26 de fevereiro de 2015

Prestes A Ressurgir: Filósofo István Mészáros analisa ascensão de novos...

Prestes A Ressurgir: Filósofo István Mészáros analisa ascensão de novos...: Em novo livro sobre a crise do capitalismo, pensador húngaro fala sobre impasses das democracias POR LEONARDO CAZES Vitória. Apoia...

Interessante análise do filósofo István Mézáros sobre as mudanças políticas necessárias no planeta. Para além de oposições subjetivas, a reflexão exige um profundo conhecimento de para onde caminhamos e qual nossa possibilidade de sobrevivência no mundo em que vivemos. Sobrevivência subjetiva, pois os impasses colocados pelos Estados mundiais excluem milhões de seres humanos de toda e qualquer humanidade. Ao falar que as políticas sociais não “resolve” a desigualdade social e propor ao que ele chama de “igualdade substantiva”, uma consequência da “democracia substantiva”, nos faz refletir, quanto a questão da substancia, da essência e do esforço de mudança na sua essência que a humanidade necessita realizar. É um passo gigantesco, mas que começa nas pequenas coisas do dia a dia. A mudança na essência diz respeito ao humano e à casa que ele habita e destrói: o planeta terra. Com uma terceira guerra em andamento, ser de esquerda ou direita é ingênuo, pois o que está em jogo é algo muito maior. O que deve ser pensado é qual forma de sociedade vai elevar a humanidade a um outro patamar moral, ético, econômico, político e social. Qual forma de sociedade terá como referência o inconsciente e a interrogação, porque estamos aqui.

20 de fevereiro de 2015

A música - Ler e Escrever


“A leitura é uma droga que vicia Todo o texto é uma partitura musical. As palavras são as notas. Se aquele que lê é um artista, se ele domina a técnica, se ele desliza sobre as palavras, se ele está possuído pelo texto – a beleza acontece. E o texto apossa-se do corpo de quem ouve. Mas se aquele que lê não domina a técnica, se luta com as palavras, se não desliza sobre elas – a leitura não produz prazer: queremos logo que ela acabe. Assim, quem ensina a ler, isto é, aquele que lê para que os seus alunos tenham prazer no texto, tem de ser um artista. Só deveria ler aquele que está possuído pelo texto que lê. Por isso eu acho que deveria ser estabelecida nas nossas escolas a prática dos “concertos de leitura“. Se há concertos de música erudita, jazz – por que não concertos de leitura? Ouvindo, os alunos experimentarão o prazer de ler. E acontecerá com a leitura o mesmo que acontece com a música: depois de termos sido tocados pela sua beleza, é impossível esquecer. A leitura é uma droga perigosa: vicia… Se os jovens não gostam de ler, a culpa não é só deles. Foram forçados a aprender tantas coisas sobre os textos – gramática, usos da partícula “se”, dígrafos, encontros consonantais, análise sintáctica – que não houve tempo para serem iniciados na única coisa que importa: a beleza musical do texto literário: foi-lhes ensinada a anatomia morta do texto e não a sua erótica viva. Ler é fazer amor com as palavras. E essa transa literária inicia-se antes que as crianças saibam os nomes das letras. Sem saber ler elas já são sensíveis à sua beleza. E a missão do professor?” Rubem Alves In “O Prazer da Leitura”

Esse texto de Rubem Alves nos remonta não só ao prazer, os significantes e significados da leitura, como o autoconhecimento, o conhecimento do mundo, a busca da própria essência, a viagem num mundo cósmico, que não deixa de ser algo ameaçador ao próprio ego, mas, mais que isso, aos frutos que o caminho do conhecimento conduz: o escrever. Repetindo Rubem Alves, escrever é: uma droga que vicia, pois toda escrita “é uma partitura musical. As palavras são as notas.” Se aquele que escreve “é um artista, se ele domina a técnica, se ele desliza sobre as palavras, se ele está possuído pelo texto – a beleza acontece. E o texto apossa-se do corpo de quem” escreve. Mas se aquele que escreve “não domina a técnica, se luta com as palavras, se não desliza sobre elas – a leitura não produz prazer: queremos logo que ela acabe.”... Só deveria escrever aquele que está possuído pelo texto que escreve. Então “deveria ser estabelecida nas nossas escolas a prática dos” “concertos de escrita.” Escrevendo,  experimentarão o prazer de escrever. “E acontecerá com a” escrita “o mesmo que acontece com a música: depois de termos sido tocados pela sua beleza, é impossível esquecer”. O texto escrito com alma possui sons, musicalidade, em suas letras, palavras, frases e pontuações.

9 de fevereiro de 2015

A carta 56 - Histeria ou alteração da consciência?

…Aliás, que diria você se eu lhe contasse que toda aquela minha história da histeria, história original e novinha em folha, já era conhecida e tinha sido publicada repetidamente uma centena de vezes — há alguns séculos? Você se lembra de que eu sempre disse que a teoria medieval da possessão pelo demônio, sustentada pelos tribunais eclesiásticos, era idêntica à nossa teoria de um corpo estranho e de uma divisão (splitting) da consciência? Mas por que é que o diabo, que se apossava das pobres bruxas, invariavelmente as desonrava, e de forma revoltante? Por que as confissões delas sob tortura tanto se assemelham às comunicações feitas por meus pacientes em tratamento psíquico? Dentro em breve, precisarei pesquisar a bibliografia do assunto. Aliás, as crueldades possibilitam o entendimento de alguns sintomas da histeria, que até agora têm permanecido obscuros. Os alfinetes que aparecem das formas mais surpreendentes, as agulhas que fazem com que as pobres criaturas tenham seus seios operados, e que são invisíveis aos raios X, embora possam ser encontradas na história de sua sedução…
Mais uma vez, os inquisidores espetam agulhas para descobrir os estigmas do demônio, e, numa situação parecida, as vítimas inventam a mesma cruel e velha história (ajudadas, talvez, pelos disfarces do sedutor). Assim, não só as vítimas, mas também os seus algozes, relembram nisso os primórdios de sua adolescência.

Os sintomas daquilo que se designou por histeria, percorreu a história da humanidade com diversas configurações. Nessa enigmática carta a Fliess, Freud relata os sintomas da histeria ao tempo da inquisição, onde muitas vezes, em função desses sintomas, as mulheres eram levadas à fogueira ou calabouços. Se o estado alterado de consciência levava a sofrimentos que deixavam marcas nessas mulheres, elas confirmavam com suas dores o que seus algozes argumentavam numa cadeia de sintomas, que embora muitas vezes não pudessem ser confirmados no real, o eram no sofrimento que infligiam.

Referência
FREUD, S.  – EXTRATOS DOS DOCUMENTOS DIRIGIDOS A FLIESS – CARTA 50 (1950[1892-1899]), Obras Completas de Psicanálise - volume I. Rio de Janeiro, Imago - 1996. 

3 de fevereiro de 2015

Filosofia Oriental - Corte sem Incisão


Conhecendo o masculino, resguardando o feminino
Sendo a ravina sob o céu
Sem se afastar da Virtude Eterna
Retornará a ser criança.
Conhecendo o branco, resguardando o negro
Sendo o modelo sob o céu
Sem se enganar com a Virtude Eterna
Retornará à Extremidade-Inexistente (ao estado anterior da criação do universo)
Conhecendo a glória, resguardando a humildade
Sendo o vale sob o céu
Sendo o vale sob o céu, completará a Virtude Eterna
E retornará a ser madeira bruta
A madeira bruta partida transforma-se em instrumentos
E o Homem Sagrado utiliza-os através de um regente
Isto tudo é um grande corte sem incisão (é o estado anterior ao da criação do universo)

TAO TE CHING - O Livro do Caminho e da Virtude - Lao Tse - Tradução do Mestre Wu Jyn Cherng

1 de fevereiro de 2015

1 - Histeria - Da loucura a “normalidade”

Um mundo conturbado é o que vivemos. Onde cada vez mais é imperativo desenvolver uma estrutura de equilíbrio interior. Não é tarefa fácil encontrar esse caminho, principalmente no mundo massificado, consumista. Nos tempos atuais a doença mental não está segregada como nos tempos antigos. Ela está inserida na vida de cada sujeito de forma ostensiva, pois o nível de exigência social, a aparência, a vitrine, o sucesso não mais profissional, mas psíquico, tornou-se um imperativo que esgota o sujeito. Quando vemos a intimidade dos sujeitos sendo devassadas por eles mesmos nas “redes sociais” há que interrogarmos o quanto de energia narcísica está ai colocada, o quanto de sofrimento internalizado que precisa ser resinificado. Talvez possamos afirmar que vivemos uma “histeria coletiva do sucesso material” em que o afastamento da realidade “se faz necessário” e no contraponto os sintomas se alargam e passam a ter o status de “normalidade”. Embora muito tenha avançado a ciência do cérebro, a confluência entre doença mental, habilidades paranormais e religião sempre estiveram próximas na história da humanidade. Na idade média essa confluência assume status de vida e morte, pois as ideias ou vivências que se apresentassem com supostas diferenças das concepções dominantes eram tratadas na fogueira ou nos calabouços. É assim que a concepção das pessoas que sofriam de histeria estava vinculada ao sofrimento da loucura.

É imenso o conjunto de sintomas que podem ser sustentados como histeria. E ao falar de histeria no mundo contemporâneo, há que nos aproximarmos da complexidade de sintomas tais como: ataques convulsivos que compreende uma “constrição na garganta”, um zumbido nos ouvidos, latejamento de nervos, espasmos na faringe. Os ataques “epileptoides”, que podem seguir um percurso unilateral, a contorções, ataques convulsivos seguidos de pressão abdominal, na garganta, zumbido nos ouvidos, dificuldade de orientação no tempo e lugar. Às contorções podem seguir-se alucinações, atitudes passionais com ênfase em vocabulário depreciativo. Diante de um ataque epilético, onde ocorre uma explosão dos circuitos elétricos do cérebro, a consciência pode manter-se ou perder-se. No contraverso do ataque epilético pode ocorrer o ataque de sono. É um sono natural, mas pode assemelhar-se a um coma. As áreas mais sensíveis do corpo podem ser afetadas pelos significantes que possuem. Por exemplo, se para determinada pessoa perceber uma realidade que lhe traga sofrimento, é possível que a parte da visão seja de alguma forma afetada. “Enxergar a realidade causa dor”. E em um “mundo de sucesso” a dor, que é estruturante como um instrumento de lapidação da alma não possui espaço, até porque o “que vale é ser feliz a qualquer custo”, mesmo que seja somente na aparência, na fantasia delirante da histeria. A “anestesia ou hiperestesia histérica”, em qualquer órgão do corpo pode apresentar uma sensação de dor, comprometer aspectos da segurança, pois envolve o contato com o mundo. Esses eventos desencadeados pelo psiquismo, em muito se assemelha aos eventos desencadeados por disfunção de órgão do corpo. Na idade média, o fato dessas áreas anestesiadas não sangrarem era considerado feitiçaria. Hoje hospitais, clínicas e consultórios estão cheios de sujeitos com esses sintomas, que em sua grande maioria são gerados por cargas de sofrimento psíquico. Como é difícil para a área de saúde tratar esses sintomas, eles são designados de forma pejorativa, como se fosse uma encenação. “É o piti”.

Os distúrbios que envolvem os órgãos do sentido como perda, diminuição da visão, do campo visual, redução da percepção luminosa e sensibilidade a determinadas cores como o roxo, vermelho e ao azul, a afasia que pode ir de uma rouquidão a ausência de voz, a surdez histérica que muitas vezes é acompanhada por anestesia, da mesma forma que no distúrbio histérico do paladar e do olfato é possível encontrar áreas anestesiadas. As paralisias histéricas podem afetar diversos membros como braços, pernas, e órgãos. A incapacidade de se manter em pé e de andar, as contraturas, podem, também ser um sintoma histérico, independente de lesões orgânicas. Os sintomas histéricos são descritos como dolorosos e estão constantemente mudando. “O sistema nervoso histérico”, ou o funcionamento psíquico histérico, pode ser resistente à medicação, sendo acessível à abordagem terapêutica acolhedora, a uma escuta diferenciada. Ressalta-se que as desordens de origem psíquica devem ser investigadas no corpo, mesmo porque estas influenciam nos processos físicos. Muitas vezes a linha divisória de onde começa uma e termina outra não é possível.

Se alguns sintomas histéricos (gritar, “bater o telefone”, falar alto nos locais de encontros públicos) são um comportamento da moda é algo que reflete uma fragilidade individual (do ego) e social. Como os distúrbios psíquicos alteram seu curso seja pela inibição, desejos, repressão de sentimentos, situações traumáticas, ou seja, tudo aquilo que modifica a distribuição de energia; Então um funcionamento histérico pode agravar-se a um quadro de delírios, podendo complicar a uma psicose. Essa “moda” do “direito de ser feliz”, do “direito ao sucesso”, pode aproximar-se de uma psicose.  Importante ressaltar, que ao realizar uma anamnese mais profunda verifica-se que o traço psicótico estava presente, seja na condição de hereditariedade ou como condição estruturante. Esse agravamento dar-se-á por uma instabilidade emocional, alterações de humor, aumento da excitabilidade, baixa autoestima. Esse funcionamento histérico por certo é encontrado na história da hereditariedade referente à saúde mental da genealogia a que o sujeito pertence. Mas as circunstancias da vida como a inserção do sujeito na lei, o “despertar prematuro da atividade mental nas crianças, com excitamentos frequentes e violentos”, potencializam a neurose. No mundo atual o destino do volume de informações, os desafios competitivos, os jogos “para estimular” a criatividade, mas que introduz conteúdos de violência sádica, psicótica, o uso de substancias psicoativas, perdas, luto, traumas, acidentes, violências, são instrumentos que podem irromper uma doença histérica.

A histeria é um conjunto de sintomas, que pode ser permanente ou transitório, pode dizer respeito a um indivíduo ou grupo, mas há processos histéricos cujas causas são obscuras, com etiologia diversa. É possível também que a doença orgânica, uma vez curada, possa desenvolver uma dor, que não possui mais a correspondência orgânica. Catástrofes naturais ou econômicas-políticas podem desencadear uma histeria coletiva com traços delirantes, que se afastam da realidade e deixam suas sequelas. A terapêutica medicamentosa não cura a neurose histérica, mas a homeopática de reequilíbrio com as forças naturais da vida é fundamental. Não é “possível” tratar apenas um sintoma. O importante é olhar a tessitura psíquica, a tessitura coletiva no seu todo, compreendendo que sintomas podem ser substituídos. No processo de autoconhecimento nem sempre é possível a remoção das “fontes psíquicas que estimulam os sintomas histéricos”, pois ao adentrarmos o inconsciente esse irá se apresentar como um imenso “quebra-cabeças”.  Somente um esforço persistente e uma estrutura que suporte olhar para cada marca mnêmica num tempo que não é possível mensurar para visualizar a essência, é que é possível compreender razões nem sempre lógicas. Por isso é complexo compreender porque um “motivo psíquico suficiente” pode abrandar excluir outros sintomas. Ou seja, haverá sempre uma causa maior que sobrecarrega o psiquismo com uma excessiva energia. Portanto almas serenas requer autodescobertas das pulsões mais profundas, um aprendizado e um apaziguamento consigo próprio.
Referência
FREUD, S.  – HISTERIA (1888), Obras Completas de Psicanálise - volume I. Rio de Janeiro, Imago - 1996. 

31 de janeiro de 2015

Correspondência Freud e Jung - 1906

11 de abril de 1906, IX. Berggasse 191
Caro colega,

Muito grato pelo envio de seus Estudos de Diagnostico de Associação; que a impaciência já me levava a adquirir. Naturalmente seu ultimo estudo, “Psicanalise e Experimentos de Associação”, foi o que mais me agradou, pois nele o senhor demonstra, com base em sua própria experiência, que tudo o que já pude dizer sobre os campos ainda inexplorados de nossa disciplina é verdade. Confio em que o senhor venha a estar, muitas vezes, em condição de me apoiar, mas aceitarei também, de bom grado, quaisquer retificações de sua parte.

Atenciosamente, Dr. Freud


Burgholzli-Zurique, 5 de outubro de 1906
Caro Professor Freud,

Queira aceitar meu agradecimento mais sincero pelo presente que gentilmente me enviou. Essa coletânea de seus estudos breves há de ser bem recebida por todos aqueles que desejam familiarizar-se rápida e abrangentemente com seu modo de pensar. E de se esperar que o número de seus seguidores em ciência continue a aumentar no futuro, a despeito dos ataques que Aschaffenburg, aplaudido pelas sabias autoridades, fez a sua teoria — dir-se-ia mesmo a sua própria pessoa. O que de mais lamentável há nesses ataques e que, a meu ver, Aschaffenburg se apega a exterioridades, quando os méritos de sua teoria se encontram no domínio psicológico, do qual os psicólogos e psiquiatras modernos tem uma compreensão bem limitada. Não faz muito, mantive com Aschaffenburg uma animada correspondência sobre sua teoria e pude então defender esse ponto de vista, que talvez, Professor, nem mereça sua concordância integral. O que valorizo acima de tudo, e tem sido de grande ajuda no trabalho psicopatológico que aqui desenvolvemos, e a sua concepção psicológica; com efeito, ainda me encontro muito longe de compreender a terapia e a gênese da histeria, pois é bastante insatisfatório o material de que dispomos sobre ela. Quero dizer que sua terapia não me parece depender apenas dos afetos liberados por ab-reação, mas também de certas relações (rapports) pessoais, e acredito que a gênese da histeria, embora predominantemente sexual, não o seja exclusivamente. Encaro de igual modo sua teoria da sexualidade. Insistindo apenas nessas delicadas questões teóricas, Aschaffenburg se esquece do essencial, sua psicologia, da qual sem duvida a psiquiatria há de colher um dia recompensas sem fim. Espero mandar-lhe em breve um pequeno livro meu onde, partindo de sua posição, abordo a psicologia da demência precoce. Nesse livro publiquei também o caso que despertou a atenção de Bleuler para a existência de seus princípios, se bem que na época com obstinada resistência da parte dele. Mas a conversão de Bleuler, como o senhor deve saber, é agora completa. Renovando meus agradecimentos, subscrevo-me.

Respeitosamente, C. G. Jung

Nessa correspondência entre Freud e Jung, estão os primeiros estudos sobre a histeria e suas grandes incógnitas, tão presentes no mundo atual, quando muitas das afecções do corpo permanecem incompreensíveis. E mais do que uma expressão do psiquismo no corpo, a histeria coletiva de determinados grupos no país, no momento atual, que em sua dificuldade de se implicar em sua lei interna, transgride não só essa, mas estende às leis do Estado de Direito, num desejo de subvertê-las, para que seus gozos sejam sem culpa. 

25 de janeiro de 2015

Anotações sobre os sonhos


“A interpretação dos sonhos de Freud, apresenta como única função do sonho a transformação em realização de desejo dos restos diurnos desagradáveis que perturbam o sono. A importância desses resíduos do dia e da vida é esclarecida com uma precisão e uma acuidade quase inigualáveis; penso, entretanto, que o retorno dos restos diurnos já representa por si mesmo uma das funções do sonho. Pois se observarmos com minuncia a relação entre a história pessoal e os conteúdos oníricos, torna-se cada vez mais evidente que aquilo a que chamamos restos diurnos (e podemos acrescentar: os restos de vida) são, de fato, sintomas de repetição na neurose traumática também tem uma função intrinsecamente útil ela vai conduzir o trauma a uma resolução, se possível definitiva; melhor do que isso não fora possível no decorrer do acontecimento originário comovente. É de supor que essa tendencia também exista mesmo onde não vinga, ou seja, onde a repetição não leva a nenhum resultado melhor do que o traumatismo originário. Assim, uma definição mais completa da função do sonho seria (em vez de “o sonho é uma realização do desejo”)”.
“Todo e qualquer sonho ainda o mais desagradável, é uma tentativa de levar acontecimentos traumáticos a uma resolução e a um domínio psíquicos melhores no sentido, poderíamos dizer, do “esprit d’escalier, o que na maioria dos sonhos, é facilitado por uma diminuição da inteligência crítica e pelo predomínio do princípio do prazer. Não desejaria portanto, que o retorno dos restos do dia e da vida no sonho fosse considerado o produto mecânico da pulsão de repetição, mas suspeito de que, lá bem atrás, temos a ação de uma tendencia, que deve ser igualmente qualificada de psicológica, para uma nova e melhor resolução, em que a realização do desejo é o meio pelo qual o sonho conseguirá chegar a ela, mais ou menos bem.” (p.128)

Em toda a história do homem no planeta o sonho sempre foi analisado pelos seus enigmas. Sendo um dos primeiros estudos de Freud, permanece até os dias atuais com grandes interrogações, pois é um estado alterado de consciência. Nessa anotação Ferenczi irá validar a tese dos restos diurnos desagradáveis, que fazem parte da vida, na possibilidade de ao repeti-los em sonhos adquirirem novos significados.

Referência

FERENCZI, Sándor – PSICANÁLISE IV (1928). Obras Completas – São Paulo, Martins Fontes, 2011 

31 de dezembro de 2014

A Perda e o Dever por Amor


Os ciclos da vida são intermináveis. Há tempo de plantar e de colher, de aumento e diminuição, de esperar e de realizar, de se aproximar e de se afastar, de ser forte e de ser suave, de falar e de calar... A transitoriedade da vida é inexorável. Tudo “passa”, tudo caminha para “frente”, com seu cordão ligado ao “passado”, pois o tempo é uma noção de organização da vida na terra e da história de cada pessoa. A transitoriedade é desagregadora, pois nos dá a noção do fim e ao mesmo tempo da continuidade da vida, pois o enigma da sobrevivência da alma não foi “resolvido” pela ciência. Há que transpor a concepção materialista da vida e retomar a metapsicologia da alma. A relação dialética entre nascer e morrer é infinitesimal. A todo instante bilhões de células nascem e morrem e diversos processos químicos se refazem dentro de nós e em nosso mundo. Nosso psiquismo trabalha velozmente em seus diversos sintomas em sua rede de condensações e conexões. Na relação especular com o outro, vários ecos múltiplos e marcas mnêmicas encontram afinidades ou diferenças, que diz respeito ao amor por si mesmo, que é o amor pelo outro e ao que idealizamos do outro, que “corresponde” ao que idealizamos de nós mesmos. Assim tudo que acolhemos ao longo da vida teremos que doar, nos acalma, pois não nos pertence, sendo o único caminho que pode esmaecer o sentimento de culpa na relação com o outro, é o saber o dever cumprido. E o que é o dever cumprido? É aquilo ao qual nos remete a Kant, que é o dever por amor.

Na reflexão do existencialismo “Ter” e “Ser” parecem inconciliáveis e de certa forma são, se o “Ter” não estiver a serviço do “Ser”. Na sequência de tempo que nos acompanha os ganhos, alegrias, gozos são na sociedade de consumo em que vivemos um “direito”, como se fosse possível vivermos no hedonismo, sem a lei. Como se o sofrimento e a falta, não nos estruturasse. Assim a perda que é a essência de nossa vida, pois trata do desapego e da renúncia, nos remete a falta, ao vazio que pertence a cada existência, seja pela implicação na lei interna, ou na ausência de um ser querido, nas identificações regressivas que representa, de um tempo e um lugar, que não mais existe. Isso define quem somos, porque representa o destino que damos às provações da vida. A perda nos remete as abstrações de toda uma ordem de significados e significantes, que são desagregados, resinificados, pois é necessário um afastamento dos representantes que alimentam as lembranças. Assim os sentimentos de desânimo, perda de interesse pelo mundo externo, perda da capacidade de amar, diminuição dos sentimentos de autoestima, e quando surge reflexões sobre o afeto que não foi correspondido para com o objeto de perda, surge auto-recriminação e mecanismos de punição que podem sofrer conversão.

Desde que nascemos caminhamos ao longo da vida acumulando vitórias e perdas, que nos estruturam. As vitórias ficaram no passado e as perdas terão que ser “superadas” pelo luto. São fáceis as lembranças da vitória, mas as lembranças das perdas são difíceis, porque remete a nossa finitude e fragilidade. A devoção às situações de luto demonstra como é difícil substituir um objeto de amor. A dor psíquica expressa na dor física diz respeito à quantidade de energia investida que é liberada na perda. Esse é o teste de realidade a exigir que a energia investida seja resinificada. É assim que o apego ao objeto de amor pode significar uma oposição à substituição do mesmo, pois as lembranças e expectativas são carregadas de energia psíquica, de emoções fortes, que fragmenta o processo de economia de energia. O sentimento de dor e profunda tristeza na perda por morte ou separação são muito semelhantes. Sabe-se quem se perdeu, mas nem sempre o que perdeu. O objeto de amor ocupa sempre um lugar nos significantes conscientes e inconscientes de uma pessoa. O luto pode trazer uma imensa melancolia e a melancolia sempre traz o luto de algo, que nem sempre é possível saber. Há que haver "muito tempo" para o saber do que se perdeu. A questão é que a capacidade de amar, a energia, é rebaixada, pois necessita ser refeita. A vida parece perder o sentido, a insônia, a dificuldade em alimentar-se são sintomas que esvazia a energia investida.

Em cada experiência da vida, seja em que aspecto for o sentimento de “dever” por amor, constitui-se como o único acalentar nossas dores. Diante da perda a momentânea incapacidade para amar deve levar o sujeito ao processo de autoconhecimento. Quanto maior o autoconhecimento supõe-se que maiores recursos encontrará o sujeito de lidar com sua perda e menor será a perda em seu ego. A autocrítica diante da perda é extremamente difícil, pois em geral todos acreditam terem cumprido seu “dever” para com o outro, mas quando conflitos que precedem a perda não estão colocados em seu devido lugar, surge o sentimento de remorso e arrependimento. Há uma luta interna para apaziguar conflitos, cujo objeto não mais existe enquanto real. O que se revela é que esses conflitos dizem respeito ao sujeito, que necessita se implicar, o que requer esforço psíquico, gasto de energia, autoconhecimento e renuncia. Essa consciência requer uma compaixão para consigo próprio e um contato com a realidade de forma equilibrada. Mas é possível que emoções primitivas como ambição, egoísmo, arrogância, poder, enfraqueça ou elimine a tristeza, o luto, pois a ênfase recai na garantia dessas emoções, ou lugares que o sujeito ocupa ou gostaria de ocupar. Uma pessoa que diante da perda de um ente querido ressalta aos gritos seu afeto pode estar imbuída de forte sentimento de culpa e remorso. Bem como tudo o que expressa de críticas de si próprio, podem ser em relação ao outro e o que expressa de crítica em relação ao outro pode ser em relação a si próprio, estando assim longe de uma atitude de humildade e de equilíbrio ou uma auto punição irreconciliável a curto tempo.

Nesses ciclos intermináveis quando alguém que se ama parte, fica o amor, e na sequência do tempo as marcas, as sombras de um amor pelo outro. O deslocamento desse amor para outro sujeito, não “resolve” o sentimento de vazio, da ausência de um amor que não mais se vê. Embora o sujeito se interrogue quanto a seu destino, ante a perda de alguém querido, os deslocamentos patológicos, narcísicos são possíveis. Assim os possíveis conflitos existentes são compensados por uma conversão narcísica, onde ocorre uma enfática comiseração. A regressão da energia que foi investida em determinado objeto, seja ele qual for: um amor, uma pessoa, um trabalho, uma concepção filosófica, política de mundo, faz parte do processo de luto, que ameniza conflitos de ambivalência muito angustiantes. Adoecer é algo relacionado à imagem que cada pessoa tem de si mesmo e nessa imagem existem diversos mecanismos que levam a formação de sintomas, sejam porque já existia uma predisposição ou por uma ambivalência de sentimentos, difíceis de serem conciliados. É assim que a regressão se estabelece, como uma forma de retorno a um tempo que só foi possível na fantasia. Toda perda de objeto amado há que se haver com a estrutura de funcionamento psíquico. A luta vida-morte-vida... diz respeito ao funcionamento da vida e desejos, que muitas vezes são difíceis de serem apaziguados, principalmente quando existem sentimentos opostos como amor e ódio.

O amor enquanto essência não pode ser renunciado, mas a renuncia ao objeto de amor pode levar a uma satisfação sádica com o próprio sofrimento, que é constitutivo do sujeito, estendendo a todos os aspectos de sua vida. Punir objetos amados com o próprio sofrimento pertence ao sadismo como forma de evitar a tendência à depressão e ao suicídio. No fundo aqui estamos com o medo de destruição do ego, cuja defesa é a autopunição ou punição do outro seja pelo sadismo ou pelo suicídio, que são formas diferentes de domínio do ego. A perda deixará sempre sua marca mnêmica, que interrogará a identidade do sujeito colocando-o sempre diante do teste de realidade se os recursos psíquicos de que dispõe o sujeito forem escassos. No mecanismo de economia de energia, a depressão pode ser compensada por um estado de mania, gerando um funcionamento psíquico modular, embora o conteúdo possa ser o mesmo, apenas a forma de expressão é diferente.

No contraponto dos estados de depressão estão os estados de mania, e essas ondulações visam o equilíbrio psíquico e são difíceis de serem equalizadas, dependendo do quanto de energia possa existir em cada movimento. A depressão ou exaltação requer movimentos de energia em sentidos opostos, muitas delas tóxicas. Enquanto persiste o luto, este absorve as energias do ego, pois está sempre sendo confrontado pela realidade e se interrogando sobre seu destino e dessa forma pode optar por viver ou morrer. Para viver há que renunciar ao objeto amado. A ambivalência na relação com o objeto e os conflitos existentes com este, é constitucional. Os sentimentos de amor e ódio lutam no inconsciente e só fragmento desses vem à consciência. Dessa forma a dor psíquica e física é reduzida, o amor escapa à extinção, a vida prevalece e as feridas são acalentadas. Então ficamos com o comentário de Confúcio: "Que necessidade tem a natureza de pensamentos e preocupações? Na natureza, todas as coisas retornam à origem comum e se distribuem pelos diferentes caminhos. Através de uma única ação, os frutos de uma centena de pensamentos se realizam. Que necessidade tem a natureza de pensamentos, de preocupações?".

FREUD, S.  – LUTO E MELANCOLIA (1917[1915]), Obras Completas de Psicanálise - volume XIV. Rio de Janeiro, Imago - 1996. 

29 de dezembro de 2014

Fragmentos lacanianos...


“A constelação – por que não, no sentido que dela falam os astrólogos? -, a constelação original que presidiu ao nascimento do sujeito, ao seu destino e quase diria à sua pré-história, a saber, as relações familiares fundamentais que estruturam a união dos pais, mostra ter uma relação muito precisa, e talvez definível por uma fórmula de transformação, com o que aparece como o mais contingente, o mais fantasístico, o mais paradoxalmente mórbido de seu caso, a saber, o último estado de desenvolvimento de sua grande apreensão obsedante, roteiro imaginário a que chega como se fosse à solução da angústia ligada ao desencadeamento da crise”.

“A constelação do sujeito é formada na tradição familiar pelo relato de um certo número de traços que especificam a união dos pais”.

“Eis, portanto como se apresenta a constelação familiar do sujeito. O relato dela vai saindo, fragmento por fragmento, durante a análise, sem que o sujeito estabeleça qualquer ligação com o que quer que seja que aconteça de atual”.

“A constelação onde cada sujeito deve ocupar seu lugar de forma equilibrada, para manter a harmonia do circulo do qual faz parte, embora possa não corresponder a sua essência ancestral, insere-se em sua provação no núcleo familiar do qual faz parte” (p.19 – 21).
LACAN, Jacques - O Mito Individual do Neurótico – Jorge Zahar Editores, 2008

29 de novembro de 2014

Poesia - O deserto


Minh’ alma caminha,
na lembrança, a aridez do deserto,
nas feridas, as dores que não cicatrizaram,
nas dores, a solidão da saudade,
nenhuma nuvem, nenhuma chuva
o vento traz a areia,
que toca a alma,
ranhuras que vão se incrustando,
uma ostra no fundo do mar,
um carvão no centro da terra,
uma poeira estelar,
que continua andar pela dor,
ao retornar o caminho,
uma luz suave,
leva sua vestimenta,
necessita dormir por um tempo,
que não é um tempo, 
a luz vai e volta,
e assim a alegria aos poucos retorna,
pela presença amorosa,
e a suavidade sopra seus ventos
trazendo o frescor da chuva
em gotas de safiras.
Myriam’aya

23 de novembro de 2014

“A Concepção Quantitativa” e o Equilíbrio de Energia

Deriva diretamente das observações clínicas patológicas, especialmente no que diz respeito a ideias excessivamente intensas — na histeria e nas obsessões, nas quais, como veremos, a característica quantitativa emerge com mais clareza do que seria normal. Processos, como estímulos, substituição, conversão e descarga que tiveram de ser ali descritos (em conexão com esses distúrbios), sugeriram diretamente a concepção da excitação neuronal como uma quantidade em estado de fluxo. Parecia lícito tentar generalizar o que ali se comprovou. Partindo dessa consideração, pôde-se estabelecer um princípio básico da atividade neuronal em relação à quantidade, que prometia ser extremamente elucidativo, visto que parecia abranger toda a função. Esse é o princípio de inércia neuronal: os neurônios tendem a se livrar de quantidade. A estrutura e o desenvolvimento, bem como as funções (dos neurônios), devem ser compreendidos com base nisso.
Em primeiro lugar, o princípio da inércia explica a dicotomia estrutural (dos neurônios) em motores e sensoriais, como um dispositivo destinado a neutralizar a recepção de quantidade, através de sua descarga. O movimento reflexo torna-se compreensível agora como uma forma estabelecida de efetuar essa descarga: a origem da ação fornece o motivo para o movimento reflexo. Se retrocedermos ainda mais, poderemos, em primeira instância, vincular o sistema nervoso, como herdeiro da irritabilidade geral do protoplasma, com a superfície externa irritável (de um organismo), que é interrompida por extensões consideráveis de superfície não irritável. Um sistema nervoso primário se vale dessa quantidade, assim adquirida, para descarregá-la nos mecanismos musculares através das vias correspondentes, e desse modo se mantém livre do estímulo. Essa descarga representa a função primária do sistema nervoso. Aqui existe espaço para o desenvolvimento de uma função secundária. Pois, entre as vias de descarga, são preferidas e conservadas aquelas que envolvem a cessação do estímulo: fuga do estímulo. Em geral, aqui se verifica uma proporção entre a Q de excitação e o esforço requerido para a fuga do estímulo, de modo que o princípio da inércia não seja abalado por isso.
Desde o início, porém, o princípio da inércia é rompido por outra circunstância. À proporção que (aumenta) a complexidade interior (do organismo), o sistema nervoso recebe estímulos do próprio elemento somático — os estímulos endógenos — que também têm que ser descarregados. Esses estímulos se originam nas células do corpo e criam as grandes necessidades: como, respiração, sexualidade. Deles, ao contrário do que faz com os estímulos externos, o organismo não pode esquivar-se; não pode empregar a quantidade deles para a fuga do estímulo. Eles cessam apenas mediante certas condições, que devem ser realizadas no mundo externo. (por exemplo, a necessidade de nutrição.) Para efetuar essa ação (que merece ser qualificada de “específica”), requer-se um esforço que seja independente da quantidade endógena e, em geral, maior, já que o indivíduo se acha sujeito a condições que podem ser descritas como as exigências da vida. Em consequência, o sistema nervoso é obrigado a abandonar sua tendência original à inércia (isto é, a reduzir o nível da quantidade a zero). Precisa tolerar (a manutenção de) um acúmulo de quantidade suficiente para satisfazer as exigências de uma ação específica. Mesmo assim, a maneira como realiza isso demonstra que a mesma tendência persiste modificada pelo empenho de ao menos manter a quantidade no mais baixo nível possível e de se resguardar contra qualquer aumento da mesma — ou seja, mantê-la constante. Todas as funções do sistema nervoso podem ser compreendidas sob o aspecto das funções primária ou secundária impostas pelas exigências da vida. 



Considerações sobre o texto de Freud “Primeiro Teorema Principal: A Concepção Quantitativa” do artigo Projeto para uma Psicologia cientifica. Imagem de Mark F. Bear, Barry W. Connors, Michael A. Paradiso – Neurociências (Desvendando o Sistema Nervoso) pg. 61  

As ideias intensas requer uma grande quantidade de energia, que impulsiona uma excitação neuronal. A quantidade e qualidade dessa carga e descarga de energia, deve ser mantida sob equilíbrio, uma vez que tanto a quantidade de carga, quanto a qualidade no sentido da afinidade com a estrutura psíquica, potencializa os sintomas de defesa e funcionamento do sujeito. Nas células a comunicação entre o líquido intersticial e o citosol, deve ser, para manter o equilíbrio, entre os íons de sódio (+) e de fosfato (-) e os íons de cloreto (-) e os íons de potássio (+), para que se mantenha o equilíbrio celular. De forma semelhante funciona o fluxo de energia psíquica. O princípio da inércia visa o equilíbrio, entre carga e descarga.
Se as superfícies, irritável e não irritável do sistema nervoso, necessita descarregar a quantidade de energia adquirida, para se manter livre do estímulo, interrompendo-o ou imprimindo uma descarga pois visa o, necessário, equilíbrio. Interrogar o que faz uma superfície neuronal ou psíquica, ser mais ou menos irritável é a interrogação da “escolha” de funcionamento, ou seja, está submetido a determinadas leis que ainda desconhecemos.
É assim que a psique diante das exigências da vida tem que “dar conta” de si mesma e dos mecanismos celulares que possuem funcionamentos específicos, e não funciona independente da psique.
A psique deve manter a quantidade de energia o mais baixo possível “e se resguardar contra qualquer aumento da mesma”. Isso é mantê-la constante e ao mesmo tempo trabalhar no sentido da extensão da consciência e diminuição do inconsciente. Uma batalha difícil que vai requerer alguns séculos de estudo e autoconhecimento.

FREUD, S.  – [1] (a) Primeiro Teorema Principal: A Concepção Quantitativa  (1950 [1895]), Obras Completas de Psicanálise - volume I. Rio de Janeiro, Imago - 1996. 

16 de novembro de 2014

O Corpo e a “Introdução do Ego”


“Com efeito, porém, com a hipótese da “atração de desejo” e da propensão ao recalcamento, já abordamos um estado de neurônios impermeáveis, que ainda não foi discutido. Pois esses dois processos indicam que em sistema de neurônios impermeáveis se formou uma organização cuja presença interfere nas passagens (de quantidade) que, na primeira vez, ocorreram de determinada maneira (isto é, acompanhadas de satisfação ou dor). Essa organização se chama “ego”. Pode ser facilmente descrito se considerarmos que a recepção sistematicamente repetida de quantidade endógena em certos neurônios (do núcleo) e o consequente efeito facilitador produzem um grupo de neurônios que é constantemente catexizado (pg. 368 e 424-5) e que, desse modo, corresponde ao veículo da reserva requerido pela função secundária (pg. 406). O ego deve, portanto, ser definido como a totalidade das catexias de neurônios impermeáveis existentes em determinado momento, nas quais cumpre diferenciar um componente permanente e outro mutável (pg. 380, adiante). É fácil ver que as facilitações entre os neurônios impermeáveis fazem parte dos domínios do ego, já que representam possibilidades, se o ego for alterado, de determinar a sua extensão nos momentos seguintes”.
“Embora esse ego deva esforçar-se por se livrar de suas catexias pelo método da satisfação, isso não pode acontecer de nenhuma outra maneira senão por ele influenciar a repetição das experiências de dor e dos afetos, e pelo método seguinte, que é geralmente descrito como inibição”.
“Uma quantidade que irrompe em um neurônio a partir de um ponto qualquer continuará em direção à barreira de contacto que estiver mais facilitada, estabelecendo uma corrente nessa direção. Explicando com mais precisão: a corrente de quantidade se dividirá na direção das diversas barreiras de contacto na proporção inversa de suas resistências; e, em tal caso, quando uma fração se choca contra uma barreira de contacto cuja resistência é inferior a ela (barreira de contacto), não passará praticamente nada por esse ponto. Essa relação pode facilmente conduzir-se para cada quantidade no neurônio, pois poderão surgir frações que sejam superiores também ao limiar de outras barreiras de contacto. Assim, o curso adotado dependerá das quantidades e da relação das facilitações. Já conhecemos, porém, o terceiro fator poderoso (pg. 370-1). Quando um neurônio adjacente é simultaneamente catexizado, isso atua como uma facilitação temporária da barreira de contacto existente entre os dois, modificando o curso (da corrente), que, de outro modo, teria tomado a direção de uma barreira de contacto facilitada. Assim, pois, uma catexia colateral atua como uma inibição do curso da quantidade. Imaginemos o ego como uma rede de neurônios catexizados e bem facilitados entre si.”
“Suponhamos que uma quantidade penetrasse no neurônio a vindo do exterior para um sistema de neurônios permeáveis, então, se não fosse influenciada, ela passaria para o neurônio b; mas ela é tão influenciada pela catexia colateral - que libera apenas uma fração para b, e talvez nem sequer chegue de todo a b. Logo, se o ego existe, ele deve inibir os processos psíquicos primários”.
“Uma inibição desse tipo representa, porém, uma vantagem decisiva para o sistema de neurônios impermeáveis. Suponhamos que a seja uma imagem mnêmica hostil e b, um neurônio-chave para o desprazer (pg. 372). Então, se é despertado, o desprazer primariamente será liberado, o que talvez fosse inútil e que o é, de qualquer modo, (quando ele é liberado) em sua totalidade. Com a ação inibitória, a liberação de desprazer ficará muito reduzida e o sistema nervoso será poupado, sem qualquer outro dano, do desenvolvimento e da descarga de quantidade. Agora se torna fácil imaginar como o ego, com o auxílio de um mecanismo que atrai sua atenção para a nova catexia iminente da imagem mnêmica hostil, pode conseguir inibir a passagem da quantidade de uma imagem mnêmica para a liberação do desprazer por meio de uma copiosa catexia colateral que pode ser reforçada de acordo com as necessidades. E, realmente, se admitirmos que a liberação inicial de desprazer é captada da quantidade pelo próprio ego, teremos nessa mesma liberação a fonte do dispêndio que a catexia colateral inibidora exige do ego. Nesse caso, quanto mais intenso for o desprazer, mais forte será a defesa primária”.

Considerações sobre o texto de Freud [14] Introdução do Ego do artigo Projeto para uma Psicologia cientifica. Do desenho de Freud, propomos a imagem acima: http://filosofiacienciaevida.uol.com.br/ESFI/Edicoes/28/artigo116936-2.asp
O Ego, o Eu, esse estado de consciência, que nos abrange revelando as histórias mais secretas da existência; esse ego que somos nós de forma tangencial, mas que nem por isso pertence a uma escala hierárquica psíquica, quando pensamos em superego e inconsciente, é pura energia. Para existir de forma integrada terá que recalcar os conflitos mais íntimos. Essa energia trafega pelo corpo através da rede neuronal permeável e impermeável, em intensidade e quantidade, que define o prazer ou a dor, permitindo que haja, sempre, uma reserva, reinvestida, no sentido do prazer e que essa reserva pode ser mobilizada. O ego é uma catexia, uma energia, mutável e para tanto percorre caminhos permeáveis e impermeáveis, (com ou sem bainha de mielina) a depender da frequência (quantidade/qualidade). O fundamental da liberação dessa energia é que ela passa pelo prazer e pela dor: “Embora esse ego deva esforçar-se por se livrar de suas catexias pelo método da satisfação, isso não pode acontecer de nenhuma outra maneira senão por ele influenciar a repetição das experiências de dor e dos afetos, e pelo método seguinte, que é geralmente descrito como inibição”.  Por certo que a ciência do século XX muito revelou sobre a neuroquímica complexa do cérebro, mas há muito que percorrer no refinamento dessa materialidade, transcendendo em um conhecimento a priori. Embora Freud afirme que “a corrente de quantidade se dividirá na direção das diversas barreiras de contacto na proporção inversa de suas resistências”, ou seja, onde possui mais resistência à entrada de determinada energia é menor. Por isso o curso e a entrada de energia dependerão das facilidades/dificuldades. A questão é quais facilidades/dificuldades, pois a energia em curso sofre múltiplas influências, que pode chegar atenuada, potencializada ou não chegar a seu destino. Se o ego inibe assim os processos primários ou não, acredito que não seja possível demonstrar ainda, pois se a energia que chega até ele é primária, primitiva, ou em processo de evolução, supomos que irá potencializá-lo a depender de suas circunstancias.  É assim que nos processos de memória é possível uma lembrança de sofrimento energizada, ser inibida, através de uma energia que entra e a atravessa. Esse funcionamento do sistema de defesa visa o equilíbrio do ego e a harmonia das pulsões, bem como a autocura.

Referência

FREUD, S.  – [14] INTRODUÇÃO DO EGO (1950 [1895]), Obras Completas de Psicanálise - volume I. Rio de Janeiro, Imago - 1996. 

1 de novembro de 2014

“Tratamento da Alma” – “corte epistemológico”

Se pensássemos em uma cronologia metodológica esse seria o primeiro escrito a ser publicado nesse espaço. Mas lidamos com a livre associação e só agora foi possível esse texto. Muito se fala e escreve sobre tratamento psíquico. Importante relembrarmos que a psicanálise é uma concepção de pensar e tratar os fenômenos patológicos da alma ou de parte da alma, pela palavra ou linguagem e que atua em primeiro lugar na alma. Então “Psyche” uma palavra grega traduzida do alemão significa alma. Assim não é necessário rever a concepção de matéria, para concebermos a existência de uma alma. E como a palavra, a linguagem é um meio de representação, de acesso, cura, não deixa de ser mágica, misteriosa, cheia de significados e significantes. Em função dos grandes avanços, descobertas, na compreensão do corpo humano, foi delegada à filosofia a compreensão da alma.  Já faz um século que os médicos se preocupam com o tratamento desta.

Os estudos da medicina até então, com exceção de determinadas áreas da Psiquiatria, que continuam as pesquisas separando o físico do anímico, ou seja, mantendo a concepção de que as causas das doenças começam e terminam no físico, tem evoluído no sentido do que Freud tentou esboçar de uma metapsicologia. A relação entre o físico e o anímico é recíproca, embora em muitas circunstancias o anímico possa determinar o físico. São conhecidas pesquisas envolvendo conflitos psíquicos, e o desenvolvimento de doenças orgânicas. Há uma “variedade multiforme do quadro patológico; não podem fazer nenhum trabalho intelectual, em consequência de dores de cabeça ou insuficiência da atenção, seus olhos doem durante a leitura, suas pernas se cansam ao andar, ficando pesadas, doloridas ou dormentes, sua digestão é perturbada por sensações dolorosas, eructações ou espasmos gástricos, a defecação não se dá sem a ajuda de laxativos, o sono é abolido etc. Eles podem ter todos esses males simultaneamente ou em sucessão, ou sofrer apenas de uma seleção deles” (p.271-273). Esses sintomas falam de ansiedades, angústias, medos, que uma vez reelaborados terminam sem deixar nenhum vestígio. São as dores da alma que falam. Até o momento não foi possível encontrar relação entre esses sintomas e doenças no sistema nervoso como um todo, ou anomalias cerebrais. Em grande parte a influência da vida anímica, coloca-se como causa, possibilitando a interrogação do tempo e lugar dessa(s) causa(s).

O caminho de compreensão do normal pelo patológico é o viés de compreensão da mudança pelo sofrimento. Ao expressar as emoções, o humano, manifesta sua essência anímica. Assim as manifestações físicas das emoções muitas vezes revelam intenções, pensamentos que estão muito escondidos. E não há outra forma de dizer que “em certos estados anímicos chamados de “afetos”, a participação do corpo é tão evidente e intensa que alguns estudiosos da alma chegaram até a pensar que a essência do afeto consistiria apenas nessas suas exteriorizações físicas. São genericamente conhecidas as extraordinárias mudanças na expressão facial, na circulação sanguínea, nas secreções e nos estados de excitação da musculatura voluntária sob a influência, por exemplo, do medo, da cólera, da dor psíquica e do deleite sexual. Menos conhecidos, embora estabelecidos com plena certeza, são outros efeitos físicos dos afetos que já não são próprios da expressão deles. Os estados afetivos persistentes de natureza penosa, ou, como se costuma dizer, “depressiva”, tais como desgosto, a preocupação e a tristeza, abatem a nutrição do corpo como um todo, causam o embranquecimento dos cabelos, fazem a gordura desaparecer e provocam alterações patológicas nas paredes dos vasos sanguíneos. Inversamente, sob a influência de excitações mais alegres, da “felicidade”, vê-se o corpo inteiro desabrochar e a pessoa recuperar muitos sinais de juventude. Evidentemente, os grandes afetos têm muito a ver com a capacidade de resistência às doenças infecciosas;” (p.274-275). As frustrações, derrotas, perdas, vulnerabiliza a saúde e o sistema imunológico, pelo estresse que causam, potencializando pré-disposições. Assim como a doença pode ser agravada por conflitos e afetos desagradáveis pode também obter melhoras significativas por afetos agradáveis, como o amor.

Os afetos são independentes do corpo, embora encontrem correspondência nesse. Os estados d’alma, como os pensamentos são afetivos e não necessitam de manifestações físicas. O estado psíquico assertivo, alegre, motivado para um objetivo, tranquilizador, pode influenciar em processos físicos de doenças. Mesmo que a dor não encontre um correspondente físico, ela não deixa de ser real, podendo ser reduzida ou elevada dependendo do limiar de dor do sujeito ou de sua resiliência. Dessa forma, frente a uma doença, os sentimentos do sujeito relativos à vontade de viver, de curar-se, a busca da espiritualidade, como demonstra estudos científicos http://www.scielo.br/pdf/rpc/v34s1/a02v34s1.pdf http://scholar.google.com.br/scholar?q=psiquiatria+e+espiritualidade&hl=pt-BR&as_sdt=0&as_vis=1&oi=scholart&sa=X&ei=UBRVVLnyEY-eyATKooLQAQ&ved=0CBoQgQMwAA  contribui no processo de cura ou agravamento da doença. Uma doença que é recebida com afetos de raiva, ódio e revolta, desanimo, agregam componentes tóxicos ao organismo. De forma geral adoecem com mais frequências às pessoas que possuem medo de adoecer. Mas quando diante de uma doença há uma posição de aceitação, aprendizado, assertividade, confiança na cura, as expectativas de melhoras são muito maiores. Então não é prudente “recusar crédito a essas curas milagrosas e pretender explicar os relatos feitos sobre elas através de uma combinação de engodo devoto e observação inexata. Por mais que essa tentativa de explicação possa amiúde justificar-se, ainda assim não tem o poder de descartar por completo o fato das curas miraculosas. Elas realmente ocorrem, deram-se em todas as épocas e dizem respeito não só às doenças de origem anímica, ou seja, àquelas que se fundamentam na “imaginação” e podem justamente ser afetadas de maneira especial pelas circunstâncias da romaria, mas também aos estados patológicos fundamentados no “orgânico” e até então resistentes a todos os esforços médicos.” (p.277). O poder da fé recebe forças pulsionais, independente da concepção religiosa. A arte medicinal vem deste os primórdios da humanidade e tem passado por várias concepções, principalmente se compreendermos as diferenças entre ocidente e oriente.

Os profissionais de saúde que concebem sua atividade como um sacerdócio, do servir, uma arte, adentra ao estudo do espírito humano, sua essência e desenvolve uma relação de empatia com seus pacientes, que contribui e muito na melhora destes. Desde os tempos mais remotos, se busca a cura para os problemas da alma. Se o tratamento psíquico possibilita estados de alma favorecedores a cura, só resgatamos o que a humanidade faz a milhões de anos. Vários foram os métodos que o homem utilizou ao longo de sua história em busca de cura: desde os banhos com ervas para purificar, os oráculos, a meditação, as práticas de elevação espiritual, “só podem ter-se tornado curativos por via psíquica”. Assim há uma transferência da arte curativa das mãos dos sacerdotes e espiritualistas para os médicos e profissionais de saúde e nos tempos atuais vários grupos profissionais, principalmente de saúde mental retoma essa discussão pela via da espiritualidade, principalmente as pesquisas da psiquiatria e neurociência, o retorno aos estudos de Jung e os estudos da psicologia transpessoal, e da física quântica.

Nesse mundo “mágico” que é a psique, a “magia” das palavras assume um lugar de mediação do vínculo terapêutico. Como a palavra provoca modificações no sujeito ao serem faladas, pois ele se escuta e ao mesmo tempo essas palavras encontram ressonância no terapeuta e é por esse “devolvida” como interrogação, interpretação, reflexão, contribuindo para resinificar sofrimentos, eliminando sintomas patológicos. A possibilidade de não possuir o direito de escolher livremente seu médico, terapeuta, seja pela configuração do sistema de saúde pública ou pela configuração do sistema privado de saúde, somente sendo possível em atendimento particular, “aniquila-se uma importante precondição para influenciar o sujeito que sofre em termos anímicos”. Inexoravelmente, o “destino muitas vezes cura as doenças através das grandes emoções de alegria, da satisfação das necessidades e da realização dos desejos, com os quais o médico, amiúde impotente fora de sua arte, não pode rivalizar” (p.280). Seja qual for a abordagem terapêutica, o fundamental é o vínculo de confiança, estima e amorosidade que potencializa a relação de transferência, fundamental para a direção clínica, pois não é tarefa fácil o sujeito renunciar a seus sofrimentos, sintomas e gozos.

Referência
FREUD, S.  – TRATAMENTO PSÍQUICO (OU ANÍMICO) (1905), Obras Completas de Psicanálise - volume VII. Rio de Janeiro, Imago - 1996. 

5 de outubro de 2014

"Ganhar ou perder, o que mais adoece?"


A fama ou o corpo, o que mais se ama?
O corpo ou a riqueza, o que vale mais?
Ganhar ou perder, o que mais adoece?
Por isso o excesso de desejo causará um grande desgaste
E o excesso de acúmulos causará uma morte rica
Quem sabe se contentar não se humilha
Quem sabe se conter não irá se exaurir
Sendo assim, poderá viver longamente

TAO TE CHING - O Livro do Caminho e da Virtude Lao Tse - Tradução do Mestre Wu Jyn Cherng

21 de setembro de 2014

Saudade


Longing
Anhelo
Désir
λαχτάρα
געגועים
Özlem
Desiderans
 شوق
Saudade!
A saudade é de algo que está longe...
Em um tempo e lugar inacessível...
É como anelar, acariciar algo que “não se pode tocar”...
É um desejo que “não se pode realizar”...
No tempo e lugar atual...
Assim as almas similares se buscam...
Pelo perfume que exalam...
Por que em um tempo e lugar estiveram juntas!
E retornarão a cumprir seus destinos...
Saudade!
                                                                                             Myriam’aya