30 de junho de 2014

"Subestimação do CONCEITO DE PERIGO"



O que é assustador nesse caso da criança Marina de 8 anos na França é o fato de que todas as evidencias de abuso infantil estavam visíveis, mas nenhum profissional ou instituição enxergou: as ausências na escola, não foram consideradas relevantes, os vizinhos silenciaram-se, “os pais de Marina, particularmente manipuladores encontravam uma explicação para tudo (se ela come lanches de outras pessoas, é porque ela é bulímica, se tiver inchado o rosto, é uma conjuntivite muito reativo, etc.) Suas palavras são raramente questionada”. Na noite de sofrimento que levou à morte da criança, em agosto de 2009 (privação de refeições, banho de água fria à noite, espancamentos, insultos, isolamento à noite no porão). Quando no hospital, na frente de seu pequeno tamanho, especialmente o rosto, que carrega as marcas de abuso, e atraso no desenvolvimento, os médicos procuram uma doença rara.
O caso é novamente tornado público por ocasião da Conferência Nacional de Proteção das Crianças, na França, em 30 de Junho e 1 de Julho 2014. É possível novas resoluções quando todo um sistema de proteção falha. Que dizer das crianças no Brasil e em todos os países do mundo?
Os pais foram condenados a 30 anos de prisão em 2012. Importante ressaltar que crianças e adolescentes “têm o reflexo de proteger os seus pais”, mesmo que esses sejam seus abusadores. Se os adultos não elaboraram, resinificaram, os abusos dos quais foram vítimas, como vão enxergar no outro algo que não capazes de enxergar em si próprios? Lembramos então a experiência do reflexo espelhar.

19 de junho de 2014

A “Carta 18” e os Afetos Sexuais

“…Existe ainda uma centena de lacunas, grandes e pequenas, em minhas ideias a respeito das neuroses. Mas estou-me aproximando de um ponto de vista abrangente e de alguns critérios gerais de abordagem. Conheço três mecanismos: transformações do afeto (histeria de conversão), deslocamento do afeto (obsessões) e (3) troca de afeto (neurose de angústia e melancolia). Em todos os casos, é a excitação sexual que parece sofrer essas alterações, mas o estímulo para elas não é, em todos os casos, algo sexual. Ou seja, em todos os casos em que as neuroses são adquiridas, elas o são devido a perturbações na vida sexual; mas existem pessoas nas quais o comportamento de seus afetos sexuais é perturbado hereditariamente, e elas desenvolvem as formas correspondentes de neuroses hereditárias. Os aspectos mais gerais a partir dos quais posso classificar as neuroses são os seguintes:
(1) Degeneração.
(2) Senilidade. E o que significa isto?
(3) Conflito
(4) Conflagração.
Degeneração: significa o comportamento inatamente anormal dos afetos sexuais; desse modo, os processos da conversão, do deslocamento e da transformação em angústia ocorrem na proporção em que os afetos sexuais desempenham um papel no decurso da vida.
Senilidade: é evidente. Por assim dizer, é uma degeneração normalmente adquirida na velhice.
Conflito: coincide com minha concepção de defesa [rechaço]; compreende os casos de neurose adquirida em pessoas que não são hereditariamente anormais. O que é rechaçado é sempre a sexualidade.
Conflagração: é uma concepção nova. Significa o que se pode chamar de degeneração aguda (por exemplo, nas intoxicações graves, nas febres, no estágio inicial da paralisia geral) — ou seja, catástrofes em que há perturbações dos afetos sexuais sem causas desencadeantes sexuais. Talvez as neuroses traumáticas pudessem ser abordadas sob esse enfoque.
Naturalmente, o ponto central e principal de todo esse assunto continua sendo o fato de que, em consequência de determinados fatores nocivos sexuais, até mesmo as pessoas sadias podem adquirir as diferentes formas de neurose. O acesso a uma visão mais ampla é proporcionado pelo fato de que, nos casos em que uma neurose se desenvolve sem um fator nocivo, pode-se demonstrar a presença, desde o início, de uma perturbação similar dos afetos sexuais. “Afeto sexual”, naturalmente, é tomado no seu sentido mais amplo, como uma excitação de quantidade definida.
Posso apresentar-lhe o meu mais recente exemplo para apoiar essa tese:
Um homem de 42 anos, forte e elegante, de repente desenvolveu uma dispepsia neurastênica, aos 30 anos, perdendo uns 25 quilos de peso, e a partir daí viveu uma vida limitada e neurastênica. Na época em que isso aconteceu, aliás, ele tinha combinado seu casamento e estava emocionalmente abalado pela doença da noiva. Salvo esse aspecto, porém, não havia fatores sexuais nocivos. Ele se masturbou mais ou menos por um ano, dos 16 anos aos 17 anos; dos 17 em diante, passou a ter relações sexuais normais; muito raramente, coitus interruptus; nenhum excesso, nenhuma abstinência. Ele próprio atribui a causa à sobrecarga a que submeteu sua constituição até a idade de 30 anos: trabalhava, bebia e fumava muito, levava uma vida irregular. Mas esse homem vigoroso, sujeito [apenas] a fatores nocivos corriqueiros, nunca (nunca, entre os 17 e os 30 anos) foi propriamente potente: jamais conseguiu praticar mais de um coito em cada ocasião; sempre ejaculava rapidamente, nunca fez pleno uso de seu sucesso [inicial] junto às mulheres, nunca conseguiu penetrar com facilidade a vagina. Qual era a origem de sua limitação? Não sei dizer. O interessante, todavia, é que isso estava presente justamente nele. Aliás, tratei de duas de suas irmãs, portadoras de neuroses; uma delas está entre as minhas mais bem-sucedidas curas de dispepsia neurastênica”.

Dirigido a Fliess, este extrato de documento, é mais um escrito em que Freud aborda seus estudos sobre as neuroses, seus mecanismos, ou seja,  a transformações do afeto (histeria de conversão), quando os sintomas surgem no corpo como doenças físicas. Deslocamento do afeto (obsessões), quando a formação de compromisso e as compulsões, as dúvidas assumem importância.   Troca de afeto (neurose de angústia e melancolia), que aproximará da psicose, onde os delírios e alucinações passam a ocupar-se do real.

Interroga acerca da energia sexual e seus problemas, quando não equilibrada e alinhada ao sentido do destino que o sujeito percorre, não deixando de levar em consideração as questões relativas à defesa e à hereditariedade. Na classificação das neuroses sugere algo de inato, ou seja, aquilo que “nasce com o sujeito”, é constitucional. Isso significa que pode revelar-se em qualquer momento da vida, mesmo que a madureza tenha alcançado uma idade avançada. Ressalta as neuroses desencadeadas por catástrofes outras, e que afetam a vida sexual do sujeito ou neuroses desencadeadas por sujeitos sadios em função de “determinados fatores nocivos sexuais”. Fica então bem exemplificado o caso tratado por Freud.

Importante ressaltar que “fatores sexuais”, não se referem necessariamente ao sexo biológico, mas principalmente à pulsão de energia que diz respeito à sexualidade, aos afetos, que pode expressar-se nas mais variadas formas: sejam por sentimento exacerbado de narcisismo, de vaidade, arrogância, poder, ou seja, aquilo a que o sujeito desloca seu prazer e que pode causar-lhe sofrimento.

Referência
FREUD, S.  – CARTA 18 (1894), Obras Completas de Psicanálise - volume I. Rio de Janeiro, Imago - 1996.

15 de junho de 2014

Homem e Natureza


Nós somos seres da natureza!

“Ele foi escolhido como mascote da Copa do Mundo no Brasil por ter a capacidade de se transformar em uma bolinha, mas essa característica do tatu-bola acaba funcionando como um gol contra a espécie, se o time adversário que ele encontrar pela frente for de seres humanos”.
“Toda vez que se assusta, em vez de correr em disparada ou cavar um buraco, como outros tatus, o bola se enrola dentro de uma dura carapaça. O que ao longo da evolução foi uma excelente estratégia para evitar a maioria dos predadores, no convívio com humanos, porém, faz com que ele seja facilmente pego pelas mãos por caçadores. O mamífero aparece como "vulnerável" na Lista Vermelha de espécies ameaçadas de extinção divulgada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN)”.

7 de junho de 2014

Poesia - As sem-razões do amor


Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
Carlos Drummond de Andrade  

Movimento Psíquico

Eventos traumáticos podem ter diversos encadeamentos e consequências. Diversas causas que podem pré-dispor a uma patologia. Eventos traumáticos não se resumem a um único fato, até porque possui um percurso, difícil de ser situado no tempo. As situações traumáticas podem desencadear um obstáculo interno a satisfação existencial, um sentimento de frustração, de autopunição, baixa autoestima, um sentimento de desagregação do ego, que sinaliza uma frustração narcísica. Enquanto a necessidade de amor é satisfeita, enquanto suas relações estão em harmonia é possível o sujeito está em equilíbrio, se ele possui um funcionamento, recursos psíquicos, que suportam as provações da vida. Embora seja mais “fácil para o destino que para o médico ocasionar uma cura”, quando este se compreende fazendo parte do destino do paciente, torna mais fácil o acesso ao sofrimento do sujeito.

A frustração seja ao que diz respeito às relações e funções sociais, cuidadoras, subsistência, afetivas, trabalho, do sujeito, submete-o a uma tensão psíquica. Para não adoecer necessita transformá-la em energia criativa no sentido do mundo externo e sublimar a tensão. Diante da frustração, seja por quais motivos se manifeste, ela pode afastar o sujeito da realidade, voltando-o para a fantasia, um mundo a parte, criando “novas estruturas de desejo, revivendo traços esquecidos” e que estariam “distantes” da realidade de seu mundo atual, mas que se contrapõe em um laço com o mundo externo, no sentido de torná-lo suportável, ou seja, a fantasia é um recurso psíquico que testa o nível de contato do psiquismo com a realidade e o quanto se move de retroativo. Os sintomas são assim satisfações substitutas e incompatíveis no sentido da mudança no mundo externo, que revelará o conflito, a se defrontar com uma fragilidade na resistência.

Outro movimento possível do psiquismo é realizar um grande esforço interno para que o sujeito sinta-se satisfeito, apesar das frustrações. Nesse sentido ele adoece pelo esforço de adaptar-se ou atender as exigências da realidade, acumulando grandes dificuldades internas, devido à inflexibilidade. O esforço para não fazer mudanças internas e ao mesmo tempo modificar-se gera um conflito, muito maior do que a tentativa de mudança no mundo externo, que se revela nos sintomas no corpo. Então vamos ter na sociedade atual, principalmente entre os jovens, que vivenciam suas frustrações, a tatuagem para marcar a identidade a que pertence, marcar no corpo os conteúdos difíceis de serem incorporados, assimilados pelo sujeito, marcar virilidade, uma vez que esta pode está ausente no pai, marcar algo traumático através de símbolos, encontrar um lugar para determinados conteúdos que estão na história do sujeito e são difíceis de serem simbolizados. Se forem lembranças, sentimentos ficam no corpo como um evento de passagem ao ato, que não é aprofundado, ficando na superfície. Uma linguagem do inconsciente que remete a um sofrimento  ainda difícil de ser falado, elaborado, acalentado, curado, que necessita de empatia. A marca no corpo reflete o horror das experiências que são difíceis de serem faladas, elaboradas. Esse é um esforço interno manifestado no corpo, para adaptar-se ao mundo externo.

No corpo está sempre a manifestação do psiquismo e neste há sempre a manifestação do corpo. Todos os esforços de “superação”, elaboração, simbolização, são louváveis, mas em sua grande maioria fracassam ante o teste de realidade. Se fatores como disposição, hereditariedade, experiências que antecedem a concepção forem potencializadas no sentido de fragilizar os recursos psíquicos da pessoa, então marcar seu corpo vai possibilitar um curso de sofrimento maior, pois também estará em curso os mecanismos de autoflagelação, autopunição, baixa autoestima.

As frustrações, as perdas, as decepções podem ao longo do tempo desencadear doenças, não só pela ausência de recursos psíquicos, contextos de vida, como pelo excessivo gasto de energia do corpo, principalmente quando atingem vários aspectos da vida, principalmente aqueles em que o psiquismo está mais pré-disposto. É possível também que uma forma de retardar o aparecimento de uma neurose ou processo psíquico é inibir o desenvolvimento psíquico e biológico, “adquirindo” determinadas “limitações”, para lidar com as exigências da realidade, mantendo um estado de “doença”, que funciona como defesa frente a realidade. Isso remete a fixações em determinadas vivências, onde as exigências da realidade são remetidas a repetição de experiências, de grande pulsão, energia e que não se dissipa, mesmo com o amadurecimento, adquirindo novas roupagens, a não ser que se tratem, se curem. O esforço ou a ausência de superar as fixações irá pulsionar a “escolha” do funcionamento psíquico.

O fato de pessoas permanecerem “saudáveis” até determinado percurso da vida, quando então, se defrontam com determinadas experiências, ligadas a algum traço de memória, que ainda requer elaboração, superação e que se apresenta aparentemente como se não houvesse conexão com seu percurso de evolução, revela que apesar das mudanças que ocorrem ao longo do processo evolutivo, o sujeito, está submetido a quantidade e qualidade de energia, de pulsão em sua economia mental, que pode ser alterada para mais ou para menos. Esse desequilíbrio entre o mais e o menos irá perturbar o equilíbrio de sua saúde mental. Essa quantidade não é absoluta, mas a quantidade de energia que o ego consegue lidar, de manter a tensão em equilíbrio, sublimar, por isso que a fala enquanto instrumento de linguagem e as diversas formas de linguagem contribui para descarregar essa energia, elaborá-la.

Essa dinâmica psíquica, tão delicada e ao mesmo tempo forte, uma vez afetada por doença orgânica, por alguma exigência de energia, pode ser um facilitador do desenvolvimento de uma doença psíquica, que poderia ficar latente. Mas como tudo demanda cura, há que se formarem as circunstancias para tal. Há sempre o conflito entre o ego e as energias circulantes e as pessoas que melhor harmoniza esse conflito tendem a manterem-se sadias.
Sabemos que não existem estruturas de funcionamento puras e que o ciclo de conflito ou crises psíquicas dá-se como ondas sucessivas com intervalos mais harmonizados, semelhante ao equilíbrio entre quantidade e qualidade de energia, que compõe as substancias que formam o sujeito. As diferentes formas de economia ou energia mental faz parte da constelação patogênica, que o ego não pode desviar-se sem algum dano, pois se articula com os meios que dispõe a individualidade peculiar do sujeito e da realidade. A essência dos fatores precipitantes dificilmente é acessível, enquanto subjetividade. Para isso há que se retornar como uma onda infinitesimal, cujo calculo matemático é impossível.

Referências
FREUD, S.  – TIPOS DE DESENCADEAMENTO DA NEUROSE (1912), Obras Completas de Psicanálise - volume XII. Rio de Janeiro, Imago - 1996.

Equilíbrio


Para querer iniciar o recolhimento
É necessário consolidar a expansão
Para querer iniciar o enfraquecimento
É necessário consolidar o fortalecimento
Para querer iniciar o abandono
É necessário consolidar o amparo
Para querer iniciar a subtração
É necessário consolidar o aumento
Isto se chama breve iluminação (ampliação da consciência)
O suave e o fraco vencem o rígido e o forte
Os peixes não podem separar-se do lago
O reino que tem o instrumento afiado
Não pode colocá-lo à vista do homem
TAO TE CHING - O Livro do Caminho e da Virtude - Lao Tse - Tradução do Mestre Wu Jyn Cherng

11 de maio de 2014

Jung e Freud - “Estou a caminho, é verdade, mas ainda não cheguei ao destino”...

Burgholzli-Zurique, 29 de dezembro de 1906
Caro Professor Freud,

Com toda a sinceridade lamento que seja eu, justamente eu, quem lhe causa um aborrecimento. Compreendo muito bem que o senhor só possa estar insatisfeito com meu livro, já que ele é por demais implacável ao tratar de suas pesquisas. Tenho perfeita consciência disso. O principio fundamental que me guiou ao escrevê-lo foi: consideração pelo publico acadêmico alemão. Se não nos dermos ao trabalho de apresentar a esse monstro de sete cabeças todo o alimento servido com bom gosto numa bandeja de prata, ele não mordera como vimos em incontáveis ocasiões anteriores. Por conseguinte e de perfeito interesse para nossa causa dar atenção a todos os fatores potencialmente capazes de estimular-lhe o apetite. No momento atual, infelizmente, ai se incluem certa reserva e a insinuação de um julgamento independente em relação as suas pesquisas. Foi isso que determinou o teor geral de meu livro. As reformulações especificas de seus enfoques procedem do fato de não haver entre nós uma concordância absoluta quanto a certos pontos. E talvez isso se deva a que: I - o material de que disponho é totalmente diferente do seu. Trabalho em condições extremamente difíceis, quase sempre com pacientes insanos sem instrução, e ainda por cima com as evidencias invulgarmente ardilosas da Demência precoce. II - minha educação, meu ambiente e minhas premissas cientificas são radicalmente diferentes dos seus. III - minha experiência, comparada a sua, e mínima. IV - quer em quantidade, quer em qualidade de talento psicanalítico, a balança pende distintamente em seu favor. V. há de pesar muito na balança a ausência de contato pessoal com o senhor, uma falha lamentável em minha formação preparatória. Por todas essas razoes considero provisórias e meramente introdutórias as formulações contidas em meu livro. Sou-lhe, portanto extraordinariamente grato por qualquer tipo de critica, mesmo as desagradáveis, pois o que mais necessito é de oposição, uma oposição, evidentemente, que se justifique. Lamento muito que sua interessante carta tenha sido interrompida de modo tão brusco.
O senhor acertou em cheio nos pontos fracos da minha analise do sonho. De fato conheço os dados e os pensamentos do sonho bem melhor do que disse. Conheço intimamente o sonhador — que sou eu. O “fracasso do casamento rico” refere-se a algo essencial que indubitavelmente esta contido no sonho, mas não do modo que o senhor pensa. Minha mulher é rica. Por varias razoes fui recusado, da primeira vez que lhe pedi a mão; mais tarde fui aceito e me casei. Sob todos os aspectos sou feliz com minha mulher (não por mero otimismo), embora, naturalmente, isso não seja suficiente para impedir tais sonhos. Portanto nunca houve um fracasso sexual; mais provável seria existir um fracasso social. A explicação racionalista “restrição sexual” e, como eu disse, um simples anteparo conveniente posto em primeiro plano e que oculta uma vontade sexual ilegítima, que não deveria ver a luz do dia. Um determinante do pequeno cavaleiro, que em minha analise em principio evoca a ideia de meu chefe, e a vontade de ter um menino (temos duas meninas). O fato de ter dois filhos homens o condiciona totalmente meu chefe. Fui incapaz de descobrir uma raiz infantil em qualquer parte. Tenho também a impressão de que o “fardo” não foi suficientemente esclarecido. Mas não consigo chegar a uma interpretação. Apesar de o sonho não ter sido completamente analisado, julguei que poderia usa-lo como um exemplo de simbolismo onírico. A analise e o uso de nossos próprios sonhos é, na melhor das hipóteses, uma empresa arriscada; por mais objetivos que pensamos ser, sucumbimos repetidamente às inibições que emanam do sonho.
Quanto ao conceito de “indistinção”, compreendo perfeitamente que ele pareça bem desagradável de seu ponto de vista. Não é a ultima palavra, decerto, e como conceito não presume muita coisa. Mas em minha opinião tem as vantagens de: I. ligar-se a psicologia de Wundt e II. proporcionar uma imagem visual que torna acessíveis, a compreensão humana ordinária, as ideias vagas a ela associadas. A meu ver esse conceito explica apenas que a imagem onírica e suscetível de substituição, falhando em explicar a procedência e destino. Em lugar de uma ideia “indistinta”, poder-se-ia igualmente dizer uma ideia “pobre em associações”. Mas prefiro “indistinta”. Não sei se um erro de principio se oculta na obscuridade. No momento só o senhor pode decidir. Mas não se deixe levar pela impressão de que estou loucamente disposto a diferençar-me do senhor pela maior divergência de opinião possível. Falo das coisas como as compreendo e como as julgo certas. Qualquer diferenciação, de resto, chegaria tarde, posto que as sumidades da psiquiatria já me deram por perdido.
Basta-lhes ler, num informe, que assumi a defesa de sua posição. O estudo de Aschaffenburg ergueu uma onda de protesto contra o senhor. Diante dessas dificuldades terríveis não ha provavelmente outra alternativa senão a dosis refracta e uma nova forma de medicação.
Atenciosamente, Jung

1 de janeiro de 1907
Caro colega,

O senhor incorre em grave erro supondo que seu livro sobre a demência precoce não me tenha entusiasmado. Ora, nem pense nisso. O simples fato de eu ter proposto uma critica deve bastar para convencê-lo. Fosse outra minha opinião, a solução seria utilizar meios diplomáticos para disfarçá-la, pois seria sobremodo imprudente ofender o colaborador mais capaz, ate agora, de se ligar a mim. Na verdade considero seu ensaio sobre D. pr. como a mais rica e significativa contribuição aos meus esforços de que já tive noticia, e entre meus alunos de Viena, que levam sobre o senhor a vantagem talvez questionável de um contato pessoal comigo, sei de apenas um cuja compreensão pode ser igualada a sua; nenhum porem se mostra tão capacitado e disposto a fazer pela causa o mesmo que o senhor. Eu pretendia escrever uma carta mais longa; fiquei a meio caminho por motivos alheios, mas também porque o palpite sobre a autoria do sonho, que o senhor confirma, recomendava que me mantivesse em silencio. Achei apenas que, sem se trair, o senhor poderia ter chegado a acentuar a interpretação tora = pênis e o galope “alternativo”, cavalo – carreira, sabendo que foi por simples precaução diplomática que deixou de demonstrar o primeiro ponto. O único ponto que me pareceu incorreto foi sua identificação do desejo realizado no sonho, que, como não ignora, só pode vir à luz ao termino da analise, mas que por razoes teóricas fundamentais deve diferir do que o senhor afirma. Caso não leve a mal uma tentativa de influencia-lo, gostaria de lhe sugerir que desse menos atenção a oposição que nos enfrenta e não a deixasse afeta-lo tanto em seus escritos. As “sumidades” da psiquiatria na realidade não contam muito; o futuro nos pertence, a nós e as nossas ideias, e as gerações mais novas — ao que tudo indica por toda parte — enfileiram-se ativamente conosco. Vejo isso em Viena, onde como sabe sou sistematicamente ignorado pelos colegas e periodicamente aniquilado por um escriba qualquer, mas onde minhas aulas, apesar disso, atraem quarenta ouvintes atentos vindos de todas as faculdades. Agora que o senhor, Bleuler e de certo modo Lowenfeld conseguiram arranjar-me uma audiência entre os leitores de livros científicos, o movimento em favor de nossas novas ideias continuará irresistivelmente, malgrado todos os esforços das autoridades moribundas. Creio que seria uma boa politica dividirmos o trabalho de acordo com o caráter e a posição de cada um de nós, que o senhor e seu chefe tentassem agir como mediadores enquanto eu continuo a fazer o papel do dogmatista intransigente que espera que o publico engula essa pílula amarga. Mas peco-lhe que nada sacrifique de essencial ao tato pedagógico, a afabilidade, e que não se desvie muito de mim, quando na realidade esta tão perto, pois se o fizer poderemos um dia ser jogados um contra o outro. Estou firmemente convencido, no intimo, de que nas circunstancias especiais em que atuamos nossa melhor diplomacia e a absoluta franqueza. Inclino-me a tratar os colegas que oferecem resistência exatamente como tratamos pacientes na mesma situação. Muito poderia ser dito acerca da “indistinção” que supostamente torna supérflua grande parte do trabalho habitual sobre sonhos; mas não cabe numa carta. Talvez lhe seja possível dar um pulo a Viena antes de sua ida a América (não falta muito). Eu teria imenso prazer em passar algumas horas discutindo essas questões com o senhor. Se nada escrevi sobre parte considerável de seu livro é porque estou inteiramente de acordo; ou melhor, cumpre-me apenas aceitar sem discussão suas explicações. (Ainda assim acredito que meu caso deva ser diagnosticado como autentica paranoia.) Mas também aprendi muita coisa nova. Por algum tempo preocupei-me a fundo com o “problema da escolha da neurose”, que como diz acertadamente não é esclarecido adequadamente em minhas observações. Errei por completo na primeira tentativa de explicação e desde então passei a ter mais cautela. Estou a caminho, e verdade, mas ainda não cheguei ao destino. Quanto a sua inclinação de recorrer, a proposito disso, as toxinas, permito-me observar a omissão de um fator ao qual, sei muito bem, atribuo muito mais importância que o senhor, no presente momento; refiro-me, como já ha de ter notado, a + + + sexualidade. O senhor a põe de lado, ao tratar do problema, enquanto eu me sirvo dela, mas não chego a uma solução; nada surpreendente assim que nenhum de nós saiba algo a respeito. “Nemo me impune lacessit”, que aprendi na escola, ecoa ainda em meus ouvidos. Os antigos sabiam que Eros é um deus inexorável. Meus melhores votos pelo Ano Novo. Espero que continuemos a trabalhar juntos e não permitamos que mal-entendidos se interponham entre nós.
Cordialmente, Dr. Freud

C.G.Jung - Sigmund Freud – CARTAS - (p. 56-60)

Maravilhosas preciosidades de dois grandes estudiosos e suas interrogações. Desde as condições de trabalho de cada um, o estudo sobre os sonhos, os conceitos de “indistinção” e “associações”. O respeito, afetividade, e aproximações teóricas existente entre eles, as oposições e divergências e dificuldades, principalmente ao que Freud refere-se a “escolha da neurose”. E não poderíamos deixar de lembrar, aquilo que “as sumidades” construíram como uma oposição ou divergência fica a frase: “Espero que continuemos a trabalhar juntos e não permitamos que mal-entendidos se interponham entre nós”. E assim interrogamos: quantos mal-entendidos são construídos por questões egoicas.

10 de maio de 2014

“Escolha” e Defesa

É possível supor que quando falamos de escolha temos alternativas, caminhos, ou formas de existir. Nem sempre as escolhas são possíveis, pois quando há um rompimento com a lei, o que fica diz respeito ao compulsório, obrigatório, ou seja, um retorno à lei. Assim quando falamos da escolha da neurose ou da estrutura é mais complexo, porque nos vem a imagem de várias possibilidades de estrutura diante de um sujeito em desenvolvimento e ele, por razões enigmáticas “escolhe” uma em detrimento da outra.  Freud pensou o que ele denominou de “a escolha da neurose”, em diversas formas, indo e vindo, mas permanecendo o enigma da “escolha”. Da passagem pela questão da hereditariedade ou às etapas do desenvolvimento cronológico do ser humano, do período em que ocorreu uma experiência traumática, e que o único recurso foi  determinada defesa. Embora a questão da gênese situa-se “na mais remota infância”, assim como os conteúdos recalcados.

A onda pulsional, de energia, que cerca o desenvolvimento do ser humano irá possibilitar ou não a repressão, algo que deveria ser experimentado como repugnância, é experimentado como prazer. A sexualidade na constituição do humano e sua provação na triangulação familiar, acrescido do enigma que habita cada um, desde que é gerado, há muito de complexo nos caminhos que percorre. Se da neurose histérica, obsessiva, as psicoses e perversões, os traços que se intercruzam são “arestas” “depurações” a serem percorridas por cada indivíduo. Se na histeria há uma identificação com a pessoa amada, nas psicoses e perversões  é desfeita a identificação, para figuras exteriores, mas os traços existentes do narcisismo deixa obscuro esse rompimento, pois algo de amor existiu e permanece, sendo difícil identificar em que tempo.

É certo que a ciência há que avançar no estudo do psiquismo humano, fora do materialismo, aproximando-se de outras áreas do conhecimento. Como diz Freud: “O problema de saber por que e como uma pessoa pode ficar doente de uma neurose acha-se certamente entre aqueles aos quais a psicanálise deveria oferecer uma solução” (p.341). É o que remete a “escolha” do funcionamento psíquico. Todos trazem ou não disposições ao nascer de determinantes patogênicos, assim como as circunstancias da vida constitui provações de “escolhas” de caminhos, defesas, que vão inserindo o constitucional. Todas as funções psíquicas sejam a função intelectual, sexual, emoções, sentimentos, raciocínios de juízo de valor, ou capacidade de julgamento racional imparcial, sublimações, passam por um longo e complicado desenvolvimento, por caminhos tortuosos, que demandam muito discernimento. Nesses caminhos tortuosos do desenvolvimento, é possível que algumas funções fixem-se em determinadas etapas, que pode evoluir ou regredir em função de circunstancias internas ou externas.

As interrogações sobre a “escolha” do funcionamento psíquico, não deve ficar como um problema para a pesquisa biológica. É fato que algumas pré-disposições para desenvolver estarão vinculadas a eventos que venham pulsioná-las a repetição, desde a gestação. Seu aparecimento tardio revela a cronificação de fixações e disposições primitivas. Complexo identificar em que ponto ocorreu inibições de uma ou mais função psíquica. Todos os fatores envolvidos estão marcados no inconsciente e num processo de livre associação “todos possuem, em seu próprio inconsciente, um instrumento com que podem interpretar as elocuções do inconsciente das outras pessoas” (p.344), na medida em que se desenvolve o autoconhecimento e um distanciamento “crítico”, onde o afeto não se configura como um véu a encobrir a essência dos seres, que se inter-relacionam.

É possível dizer que na dialética história do sujeito o objeto de escolha, suas determinações, devem se possível, em um desenvolvimento saudável está mais distante do ego, possibilitando um acalento de sua ferida narcísica, de sua vaidade, arrogância e egoísmo. As sutilezas e particularidades da escolha do objeto de identificação são complexas e no que diz respeito ao psiquismo há que analisar cada caso. A disposição a determinado funcionamento psíquico pode seguir um curso crônico estável, como pode também passar por variadas oscilações, como uma onda. A antítese masculina e feminina, o ativo e o passivo, estão presentes desde o início da gestação, vindo a se constituir em significado e significantes diante das vicissitudes da vida, que vão se modelando e remodelando através dos instintos e suas sublimações.

Ao interrogarmos sobre “escolhas” de funcionamento, estruturas psíquicas, há que pensarmos no que diz respeito ao desenvolvimento do caráter. “As mesmas forças instituais” que estão em operação nos recursos de funcionamento e defesa, estão presentes na formação do caráter. Aqui um fracasso da repressão e o retorno do reprimido seguem livre curso no sentido das sublimações ou do sadismo, num percurso de experiências primitivas, em que a “passagem ao ato” é desprovido de emoções como compaixão, empatia e o outro assume a característica de objeto de pesquisa, conhecimento e não de afeto. É certo que “os estádios de desenvolvimento dos instintos do ego” ainda necessitam, no presente, de muitos estudos. A aceleração ou retardamento desse ou daquele instinto, sejam por quais circunstancias forem, podem ser facilitadores para o desenvolvimento da neurose histérica, obsessiva, psicoses ou perversões. Se todas as intervenções na vida buscam relações amorosas sublimadas no sentido daquilo que podemos falar como cura, há que supormos que “escolha” está mais para procura, evolução e cura do que para uma opção.

Referências
FREUD, S.  – A DISPOSIÇÃO À NEUROSE OBSESSIVA - UMA CONTRIBUIÇÃO AO PROBLEMA DA ESCOLHA DA NEUROSE (1913), Obras Completas de Psicanálise - volume XII. Rio de Janeiro, Imago - 1996.
FREUD, S.  – RASCUNHO K, Obras Completas de Psicanálise - volume I. Rio de Janeiro, Imago - 1996. 

2 de maio de 2014

O Caminhar do Sábio


O Grande Caminho é vasto
Pode ser encontrado na esquerda e na direita
Os dez mil seres dele dependem para viver
E ele não os rechaça
Conclui a obra sem mostrar a sua existência
É o manto que cobre os dez mil seres, sem agir como senhor
Podendo ser chamado de pequeno
Os dez mil seres voltam para ele, sem que aja como senhor
Podendo ser chamado de grande
Assim o Homem Sagrado nunca age como grande
Por isso pode atingir sua grandeza

TAO TE CHING - O Livro do Caminho e da Virtude - Lao Tse - Tradução do Mestre Wu Jyn Cherng

20 de abril de 2014

Pensando a estrutura tonal do inconsciente...


Muito se fala sobre musica e terapia, ou a música enquanto instrumento terapêutico. Quando pensamos em o inconsciente e a música, há que lembrarmos de que a tonalidade exerce uma influência pouco estudada. Confúcio acreditava que a boa música poderia ajudar a aprimorar o caráter do homem. Disse ele:
“A música do homem de espírito nobre, suave e delicada, conserva um estado d’alma uniforme, anima e comove. Um homem assim não abriga o sofrimento nem o luto no coração; os movimentos violentos e temerários lhe são estranhos. Mais do que isso: uma vez que os indivíduos são os materiais básicos de construção da sociedade, a música também poderia afetar nações inteiras, melhorando-as ou piorando-as”.

No filme Atravessando a Ponte (O som de Istambul) – Fatih Akin faz um percurso pelo mundo dos sons e começa por citar Confúcio: “Se alguém desejar saber se um reino é bem ou mal governado, se a sua moral é boa ou má, examine a qualidade da sua música, que lhe fornecerá a resposta. Para se entender a cultura de um lugar você precisa ouvir a música que é feita ali”.
Como diz  “a musica sempre conta tudo sobre o lugar. Istambul é uma ponte cruzada por 72 nações”. A interessante fala de Orham Gencebay de que “na música ocidental são usados os compassos 2/4, 3/4, 4/4 em grupos de 3, por exemplo: 12/8 fica: 3, 3, 3... 3, 3, 3... 3, 3, 3... na Turquia usa-se o compasso 5/8: 1, 2... 1, 2, 3... é o que chamam de “acento turco”.  1, 2... 1, 2... 1, 2... 1, 2, 3... divide-se em 9 tempos. O ocidente é limitado em termos de sons, porque não olha os sons do mundo”. Questão interessante, pois o oriente não se desvincula da concepção filosófica que permeia a Ásia que são os escritos de Confúcio e Lao Tsé, como se compreende os números e dessa forma como se divide as tonalidades de forma que mantém a harmonia da melodia no sentido da harmonia psíquica e espiritual. Importante ressaltar que a música no oriente é emotiva, fala de sentimentos, que o ocidente  compreende em uma concepção materialista. É certo que a música confere uma emoção diferente às vivências, imagens. Como se estas adquirissem mais força. Fica a interrogação: Quais as tonalidades musicais do psiquismo? Transcende a cultura?

17 de abril de 2014

Feliz Pesach, Paska, Pascae


Fertilidade
Passagem,
Ressurreição,
Esperança de vida nova.
Vida nova a toda a humanidade!
Vida nova a cada Alma!

16 de abril de 2014

O Desenlace da Constelação Familiar na Escuta Analítica

“A constelação – por que não, no sentido que dela falam os astrólogos? -, a constelação original que presidiu ao nascimento do sujeito, ao seu destino e quase diria à sua pré-história, a saber, as relações familiares fundamentais que estruturam a união dos pais, mostra ter uma relação muito precisa, e talvez definível por uma formula de transformação, com o que aparece como o mais contingente, o mais fantasístico, o mais paradoxalmente mórbido de seu caso, a saber, o último estado de desenvolvimento de sua grande apreensão obsedante, roteiro imaginário a que chega como se fosse à solução da angústia ligada ao desencadeamento da crise. A constelação do sujeito é formada na tradição familiar pelo relato de um certo número de traços que especificam a união dos pais”... (Lacan, p.19)

Apropriada fala de Lacan, pois desde os estudos freudianos naquilo  que ele denominou “a construção da história do sujeito”, que os estudos referentes ao psiquismo “navegam em águas turbulentas” sem encontrar “um porto em que possa atracar” e pesquisar. A escuta analítica é tão complexa, que transcende o inconsciente, a livre associação, uma vez que a teia de relações da história do sujeito, com sua arquitetura inconsciente é como um emaranhado, onde desejo, lembranças, recalque, resistência, afinidades, tradições, enlaçam o sujeito no sentido de que este não se desprenda e encontre seu desejo, sua essência, sua autonomia, sua identidade, seu caminho. Encontrar “por assim dizer” o “fio da meada” é uma tarefa para a fenomenologia ou para a metafísica. O materialismo enquanto teoria do conhecimento, “não dá conta dessa questão”, do desenlace da constelação familiar do sujeito, na compreensão e resinificação de sua história, sem precipitar-se na biologia e no dilema mente-corpo.

Referência
LACAN, Jacques - O Mito Individual do Neurótico – Jorge Zahar Editores, 2008

5 de abril de 2014

Poesia - Então...


Ausência...  imensa...
tão grande, que dói...
uma dor “sem fim”...
não posso ver você...
uma dor que não cessa...
como se respirar não fosse possível...
então, peregrina... a  procura dos similares...
espero sua imagem... que está em mim...
do lugar, do tempo...
difícil ser estrangeira....
viver em lugares... com almas.... que não amam...
sem lugar para descansar...
difícil ser estrangeira...
andar por caminhos... sem ver você...
difícil ser estrangeira...
viver “sozinha”... solidão d’alma...
profunda dor... .
difícil ser estrangeira...
encarcerada.... sem poder voar...
encontrar sua imagem...
Myriam’aya

4 de abril de 2014

Reflexões sobre Comoção Psíquica - Trauma

Para falar sobre trauma, há que nos lembramos do excelente filme “Separados pelo Destino”, baseado no romance “Aftershock” de Zhang Ling e dirigido por Feng Xiaogang. Não vamos aqui fazer uma análise da subjetividade que envolve seus personagens na tragédia, mesmo por que “sobreviver é apenas o começo”. Vários estudiosos pensaram na concepção de trauma. Freud em seus diversos escritos utilizou essa concepção, mas ao estudar a sexualidade infantil implicou o sujeito em sua história e de certa forma retira da expressão “trauma” a concepção de um sujeito que não se implica, seja pelo masoquismo ou pelo sadismo. Ferenczi, amigo estimado de Freud, centra muito dos seus estudos na questão do trauma. O trauma é então tido como um “choque”, “é equivalente à aniquilação do sentimento de si, da capacidade de resistir, agir e pensar com vistas à defesa do si mesmo” (p. 125). Ocasiona um impacto psíquico, que faz também seu sintoma no corpo e um impacto no corpo, pois para a preservação de si mesmo os órgãos reduzem suas atividades. É então que surge a expressão “comoção psíquica”, ou seja, o trauma é então semelhante a algo que desmorona, desagrega. Ocorre de forma “imprevista”. Quando algo “parecia” seguro, desmorona e a confiança nas pessoas, situações, é abalada. Os noticiários enfatizam as diversas tragédias humanas, sejam no âmbito familiar, da sociedade, nos países ou na natureza. Vivemos na sociedade da insegurança, do medo e da ameaça. Assim é como se “de repente”, algo pudesse inesperadamente causar uma comoção física, psíquica. Há sempre uma reação de defesa, pois o corpo e o psiquismo possuem sempre estruturas de defesa, sejam quais forem. Como diz Ferenczi, “até a minhoca se empina”. Mesmo diante da morte os órgãos lutam até a última de suas forças para viver, para evitar o choque, a comoção, que inexoravelmente virá.

Diante dessa maior comoção psíquica e física, que é a morte, muitos sentimentos que a antecipam ainda permanecem no plano da vida material. Muitos relatam que teriam dedicado mais tempo aos amigos, à família, que teriam trabalhado menos, viajado mais, teriam feito o trabalho que sonharam, mas difícil alguém expressar, que teria amado mais do que odiado, teria servido mais do que exigido, teria tido menos ressentimentos, teria buscado o autoconhecimento, teria disputado menos, teria ajudado mais, teria procurado ser mais justo, teria sido menos vaidoso, arrogante. Teria sublimado mais os impulsos e instintos primitivos, teria sido mais fiel aos princípios e virtudes, mesmo os que não estivessem na moda. Teria buscado uma vida com mais sublimidade espiritual. Não teria machucado ninguém, magoado. Teria tido tempo para sempre ouvir e uma palavra amiga confortadora. Teria tido compreensão e compaixão para com todos.

Assim diante de uma comoção psíquica a angústia é inevitável. Como não é possível uma imediata transformação do mundo circundante, é possível uma representação, uma “reação substitutiva” em relação a uma mudança futura num sentido favorável. É o que de certa forma faz com que se suporte o desprazer. Fugir das lembranças, do sofrimento mudo, através de lugares ou representações é um alento para evitar a autodestruição. E “o mais fácil de destruir em nós é a consciência, a coesão das formações psíquicas numa entidade: é assim que nasce a desorientação psíquica” (Ferenczi, p.127). A desorientação psíquica possibilita um escape do sofrimento, suspende a percepção possibilitando a junção de alguns fragmentos de princípio de prazer.

Todo esse mecanismo de defesa funciona no sentido de barrar a inevitável angústia traumática, que possibilita o medo da loucura. Essa configuração é visível nas pessoas que são vítimas de manias de perseguição. Elas tentam proteger-se de perigos que imagina acontecer consigo ou com seus afetos, através de um sentimento de onipotência, de tudo “poder destruir” ou evitar. Em relação aos traumas que acontece na mais tenra idade, há por parte dos adultos uma  exigência a criança, no sentido dela ser capaz de conviver com a situação traumática seja por uma atitude heroica ou pelo silêncio, que a aliena dos significados do ocorrido e de suas possibilidades de reelaboração e ressignificação. É função da análise abrir caminho e percorrer esses labirintos do inconsciente, de forma articulada com os sintomas. Fica a sugestão:  “Separados pelo Destino”.
Referência
FERENCZI, Sándor – PSICANÁLISE IV (1928). Obras Completas – São Paulo, Martins Fontes, 2011


https://www.youtube.com/watch?v=3yFbdrNlw2U 

3 de abril de 2014

O Autoconhecimento e a Clínica em Psicologia

“Para tais pessoas, a utilização de uma terminologia mitológica ou folclórica com referência a fatos psicológicos é inteiramente "anticientífica".
Com este preconceito as pessoas barram o próprio acesso à Psicologia e o caminho para um ulterior desenvolvimento do homem interior cujo fracasso intelectual e moral é uma das mais dolorosas constatações de nossa época. Quem tem alguma coisa a dizer, fala em "dever-se-ia" ou em "seria preciso", sem reparar que lastimosa situação de desamparo está ele, assim, confessando. Todos os meios que recomenda são justamente aqueles que fracassaram. Em sua compreensão mais profunda, a Psicologia é autoconhecimento. Mas como este último não pode ser fotografado, calculado, contado, pesado e medido, é anticientífico. Mas, o homem psíquico, ainda bastante desconhecido, que se ocupa com a ciência é também "anticientífico" e, por isso, não é digno de posterior investigação? Se o mito não caracteriza o homem psíquico, então seria preciso negar o ninho ao pardal e o canto ao rouxinol. Temos motivos suficientes para admitir que o homem em geral tem uma profunda aversão ao conhecer alguma coisa a mais sobre si mesmo, e que é aí que se encontra a verdadeira causa de não haver avanço e melhoramento interior, ao contrário do progresso exterior”.
JUNG, C. G. -  A NATUREZA DA PSIQUE (Prefácio) - Obras Completas, Volume VIII/2 5ª Edição - Editora Vozes, Petrópolis, 2000

Essa reflexão de Jung nos traz uma breve reflexão da clínica em psicologia na atualidade. Procurar ajuda psicológica é difícil, pois a noção de incapacidade, “autonomia”, o narcisismo, vaidade, a arrogância são impeditivos de resistência. Quando muitas vezes essa demanda acontece, ou seja, a busca terapêutica para um sofrimento psíquico, os valores vigentes na sociedade de consumo são expressos como se essa busca terapêutica fosse um produto de prateleira, onde assim que ocorre o acolhimento a escuta, os sintomas se atenuam, a ansiedade e angústia reduz, abandona-se o percurso terapêutico, pois o sofrimento foi minorado. A clínica em psicologia revela esse sintoma de consumo da sociedade atual. Exige-se competência, experiência, espaço terapêutico confortável, a um custo de R$15,00 a R$ 20,00 por sessão, e contraditoriamente a visão de que esse valor diz respeito a inexperiência dos profissionais, validado pelas universidades em nome do que se chama de “clínica social”. Mas alcançar a nota do curso exigida pelo MEC (ENADE) é uma articulação de valor de mercado, onde não existe uma articulação com a política de saúde mental, tão pouco com o compromisso e competência dos profissionais. Há que lembrarmos não fosse as incursões de Lacan, permanece, desde Breuer, Jung, Freud, um abismo na articulação teórico-prática. A ideia que se tem é de uma clínica conceitual. Repetem-se os conceitos como se isso revelasse o domínio teórico-prático. Diagnóstico diferencial, não se fala. Recorre-se ao DSM. Se as clínicas de psicologia universitárias, não dão conta da demanda e terceiriza profissionais recém-formados por valores incompatíveis para se manter as despesas de um consultório, o profissional vai sobreviver de que? Será que estamos diante da chamada terceirização dos profissionais de psicologia em clínica? Assim os cursos não valorizam os profissionais que formam. Essa lógica que cerca esses serviços, em psicologia, não considera o número de pacientes que frequentam e não pagam as consultas, o número de pacientes que marcam e não comparece, o número de pacientes que não comparecem. Tão pouco articula suas razões clínicas. Há os psicólogos que mantém uma sala alugada e tem poucos pacientes, podendo cobrar acima da tabela do CRP, pois possuem outras fontes de rendimentos (Empregos). Os profissionais que fazem opção pelo mestrado/doutorado dedicam-se a academia ou ao Serviço Público. As estatísticas de psicólogos que sobrevivem da clínica é trabalharem 14 horas por dia de segunda a sábado. Em relação aos que trabalham com operadoras de saúde  necessitam atender pelo menos 10 pacientes por dia para sobreviverem. Esse é apenas um levantamento superficial com alguns profissionais sobre as dificuldades da clínica em psicologia, que está bem longe do glamour propalado por profissionais, instituições e universidades. A realidade é de muito estudo, dedicação, trabalho extenuante. Onde fica a trilogia análise pessoal-supervisão-estudo? De glamour não tem nada, a não ser a fantasia e o marketing dos cursos e de profissionais que não precisam da clínica para sobreviver.

22 de março de 2014

Abuso Sexual e Estrutura Psíquica


"…Estou-lhe remetendo duas ideias recentíssimas, que me ocorreram hoje e me parecem viáveis. Baseiam-se, naturalmente, em descobertas analíticas.
(1) O que determina uma psicose (ou seja, amência ou psicose confusional — uma psicose de subjugação, como a denominei anteriormente), em lugar de uma neurose, parece ser o fato de o abuso sexual ocorrer antes do fim do primeiro estágio intelectual — isto é, antes de o aparelho psíquico ter sido completado na sua primeira forma (antes dos 15 a 18 meses). É possível que tal abuso remonte a uma época tão remota que essas experiências permaneçam ocultas atrás de experiências mais recentes e que a elas se possa voltar de tempos em tempos. Penso que a epilepsia remonta ao mesmo período… Tenho de abordar de maneira diferente o tic convulsif, que eu costumava atribuir ao mesmo estágio. Eis como cheguei a essa outra visão. Um de meus pacientes histéricos… levou sua irmã mais velha a uma psicose histérica, que terminou num estado de completa confusão. Agora averiguei qual foi o sedutor dele, um homem de grande capacidade intelectual que, no entanto, tinha tido ataques da mais grave dipsomania a partir dos seus cinquenta anos. Esses ataques começavam regularmente, com diarreia ou com catarro e rouquidão (o sistema sexual oral!) … isto é, com a reprodução de suas experiências passivas. Ora, até ele próprio sentir-se doente, esse homem tinha sido pervertido e, consequentemente, sadio. A dipsomania surgiu através da intensificação — ou melhor, através da substituição do impulso sexual correlato por esse impulso [para a bebida]. (Provavelmente, o mesmo se aplica à mania de jogatina do velho F.) Ocorreram entre esse sedutor e meu paciente, sendo que a irmã deste, que tinha menos de um ano de idade, presenciou algumas delas. Meu paciente, mais tarde, veio a ter relações com ela, que se tornou psicótica na puberdade. Disso se pode depreender como uma neurose se agrava e passa a uma psicose na geração seguinte (o que as pessoas chamam de “degeneração”), simplesmente porque uma pessoa de idade mais tenra é colhida nas malhas de uma situação dessas. Aliás, aqui está a hereditariedade desse caso [Fig. 10]:
Espero poder contar-lhe muito mais coisas importantes a respeito desse caso, que projeta uma luz sobre três formas de doença.
(2) As perversões normalmente levam à zoofilia e têm uma característica animal. São explicadas não pelo funcionamento das zonas erógenas que foram posteriormente abandonadas, mas sim pela atuação de sensações erógenas, que depois perdem essa intensidade. Com relação a isto, convém recordar que o principal órgão dos sentidos nos animais (para fins sexuais, bem como para outros fins) é o sentido do olfato, que perdeu essa posição nos seres humanos. Na medida em que é dominante o olfato (ou o paladar), o cabelo, as fezes e toda a superfície do corpo — e também o sangue — têm um efeito sexualmente excitante. Sem dúvida está em conexão com isso o aumento do sentido do olfato na histeria. O fato de que os grupos de sensações têm muito a ver com a estratificação psicológica parece ser dedutível a partir da distribuição deles nos sonhos e, sem dúvida, têm uma conexão direta com o mecanismo da anestesia histérica".
FREUD, S.  – CARTA 55 (1950 (1892-1899)), Obras Completas de Psicanálise - volume I. Rio de Janeiro, Imago - 1996.

Nessa carta do período 1892-1899, Freud fala de suas descobertas sobre como o abuso sexual pode desencadear transtornos diversos, possível de sintomas e estruturas de defesa. Pode ir da neurose histérica ou obsessiva às psicoses e perversões. No transcurso das gerações, as situações de abuso não circunscrevem somente a uma geração, perpetuando-se entre gerações, seja como repetição enquanto ato, seja pelo “inconsciente transgeracional”, até que a interdição e incorporação da lei se façam. Como em sua grande maioria ocorrem na família, sejam por cuidadores, familiares em diversos graus, consanguíneos ou não, abusos esses que fazem uma passagem ao ato ou permanecem como relações sedutoras, que alimentam a fantasia do desejo, do gozo e vão conformando uma teia de romances familiares. O mundo moderno e midiático está permeado delas com muito mais força do que no século XIX. A ênfase da sociedade moderna nos instintos mais primitivos do homem banaliza a lei, e tudo que a compõe, pois no discurso do “direito a fazer e dizer o que quiser”, a chamada “expressão de liberdade”, possibilita a transgressão, e o caminho ao qual  se supõe deveria seguir os instintos, no sentido de realização de desejo em percurso de sublimação, é impossibilitado, mantendo a patologia das relações.