho, na compreensão de que, a arte, seja qual for sua expressão: literatura, poesia, pintura, desenho, fotografia, filme, música, não possuem idiomas, são universais. Para embelezar a vida nascem na alma, é fruto do amor. Então aqui está o referido texto:

“Inúmeras lendas chinesas atestam maiores, e até mágicas, possibilidades da música. Uma, por exemplo, nos conta como o mestre de música Wen de Cheng aprendeu a dominar os elementos. O Mestre Wen acompanhava o grande Mestre Hsiang em suas viagens. Durante três anos Mestre Wen arranhou as cordas da cítara, mas não lhes arrancou melodia alguma. Disse-lhe, então, Mestre Hsiang: “Deixe disso, vá para casa.” Depondo o instrumento no chão, Mestre Wen suspirou e respondeu: “Não é que eu não possa produzir uma melodia. O que tenho em mente não se relaciona com cordas; não viso a tons. Enquanto não o tiver alcançado no coração não poderei expressá-lo no instrumento; portanto, não me atrevo a mover a mão e ferir as cordas; Dê-me, porém, um pouco de tempo e examine-me depois.”
“Volvido algum tempo, voltou e aproximou-se outra vez de Mestre Hsiang, que lhe perguntou: “E então? Como vai a sua execução?” Era primavera, mas quando Mestre Wen dedilhou a corda Shang e acompanhou-lhe o dedilhar com o oitavo semitom, um vento frio se levantou e os arbustos e as árvores deram frutos. Agora era outono.”
“Mestre Wen dedilhou novamente uma corda, desta feita a corda Chiao, e acompanhou-a com o segundo semitom: ergueu-se uma brisa lânguida e quente, os arbustos e as árvores floresceram.”
“Era verão agora, mas ele feriu a corda Yü e fez que lhe respondesse o décimo primeiro semitom, o que provocou a queda da geada e da neve e o congelamento dos rios e dos lagos.”
“Quando o inverno chegou, tocou a corda Chih e acompanhou-a com o quinto semitom: rompeu o Sol e o gelo imediatamente se derreteu.”
“Finalmente, Mestre Wen de Cheng tangeu a corda Kung e o fez em uníssono com as outras quatro cordas: formosos ventos murmuraram, ergueram-se nuvens de boa fortuna, entrou a cair um doce orvalho e os mananciais das águas avolumaram-se, pujantes.”
“Está claro que não se deve tomar essa lenda pelo seu valor ostensivo. Os chineses criam, de fato, que a música influi nos fenômenos da natureza. Não acreditavam, todavia, se pudesse esperar que os tons do homem mortal fossem capazes de evocar, literalmente, uma estação depois da outra, como afirma a lenda de Mestre Wen de Cheng. Mas se atentarmos melhor para a história, sem esquecer a grande tendência do antigo espírito chinês a gravitar em torno de assuntos espirituais e a expressar-se em termos simbólicos, um significado mais profundo se erguerá, revelado, ante nossos olhos:”
“As quatro cordas externas da cítara e as quatro estações simbolizam a antiga concepção dos quatro aspectos do homem: sua mente abstrata, sua mente concreta, suas emoções e seu corpo físico. (Estes quatro vieram, mais tarde, a ser chamados pelos alquimistas da Europa, “Fogo, Ar, Água e Terra”.) Mestre Wen não pode satisfazer ao seu guru, Mestre Hsiang, porque ainda não senhoreou os quatro aspectos do seu ser. Em razão disso, não lhe é dado executar música sublime. Mas afasta-se e só volta depois de haver atingido a plena florescência da espiritualidade do seu coração. Agora, Mestre Wen pode dedilhar as quatro cordas externas e provocar com elas um grande efeito. Da mesma forma, e muito mais significativamente, logrou o domínio total de seus processos mentais abstratos e concretos, da sua natureza emocional e física, e pode “tocá-las”.
“Qual é o resultado desse império sobre o espírito e o corpo? O resultado vital é que, ao tanger as quatro “cordas” externas (sua natureza quádrupla) em uníssono, ele aprendeu também a ferir a corda central Kung (correspondente ao Eu Superior ou natureza espiritual). Da base quadrilateral da pirâmide da vida, elevou-se ao próprio ápice da perfeição.”
“Alcançou o pleno domínio de si e, em vista disso, seu gênio interior manifesta-se agora desde o coração. Em vista disso também sua música atingiu os níveis necessários de grandeza exigidos pelo guru. A moral aqui é dupla: em primeiro lugar, cumpre-nos dominar nossa natureza quádrupla antes de lograr o nosso pleno desenvolvimento. Em segundo lugar, somente depois de consegui-lo podemos executar a música que realmente vale a pena ser executada. Outra narrativa lendária, tirada do Shu King (Livro de odes) descreve uma música tão sublime que invocava a presença dos grandes homens espirituais do passado que se haviam alçado ao céu, Kwei, o músico-chefe do imperador Shun, disse: quando eles bateram de leve e com força na pedra ressoante, e feriram e varreram o ch’in e o shê, a fim de se afinarem com o canto, antepassados e progenitores desceram e visitaram-nos. Seus hóspedes ocuparam as cadeiras principais. E as hostes dos nobres virtuosamente cederam (os lugares uns aos outros) No fundo da sala estavam as flautas e os tambores, que foram levados a soar em uníssono ou eram interrompidos pelas batidas ou pelo arrastar de pés dos lacaios, enquanto a flauta de Pã e o sino indicavam os intervalos.”..

25 de junho de 2016

Partida


Sinto a partida,
dessa “terra”,
levo dessa “casa”,
uma alma que sangra,
pelos generosos aprendizados,
cumprir o dever...
e como toda partida,
fica o amor,
que habita em meu coração,
e minha’lma saudosa,
no muito que há por ser e fazer,
e o esperado reencontro.
Myriam”aya

22 de junho de 2016

Uma nota sobre o ódio inconsciente

Qual o receio que muitas vezes as pessoas têm da psicanálise? Porque a psicanálise vai interrogar o sujeito. A psicanálise vai interrogar seu desejo, vai implicá-lo. Dessa forma vai conduzi-lo a ele mesmo e o outro vai existir, enquanto seu objeto de desejo, seja esse desejo no campo da neurose, das psicoses ou do perverso ou em seus diversos traços em uma estrutura. Na sociedade atual ninguém deseja se implicar, flexibilizar suas resistências, utilizar a razão. O sujeito desejante é o sujeito do instinto primário, da projeção ao outro, das psicoses ou da negação da lei, pela perversão.

O que se faz presente, já foi passado, porque fez parte de uma construção. Vivemos uma civilização no início do século XXI, construída no que ainda resta do materialismo, onde os grupos sociais, que se sentem elitizados, necessariamente podem não ter poder aquisitivo, sucumbem ao primitivismo do ódio, seja em que concepção se paute, como verdade absoluta. Uma geração, que para além de não possuir um caminho na filosofia, enquanto disciplina teórica do conhecimento, não alcançará pelo materialismo o autoconhecimento necessário à construção e reconstrução não só da própria vida psíquica, mas também da vida em sociedade. As redes sociais estão impregnadas de ódio, sangra; a vida está impregnada de ódio, seja lá pelo que for. Então se for possível uma “escalada”, odeia-se o pai e/ou a mãe e/ou filho e/ou irmão (a), "companheiro", a "companheira", o vizinho, a escola, o colega, a faculdade, a sociedade, a cidade, as manifestações religiosas, espirituais, sejam quais forem,  as manifestações de gênero, os imigrantes, os pobres, a cor da pele diferente, as regiões pobres do país, os países pobres, as etnias,  as raças, enfim, odeia-se o planeta: essa casa maravilhosa que habitamos. Há que interrogarmos como foi construída essa dificuldade de lidar com o diferente, a falta. Assim o outro pobre, imigrante, amarelo, negro, vermelho, de outro gênero, de outra cidade, região, raça, é um ser faltante, incompleto, “não deve existir” enquanto sujeito e sim como objeto. É fato que o inconsciente sempre foi e sempre será um enigma, pois, um psíquico que agora se acha presente, já foi um passado e poderá ser um futuro. Então é assim que Freud irá dizer: “que um elemento psíquico que, se ache agora presente em minha consciência pode tornar-se ausente no momento seguinte, e novamente presente,” (1912). É assim que esquecer é uma forma de defesa, de não responsabilizar-se. Então em que momento da existência psíquica esse ódio foi instalado e insuflado? Ele queima o sujeito que habita, como um parasita que se alimenta de seu hospedeiro, até sua destruição, pois encontra alimento e um ambiente receptivo.

Mas, para que esse ódio tenha sucesso é necessário que ele burle as defesas, para não ser reconhecido e destruído, e isso “é possível na perversão”. É possível na construção de um discurso os diversos interesses, que se colocam, como a falada “democracia”. Se pensarmos na exegese da palavra desde sua origem na Grécia Antiga (demo=povo e kracia=governo); temos um governo para o povo. Mas que povo? Na Grécia antiga nem todos podiam participar dessa “democracia representativa”: Mulheres, estrangeiros, escravos e crianças não participavam das decisões políticas da cidade. A participação hoje da “democracia representativa”, é representada, como na Grécia antiga, por uma elite dominante, com interesses econômicos definidos, mais vinculados a questões de raça do que de questões partidárias.  Esse limite na participação assumiu formas mais “sofisticadas” na atualidade. Então os critérios de caráter, honestidade, idoneidade moral, ética não existem. Só é possível participar de forma partidária, no sentido de “tomar partido” de acordo com os interesses de grupos econômicos influentes. A questão que se coloca dos interesses de insuflar o ódio, nesse inconsciente coletivo, que cada sujeito abriga dentro de si, é algo a se interrogar: porque não tem a família que desejava, o trabalho, a posição social, a estética física, o padrão moral, a formação intelectual, etc., enfim há sempre um significante que “encontrará eco no real”. Manipular esse ódio individual até que ele se torne coletivo é algo que a história humana durante a segunda guerra mundial,como em um jogo de xadrez, fez com grandes tragédias. E então parafraseando Sarte o Ser pode ser o Nada e o Nada pode ser o Ser.

Supõe-se que as formas presentes de existência, dos conteúdos, é uma “repetição” de experiências remotas, ou seja, com “outros” representantes; e o que fica latente é aquilo que precisa ser reelaborado, revisto sob outra linguagem, a qual é a lei. Mas o ódio subverte a lei. O que está presente em nosso consciente é o “que nos damos conta”; o mais está no campo/tempo/lugar do inconsciente (na memória inacessível). É difícil o inconsciente ser revelado. O que lhe escapa, escapa através dos chistes, das associações, dos diversos representantes e significantes. Embora muitas vezes furtivas imagens, diálogos, sentimentos se fazem lembrar, sem uma ordem, influência consistente. A maior parte desse material permanece inconsciente, necessitando de mediação, para se fazer presente, resinificado. Essas ideias, sentimentos latentes, são dinâmicas e nem sempre é possível localizar no tempo, mas existem de forma inconsciente. O próprio ódio, enquanto um sintoma de algo que se envenenou, sem chegar a consciente elaborado, existe em cada sujeito, que há de se interrogar em sua subjetividade, qual a fonte de seu ódio, que se dirige para o outro, mas que começa em si próprio, no seu inconsciente, em outras palavras, o que o sujeito odeia em si próprio? A resistência às ideias inconscientes constitui a essência delas. É possível pensar que o ódio e suas manifestações é um ato social, mas é antecedido de um ato psíquico que começa como um “ato inconsciente e pode permanecer assim ou continuar a evoluir para a consciência, segundo encontra resistência ou não”, pois a lei do inconsciente é algo a ser construída na inserção do sujeito na cultura e nos recursos que o superego possui, ou seja, aquilo que é constitucional. Se o ódio é um negativo, para que justifique a si próprio necessita encontrar eco no real. Mas que real é esse que se configura pelo ódio? Pelo negativo? É um real sem resinificação, um real possível de ser interrogado: mas o que possui de positivo “nisso”? Mas o ódio só é possível ser compreendido no campo do perverso, porque requer outro sintoma, que é a vingança, como sadismo. Então, há que cada sujeito se implicar em seu discurso e em suas passagens ao ato sem necessitar dos grupos sociais, instituições para manterem-se anônimos, pois o anonimato é a terra dos deserdados.

Referência
FREUD, S.. UMA NOTA SOBRE O INCONSCIENTE NA PSICANÁLISE (1912) - Obras Completas de Psicanálise - volume XII. Rio de Janeiro, Imago-1996.

12 de junho de 2016

"O Começo da Vida"

Os avanços das pesquisas sobre os seres humanos, na compreensão dessa maravilhosa máquina biológica e simultaneamente da subjetividade que a compõe é excepcional. Um vídeo para ver e sentir.

10 de junho de 2016

Caminhos do Inconsciente...

As palavras de Freud ecoam, principalmente quando falamos de consciente e inconsciente e a qual comando estamos mais fortemente vinculados e conscientes, dado as devidas diferenças de subjetividades e seus percursos. As modulações entre consciente e inconsciente, requerem um aprofundamento do autoconhecimento, que “não dá saltos”. É um percurso, lento e muitas vezes doloroso. Qualquer absolutismo aqui requer um reexame dos sentimentos de arrogância e ignorância sobre si mesmo.

“A psicanálise escapou a dificuldades..., negando energicamente a igualação entre o que é psíquico e o que é consciente. Não; ser consciente não pode ser a essência do que é psíquico. É apenas uma qualidade do que é psíquico, e uma qualidade inconstante — uma qualidade que está com muito mais frequência ausente do que presente. O psíquico, seja qual for sua natureza, é em si mesmo inconsciente e provavelmente semelhante em espécie a todos os outros processos naturais de que obtivemos conhecimento.”
“A psicanálise baseia essa asserção numa série de fatos, dos quais passarei agora a fornecer uma seleção.”
“Sabemos o que se quer dizer por ideias que ‘ocorrem’ a alguém — pensamentos que subitamente vêm à consciência sem que se esteja ciente dos passos que a eles levaram, embora também estes devam ter sido atos psíquicos. Pode mesmo acontecer que se chegue dessa maneira à solução de algum difícil problema intelectual, que anteriormente, durante certo tempo, frustrou nossos esforços. Todos os complicados processos de seleção, rejeição e decisão que ocuparam o intervalo foram retirados da consciência. Não estaremos apresentando nenhuma teoria nova se dissermos que eles foram inconscientes e que talvez, também, assim permaneceram.”
“Em segundo lugar, colherei um exemplo isolado para representar uma imensa classe de fenômenos. O presidente de um órgão público (a Câmara Baixa do Parlamento Austríaco) em certa ocasião abriu uma reunião com as seguintes palavras: ‘Constato que um quorum completo de membros está presente e por isso declaro encerrada a sessão. ’ Foi um lapso verbal, pois não pode haver dúvida de que aquilo que o presidente pretendia dizer era ‘aberta’. Por que então disse o contrário? Esperaremos que nos digam que foi um equívoco acidental, uma falha em levar a cabo uma intenção, tal como pode facilmente acontecer por diversas razões: não teve significado e, de qualquer modo, os contrários, de modo particular e fácil, substituem-se uns aos outros. Se, contudo, tivermos em mente a situação em que o lapso verbal ocorreu, ficaremos inclinados a preferir outra explicação. Muitas das sessões anteriores da Câmara tinham sido desagradavelmente tempestuosas e nada haviam produzido, de modo que seria muito natural que o presidente pensasse, no momento de fazer sua declaração de abertura: ‘Se a sessão que está apenas começando estivesse acabada! Preferiria muito mais encerrá-la do que abri-la!’ Quando começou a falar, provavelmente não estava cônscio desse desejo — não lhe era consciente —, mas ele achava-se certamente presente e alcançou sucesso em se fazer efetivo, contra a vontade do orador, em seu aparente equívoco. Um exemplo isolado dificilmente pode capacitar-nos a decidir entre duas explicações tão diferentes. Mas, e se todos os outros exemplos de lapsos verbais pudessem ser explicados da mesma maneira, e, semelhantemente, todos os lapsos de escrita, todos os casos de leitura ou audição equivocada, e todos os atos falhos? E se em todos esses casos (sem uma única exceção, poder-se-ia corretamente dizer) fosse possível demonstrar a presença de um ato psíquico — um pensamento, um desejo ou uma intenção — que explicasse o equívoco aparente e que fosse inconsciente no momento em que se tornou efetivo, ainda que anteriormente pudesse ter sido consciente? Se assim fosse, realmente não seria mais possível discutir o fato de que existem atos psíquicos que são inconscientes e o de que às vezes eles são mesmo ativos enquanto se acham inconscientes, e nesse caso podem inclusive, ocasionalmente, levar a melhor sobre as intenções conscientes. A pessoa envolvida num equívoco desse tipo pode reagir a ele de diversas maneiras. Pode desprezá-lo completamente ou notá-lo e ficar embaraçada e envergonhada. Via de regra, não pode encontrar a explicação dele por si própria, sem auxílio externo, e quase sempre se recusa — por certo tempo, pelo menos — a aceitar a solução quando esta lhe é apresentada.”

Se todos os lapsos verbais, de ações, representantes, de “silêncios”, puderem ser explicados via inconsciente, é possível demonstrar a presença de um ato psíquico, um pensamento, um desejo ou uma intenção via inconsciente, que apesar de desejar se fazer presente ao mesmo tempo não o deseja. Então falamos de inconsciente revelado. Tarefa árdua e difícil.

Referência
FREUD, S.. ALGUMAS LIÇÕES ELEMENTARES DE PSICANÁLISE (1940 [1938]) - Obras Completas de Psicanálise - volume XXIII. Rio de Janeiro, Imago-1996. 

15 de maio de 2016

Poesia - Ave Ferida


Ave pequena,
ave ferida,
voa com sua tristeza,
voa com suas feridas,
seu coração deseja,
apagar da memória
as lembranças,
seu coração deseja,
curar suas feridas.
Ave que voa solitária,
longe de sua “casa”,
o perdão existe em seu coração,
mas, não há arrependidos...
e o tempo que parece esquecer,
retorna para lembrar a dor,
que ainda sangra,
mas a eternidade cura!
Myriam’aya 

14 de maio de 2016

Consciente e Inconsciente - suas incógnitas


...”ser consciente não pode ser a essência do que é psíquico. É apenas uma qualidade do que é psíquico, e uma qualidade inconstante — uma qualidade que está com muito mais frequência ausente do que presente. O psíquico, seja qual for sua natureza, é em si mesmo inconsciente e provavelmente semelhante em espécie a todos os outros processos naturais de que obtivemos conhecimento”.

...”a consciência é apenas uma qualidade inconstante. Mas há ainda uma objeção com a qual temos de lidar. Dizem-nos que, apesar dos fatos mencionados, não há necessidade de abandonar a identidade entre o que é consciente e o que é psíquico: os chamados processos psíquicos inconscientes são os processos orgânicos que há muito tempo foram reconhecidos como correndo paralelos aos mentais. Isso, naturalmente, reduziria nosso problema a uma questão aparentemente indiferente de definição. Nossa resposta é que seria injustificável e inconveniente provocar uma brecha na unidade da vida mental em benefício da sustentação de uma definição, de uma vez que é claro, seja lá como for, que a consciência só nos pode oferecer uma cadeia incompleta e rompida de fenômenos”. Freud - (1940 [1938])

12 de maio de 2016

O Lugar e o Tempo

No velho teatro grego, realizar no outro e pelo outro aquilo que em seu ser latejava como necessidade, é o que é fundamental. Esse lugar de expectadores “passivos” em muitos momentos se contrapõe em expectadores raivosos, cheios de ódio, narcísicos, impossibilitados de empatia.  As redes sociais possibilitam que cada um seja também um ator, representando um papel, que na maioria das vezes é um “fake”, um fotografar a si próprio em um gozo narcísico. “Vende-se” a própria imagem e a vida privada. Os sentimentos e conflitos mais profundos são expostos sem nenhuma privacidade. “A rede cura”. Essas são as relações coisificadas, o “mercado dos sentimentos”, sem empatia ou compaixão. O ego é o centro, no qual o narcisismo mascarado de auto piedade e vitimismo, se revela.   A alienação se reflete, de um povo exilado em seu próprio país como o povo Saharaui, exilado em seu próprio país, o Marrocos, na região do Saara Ocidental e sobrevive quase que exclusivamente do auxílio de ONGs, e os refugiados do Nepal que lutam para sobreviver. Enquanto milhares de jovens estão sendo assassinados no mundo, “assistimos o espetáculo da violência como um produto, por onde cada um representa-se pelo seu viés perverso. Mas a vida no seu dia a dia é cruel para milhares de jovens, mães, pais. Há um desencontro subjetivo nos jovens. Eles sentem-se sem conhecimento, dizem não saber pensar, não saber encontrar um caminho, ou formar um juízo de valor. O silêncio nos fala de uma crise, de um luto. E agora? As crises são enigmáticas, mas espera-se que por piores que sejam seus frutos, eles apodrecerão, e das sementes nascerão árvores saudáveis. Se nos atermos a exegese da palavra crise (Período de manifestação aguda de uma doença. Manifestação violenta, repentina e breve.) Temos a mudança brusca produzida no estado de um doente, causada pela luta entre o agente agressor e os mecanismos de defesa. No sentido figurado: Momento perigoso ou difícil; período de desordem. Situação conflituosa; tensão. Expressão de ausência, carência. Crise de moralidade (Etm. do grego: krísis; pelo latim: crisis). Sinônimos de Crise: apuro, dificuldade, ataque, acesso, conflito, carência, queda. Podemos falar que esse é o nosso cotidiano circunstancial, em que cada sujeito e cada grupo pensante se insere. Há que cada sujeito, jovem, adulto, idoso se implicar nas mudanças necessárias sejam sociais, políticas ou econômicas. Mas para isso é imperativo o autoconhecimento, mesmo que seja superficial. Cada sujeito deve se interrogar em suas palavras e atos, a assumir as responsabilidades da sua humanidade, que lhe cabe no tempo e no espaço real e simbólico. Desabafar nas redes sociais não curam. No mínimo alimenta o narcisismo estrutural.

10 de abril de 2016

A “Prova ontológica” da Presença e Ausência

A ausência é um tempo de afastar-se do mundo, seja o mundo, as contingências da existência, que só faz sentido na subjetividade de um ser se representar, ou uma mudança de direção em relação a si próprio, ou seja, sua viagem interior. É o aparar arestas, rever conceitos, práticas, caminhos, olhar as mesmas paisagens com “outro olhar”, com novas cores, novos ângulos, olhar novas paisagens, ouvir novos sons, novos perfumes, sentir as lembranças, as paisagens, o som, o perfume que o vento traz.  A ausência nos estrutura para o novo, pois só aumenta aquilo que é possível diminuir, e só diminui o que é possível aumentar. São novos movimentos de aprendizados. Ausenta-se é tornar-se presença silenciosa, que se movimenta como ondas sonoras em que o som emitido de cada palavra e do silêncio possui o balanço próprio da vida, com seus diversos tons.

Assim nossa consciência da ausência é a consciência do “perder-se” “ser consciência de alguma coisa é estar diante de uma presença concreta e plena que não é consciência. Sem dúvida pode-se ter consciência de uma ausência. Mas essa ausência aparece necessariamente sobre um fundo de presença” (Sartre, 1943 p.33). Ausência e presença se implicam por suas contingências. Pois a ausência é a presença em outro tempo e lugar. Esse estado subjetivo requer um estado de modalidade e distancia semelhante às tonalidades da notação musical, em que por diferentes que sejam as escalas, os intervalos entre uma nota e outra e a forma, com a qual é interpretado o que é revelado é a subjetividade da presença e ausência. Essa “prova ontológica”, é necessária a existência do Ser. Se a ausência e a presença são suaves como o intervalo que modula as notas de uma canção, onde cada aparição remete a outra, mas cada uma já é, por si mesmo, transcendente, “não matéria impressionável subjetiva – uma plenitude de ser, e não falta – uma presença, e não ausência”. Então para existir é preciso ausentar-se, seguir a direção do vento, que é a direção do caminho, do destino. Há, então, que remeter a falta estruturante no sentido da descoberta da própria essência. A vida é uma continuidade transcendente. A ausência e a presença que manifestam o existente “não são interiores nem exteriores: equivalem entre si, remetem todas as outras aparições e nenhuma é privilegiada”. Escapar a temporalidade é tornar os tesouros ocultos do passado e o próprio passado atual, com novos significados e usufruir dos tesouros como não pertencendo a uma única dimensão de tempo. Assim podemos pensar no fenômeno, no que aparenta por sua presença-ausência e a “dualidade de potência” é o que constitui a essência a ser aprimorada. Dualidade essa que por constituir a essência compõe um movimento dialético do “ir e vir”. Essa forma circular que compõe todas as coisas, constitutiva do Ser, é uma lei do universo em seu movimento de aumento e diminuição. Ao pensar a presença e ausência como fenômeno, temos que pensar em um mundo inteligível “real” das ideias, em objetos da intuição vinculados a limitação da sensibilidade e tornar possível como resposta a interrogação de Kant sobre a possibilidade de existir a soma total de um mundo inteligível, como sendo o inconsciente. Assim nos movimentamos no inteligível, na esperança de no futuro longe, ser possível acessá-lo em sua completude, pois na presença-ausência, na lembrança-esquecimento está o movimento de autoconhecimento tão necessário ao equilíbrio das forças internas.

6 de dezembro de 2015

A compreensão é silênciosa


O que é da compreensão não é a palavra
O que é da palavra não é a compreensão
Fechando a boca
Trancando a porta
Cegando o corte
Desatando o nó
Harmonizando-se à luz
Igualando-se à poeira
Isto chama-se o Mistério Comum (União com o Todo)
Com o qual
Não se pode encontrar aproximação
Não se pode encontrar afastamento
Não se pode encontrar benefício
Não se pode encontrar malefício
Não se pode encontrar valorização
Não se pode encontrar desvalorização
Por isso age como nobre sob o céu                                                                           

TAO TE CHING - O Livro do Caminho e da Virtude - Lao Tse - Tradução do Mestre Wu Jyn Cherng

29 de novembro de 2015

“Escolha” Objetal Primária

Aquilo para o qual Freud considera “complexo de Édipo” trata-se da escolha do objeto sexual. Se essa escolha direciona-se para o pai ou para a mãe ou o que contem de desejo em relação aos dois é uma questão que remete a subjetividade do sujeito. Em um percurso “linear” a menina desejará o objeto de desejo da mãe e o menino o objeto de desejo do pai, mas essa suposta linearidade é muito mais complexa, pois há que se interrogar como essas figuras parentais elaboraram suas escolhas objetais e como se delineiam, em função dessas, os romances familiares, e como a lei simbólica é internalizada pelo sujeito. Freud nos diz que o complexo de Édipo “se encaminhará para a destruição por sua falta de sucesso”, mas o que vemos é que, o que ele designa por sucesso ou insucesso é da ordem do recalque, da lei simbólica, ou seja, as contingências da vida ou o destino que o sujeito dará ao seu desejo. A elaboração da provação edipiana é questão para uma vida ou não. O que a clínica tem revelado é que os conflitos com as figuras parentais tem uma pulsão, que remete ao desejo objetal. Tentar realizar no outro, na escolha do parceiro ou parceira aquilo que não foi possível realizar com sua escolha de desejo primária é sempre uma questão de confronto com o próprio desejo e escolhas. É no contexto das experiências sexuais da infância ou no contexto da “castração” que a escolha será nebulosa e recalcada, revelando tão logo uma sintomatologia de sofrimento inconsciente ou uma pacificação com o próprio desejo. Essa circunstância existencial do desenvolvimento vem num crescendo desde o nascimento e suas perdas do seio materno, a passagem ao controle esfincteriano, do desenvolvimento motor e da fala. Portanto é uma gama de mudanças nem sempre fácil de resinificar; e que o brincar nem sempre vai dar conta dessa complexidade de questões e conflitos. Uma “escolha” objetal primária deve demandar um tempo psíquico para ser elaborada.

Referência
FREUD, S. A DISSOLUÇÃO DO COMPLEXO DE ÉDIPO (1924). Obras Completas de Psicanálise - volume XIX. Rio de Janeiro, Imago-1996. 

22 de novembro de 2015

Anotações sobre a Razão

Ao pensar na história da humanidade, pensamos na nossa própria história, nos percursos das ideias e ideais que buscamos construir no sentido da incessante busca de sublimação e evolução. Por certo nossa civilização encontra-se em um momento de interrogações sobre os caminhos seguidos nos últimos séculos. A ciência do pensamento, se é que podemos chamar assim, a filosofia, depara-se hoje com incógnitas sobre a manutenção da vida no planeta. Podemos dizer que o século XX e XXI caracteriza-se pela insegurança quanto à continuidade da vida no planeta, frente ao esgotamento dos recursos naturais. Nos primórdios o homem interrogava sobre a existência de Deus e a vida em outros mundos, a seguir a teologia e a moral ocuparam as especulações racionais e a exegese passou a ser uma forma de esterilizar essas reflexões. Mas a metafísica vem recolocá-las mais distantes das paixões. Se a forma de conhecer os objetos do conhecimento da razão mudou ao longo dos séculos, ora com ênfase na sensibilidade, nos sentidos, ora no intelectualismo, no entendimento, onde os objetos verdadeiros são fruto de uma “intuição de um entendimento puro”, não necessitando dos sentidos. Do empirismo de Aristóteles, a noologia de Platão, do Ser enquanto Ser percorre-se o método naturalista e científico. “O naturalista da razão pura toma por princípio que, por meio da razão comum sem ciência, pode conseguir-se muito melhores resultados, com respeito às questões mais sublimes, que constituem o tema da metafísica, do que pela especulação. Afirma, assim, que se pode determinar mais seguramente a grandeza da lua e a distância a que se encontra da terra pela simples medida visual do que pelos tramites da matemática” (p.673). A grandeza do método cientifico é a via crítica, sistemática, sem cair no dogmatismo ou no cepticismo. Ao olharmos os eventos do mundo atual vemos a balança pender para um lado ora para outro, sem encontrar seu equilíbrio. Então todos os objetos são distanciados pelos extremismos, que se aproximam de ideias delirantes. A razão enquanto categoria do humano não encontra assim a ‘Si’ mesma; percorrendo caminhos obscuros. Por certo ainda não alcançamos experiência da razão pura que prescinda da prática, porque sem a lei e a moral a civilização não se constitui enquanto tal.
Referencia

KANT, Immanuel – CRÍTICA DA RAZÃO PURA ( A História da Razão Pura) – Edição  da Fundação Calouste Gulbenkian – 6ª Edição – Lisboa/2008

8 de novembro de 2015

Freud – Jung: A Psique e suas Fronteiras

Há quase 100 anos esses dois pesquisadores, instigantes e suas interrogações sobre a psique humana, mergulharam suas vidas em um trabalho interminável, como o próprio objeto de estudo. Novamente partilhamos essas duas cartas que falam por si só.

 7 de outubro de 1906, Viena, IX. Berggasse Caro colega,

Sua carta me deu grande prazer. Folgo especialmente em saber que o senhor fez a conversão de Bleuler. Seus escritos já me haviam sugerido que sua aceitação de minha psicologia não se estende a todos os meus pontos de vista sobre a histeria e o problema da sexualidade, mas me atrevo a esperar que, com o passar dos anos, o senhor chegue muito mais perto de mim do que julga possível atualmente. Tendo em vista sua esplendida analise de um caso de neurose obsessiva,' ninguém melhor que o senhor ha de saber quão perfeitamente se oculta o fator sexual e, uma vez descoberto, quão valioso pode ser para nossa compreensão e terapia. Continuo esperando que esse aspecto de minhas investigações venha a se mostrar o mais significativo. Por questão de principio, mas também pelo desagrado que me causa a entonação pessoal, não responderei ao ataque de Aschaffenburg. Desnecessário porem dizer que o julgaria em termos bem mais severos que os seus. No estudo dele nada encontro senão vacuidades alem de uma ignorância invejável dos assuntos que critica. Ele ainda pega em armas contra o método hipnótico, que foi abandonado há dez anos, e nenhuma compreensão demonstra do simbolismo mais simples cuja importância qualquer estudante de linguística ou folclore lhe poderia incutir, já que ele não se dispõe a me dar credito. Como a tantos de nossos sábios motiva-o principalmente a inclinação de reprimir a sexualidade, esse fator incomodo que a boa sociedade não recebe bem. Temos aqui dois mundos antagônicos, e logo será obvio para todos qual se acha em declínio, qual em ascensão. Mesmo assim sei que tenho pela frente uma longa luta e, em virtude de minha idade (50), não acredito muito que chegue a presenciar o fim. Mas meus seguidores o verão, e o que espero, tal como espero que os que forem capazes de vencer a resistência interior a verdade queiram se por sem exceção entre meus seguidores, eliminando do pensamento os últimos vestígios de pusilanimidade. Nada mais sei sobre Aschaffenburg, mas a opinião que esse estudo me deixa a respeito dele e muito pobre. Aguardo ansiosamente seu próximo livro sobre demência precoce. Devo confessar que, sempre que vem a luz uma obra como a sua ou a de Bleuler, sou possuído pela grande e para mim indispensável satisfação de saber que o árduo trabalho de uma vida inteira não foi totalmente inútil.
Sinceramente, Dr. Freud

Burgholzli-Zurique, 23 de outubro de 1906
Caro Professor Freud,

Nesta mesma data tomo a liberdade de lhe remeter outra separata com algumas novas pesquisas sobre psicanálise. Não creio que o ponto de vista “sexual” por mim adotado lhe pareça excessivamente cauteloso. Os críticos, por conseguinte hão de investir contra ele. É possível que minhas reservas quanto as suas concepções tão amplas sejam devidas, como o senhor mesmo notou, a falta de experiência. Mas não lhe parece que há um número de fenômenos fronteiriços que com maior propriedade podem ser considerados em termos do outro impulso básico — a fome? Refiro-me, por exemplo, ao ato de comer, de sugar (predominantemente fome), de beijar (predominantemente sexualidade). A existência simultânea de dois complexos sempre os destina a misturar-se psicologicamente de modo que um deles invariavelmente contem aspectos do outro. Talvez seja apenas isso o que o senhor pretende dizer; nesse caso, eu o interpretei mal, e partilho integralmente de sua opinião. Mesmo assim, no entanto, e bastante assustador o modo positivo como o senhor apresenta suas teorias. Embora correndo o risco de incomodá-lo devo falar-lhe de minha experiência mais recente. Trato no momento, utilizando seu método, de uma histérica. Caso difícil; uma estudante russa de 20 anos, doente há 6. Primeiro trauma entre os 3 e os 4 anos. Viu o irmão mais velho, com as nádegas nuas sendo espancado pelo pai. Impressão forte. Dai para a frente não conseguiu deixar de pensar que tinha defecado na mão do pai. Dos 4 aos 7 anos, tentativas convulsivas de defecar nos próprios pés, da seguinte maneira: sentava-se no chão sobre um dos pés e premia o calcanhar contra o anus, tentando ao mesmo tempo defecar e impedir a defecação. Não raro retinha as fezes por 2 semanas! Ela não sabe como chegou a essa solução peculiar; diz que tudo era completamente instintivo e acompanhado por sentimentos dúbios, misto de horror e prazer. Mais tarde o fenômeno foi substituído por uma masturbação frenética. Eu lhe ficaria extremamente grato se me dissesse em poucas palavras o que pensa dessa história.
Atenciosamente, C. G. Jung

FREUD / JUNG – CORRESPONDÊNCIA COMPLETA - Organizada por William Mcguire - Coleção Psicologia Psicanalítica - Direção de Jaym e Salomão - Coordenação editorial de Pedro Paulo de Sena Madureira - IMAGO EDITORA LTDA. Rio de Janeiro.

5 de novembro de 2015

Pensar o Movimento Psíquico

O artigo “Sobre Psicanálise” escrito por Freud para o Congresso Médico Australasiano, contém uma articulação dos conceitos que norteia a psicanálise, que vai desde a compreensão dos ‘sintomas’ como resíduos de ‘reminiscências’ de experiências traumáticas, que foram ‘esquecidas’ no profundo ‘inconsciente’, ‘reprimidas’, não foram reelaboradas, liberando sua carga patológica quando flui pelo ‘consciente’ ou em seu trajeto nos sintomas do corpo. Mas a ‘associação livre’ permite a articulação do pensamento e da fala pelas suas representações. Na compreensão de que os processos psíquicos são dinâmicos, pois sua condução psiquismo-corpo e suas enervações são ininterruptas. A técnica da interpretação permite que o sujeito se interrogue ao invés de interrogar o outro e encontre como as “dissociações psíquicas”, se articulam com a repressão. O que “aparece” são os sintomas, como “produtos finais dos conflitos que levam a repressão, sejam como substitutos, como conciliações com o reprimido ou como formações reativas a repressão. Os sintomas apresentam destinos diversos, de acordo com o desejo do sujeito e o destino que este dá a ele. Se os infantilismos apresentam uma disposição a neurose, as obsessões à psicose e as perversões apresentam inibições de desenvolvimento assimétricos, é pensar como as diversas representações podem ser compreendidas como algo normal e apresenta-se como perverso para um dos envolvidos, pois aqueles não farão conversão, os sintomas no corpo. Por certo que as exigências culturais feitas à humanidade, vão exigir dos sujeitos sacrifícios maiores ou menores de renuncia, de acordo com a vida instintual, a subjetividade e quanto cada um consegue simbolizar. “O instinto sexual possui em alto grau a capacidade de ser desviado dos objetivos sexuais diretos e ser dirigido no sentido de metas mais elevadas, que não são mais sexuais (‘sublimação’). O instinto fica assim capacitado a efetuar contribuições muito importantes às realizações sociais e artísticas da humanidade”. Como o perfeito equilíbrio mental é tarefa da metafísica e exige sacrifícios extenuantes, a vida mental vai apresentar em sua estrutura diversos traços neuróticos, psicóticos e perversos. Saber quais são predominantes, se alternam ou se isolam depende do grau de normalidade em evolução. Como os pensamentos são disfarçados pelo imaginário, pelas fantasias, pelos significantes e pela repressão, desvelar as verdades internas de cada sujeito, exige grande esforço pessoal, muito tempo e porque não dizer esforço moral e intelectual.

Referências
FREUD, S. SOBRE A PSICANÁLISE (1913 [1911]). Obras Completas de Psicanálise - volume XII. Rio de Janeiro, Imago-1996.

30 de outubro de 2015

Lições de Psicanálise II

"Também a psicologia é uma ciência natural. O que mais pode ser? Mas seu caso é diferente. Nem todos são bastante audazes para emitir julgamento sobre assuntos físicos, mas todos — tanto o filósofo quanto o homem da rua — têm sua opinião sobre questões psicológicas e se comportam como se fossem, pelo menos, psicólogos amateurs. E agora vem a coisa notável. Todos — ou quase todos — concordaram que o que é psíquico tem realmente uma qualidade comum na qual sua essência se expressa, a saber, a qualidade de ser consciente — única, indescritível, mas sem necessitar de descrição. Tudo o que é consciente, dizem eles, é psíquico, e, inversamente, tudo o que é psíquico é consciente; isso é autoevidente e contradizê-lo é absurdo. Não se pode dizer que essa decisão lance muita luz sobre a natureza do psíquico, pois a consciência é um dos fatos fundamentais de nossa vida e nossas pesquisas dão contra ele como contra uma parede lisa, e não podem encontrar qualquer caminho além. Ademais, a igualação do que é mental ao que é consciente tem o resultado incômodo de divorciar os processos psíquicos do contexto geral dos acontecimentos no universo e de colocá-los em completo contraste com todos os outros. Mas isso não serviria, uma vez que não se pode desprezar por muito tempo o fato de que os fenômenos psíquicos são em alto grau dependentes das influências somáticas e o de que, por seu lado, possuem os mais poderosos efeitos sobre os processos somáticos. Se alguma vez o pensamento humano se encontrou num impasse, foi aqui. Para descobrir uma saída, os filósofos, pelo menos, foram obrigados a presumir que havia processos orgânicos paralelos aos processos psíquicos conscientes, a eles relacionados de uma maneira difícil de explicar, que atuavam como intermediários nas relações recíprocas entre ‘corpo e mente’, e que serviam para reinserir o psíquico na contextura da vida”.
Referência
FREUD, S. ALGUMAS LIÇÕES ELEMENTARES DE PSICANÁLISE (1940 [1938]). Obras Completas de Psicanálise - volume XXIII. Rio de Janeiro, Imago-1996.