23 de agosto de 2015

A Difícil Tarefa da Reparação


O que leva um garoto a mentir supondo que assim teria o amor de seu pai? Complexa a resposta. Mas essa é a interrogação que fica no filme “O Caçador de Pipas” de Marc Foster (2007). Aqui é necessário “deixar a margem” se é que isso é possível o contexto da guerra no Afeganistão, os países envolvidos, e a guerra civil que se instalou após a saída das tropas estrangeiras e a difícil reconstrução do país, os valores da sociedade afegã, bem como o olhar do diretor sobre o livro em que se baseou o filme. No filme o que vemos na subjetividade dos personagens Amir (Zekeria Ebrahimi) e Hassan (Ahmad Khan Mahmidzada), dois amigos, que passam a infância brincando nos torneios de pipas de Kabul. Quando vencem o torneio, Hassan sofre uma violência ao garantir a pipa para o amigo (Amir). Amir em sua insegurança pelo amor do pai, pois se interroga sobre esse, em função da morte de sua mãe durante o parto, e a ausência de um símbolo feminino, vê na violência que o amigo sofre uma possibilidade na sua omissão e ausência de remorsos, planejar uma mentira para expulsar Hassan de sua casa, pois esse era tido como filho do empregado do pai e muito estimado por esse. O que faz com que o caráter de Amir tenha traços perversos é complexo, pois apesar da ética moral do pai em seu dia a dia, há uma falta e uma culpa simbólica que Amir não consegue dá conta. Ou seja, seus conflitos são de ordem simbólica, mas determinam seu destino de forma irremediável. Hassan embora tenha sofrido a violência, e as consequências da mentira de Amir, não se desestrutura, não afeta seu caráter. Possui uma contextura de sublimação sólida. Embora o objetivo do filme não seja colocar essa discussão, ela torna-se inevitável, nas contexturas de caráter que se revelam. Não é possível “inferir da história da primeira infância desses indivíduos que os mesmos desprenderam um tempo relativamente longo para superar sua incontinência alvi [incontinência fecal] infantil, e que na infância posterior sofreram falhas isoladas nessa função”, como argumenta Freud. Mas a questão é que estamos diante de uma criança, cujo pai é um criado e outra cujo pai é o senhor. Isso certamente irá influenciar no caráter, e a festa de aniversário de Amir, revela isso. Assim é possível inferir acerca de caráter, neurose e humildade, e perversão é da ordem da falta e a arrogância é uma luta contra a falta. Então como um indivíduo que não se estruturou na falta pode ressignificar seu caráter e reparar o irreparável? Como não é possível voltar ao “passado”? O caminho que lhe acena é reestruturar-se no “presente” na tentativa de reconstruir-se para viver o “futuro”. “Abri a boca e quase disse algo. Quase. O resto da minha vida poderia ter sido diferente se eu tivesse dito alguma coisa naquela hora. Mas, não disse. Só fiquei olhando. Paralisado”. Esse é o reflexo do seu caráter. Muitas interrogações podem e devem ser feitas.

Referência

FREUD, S. CARÁTER E EROTISMO ANAL (1908). Obras Completas de Psicanálise - volume IX. Rio de Janeiro, Imago-1996. 

19 de agosto de 2015

O Homem Sagrado


O Homem Sagrado não tem coração
Toma o povo como seu coração
Com os bons faço o bem
Com os que não são bons faço o bem também
Adquirindo o bem
Com os sinceros sou sincero
Com os que não são sinceros sou sincero também
Adquirindo a sinceridade
O Homem Sagrado sob o céu
Age cautelosamente fundindo os corações do mundo
O povo todo com olhos e ouvidos atentos
O Homem Sagrado os trata como crianças
TAO TE CHING - O Livro do Caminho e da Virtude - Lao Tse - Tradução do Mestre Wu Jyn Cherng

18 de agosto de 2015

Fragmentos Lacanianos

“A partir do momento em que nos ocupamos do homem, tenhamos desconhecido essa dimensão que parece, em qualquer outro lugar, viva, admitida, manejada corretamente no sentido das ciências humanas, a saber: a autonomia da dimensão dialética como tal.”
“A coisa que se esquece é que o próprio do comportamento humano é a movência dialética das ações, dos desejos, e dos valores que os faz não somente mudar a todo momento, mas de maneira contínua, e até mesmo passar a valores estritamente opostos em função de um rodeio do diálogo... A possibilidade de recolocar em questão a cada instante o desejo, a afeição, e mesmo a significação mais perseverante de uma atividade humana, a perpétua possibilidade de uma inversão se sinal em função da totalidade dialética da posição do indivíduo, é experiência tão comum que se fica estupefato de ver essa dimensão esquecida, desde que se tem de lidar com um semelhante, que se quer objetivar.”
“Esquecida ela nunca foi. Nós encontramos o seu traço cada vez que o observador se deixa guiar pelo sentimento daquilo de que se trata. É na combinação dos fenômenos que reside o segredo.” (p.34)

A sociedade atual é a sociedade do controle, do medo, do legalizar as demandas, sem compreender e interpretar suas lógicas subjetivas e patológicas, sem compreender de qual movimento subjetivo faz parte, sua dialética interna. É sobre essa dialética que se refere Lacan. Ela é especifica em cada sujeito e assume uma velocidade e evolução própria, que não deve ser generalizada, embora esteja no contexto de sua época, está submetida às leis do universo. Assim não é possível colocar-se a frente do desejo do outro, alimentar a fantasia, o delírio que é possível ter o “controle”, sobre algo que se move continuamente e que a neurose obsessiva, os traços psicóticos, a psicose maníaca depressiva, vive a angústia da tentativa, pela compulsão. É uma forma de barrar o movimento, a fala, a expressão, o desejo do outro. Aniquilar o outro através de um suposto controle, uma suposta normalidade, não deixa de ser, uma forma de aniquilar a si próprio, de barrar o próprio desejo, de impedir sua própria dialética, suas contradições o que não é possível, pois o sujeito que fala é um sujeito denunciante de si mesmo.


Lacan, J. O Seminário 3 – As Psicoses – Rio de Janeiro, Zahar – 2008.

19 de julho de 2015

Fragmentos Freudianos

“O amor de Freud pela natureza determinou sua escolha profissional e seu futuro. Ele se mostrou um estudante brilhante quando ingressou no curso médio da escola local, ou Gymnasium oferecia um ensino rigoroso do grego e do latim clássicos preparando os rapazes para a universidade e carreiras proeminentes. Era a educação ideal para um colecionador de antiguidades. As gramáticas grega e latina eram consideradas essenciais para o desenvolvimento do pensamento lógico, o estudo da literatura clássica formava o gosto pelo belo, e a filosofia e a história antiga serviam para despertar sentimentos nobres e heroicos.”
“Foi na escola que teve origem o amor de Freud pela arte e pela arqueologia, quando ele vislumbrou pela primeira vez as civilizações antigas que mais tarde lhe trariam “incomparável consolo nas batalhas da vida”. Freud leu A Ilíada e A Odisseia em grego. Quando estava com nove anos, começou a estudar latim, inclusive Eneida de Virgílio e Metamorfose de Ovídio. Eneida forneceu o mote para A interpretação dos sonhos – “Se eu não conseguir dobrar as forças maiores, incitarei as regiões infernais” -, e Metamorfose foi um livro seminal de mitologia com a transformação mágica por tema. Freud também estudou matemática e ciências, aprendeu inglês e Francês e, com seu dom para os idiomas, estudou sozinho o espanhol e o italiano. Aulas de religião também fizeram parte de seu currículo.”
“No seu último ano de escola, Freud planejava estudar direito, um atalho para ingressar na política, seguindo o destino sugerido pelo poeta no Prater, quando compareceu a uma conferência na qual foi lido o ensaio de Goethe, “Sobre a Natureza”. Assim começa:
Natureza! Estamos cercados e envolvidos por ela; impotentes para penetrar além dela. Sem pedir ou alertar, ela nos puxa para sua dança giratória e nos faz rodopiar até ficarmos cansados e cairmos de seus braços. Ela está sempre criando novas formas. Ela é completa, mas nunca está concluída...Ela se esconde sob milhares de nomes e frases, e é sempre a mesma.”
Esta ode efusiva e animista agradou ao jovem Freud das florestas, à criança que venerava a natureza e que ansiava por restabelecer seu contato rico e intenso com ela. Goethe retratou a natureza como uma força feminina bacante, desinibida, inspiradora e imprudente, interpretando o eterno ciclo da destruição e renovação. A própria terra é imaginada como o corpo da deusa, encantador e irresistível. Freud reagiu a todas essas emoções em março de 1873. Seu retorno a Freiberg ocorrera no verão precedente, uma época em que seus sentimentos sobre o mundo natural estavam particularmente sensíveis. Foi também, graças a sua paixão por Gisela Fluss, um período de excitação sexual, de primeiro amor, de desgosto e saudades. Ele declarou a seu irmão Emil: “Resolvi estudar ciências naturais e, portanto, desobrigo-o da promessa de me deixar cuidar de todos os seus processos jurídicos. Isso não é mais necessário. Vou adquirir conhecimento nos velhos dossiês da natureza, talvez até espreitar seus processos naturais, e partilharei minhas descobertas com qualquer um que queira aprender. Ele não pode ter sido capaz de retornar à floresta, mas conseguiu encontrar um atalho por meio do estudo."

O livro DEUSES DE FREUD – A coleção de arte do pai da psicanálise - de Janine Burke foi entregue a mim como um presente. Fiquei a interrogar como esse jovem, de tão jovem, poderia escolher um livro que falava da alma. Mais do que a alma de Freud, minha própria alma, mais do que a minha, do caminho de sua própria alma. Penso, enfim, que apesar de sua tão pouca idade, é intuitivo, e que sua alma também possui inúmeras interrogações, que por certo, durante sua vida o levará a profundas reflexões e mudanças.
Dito isso, como um eterno agradecimento, faz-se importante a reflexão sobre a desmistificação que a escritora Janine Burke faz sobre Freud. E isso só é possível porque ela percorre com sensibilidade a alma desse grande cientista. Em um mundo materialista, a alma do pai da psicanálise foi sendo desconstruída, na exegese de sua obra, onde muitas análises e referências de seus escritos parecem estéreis. Refere-se a um Freud desvinculado da arte, da religião, mesmo sendo judeu e em algumas interpretações sua obra é citada como materialista. Talvez pelo desconhecimento do quanto Freud se implicou em tudo que escreveu.
É assim que a ode de Goethe, “Sobre a Natureza”: “Natureza! Estamos cercados e envolvidos por ela; impotentes para penetrar além dela. Sem pedir ou alertar, ela nos puxa para sua dança giratória e nos faz rodopiar até ficarmos cansados e cairmos de seus braços. Ela está sempre criando novas formas. Ela é completa, mas nunca está concluída...Ela se esconde sob milhares de nomes e frases, e é sempre a mesma”; Revela a força masculina e ao mesmo tempo feminina da natureza, que encantou Freud ao longo de sua vida e que nós do mundo tecnológico nos distanciamos, esquecemos que nós não somos parte da natureza, nós somos a natureza: humana. O cosmo (e nós) é pura vida pulsante, em um movimento de renascimento, na pulsão a qual, tanto Freud se referiu. O que nossa mônada divina deseja é se religar. 

Referência
BURKE, Janine – DEUSES DE FREUD – A coleção de arte do pai da psicanálise – (2006 – 2010), Rio de janeiro, Editora Record LTDA

3 de julho de 2015

“A pureza, o amor pela verdade e a serenidade moral” é o que nos conduz.

O original é quando nos implicamos no que escrevemos, falamos, quando colocamos nossa alma. Quase nada se fala de razoável e racional sobre os sonhos. A vida onírica permanece intocável. Freud no início da psicanálise começou a falar sobre os sonhos. Nesse belo texto em que fala de Josef Popper-Lynkeus revela uma sensibilidade ao se implicar, que nos diz o quanto é difícil remontar na memória, de onde vem determinado conhecimento.

“Muita coisa interessante existe para ser dita sobre o assunto da originalidade cientifica aparente. Quando alguma ideia nova ocorre na ciência, saudada a princípio como uma descoberta e, via de regra, também discutida como tal, a pesquisa objetiva logo após revela que, afinal de contas, a ideia de fato não era novidade. Geralmente a descoberta já fora efetuada repetidas vezes e posteriormente esquecida, muitas vezes por intervalos de tempos muito longos. Ou ao menos tivera precursores, fora obscuramente conjecturada ou incompletamente enunciada. Tudo isso é demais conhecido para que se exija maior discussão.”
“O lado subjetivo da originalidade, contudo, também merece consideração. Um cientista pode às vezes perguntar-se qual foi a fonte das ideias, a ele peculiares, que aplicou a seu material. A respeito de algumas delas descobrirá sem muita reflexão as sugestões das quais derivaram, as afirmativas feitas por outras pessoas, que ele recolheu e modificou, e cujas implicações elaborou. Em relação a outras de suas ideias, porém, não pode fazer tais admissões; somente supor que esses pensamentos e linhas de abordagem foram gerados — não pode dizer como — em sua própria atividade mental, sendo neles que fundamenta sua reivindicação à originalidade.”
“Uma cuidadosa investigação psicológica, contudo, diminui ainda mais essa reivindicação.” “Ela revela fontes ocultas e há muito esquecidas, que forneceram o estímulo para as ideias aparentemente originais, e substitui a nova criação ostensiva por uma revivescência de algo esquecido aplicado a material novo. Nada há por que lamentar nisso; não tínhamos direito de esperar que aquilo que era ‘original’ não pudesse ser rastreado e determinado.”
“Em meu caso, também, a originalidade de muitas entre as novas ideias que utilizei na interpretação de sonhos e na psicanálise, evaporou-se dessa maneira. Ignoro a fonte de somente uma dessas ideias. Tratava-se de nada menos que a chave para minha opinião sobre os sonhos e ela me auxiliou a solucionar seus enigmas, desde quando tenha sido possível solucioná-los até aqui. Comecei a partir do caráter estranho, confuso e insensato de tantos sonhos e deparei com a noção de que eles estavam comprometidos a se tornarem assim, de vez que neles algo lutava em busca de expressão, à qual se opunha uma resistência oriunda de outras forças mentais. Nos sonhos, impulsos ocultos despertavam o que estava em contradição com aquilo que se poderia chamar de credo ético e estético oficial daquele que sonhava; este pois se envergonhava desses impulsos, voltava-lhes as costas e recusava-se a reconhecê-los de dia; e se, durante a noite, não podia evitar alguma expressão por parte deles, submetia-os a uma “deformação onírica”, que fazia o conteúdo do sonho parecer confuso e insensato. À força mental nos seres humanos que mantém vigilância sobre essa contradição interna e deforma os impulsos instintuais primitivos do sonho em favor de padrões morais convencionais ou mais elevados, dei o nome de “censura de sonhos”.
Justamente essa parte essencial de minha teoria dos sonhos, contudo, foi descoberta por Popper-Lynkeus independentemente. Pedirei ao leitor para comparar a seguinte citação de uma história chamada “Träumen wie Wachen” [“Sonhar Acordado”] em suas Phantasien eines Realisten [Fantasias de um Realista], certamente redigida na ignorância da teoria dos sonhos que publiquei em 1900, tal como eu próprio me via então na ignorância das Phantasien de Lynkeus.
“A respeito de um homem que possuía o notável atributo de jamais sonhar absurdos…”
‘“Esse seu esplêndido dom, de sonhar como se estivesse desperto, é uma consequência de suas virtudes, de sua bondade; é a serenidade moral de sua natureza que me faz compreender tudo a seu respeito.”’
‘“Mas quando penso sobre o assunto de modo correto”, respondeu o outro, quase acredito que todos são como eu e que absolutamente ninguém jamais sonha absurdos. Qualquer sonho que se pode recordar de modo suficientemente claro para descrevê-lo posteriormente — qualquer sonho, equivale a dizer, que não seja um sonho febril — deve sempre fazer sentido e não poderia ser de outro modo, porque coisas entre si contraditórias não poderiam se agrupar em um todo único. O fato de que tempo e espaço sejam amiúde lançados em confusão não afeta o conteúdo verdadeiro do sonho, porquanto, indubitavelmente, nenhum dos dois é significância para sua essência real. Com frequência fazemos o mesmo na vida desperta. Pense apenas nos contos de fadas e nos muitos e audaciosos produtos da imaginação plenos de significação, dos quais apenas um homem sem inteligência poderia dizer: Isso é absurdo, pois é impossível.’”
‘“Se apenas sempre se soubesse como interpretar sonhos da maneira correta, como você acabou de fazer com o meu!” disse seu amigo.”’
‘“Isso certamente não é fácil, mas, com um pouco de atenção por parte daquele mesmo que sonhou, sem dúvida sempre resultaria em êxito. Você pergunta, por que é que, para a maioria, não há êxito? Em vocês, outras pessoas, parece sempre haver algo que jaz escondido em seus sonhos, algo libertino num sentido especial e mais elevado, determinada qualidade secreta em seu ser, difícil de acompanhar. Por isso mesmo que seus sonhos tão amiúde parecem sem sentido, ou até absurdos. No sentido mais profundo, porém, afinal não é assim; com efeito, não pode sê-lo em absoluto — pois se trata sempre do mesmo homem, esteja acordado ou sonhando.”’

É dessa mesma forma que Clarice Lispector ao sonhar com uma boa e linda noite, escreve o que o amor e a pureza de sua alma revela. Desvendar sonhos é preciso alma de um amor eterno como Josef Popper-Lynkeus, pois o ser que está desperto é o ser que sonha.

Boa e linda Noite!
"Alivia a minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que me lembre de que também não há explicação porque um filho quer o beijo de sua mãe e no entanto ele quer e no entanto o beijo é perfeito, faze com que eu receba o mundo sem receio, pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu mesma também incompreensível, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade por mim mesma, pois senão não poderei sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém." Clarice Lispector

Referência
FREUD, S. JOSEF POPPER-LYNKEUS E A TEORIA DOS SONHOS (1923). Obras Completas de Psicanálise - volume XIX. Rio de Janeiro, Imago-1996. 

2 de julho de 2015

O Tratamento Analítico como um Começo

O contar histórias é uma necessidade humana, pois assim transmitimos às vivências, os contextos, as circunstancias, nossa história. Com a psicanálise não foi diferente, pois se faz de um contar de histórias, lembranças e esquecimentos, que necessitam ser relembrados. Quando a psicanálise foi citada na décima primeira edição da então Enciclopédia Britânica foi motivo de regozijo. Essa necessidade de registrar está em nossa memória e suas infinitas ligações, carregadas de afetos. O processo mental é carregado de uma energia, que pode manifestar-se através do corpo ou de uma ação externa, que diz respeito a um “outro”. Nesses tempos de novas tecnologias, pouco se fala de malformação de caráter, pois a flexibilização de valores permite a malformação sem necessariamente revelá-la. Então mentir, manipular, agredir, ameaçar, fazer críticas pejorativas, falar de forma a intimidar, com duplo sentido, garantir ganhos secundários da situação de saúde de alguém, praticar pequenos furtos de forma manipulada, bloquear número de celular, e-mail, e inúmeras psicopatologias da vida cotidiana, que refletem os problemas de caráter, passa a ser, apenas uma forma diferente da ordem de um suposto “direito” de viver.  Como nos tempos modernos muitos são os recursos para negar o outro, fica facilitado o traço perverso.

No sentido de vencer a si mesmo, durante o processo terapêutico, os sacrifícios e renuncias mentais que estão em jogo, não são pequenos. As resistências internas grandes. Mas os esforços são sempre recompensados. No binômio felicidade-sofrimento há que considerarmos a dinâmica, ou seja, como a ação das forças mentais agem ajudando, fazendo conciliações, ou inibindo “umas às outras”.  Considerar a economia ou gasto de energia é pensar na reserva de energia necessária que delineará os sintomas. A arquitetura psíquica é estruturada por um id (inconsciente), onde estão todas as memórias, e um ego, com sua camada mais externa que é a consciência (a qualidade dessa consciência, está vinculada a lei simbólica) e um superego, que domina o id. Se acrescentarmos os binômios vida-morte, alegria-tristeza vamos nos deparar com um psiquismo com um instinto de autopreservação e de necessidade de relacionamento. É o desejo do Objeto, do outro. O mecanismo psíquico diz respeito, então, ao equilíbrio de energia, referente ao volume total de excitações que recebe no jogo vida-morte.

Assim a análise passa pelo reconhecimento da repressão, que é a censura excluindo da consciência influências que a degrada. No desenvolvimento da raça humana os instintos sexuais, de potência e poder assumiram em diversas épocas prioridade para o ego, como uma forma de “realização” de instintos primitivos, ou seja, um retorno ainda não drenado. Assim diante de sua primeira provação, a trilogia familiar, a criança se defende na tentativa de sair ilesa. Há que considerar os inúmeros fatores, o amadurecimento emocional e o quanto é possível para essa alma sublimar. Nesse sentido exerce papel importante o superego, como instancia moral “que domina o ego”, ou seja, o quanto esse alcançou de evolução. Podemos pensar como Freud que “o tratamento analítico atua como uma segunda educação do adulto, como um corretivo da sua educação enquanto criança” e que a ligação que o sujeito faz com o universo e suas leis o reconectam com sua espiritualidade.

Referência
FREUD, S. PSICANÁLISE (1926). Obras Completas de Psicanálise - volume XX. Rio de Janeiro, Imago-1996.

28 de junho de 2015

Quando o inconsciente procura um motivo para esconder a “verdade”

"As Sutilezas de um Ato Falho"

“Eu estava preparando para uma amiga um presente de aniversário — uma pequena pedra preciosa trabalhada, para ser engastada num anel. Ela estava fixa no centro de um recorte de cartolina resistente, e neste escrevi as seguintes palavras: ‘Comprovante para entrega, à firma L., joalheiros, de um anel de ouro… para a pedra anexa, na qual está gravado um barco, com vela e remos.’ Contudo, no ponto em que ali deixei uma lacuna, entre ‘ouro’ e ‘para’ havia uma palavra que eu fora obrigado a riscar por ser inteiramente desnecessária. Era a pequena palavra ‘bis‘ [‘até’, em alemão]. Mas por que eu a teria escrito?”
“Ao ler toda a breve inscrição que havia feito, surpreendeu-me o fato de que continha a palavra ‘für‘ [‘para’] duas vezes, em rápida sucessão: ‘para entrega’ — ‘para a pedra anexa’. Isto pareceu feio, devia ser evitado. Então me ocorreu que ‘bis‘ tinha sido substituído por ‘für’, numa tentativa de evitar a deselegância estilística. Certamente era isto; era, porém, uma tentativa que se utilizava de meios extremamente inadequados. A preposição ‘bis‘ estava muito fora de lugar nesse contexto e não tinha como ser substituída pelo necessário ‘für‘. Assim sendo, por que justamente ‘bis‘?”
“Talvez a palavra ‘bis‘ não fosse a preposição indicativa de tempo-limite. Pode ter sido algo totalmente diferente — a palavra latina ‘bis‘ — ‘uma segunda vez’, que conservou seu significado em francês. ‘Ne bis in idem‘ é uma máxima da lei romana. ‘Bis! bis!‘ é o que grita o francês, quando deseja ver repetida uma apresentação. Assim, esta deve ser a explicação de meu absurdo lapso de escrita. Eu estava sendo advertido contra o segundo ‘für‘, contra uma repetição da mesma palavra. Alguma outra devia ser colocada em seu lugar. A fortuita identidade de som entre a palavra estrangeira ‘bis‘, que incorporava a crítica à fraseologia original, e a preposição alemã possibilitou a inserção de ‘bis‘ em lugar de ‘für‘ na forma de lapso de escrita. Esse engano, todavia, atingiu seu objetivo, não ao ser efetuado, mas somente depois de ter sido corrigido. Tive de riscar o ‘bis‘, e com isto, por assim dizer, eliminei a repetição que me perturbava. Realmente digna de interesse essa variante do mecanismo de uma parapraxia!”
“Senti-me muito satisfeito com essa solução. Na autoanálise, porém, o perigo de fazer coisas incompletas é muito grande. Pode-se, com muita facilidade, ficar satisfeito com uma explicação parcial, atrás da qual a resistência facilmente pode estar ocultando algo que talvez seja mais importante. Contei esta pequena análise a minha filha, e ela imediatamente viu como a coisa acontecera:‘Mas o senhor já deu a ela uma pedra igual a essa, para um anel, anteriormente. Esta é provavelmente a repetição que o senhor quer evitar. As pessoas não gostam de dar sempre o mesmo presente.’ Isto me convenceu; havia realmente a objeção contra uma repetição do mesmo presente, não da mesma palavra. Tinha havido um deslocamento para algo banal com a finalidade de desviar a atenção de algo mais importante: uma dificuldade estética, talvez, em lugar de um conflito instintual.”
“Pois foi fácil descobrir a outra sequencia. Eu estava procurando um motivo para não dar de presente a pedra, e esse motivo foi providenciado pela reflexão de que eu já havia dado o mesmo presente (ou um muito parecido). Por que essa objeção devia ser ocultada, ou disfarçada? Logo vi por quê. Não tinha nenhuma vontade de me desfazer da pedra. Gostava muito dela e a queria para mim.”
“A explicação para essa parapraxia foi encontrada sem maiores dificuldade. Na realidade, logo me ocorreu uma ideia consoladora: pesares desse tipo só aumentam o valor de um presente. Que espécie de presente seria este, se não se lamentasse um pouco dá-lo? Não obstante, o episódio possibilita que se perceba, mais uma vez, como podem ser compilados os processos mentais mais modestos e aparentemente mais simples. Cometi um lapso ao redigir umas anotações — coloquei ‘bis‘ onde devia escrever ‘für‘ —, percebi-o e o corrigi: um pequeno erro, ou antes, uma tentativa de erro, e assim mesmo encerrava tão grande número de premissas e de fatores dinâmicos. Com efeito, o erro não podia ter ocorrido se o material não fosse especialmente favorável.”       

Na psicopatologia da vida cotidiana o inconsciente comanda sem que o sujeito se dê conta do que está ocorrendo com ele e mesmo, sobre o que ele fala e seu significado. Ao falar os signos, que são as palavras do discurso consciente, outros signos vão sendo falados, inseridos no discurso, os quais pertencem ao discurso do inconsciente ou revelam os sentimentos inconsciente, sem que o sujeito se dê conta. Ao falar, seja através de qual representação, o sujeito se revela; é aquilo para o qual o inconsciente requer revelado para que ao fluir, possa ser reelaborado, curado, é o que é possível escapar do superego. O discurso do sujeito está sob um véu, que o protege. Por isso, que desvendar a “verdade”, é difícil para o próprio sujeito. Os “erros” do cotidiano têm sua origem no inconsciente e sempre possuem intenções e significados que o sujeito geralmente desconhece, por onde habitam marcas mnêmicas de um tempo não possível, que trazem algum sofrimento.

Referência
FREUD, S. AS SUTILEZAS DE UM ATO FALHO (1935). Obras Completas de Psicanálise - volume XXII. Rio de Janeiro, Imago-1996.

18 de junho de 2015

O “ego não é senhor de sua própria casa”

“No nível do totemismo primitivo, o homem não tinha repugnância de atribuir sua ascendência a um ancestral animal.”

O caminho do autoconhecimento é complexo e difícil. A “primeira” grande barreira é a repressão. Para “vencê-la” há que percorrer o caminho da descoberta intelectual, descobrir a capacidade de reflexão sobre si mesmo, sobre a formação de juízo de valor. Saber diferenciar a própria imparcialidade e parcialidade, seu mundo subjetivo e aquilo que parece ter objetividade. Mas a maior dificuldade para o autoconhecimento diz respeito aos afetos. “Onde falta simpatia, a compreensão não virá facilmente”. Nem sempre é tarefa fácil o esclarecimento, a revelação interna dos conflitos psíquicos. O ponto de partida faz parte de uma procura fenomenológica que leva aos instintos primários do homem, quando este ainda se revelava em sua história ancestral. Os instintos autopreservação do ego, sempre foram os que oferecem maiores demandas. O desenvolvimento de uma estrutura psíquica patológica possui múltiplos fatores, nem sempre visíveis no intricado processo da memória. Mas o destino que o sujeito dá a sua energia sexual e as experiências sexuais, as tragédias, vivenciadas em idade remota é importante, podendo significar uma ameaça para o ego, sua autopreservação e autoestima. Se essa configuração se revela, o ego procura satisfações substitutivas, que são os sintomas no corpo e seus substitutos.

O conhecimento sobre o psiquismo é dinâmico e deve estar se possível, longe dos preconceitos, mesmo porque as descobertas ao longo da história possibilitou o repensar das crenças dos homens. Desde o “sol como centro do universo”, representação do homem em seu narcisismo, a colocar-se acima do reino animal e vegetal no contexto da evolução, os “mitos, que contêm resíduos dessa antiga atitude mental, os deuses assumem formas de animais, e na arte de épocas primevas são representados com cabeças de animais. Uma criança não vê diferença entre a sua própria natureza e a dos animais.” Assim o homem que se alimenta de seus irmãos animais com argumentos que justificam a indústria do lucro e ganhos de capital nada mais é do que o enriquecimento a custa de muito sangue derramado. Não se trata da sobrevivência artesanal. “O homem não é um ser diferente dos animais, ou superior a eles; ele próprio tem ascendência animal, relacionando-se mais estreitamente com algumas espécies, e mais distanciadamente com outras. As conquistas que realizou posteriormente não conseguiram apagar as evidências, tanto na sua estrutura física quanto nas suas aptidões mentais, da analogia do homem com os animais”. Sentindo-se superior em sua capacidade mental, alimentou por muitos séculos a concepção de raça superior, o que causou e causa grandes estragos a humanidade. Desejando humanizar-se, animalizou-se, sentindo-se superior. Então seu ego confere a todo instante, se essa suposta superioridade se alinha às suas exigências. Se não, são inibidos. Para isso a consciência “informa” ao ego todos os processos do inconsciente, possibilitando ao ego modificar, executar ou não, pois os processos mentais são complexos, interligados e ligados a instancias que se relacionam entre si de forma a defender o ego. O labirinto de lembranças, impulsos, desejos, faz um intercambio muito longe do que se possa supor o senso comum ou articulações interpretativas lineares.

O ego rejeita e toma precauções em relação aos impulsos e intrusões estranhas. Aumenta a vigilância. Essas intrusões são parte da própria mente e de suas conexões internas e externas. Essas intrusões ao se rebelarem percorrem vias ainda obscuras para escapar da repressão. Podem entrar em conflito com o ego por serem aparentemente contraditórias e o resultado é o sofrimento enquanto sintoma. A ilusão da segurança começa em nosso psiquismo, pois todos sentem-se seguros “de que está informado de tudo o que se passa em sua mente”, acredita-se que a “consciência dá-lhe notícia disso”. E se não se conhece as informações que existe na mente “é porque não existe”. Assim consciente não é igual a mental, pois a vastidão do inconsciente não é mensurável. A mente trabalha todo o tempo. Na vigília ou no sono. Os conteúdos trabalhados em sua maioria são inconscientes, pois só uma pequena parte habita o consciente, aquilo do qual o sujeito pode dar sustentação sem cindir-se. “Você se comporta como um governante absoluto, que se contenta com as informações fornecidas pelos seus altos funcionários e jamais se mistura com o povo para ouvir a sua voz. Volte seus olhos para dentro, contemple suas próprias profundezas, aprenda primeiro a conhecer-se!” Então o “ego não é senhor de sua própria casa”. Nesse sentido o ego resiste a incursões pelo inconsciente, que poderiam supostamente ameaçá-lo, e constrói a resistência possível, onde possa ter um suposto controle.

Referência
FREUD, UMA DIFICULDADE NO CAMINHO DA PSICANÁLISE (1917). Obras Completas de Psicanálise - volume XVII Rio de Janeiro, Imago-1996.

5 de junho de 2015

Anotações sobre a Negação

 “A antítese entre subjetivo e objetivo não existe desde o início”.

O mecanismo da associação permite a articulação dos conteúdos revelados, seja pela fala ou ações em seus representantes inconscientes. É assim que negar pode ser afirmar, pois a substituição de representantes, faz parte da flexibilização da repressão que permite o alívio dos sintomas. Então o mecanismo da negação permite que o inconsciente revele sentimentos, conflitos, sofrimentos, que de outra forma não seria possível. Negar é uma forma de tomar conhecimento dos sentimentos, sofrimentos reprimidos. O reprimido flexibiliza ante ao teste de realidade, para se revelar. Pode ser uma primeira aceitação do que está reprimido. Aceitar intelectualmente pela negação é um passo para afastar a barreira da repressão. “Afirmar ou negar o conteúdo dos pensamentos” faz parte do juízo de valor positivo ou negativo a ser enriquecida pela reflexão, interpretação, interrogação. Isso diz respeito à confirmação da representação na realidade, o que quer dizer excluir aquilo que pode ser ruim ou bom para a auto imagem do ego ou para seu contato com a realidade. Esse teste de realidade diz respeito se determinado conteúdo será integrado ao ego, se está como representação no ego. Há que interrogar se o que é real é o interno ou o externo ou as duas funções podem ser real, fantasiosas, delirantes. Como a antítese entre subjetivo e objetivo não é possível, então um objeto de satisfação deve possuir o atributo de “bom” no ego e no mundo social, ou reencontrá-lo no social, o que nem sempre é possível. A linha “divisória” entre as representações e o teste de realidade é ilusória e passa por deformações nos movimentos de ação e reação, de afirmação e negação, da integração ou expulsão de objetos pelo ego. Se afirmar os conflitos internos é caminhar para integração e união do ego, negar é caminhar para destruição e negativismo. Assim o inconsciente se revela de forma negativa quando a defesa não tem como sustentar uma afirmativa.


Referência
FREUD, S. A NEGATIVA (1925). Obras Completas de Psicanálise - volume XIX. Rio de Janeiro, Imago-1996.

27 de maio de 2015

Quem? - Entre Muros e Pontes


Um documentário sensível, que revela a tragédia do povo Saharaui, exilado em seu próprio país, o Marrocos, na região do Saara Ocidental e que sobrevive quase que exclusivamente do auxílio de ONGs pela doação de mantimentos, remédios. Estão há 40 anos à margem da sociedade, esperando a pacificação do território, esperando pela paz, pela solidariedade de todos no planeta. “Esquecidos” e lembrados nesse belo documentário. Homens e mulheres de almas esperançosas.

24 de maio de 2015

O caminho é sem apego


A realização através dos estudos é expandir dia após dia
A realização através do Caminho é simplificar dia após dia
Simplificando e simplificando mais
Até alcançar a não-ação
Na não-ação não há o que não possa ser feito
Apoderar-se do mundo é permanecer através da não-atividade (o sem apego)
Ao surgir a atividade
Já não é mais suficiente para apoderar-se do mundo
TAO TE CHING - O Livro do Caminho e da Virtude - Lao Tse - Tradução do Mestre Wu Jyn Cherng


21 de maio de 2015

A Caminho da Psicanálise...

As palavras que defendem os interesses, as ideias dos homens de uma determinada época são muitas vezes marcadas pela vaidade, arrogância, e interesses egoístas. Há cem anos, as palavras que representavam a necessidade de construção de uma ciência do inconsciente, eram as mesmas que revelavam esses instintos rasteiros de seus construtores. Afinal eles pertenciam à humanidade. Os atores desse palco há cem anos eram Freud, Bleuler, Adler e Jung. As relações nem sempre foram amistosas e as divergências transcendem a ciência, pois diz respeito ao que supostamente era insuportável na concepção teórica de cada um. Se Freud “venceu” foi em um ambiente hostil e beligerante. O que Freud descobriu, muito tempo depois de infindáveis batalhas, é que estas eram de caráter subjetivo, pois todo discurso por maior rigor científico que contenha é subjetivo, pois o sujeito que analisa os dados, é o sujeito que fala. Embora muitos foram os métodos para tratamento dos sofrimentos psíquicos: a terapia de eletrochoques, o “método catártico”, a passagem pela hipnose à associação livre, ainda se requer muito estudo longe de egos vaidosos e narcisista e muita humildade para compreensão   dos sofrimentos psíquicos.

Na associação livre o conflito e os fatores desencadeantes “devem ser trazidos para o primeiro plano na análise”. A atenção do sujeito é conduzida para os eventos traumáticos, observando os sintomas e investigando os conflitos existentes. As associações facilitam o retrocesso e articulação das lembranças, e dos sonhos de forma retroativa a um tempo passado onde encontra-se a fonte do sofrimento. Constitui-se então, a repressão como uma barreira, a ser trabalhada na relação de transferência, tão importante no resultado terapêutico, pois requer empatia, acolhimento, escuta “fina” e interpretação construída de forma dialética analista-paciente. Os sonhos estão submetidos à flexibilidade da barreira da repressão. “A teoria da repressão é a pedra angular sobre a qual repousa toda a estrutura da psicanálise” (p.26). É a resistência que se opõe ao trabalho da análise e se apresenta como “falha de memória”. Essa amnésia é a atividade mental inconsciente. O binômio resistência e transferência é o movimento ondulatório dos sintomas. A resistência da eclosão do reprimido compõe o sistema de defesa psíquica, que se revela nos sintomas.

É necessário olhar o passado remoto, pois é o único caminho para andar pela frente, pois lá estão as fantasias, as representações e os fatos traumáticos, das experiências sexuais, os abusos, as escolhas objetais, as perdas, danos e lutos. É fundamental um olhar sobre os sonhos, pois as memórias ai reveladas são muito pouco estudadas, mesmo porque são como um quebra-cabeça a ser “decifrado”. E isso só é possível “olhando as mesmas coisas repetidas vezes até que elas comecem a falar por si mesmas” (p.32). A aplicação da psicanálise desde sua concepção esteve voltada não só a questão da neurose, mas também das psicoses e seu mecanismo psíquico. A questão do “retorno do reprimido”. A psicanálise vem revelar a dinâmica das relações incestuosas, os sintomas patológicos e como se articula com a estrutura psíquica normal.

Expressar as emoções subjacentes de forma facilitadora é uma arte. E é com essa dificuldade que Freud expõe sua decepção em relação a Jung, uma relação intensa que terminou de forma dolorosa, como havia de ser: “Essa posição, que fora de início ocupada por mim, dado o meu acerto de quinze anos de experiências, devia ser agora transferida para um homem mais jovem, que então, naturalmente, ocuparia meu lugar após a minha morte. Esse homem só poderia ser C. G. Jung, uma vez que Bleuler era de minha própria geração; tinha a seu favor dotes excepcionais, as contribuições que já prestara à psicanálise, sua posição independente e a impressão de firme energia que sua personalidade transmitia. Além disso, parecia estar disposto a entrar num bom relacionamento pessoal comigo e, em consideração a mim, a abrir mão de certos preconceitos raciais que alimentara anteriormente. Eu não tinha, na ocasião, a menor ideia de que apesar de todas essas vantagens a escolha era a mais infeliz possível, que eu havia escolhido uma pessoa incapaz de tolerar a autoridade de outra, mais incapaz ainda de exercê-la ele próprio, e cujas energias se voltavam inteiramente para a promoção de seus próprios interesses. Isso, e nada mais, foi o que esperava alcançar com a fundação da “Associação Psicanalítica Internacional” (p.52). Um discurso subjetivo, reflete uma relação mestre-discípulo, pai-filho. Assim as lutas, disputas, vaidades colocam esses homens, que supõe-se com suas questões internas apaziguadas, em lados opostos de forma beligerante, com dificuldade de suportar suas verdades.
                                              
Na história da psicanálise muitas foram e continuam sendo as divergências existentes entre os psicanalista: de Bleuler, Freud, Adler, Jung, Winnicott, Lacan, Francoise Dolto, Melanie Klein, embora todos se autodenominem freudianos. Então mais uma vez o desapontamento de Freud, como diz ele “tivesse sido evitado se eu tivesse prestado mais atenção às reações de pacientes sob tratamento analítico. Sabia muito bem, naturalmente, que qualquer pessoa, ao primeiro contato com as realidades desagradáveis da análise, pode reagir fugindo; eu próprio sempre havia sustentado que na compreensão da análise, cada indivíduo é limitado por suas próprias repressões (ou antes, pelas resistências que as sustentam) de modo que não pode ir além de um certo ponto em sua relação com a análise. Mas eu não esperava que alguém que houvesse alcançado certa profundidade na compreensão da análise pudesse renunciar a essa compreensão e perdê-la. E, no entanto, a experiência cotidiana com pacientes havia demonstrado que a rejeição total do conhecimento analítico pode ocorrer sempre que surge uma resistência especialmente forte em qualquer profundidade da mente. Às vezes conseguimos, depois de muito trabalho, fazer com que um paciente aprenda algumas partes do conhecimento analítico e possa lidar com elas como posses suas, e mesmo assim podemos vê-lo, sob o domínio da própria resistência seguinte, lançar tudo o que aprendeu às urtigas e ficar na defensiva como o fez nos dias em que era um principiante despreocupado. Tive de aprender que a mesmíssima coisa pode acontecer tanto com psicanalistas como com pacientes em análise” (p.57). Isso revela o quanto é difícil o autoconhecimento o autodomínio e a sublimação dos instintos primitivos (ambição, vaidade, egoísmo, arrogância). Pensar em quanto foi difícil para Freud é pensar que uma parte de suas dificuldades foram expurgadas por um câncer na garganta, que o consumiu.

Obedecer às exigências do ego, que manipula a repressão, pois a doença oferece uma vantagem primária ao ego, como origem do sintoma e uma vantagem secundária na persistência do sintoma. A eliminação da vantagem constitui-se em um mecanismo de cura. Sem o sistema de repressão na arquitetura psíquica estruturada há muitas gerações e repassado a cada geração para que a civilização mantenha a repressão funcionando, na medida em que reprime os instintos primitivos a serem elaborados no percurso da humanidade, significa simbolicamente renunciar ao inacessível que é a mãe e renunciar ao pai interior no interesse da civilização tornando o sujeito independente. A doença é assim o primeiro item de realidade com o qual o sujeito deve lidar. E assim expõe Freud suas esperanças e nossas também, “que a sorte proporcione um caminho de elevação muito agradável a todos aqueles que acharam a estada no submundo da psicanálise desagradável demais para o seu gosto. E possamos nós, os que ficamos desenvolver até o fim, sem atropelos, nosso trabalho nas profundezas” (p.73). Esse trabalho das profundezas, da leitura do inconsciente, de seus mecanismos, pouco avançou nos últimos cem anos, muito há que descobrir pesquisar, alargar os horizontes estreitos dos preconceitos para que sejam possíveis novos paradigmas e cortes epistemológicos.

Referência
FREUD, S. A HISTÓRIA DO MOVIMENTO PSICANALÍTICO (1914-1916). Obras Completas de Psicanálise - volume XIV. Rio de Janeiro, Imago-1996.

18 de maio de 2015

Freud e a Autoanálise

“Numa carta a Fliess de 14 de novembro de 1897 (1950a Carta 75), escreveu: “Minha autoanálise continua interrompida e eu percebi a razão. Só posso me analisar com a ajuda de conhecimentos obtidos objetivamente (como os de um estranho). A verdadeira autoanálise é impossível: não fosse assim, não haveria doença (neurótica). Uma vez que ainda encontro enigma em meus pacientes, eles forçosamente servirão de empecilho a minha auto análise.” De modo semelhante, perto do fim de sua vida, numa breve nota sobre paraplexia (1935b), observou a passagem: “Na auto análise, o perigo da incompletude é grande. A pessoa logo se satisfaz com uma explicação parcial, por trás da qual a resistência pode facilmente estar retendo algo que é talvez mais importante.” Pode-se ver contradição  e isso nas palavras cautelosamente lisonjeiras com que prefaciou um artigo de E. Pickworth Farrow (1926) apresentando as descobertas de uma autoanálise” (Freud, 1926).

“Em todo caso, quando se trata de uma análise de formação ele se coloca claramente em favor da necessidade da análise por outra pessoa.” (1914-1916, nota de rodapé p. 30) 

13 de maio de 2015

Sándor Ferenczi

"Não muitos anos após sua publicação (em 1900), A Interpretação de Sonhos caiu nas mãos de um jovem médico de Budapest que, embora fosse neurologista, psiquiatra e especialista em medicina legal, estava avidamente em busca de novos conhecimentos científicos. Ele não foi muito adiante na leitura do livro; muito cedo jogou-o de lado — se por tédio ou repugnância, não se sabe. Pouco depois, porém, a invocação de novas possibilidades de trabalho e descoberta levou-o a Zurique e, de lá, foi conduzido a Viena a fim de encontrar o autor do livro que um dia, com desprezo, deixara de lado. Essa primeira visita foi sucedida por uma longa, íntima e até hoje imperturbada amizade, no decorrer da qual também efetuou a viagem aos Estados Unidos, em 1909, a fim de pronunciar conferências na Universidade Clark, em Worcester, Mass."
"Esses foram os começos de Ferenczi, que, desde então, se tornou, ele próprio, mestre e professor de psicanálise e que, no presente ano, 1923, completa igualmente o quinquagésimo aniversário de seu nascimento e a primeira década de sua liderança da Sociedade Psicanalítica de Budapest."
"Ferenczi repetidas vezes também teve um desempenho nos assuntos externos da psicanálise. Será lembrado seu aparecimento no Segundo Congresso Analítico, de Nuremberg, em 1910, onde propôs e ajudou a realizar a fundação de uma Associação Psicanalítica Internacional, como meio de defesa contra o desprezo com que a análise era tratada pela medicina legal. No Quinto Congresso Analítico, em Budapest, em setembro de 1918, foi eleito presidente da Associação. Indicou Anton von Freund como secretário e não há dúvida de que a energia combinada dos dois homens, juntamente com os generosos planos de doação de Freund, teriam transformado Budapest na capital analítica da Europa, não tivessem as catástrofes políticas e a tragédia pessoal posto um fim inexorável a essas belas esperanças. Freud caiu enfermo e faleceu em janeiro de 1920. Em vista do isolamento de contato da Hungria com o resto do mundo, Ferenczi renunciou à sua posição em outubro de 1919 e transferiu a presidência da Associação Internacional para Ernest Jones, em Londres. Pelo espaço de duração da República Soviética na Hungria, foram atribuídas a Ferenczi as funções de professor universitário e suas conferências atraíam multidões. A Sociedade Filial, que ele fundara em 1913, sobreviveu a todas as tormentas e, sob sua orientação, tornou-se um centro de trabalho intenso e produtivo; e distinguiu-se por um acúmulo de capacidades, como não foram exibidas em combinação por nenhuma outra sociedade filial. Ferenczi, que, como filho do meio numa grande família, teve de lutar com um poderoso complexo fraterno, tornou-se, sob a influência da análise, um irmão mais velho irrepreensível, um professor bondoso e um promovedor de talentos jovens."
"Os escritos analíticos de Ferenczi tornaram-se universalmente conhecidos e apreciados. Foi somente em 1922 que suas Conferências Populares sobre Psicanálise foram publicadas por nossa Verlag (casa editora), como o volume XIII da ‘Internationale Psychoanalytische Bibliotek’. Essas palestras, claras e formalmente perfeitas, às vezes escritas de forma deveras fascinante, oferecem o que é de fato a melhor ‘Introduction to Psycho-Analysis’  para aqueles que não estão familiarizados com ela. Ainda não existe uma compilação (alemã0) de seus escritos médicos (psicanalíticos) puramente técnicos, dos quais certo número foi traduzido para o inglês por Ernest Jones. A Verlag cumprirá essa tarefa assim que tempos mais favoráveis o tornem possível. Aqueles de seus livros e artigos que apareceram em húngaro, tiveram muitas edições e tornaram a análise familiar aos círculos cultos da Hungria."
"A realização científica de Ferenczi é impressionante, sobretudo em virtude de sua multilateralidade. Além dos casos clínicos bem escolhidos e comunicações clínicas agudamente observadas (‘A Little Chanticleer’ [1913a)], ‘Transitory Symptom-Construction during the Analysis’ [1912a] e trabalhos clínicos mais breves), encontramos escritos clínicos exemplares, tais como aqueles sobre Wandlungen und Symbole der Libido [1913b] de Jung, sobre as opiniões de Régis e Hesnard sobre a psicanálise [1915], assim como eficazes escritos polêmicos, como aqueles contra Bleuler sobre o álcool [1911] e contra Putnam sobre a relação existente entre a psicanálise e a filosofia [1912b], moderados e dignos, malgrado seu caráter de resolução. No entanto, ao lado de todos esses estão os trabalhos sobre os quais a fama de Ferenczi principalmente repousa, onde sua originalidade, sua riqueza de ideias e seu domínio de uma imaginação científica bem dirigida encontram tão feliz expressão, e onde ampliou importantes seções da teoria psicanalítica e promoveu a descoberta de situações fundamentais da vida mental: ‘Introjection and Transference’, incluindo um debate da teoria da hipnose [1909], ‘Stages in the Development of the Sense of Reality’ [1913c] e o seu exame do simbolismo [1912c]. Finalmente, há os trabalhos desses últimos anos — ‘The Psycho-Analysis of the War Neuroses’ [1919b], Hysterie und Pathoneurosen [1919c] e, em colaboração com Hollós, Psycho-Analysis and the Psychic Disorder of General Paresis [1922] (em que o interesse médico progride das condições psicológicas para os determinantes somáticos), e suas abordagens a uma terapia ‘ativa’."
"Por incompleta que essa enumeração possa parecer, seus amigos sabem que Ferenczi reteve até mais do que tenha sido capaz de resolver comunicar. Em seu quinquagésimo aniversário, eles estão unidos para desejar que lhe possa ser garantida força, lazer e disposição de mente, a fim de trazer seus planos científicos à efetivação em novas realizações."

“Este escrito da tradução inglesa, da autoria de James Strachey, parece ser a primeira em inglês. Este trabalho apareceu pela primeira vez, sobre a assinatura ‘Herausgeber und Redaktion (Editor e Redação)’, como introdução a um número especial da Zeitschrift que comemorava o quinquagésimo aniversário de Ferenczi.”
É interessante a história relatada nessa introdução, a relação entre Freud e Ferenczi e a dedicação desse último às descobertas cientificas, mesmo vivendo uma história pessoal conflituosa e difícil, própria dos grandes mestres. “Filho do meio numa grande família, teve de lutar com um poderoso complexo fraterno, tornou-se, sob a influência da análise, um irmão mais velho irrepreensível, um professor bondoso e um promovedor de talentos jovens”. Quase  podemos afirmar, que em todo grande estudo, há um ser humano mergulhado em muito sofrimento e que esse estudo é uma forma sublimada de elaborar esse sofrimento.

Referência
FREUD, S. DR. SÁNDOR FERENCZI (EM SEU 50º ANIVERSÁRIO) (1923). Obras Completas de Psicanálise - volume XIX. Rio de Janeiro, Imago-1996. 

8 de maio de 2015

Pensando a estrutura tonal do inconsciente


Quando pensamos em o inconsciente e a música, há que lembrarmos de que a tonalidade exerce uma influência pouco estudada. Confúcio acreditava que a boa música poderia ajudar a aprimorar o caráter do homem. Disse ele:
“A música do homem de espírito nobre, suave e delicada, conserva um estado d’alma uniforme, anima e comove. Um homem assim não abriga o sofrimento nem o luto no coração; os movimentos violentos e temerários lhe são estranhos. Mais do que isso: uma vez que os indivíduos são os materiais básicos de construção da sociedade, a música também poderia afetar nações inteiras, melhorando-as ou piorando-as”.

No filme Atravessando a Ponte (O som de Istambul) – Fatih Akin, faz um percurso pelo mundo dos sons e começa por citar Confúcio: “Se alguém desejar saber se um reino é bem ou mal governado, se a sua moral é boa ou má, examine a qualidade da sua música, que lhe fornecerá a resposta. Para se entender a cultura de um lugar você precisa ouvir a música que é feita ali”.

Como diz “a musica sempre conta tudo sobre o lugar. Istambul é uma ponte para 72 nações”. A interessante na fala de Orham Gencebay de que “na música ocidental são usados os compassos 2/4, 3/4, 4/4 em grupos de 3, por exemplo: 12/8 fica: 3, 3, 3... 3, 3, 3... 3, 3, 3... na Turquia usa-se o compasso 5/8: 1, 2... 1, 2, 3... é o que chamam de “acento turco”.  1, 2... 1, 2... 1, 2... 1, 2, 3... divide-se em 9 tempos. O ocidente é limitado em termos de sons, porque não olha os sons do mundo”. Questão interessante, pois o oriente não se desvincula da concepção filosófica que permeia a Ásia que são os escritos de Confúcio e Lao Tsé, como se compreende os números e dessa forma como se divide as tonalidades de forma que mantém a harmonia da melodia no sentido da harmonia psíquica e espiritual. Importante ressaltar que a música no oriente é emotiva, fala de sentimentos, que o ocidente compreende em uma concepção materialista.
Orham Gencebay – um dos maiores astros da Turquia.
Instrumento “Orhan Baba”.
Música: Hatasız Kul Olmaz

 

Hatasız Kul Olmaz Hatamla Sev Beni
Dermansız Dert Olmaz Dermana Sal Beni
Kaybettim Kendimi Ne Olur Bul Beni
Yoruldum Halim Yok Sen Gel De Al Beni
Feryada Gücüm Yok Feryatsız Duy Beni
Sevenlerin Aşkına, Ne Olur Beni Sev Beni
Bu Feryat Bu Hasret Öldürür Aşk Beni
Uzaktan Olsa Da Razıyım Sev Beni Razıyım Sev Beni
Ümitsiz Yaşanmaz Sevmemek Elde Mi
Can Demek Sen Demek Gel De Gör Bende Mi
Sözümde Sitem Var Kalpte Mi Dilde Mi
Tez Elden Haber Ver O Gönlüm Elde Mi
Feryada Gücüm Yok Feryatsız Duy Beni
Sevenlerin Aşkına Ne Olur Sev Beni

Ninguém é sem falhas
Ninguém é sem falhas, ama-me com a minha culpa
Nenhuma tristeza é sem cura, dá-me a cura
Eu me perdi, por favor, me encontrar
Eu não tenho força vir e me levar
Eu não posso gritar me ouvir
Em nome dos amantes, por favor me ame
Este grito este desejo este amor me matar
Aceito se você ama de distância me ama
Não se pode viver sem esperança, é que é possível não amar
Coração significa que você, venha e veja se eu tenho ainda
Minhas palavras tem censura é no coração ou na língua
Por favor, informe rapidamente é que o coração em suas mãos
Eu não posso gritar me ouvir
Em nome dos amantes, por favor me ame

21 de abril de 2015

"Sem sair da porta"


Sem sair da porta
Pode-se conhecer o mundo
Sem ver através da janela
Pode-se conhecer o Caminho do céu
Quanto mais longe saímos
Tanto menos conhecemos
Por isso, o Homem Sagrado
Conhece sem caminhar
Reconhece sem ver
Realiza sem agir

TAO TE CHING - O Livro do Caminho e da Virtude - Lao Tse - Tradução do Mestre Wu Jyn Cherng