3 de novembro de 2013

Tabu e a CARTA 50

…Preciso contar-lhe um sonho interessante que tive na noite após os funerais. Eu me encontrava num local público e li um aviso que havia lá:
Pede-se que você feche os olhos.
Imediatamente reconheci o local como sendo o salão de barbearia a que vou diariamente. No dia do sepultamento, tive de me demorar ali, esperando minha vez, e por isso cheguei à casa funerária um tanto atrasado. Na ocasião, meus familiares estavam aborrecidos comigo porque eu providenciara para que o funeral fosse modesto e simples, com o que depois concordaram, achando isso bastante acertado. Também interpretaram um pouco mal o meu atraso. A frase no quadro de avisos tem um duplo sentido, e em ambos os sentidos significa: “deve-se cumprir a obrigação para com os mortos”. (Uma desculpa, como se eu não a tivesse cumprido e como se minha conduta precisasse ser tolerada, e a obrigação, assumida literalmente.) Assim, o sonho é uma saída para a tendência à autocensura, que costuma estar presente entre os sobreviventes. 
S. Freud, 2 de novembro de 1896

Nesse momento de reflexão sobre totem e tabu, vemos no percurso de Freud, em seus sonhos, impulso de sua autoanálise, que o tabu sobrevive não só em nosso dia a dia, mas transpõe a vigília para o sonho. Na sequencia vamos percorrer o enigma da sobrevivência do tabu ao longo da trajetória humana, levando-nos  a supor que um traço permanece no inconsciente, como uma lembrança que será recordada e até certo ponto repetida.

Seguir o Caminho


Quem respira apressado não dura
Quem alarga os passos não caminha
Quem vê por si não se ilumina
Quem aprova por si não resplandece
Quem se auto-enriquece não cria a obra
Quem se exalta não cresce
Esses, para o Caminho, são como os restos de alimento de uma oferenda
Coisas desprezadas por todos
Por isso, quem possui o Caminho não atua desse modo
TAO TE CHING - O Livro do Caminho e da Virtude - Lao Tse - Tradução do Mestre Wu Jyn Cherng

27 de outubro de 2013

O incesto

Totem e Tabu – Prefácio à Tradução Hebraica
“Nenhum leitor [ da versão hebraica] deste livro achará fácil colocar-se na posição emocional de um autor que é ignorante da linguagem da sagrada escritura, completamente alheio a religião de seus pais – bem como a qualquer outra religião – e não pode partilhar de ideais nacionalistas, mas que, no entanto, nunca repudiou seu povo, que sente ser, em sua natureza essencial, um judeu e não tem nenhum desejo de alterar essa natureza. Se lhe fosse formulada a pergunta: ‘desde que abandonou todas essas características comuns a seus compatriotas, o que resta em você de judeu?’, responderia: ‘Uma parte muito grande e, provavelmente a própria essência’. Não poderia hoje expressar claramente essa essência em palavras, mas algum dia, sem dúvida, ela se tornará acessível ao espírito científico” (Freud, 1930)

No IV Congresso Brasileiro de Psicanálise, que teve como tema: SER CONTEMPORÂNEO: Medo e Paixão realizado em setembro 2013 comemoraram-se os 100 anos da obra de Freud Totem e Tabu. Neste excelente escrito Freud discutiu sobre o horror ao incesto, ambivalência emocional em função do tabu e nesta questão o tratamento dos inimigos, o tabu relativo aos governantes, o tabu em relação aos mortos.  Lendo estudos arqueológicos falou sobre animismo, (princípio vital e pessoal, chamado de anima, o qual pode significar energia, espírito e alma) e na sequencia discutiu sobre  magia e a onipotência de pensamentos. Falou sobre a origem do totemismo ( nominalista, sociológico e psicológico) e sobre o retorno do totemismo na infância. No final relaciona a origem da exogamia com o totemismo. Um livro complexo, polêmico, tanto que justificou um prefácio primoroso a tradução hebraica. Dito isso faz necessário relembrar o termo “Tabu”: “Tabu’ é um termo polinésio. É difícil para nós encontrar uma tradução para ele, desde que não possuímos mais o conceito que ele conota. A palavra era ainda corrente entre os antigos romanos, cujo ‘sacer‘ era o mesmo que o ‘tabu’ polinésio. Também o ‘ayos’, dos gregos e o ‘kadesh’ dos hebreus devem ter tido o mesmo significado expressado em ‘tabu’ pelos polinésios e, em termos análogos, por muitas outras raças da América, África (Madagascar) e da Ásia Setentrional e Central”(Freud, (1913-1914) p.37). Trazer para a contemporaneidade os temas abordados nesta obra não é tarefa fácil, mas necessária pelo alcance da mesma e por perceber o quão longe pensou Freud. Faremos esse percurso por etapas e com possíveis idas e vindas. Os mitos sempre habitaram e habitarão nossa existência, pois nossa percepção interior é enigmática, estimulando fantasias e ilusões. Quando pensamos em tabus, parece algo do passado, mas sempre existiu e sempre existirá entre nós, pois não deixa de referir-se a proibições, imperativos categóricos, leis, que não podem ser rompidas. Nossas instituições modernas passaram em outras épocas pela cultura do totemismo e seus resquícios permanecessem na sociedade que vivemos. Aproximar totem e tabu  é uma forma de tentar compreender a complexa realidade que vivemos aproximando-a de seus primórdios.

Desde os tempos primeiros o horror ao incesto esteve presente na vida do homem. Várias foram às formas criadas pelo homem para conviver com essa questão refletida em todas as formas de arte, religião, lendas, atitude para com a vida e dos modos de pensar que sobreviveram ao tempo e que fazem parte da sociedade que vivemos e de nossos costumes. Sendo os selvagens do passado, muito temos caminhado em nossa vida mental, mas cada sociedade com suas especificidades no planeta. Desde nosso passado primitivo, os seres humanos, estabelecem para si e seus grupos comunitários, clãs, as mais severas e escrupulosas leis no sentido de evitar as relações incestuosas. O totem é uma forma de expressão da espiritualidade de cada povo. “O que é um totem? Via de regra é um animal (comível e inofensivo, ou perigoso e temido) e mais raramente um vegetal ou um fenômeno natural (como a chuva ou a água), que mantém relação peculiar com todo o clã” (Freud, p. 21). O totem ocupa assim um espaço e uma forma de manifestação religiosa, sobrepondo a filiação e as relações consanguíneas, pois vigora com grande ênfase a lei contra o casamento e relações sexuais entre pessoas do mesmo totem.

A necessidade de se relacionar sexualmente com outro, fora do totem leva a hipótese de pesquisadores que aqui estaria a origem da exogamia, das relações sexuais e casamentos fora do clã. A violação dessas leis é punida com a perseguição, morte e tortura. Nos tempos atuais há um “ignorar por medo da exposição pública”, da cultura da liberalidade, com exceção dos casos que são abordados pelo Direito, principalmente o abuso sexual na infância. Nos tempos tribais, no caso de um casal de clãs diferentes com totens diferentes os filhos herdarem o totem da mãe faz com que não seja possível manter relações sexuais com a mãe ou irmã, sendo relações incestuosas e punidas com a morte. Assim é que se inicia a exogamia. Todos nascidos dentro do mesmo totem são parentes consanguíneos, portanto proibido as relações sexuais. A substituição do parentesco consanguíneo pelo parentesco totêmico amplia a proibição do incesto, que abrange não só aos parentes consanguíneos, mas a todos os que venham a fazer parte do grupo consanguíneo e totêmico. Nos dias atuais é comum ver-se o cunhado relacionar-se sexualmente com a irmã de sua esposa ou namorada, bem como a cunhada relacionar-se sexualmente com o marido ou namorado de sua irmã. Há casos de namoros de mãe e filha com o mesmo homem. A sociedade atual vê com liberalidade.

Até o nosso atual sistema de parentesco, muitas foram às formações de parentesco, através de leis, que não a consanguínea, e dos primeiros sistemas de casamentos em grupos. “O matrimônio grupal precedeu, dessa maneira, o casamento individual” ( Freud, p.26). A exogamia, a estruturação das classes matrimoniais contribuiu na prevenção do incesto influenciando o declínio da influencia do totem,  possibilitando a transição para os sistemas religiosos, que incorporariam a proibição ao incesto e na sequência a sociedade do Direito. A severidade dos costumes, separando o menino da mãe e irmãs, afastando qualquer convivência possível, à medida que cresce, principalmente da parte da mãe e da mesma forma o afastamento das irmãs e irmãos significa “a penalidade para o incesto com uma irmã a morte por enforcamento” (Freud, p. 29). Da mesma forma entre cunhados e cunhadas e entre genro, nora e sogra e sogro. Todas as medidas protetoras contra o incesto não foram e não são exequíveis no sentido deste não acontecer. Há outras implicações que diz respeito à estrutura e funcionamento psíquico do sujeito e suas experiências infantis que podem ser determinantes.

Muitas vezes os sentimentos cruéis, sádicos são substitutos de desejos proibidos, por que as escolhas de objeto de amor são escolhas infantis proibidas, que não foram simbolizadas. É a filha que escolhe a mãe ou o pai ou o irmão ou irmã. É o filho que escolhe a mãe ou o pai ou a irmã ou irmão como objeto de desejo, transitando entre a fantasia, o simbólico e uma passagem ao ato. Inconscientemente essa é uma escolha que desencadeará conflitos e punições. Assim objetos externos são escolhidos como substitutos, modelados, adequados, de forma que a história genealógica de sua escolha não possa ser relembrada. Esse deslocamento na idade adulta pode ocorrer primeiro pela sogra ou pelo sogro antes dos destinos “finais”, dos pares que se formaram. Como é sempre um enigma a escolha dos primeiros objetos sexuais, pois muitas são as contingências, subjetividades, funções, e lugares ocupados, desejos simbolizados, sublimados ou não, o que possibilita retornos e tudo que deriva, ou seja, conflitos, fantasias, afastamento da realidade, sofrimentos. O fato é que o incesto não está na ordem do Direito e sim de uma estrutura patológica, que por não incorporar a lei, e ao romper com ela, rompe o equilíbrio psíquico já tão fragilizado, gerando sofrimentos tortuosos, difíceis de serem acalentados.

Referências
FREUD, S.  – TOTEM E TATU E OUTROS TRABALHOS (1913 – 1914),  Obras Completas de Psicanálise - volume XIII. Rio de Janeiro, Imago-1996.

26 de outubro de 2013

O Psíquico - anotações

“o psíquico é em si mesmo inconsciente, e o inconsciente é o verdadeiro psíquico”.

Se o inconsciente se comunica por livre associação, isso quer dizer que ele está todo o tempo flutuando, buscando ligações com o que lhe é semelhante. A necessidade de conhecimento, de autoconhecimento, de ultrapassar os próprios limites, mudar os próprios juízos, procurar novas formas de ser, de existir, de pensar, se sentir, de raciocinar, de usar as emoções, os instintos, a razão, procurar novos olhares, pontos de vista, está disponível para inverter os conceitos, de considerar novas hipóteses é que impulsiona nossa evolução como seres humanos. Se pensássemos ainda como nossos ancestrais ou nossos mestres, repetindo igual a papagaios não teríamos amadurecido, criado, transformado o conhecimento e a nós mesmos.

Nossa viagem é longa, talvez nunca termine. Quando pensarmos que chegamos a um momento aceitável, o horizonte nos revelará que andamos muito pouco. Comparado com o tempo no universo, nosso tempo no planeta é muito pequeno. A psicanálise deu alguns passos para compreensão do enigmático e vasto mundo psíquico, principalmente no que se refere ao inconsciente. Mas é preciso sair das formulas, dos conceitos, dos “chavões”, de esconder-se atrás de palavras tais como “real”, “gozo”, “outro”, “corpo”, que nos afasta do psíquico, de  “nossas percepções, ideias, lembranças, sentimentos e atos volitivos”, memória, senso crítico, enfim tudo que fazem parte do psíquico e nos aproxima de sentimentos de egoísmo, arrogância, vaidade, e falar dos temas que estão em moda, para nos sentirmos mercadorias atualizadas. O que nos interessa é a "essência do psíquico”, e assim há que concluirmos, também, que essa deve ser a questão mais importante referente ao psiquismo, a qual ignoramos. Portanto tudo que dizermos sobre o funcionamento do sujeito estará apenas tangenciando o mesmo, a ser “salvo” pela “qualidade de ser consciente”.

O que influencia o psíquico, não é só a herança genética, mas, sobretudo aquilo pelo qual cada um é influenciado desde a concepção e que de certa forma, constitui sua essência  até então, ou seja, o momento intangível da mente pensante, que não é possível apreender. Em que momento na tessitura da vida o pensamento surge é um enigma que irá perdurar, quanto maior for nossa parte inconsciente.

Os atos psíquicos estão em tudo que fazemos: lapsos se escrita, verbais, leitura, audição, são os atos falhos que assim se expressa por ser inconsciente. São esses atos e os estados alterados de consciência que demonstram que o consciente não é a única condição do psíquico, que grande parte dele é inconsciente. O fato de desconhecer a si próprio, e das reais causas de seus atos, é que o sujeito tem que se haver, com as interrogações acerca dos ligamentos dos fatos de sua vida. Podemos pensar o funcionamento dos conteúdos conscientes e inconscientes como uma onda que vai e vem de acordo com alguma articulação mnêmica. A consciência é uma luz, influenciada pelo inconsciente, que ilumina o tortuoso caminho da vida mental.

Referência
FREUD, S.  - ALGUMAS LIÇÕES ELEMENTARES DE PSICANÁLISE (1940 [1938]). Obras Completas de Psicanálise - volume XXIII. Rio de Janeiro, Imago-1996.

19 de outubro de 2013

Saúde Mental e Direitos Humanos: “Holocausto Brasileiro: vida, genocídio e 60 mil mortes no maior hospício do Brasil”.


 "Neste livro-reportagem fundamental, lançado em junho de 2013, a premiada jornalista Daniela Arbex resgata do esquecimento um dos capítulos mais macabros da nossa história: a barbárie e a desumanidade praticadas, durante a maior parte do século XX, no maior hospício do Brasil, conhecido por Colônia, situado na cidade mineira de Barbacena. Ao fazê-lo, a autora traz à luz um genocídio cometido, sistematicamente, pelo Estado brasileiro, com a conivência de médicos, funcionários e também da população, pois nenhuma violação dos direitos humanos mais básicos se sustenta por tanto tempo sem a omissão da sociedade".
"Pelo menos 60 mil pessoas morreram entre os muros da Colônia. Em sua maioria, haviam sido internadas à força. Cerca de 70% não tinham diagnóstico de doença mental. Eram epiléticos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas, gente que se rebelava ou que se tornara incômoda para alguém com mais poder. Eram meninas grávidas violentadas por seus patrões, esposas confinadas para que o marido pudesse morar com a amante, filhas de fazendeiros que perderam a virgindade antes do casamento, homens e mulheres que haviam extraviado seus documentos. Alguns eram apenas tímidos. Pelo menos 33 eram crianças".
"Quando chegavam ao hospício, suas cabeças eram raspadas, suas roupas arrancadas e seus nomes descartados pelos funcionários, que os rebatizavam. Daniela Arbex devolve nome, história e identidade aos pacientes, verdadeiros sobreviventes de um holocausto, como Maria de Jesus, internada porque se sentia triste, ou Antônio Gomes da Silva, sem diagnóstico, que, dos 34 anos de internação, ficou mudo durante 21 anos porque ninguém se lembrou de perguntar se ele falava. Os pacientes da Colônia às vezes comiam ratos, bebiam água do esgoto ou urina, dormiam sobre capim, eram espancados e violados. Nas noites geladas da Serra da Mantiqueira, eram deixados ao relento, nus ou cobertos apenas por trapos. Pelo menos 30 bebês foram roubados de suas mães. As pacientes conseguiam proteger sua gravidez passando fezes sobre a barriga para não serem tocadas. Mas, logo depois do parto, os bebês eram tirados de seus braços e doados. Alguns morriam de frio, fome e doença. Morriam também de choque. Às vezes os eletrochoques eram tantos e tão fortes, que a sobrecarga derrubava a rede do município. Nos períodos de maior lotação, 16 pessoas morriam a cada dia. Ao morrer, davam lucro. Entre 1969 e 1980, 1.853 corpos de pacientes do manicômio foram vendidos para 17 faculdades de medicina do país, sem que ninguém questionasse. Quando houve excesso de cadáveres e o mercado encolheu, os corpos foram decompostos em ácido, no pátio da Colônia, diante dos pacientes, para que as ossadas pudessem ser comercializadas. Nada se perdia, exceto a vida".
"No início dos anos 60, depois de conhecer a Colônia, o fotógrafo Luiz Alfredo, da revista O Cruzeiro, desabafou com o chefe: "Aquilo é um assassinato em massa". Em 1979, o psiquiatra italiano Franco Basaglia, pioneiro da luta pelo fim dos manicômios que também visitou a Colônia, declarou numa coletiva de imprensa:" "Estive hoje num campo de concentração nazista. Em lugar nenhum do mundo, presenciei uma tragédia como essa". 

16 de outubro de 2013

Obscuro Inconsciente

“Mas, e quanto ao valor prático desse estudo — já posso ouvir a pergunta — como meio de se chegar a uma compreensão da alma, a uma revelação das características ocultas de cada um? Acaso as moções inconscientes expressas pelos sonhos não têm o peso de forças reais na vida anímica? Será que se deve fazer pouco da significação ética dos desejos suprimidos — desejos que, assim como levam aos sonhos, podem um dia levar a outras coisas”? (Freud)

Essa reflexão de Freud sobre o inconsciente foi o “começo” de uma descoberta e a continuação de inúmeros estudos, que continuarão por muito tempo. Sabemos que o inconsciente é a base da vida psíquica e mais amplo do que o consciente. Há necessidade de ultrapassar juízos anteriores, procurar novos pontos de vista, que antes de serem postulados devem ser hipóteses. Embora o que ignoramos sobre o psiquismo seja a parte mais importante e revelador da existência humana, estamos longe de compreender a essência do psiquismo. Ao superar o impasse corpo-mente, reinsere-se psíquico na tessitura da vida na medida em que se admite ser os conteúdos conscientes ou inconscientes algo difícil de serem apreendidos pelo próprio sujeito. Por serem inconstantes, os conteúdos ora podem estar conscientes, ora inconscientes ou representados de forma enigmática. O estar consciente está muito mais ausente do que presente, portanto o psíquico é muito mais inconsciente do consciente. Se pensarmos nos lapsos de escrita, lapsos verbais, imagens referendadas, as leituras ou escutas “equivocadas”, desenhos aparentemente incompreensíveis, ou seja, todos os atos falhos, substituições, representações que falam muito mais do que podemos imaginar ou decifrar. Assim dilui-se a delimitação entre o que é inconsciente e consciente. O que revela as demandas do inconsciente são as resistências, que negam os impulsos inconscientes e as necessidades desse. Muitas têm sido as experiências de alteração da consciência para que o inconsciente assuma sem maiores reservas suas demandas. Deste a hipnose às históricas práticas religiosas, às substancias psicoativas na história da humanidade que alteram a consciência e eventos inexplicáveis que veem à tona. Assim “o psíquico é em si mesmo inconsciente e o inconsciente é o verdadeiro psíquico”. Mas a consciência traz à luz conteúdos importantes, que rememorados permite uma compreensão mais ampla, na medida em que preenche lacunas de uma história.

A mediação “pré-consciente” no que se refere aos conteúdos que transitam entre consciente e inconsciente é importante na compreensão dos processos mentais. É no pré-consciente que se supõe o inicio do recalque, do material que não deve vir ao consciente, isso não implica em um “espaço” localizacionista. Muitos pensamentos pré-conscientes são deslocados, acomodados pelo inconsciente, seja por repressão ou subtração. Esse auto manejo é possível porque a estrutura psíquica é móvel, flexível, resiliente. As representações, os pensamentos, as estruturas psíquicas, permeiam o sistema nervoso como um todo. Portanto “o que pode ser objeto de nossa percepção interna é virtual, tal como a imagem produzida num telescópio pela passagem dos raios luminosos”(Freud). Em nosso psiquismo existem sistemas, que projetam a imagem, tanto assim que enxergamos as imagens invertidas e são internamente modificadas. Por maiores que sejam os comprometimentos da estrutura psíquica há sempre um feixe de luz de consciência, mesmo que não seja permanente. Assim os processos de pensamento mais complexos podem existir sem tornar-se consciente, sendo o tornar-se consciente um “resultado psíquico remoto do processo inconsciente” e poderia já estar consciente, mesmo sem ser percebido por si mesmo. Então temos aqui a consciência de si. Todas as forças da alma são “formas de expressão de moções que se encontram sob a pressão da resistência” e do esquecimento, que em determinadas situações por alteração da consciência, seja pelo sono ou realidades diversas, são reforçadas por “fontes de excitação situadas em camadas mais profundas” do psiquismo. A questão a compreender é que há conteúdos do inconsciente inadmissíveis a consciência, portanto transitam por uma pré-consciência, (como se fosse uma “tela”) depois de serem liberados por uma censura, pois o consciente avalia se aquele conteúdo pode transitar alcançar hierarquias, sem grandes estragos. Nossa atenção exerce papel importante, pois serve de “filtro” ao poder de motilidade desses conteúdos energizados. Se não há divisória entre passado, presente e futuro, é possível supor que “subconsciente” e “supraconsciente” é uma mera denominação. A questão que se coloca no sistema pré-consciente é da memória, que alguns denominam de curto prazo, pois esse sistema não possui a capacidade de retenção de memória de longo prazo.

As excitações internas ou externas, muitas vezes mescla-se, sendo difícil identificar o que pertence a uma ou a outra. Antes de ser uma sensação consciente os conteúdos são submetidos a revisões para que as sensações de prazer-desprazer possam penetrar na consciência. Ao discernir as sensações de prazer-desprazer o inconsciente através do superego, da censura, delimita os investimentos de energia, os deslocamentos, as quantidades e qualidades. Nessa dinâmica inconsciente-consciente o recalque inibe as lembranças inconscientes que possam trazer sofrimento. Um pensamento que possa causar sofrimento pode ser impedido de tornar-se consciente, pode ser recalcado, ou retirado da percepção pré-consciente e recalcado por razões que nem sempre se conhece.

Diz a metáfora que “pensamentos voam”. Se seguirmos a metáfora diremos que para voarem precisam adquirir qualidades e para isso eles se associam com as lembranças, onde os resíduos de qualidade são significativos, para que se constituam lembranças que possam tornar-se conscientes e retornar à memória com maiores investimentos. Na análise dos processos de pensamento a passagem de um estagio inconsciente ao pré-consciente e deste ao consciente é marcado por uma censura, que opera dentro de um limite qualitativo daquilo que retorna, seja em forma de fantasia ou não. Assim “as estruturas de pensamento de baixa intensidade lhe escapam”. Se há qualidade e quantidade de energia a censura opera. Se a qualidade e quantidade de energia são baixas, segue livre curso possibilitando os estados patológicos mais complexos.

A “realidade” psíquica “é uma forma de existência”, que em muitos aspectos pode diferir das ações no dia a dia. Aquilo no qual pode inferir sobre o caráter de alguém. Muitas ações são movidas por impulsos, são retidos ou reduzidos em suas ações, mas o inconsciente sabe o que será retido ou não. Um caráter humano está envolto em forças que necessita elaborar, dominar, e nem sempre as escolhas são fáceis. “O inconsciente é a única realidade psíquica”, no sentido de arquitetura psíquica, “em sua natureza mais íntima, ele nos é tão desconhecido quanto a realidade do mundo externo, e é tão incompletamente apresentado pelos dados da consciência quanto o é o mundo externo pelas comunicações de nossos órgãos sensoriais”(Freud). Assim podemos relembrar a obra de Freud sobre Totem e Tabu onde no prefácio nos chama atenção para o quanto nossa percepção interior é obscura seja no que diz respeito ao presente, passado, futuro a vida “além-mundo”.

Referências
FREUD, S.   ALGUMAS LIÇÕES ELEMENTARES DE PSICANÁLISE (1940 [1938]) A NATUREZA DO PSÍQUICO,  Obras Completas de Psicanálise - volume XXIII. Rio de Janeiro, Imago-1996.
 FREUD, S.   F) O INCONSCIENTE E A CONSCIÊNCIA - REALIDADE,  Obras Completas de Psicanálise - volume V. Rio de Janeiro, Imago-1996.

14 de outubro de 2013

Vida e Valores


  "só aquele que permanece inteiramente ele próprio pode, com o tempo, permanecer objeto do amor, porque só ele é capaz de simbolizar para o outro a vida, ser sentido como tal. Assim, nada há de mais inepto em amor do que se adaptar um ao outro, de se polir um contra o outro, e todo esse sistema interminável de concessões mútuas... e, quanto mais os seres chegam ao extremo do refinamento, tanto mais é funesto de se enxertar um sobre o outro, em nome do amor, de se transformar um em parasita do outro, quando cada um deles deve se enraizar robustamente em um solo particular, a fim de se tornar todo um mundo para o outro.". Lou Andreas-Salomé

Lou Andreas-Salomé (1937)

A 5 de fevereiro deste ano, Frau Lou Andreas-Salomé faleceu pacificamente em sua casinha de Göttingen, com quase 76 anos de idade. Durante os últimos 25 anos de sua vida, essa notável mulher esteve ligada à psicanálise, à qual contribuiu com trabalhos valiosos e que também praticou. Não estarei dizendo demais se reconhecer que todos nós sentimos como uma honra quando ela se juntou às fileiras de nossos colaboradores e companheiros de armas, e, ao mesmo tempo, como uma nova garantia da verdade das teorias da análise.
Sabia-se que, quando moça, ela manteve intensa amizade com Friedrich Nietzsche, baseada em sua profunda compreensão das audazes ideias do filósofo. Esse relacionamento teve um fim abrupto quando ela recusou a proposta de casamento que ele lhe fez. Era bem sabido, também, que, muitos anos depois, ela atuou como Musa e mãe protetora para Rainer Maria Rilke, o grande poeta, que era um pouco desamparado em enfrentar a vida. Além disso, porém, sua personalidade permaneceu obscura. Sua modéstia e discrição eram mais do que comuns. Ela nunca falou de suas próprias obras poéticas e literárias. Claramente sabia onde devem ser procurados os verdadeiros valores da vida. Aqueles que lhe foram mais íntimos tiveram a mais forte impressão da genuinidade e da harmonia de sua natureza, e puderam descobrir com espanto que todas as fraquezas femininas e talvez a maioria das fraquezas humanas lhe eram estranhas ou tinham sido por ela vencidas no decorrer de sua vida.
Foi em Viena que, há muito tempo atrás, o mais comovente episódio de seu destino feminino fora representado. Em 1912, ela retornou a Viena, a fim de ser iniciada na psicanálise. Minha filha, que foi sua amiga íntima, ouviu-a um dia lamentar não ter conhecido a psicanálise em sua juventude. Mas, afinal, naqueles dias não existia tal coisa.
Sigm. Freud - Fevereiro de 1937.

Em um mundo onde falar de valores, caráter, parece algo estranho, ofensivo, antiquado, relembrar esta carta de Freud quando fala da morte de Lou Andreas Salomé, ressaltando valores tão importantes a todos os seres humanos: modéstia, discrição, harmonia, equilíbrio e firmeza para vencer as dificuldades da vida. “Claramente sabia onde devem ser procurados os verdadeiros valores da vida”.  Mostra-nos o avanço do materialismo na sociedade em que vivemos, como se tivéssemos caminhado para traz, apesar de todos os avanços científicos.
FREUD, S. - Breves Escritos (1937-1938) Obras Completas de Psicanálise - volume XXIII. Rio de Janeiro, Imago-1996. 

12 de outubro de 2013

Memória


Guardo em minha memória...
todo o tempo...
o tempo que existe sem passado, presente ou futuro...
simplesmente o tempo...
caminhos para voar...
ao navegar no tempo...
navego no espaço, um lugar, que não localizo no tempo...
as lembranças que vão se deslanchando...
como uma nascente de água...
vai preenchendo o tempo...
até chegar o instante...
em que estarei face a face...
você... doce...suave...forte...verdadeiro...
límpido... acolhedor... generoso...
assim veremos mais claramente os pensamentos meus e teus...

Myriam ‘aya

9 de outubro de 2013

“Fragmento por Fragmento"...

“A constelação – por que não, no sentido que dela falam os astrólogos? -, a constelação original que presidiu ao nascimento do sujeito, ao seu destino e quase diria à sua pré-história, a saber, as relações familiares fundamentais que estruturam a união de seus pais, mostra ter uma relação muito precisa, e talvez definível por uma fórmula de transformação, com o que aparece como o mais contingente, o mais fantasístico, o mais paradoxalmente mórbido de seu caso, a saber, o último estado de desenvolvimento de sua grande apreensão obsedante, roteiro imaginário a que chega como se fosse à solução da angústia ligada ao desencadeamento da crise”.
“A constelação do sujeito é formada na tradição familiar pelo relato de um certo número de traços que especificam a união dos pais”.
“Eis portanto como se apresenta a constelação familiar do sujeito. O relato dela vai saindo, fragmento por fragmento, durante a análise, sem que o sujeito estabeleça qualquer ligação com o que quer que seja que aconteça de atual” (p. 19-21). Jacques Lacan – O Mito Individual do Neurótico

Nesse trecho Lacan nos lembra que o universo do sujeito é muito mais complexo do que podemos imaginar e que as articulações, “constelações” que compõe sua existência não é possível de serem apreendidas pelo processo analítico de forma literal, linear, absolutas como se fosse possível uma narrativa onde passado, presente e futuro, estivesse em uma ordem lógica, acadêmica e seguindo o curso do relógio. São sim fragmento do passado, presente e futuro, cabendo ao analista a escuta “fina”, atenta a que tempo, circunstancia e vicissitude diz respeito aquele fragmento e que direção dar ao processo analítico no sentido do sujeito compor suas imagens e assim reescrever sua história.

2 de outubro de 2013

Patológico: entre as Leis e Máximas

Dos Princípios da Razão Pura Prática
1º - Definição
“Princípios práticos são proposições que encerram uma determinação universal da vontade”.
“Admitindo-se que a razão pura pode encerrar em si um fundamento prático, suficiente para a determinação da vontade, então há leis práticas, mas se não se admite o mesmo, então todos os princípios práticos serão meras máximas. Em uma vontade patologicamente afetada por um ser natural pode observar-se um conflitos das máximas diante das leis práticas conhecidas pelo mesmo. Ex. alguém pode adotar o axioma ( princípio ) de não suportar qualquer ofensa sem vinga-la, compreendendo, todavia que isso não constitui nenhuma lei prática, mas apenas a sua máxima( princípios subjetivos) e que, de modo inverso, como regra para a vontade de todo ser racional, idêntica máxima não pode concordar em si mesma. (imperativos # máximas)” - Kant

Esse trecho de Kant sobre os princípios da Razão Pura Prática nos traz a reflexão de que a razão realiza na prática, através de leis ou de máximas sua vontade. Se essa vontade, seus princípios subjetivos são permeados por aspectos patológicos, os conflitos entre as máximas e as leis são inevitáveis. Assim os imperativos categóricos estarão sempre confrontados pelas máximas e se estará no conflito com as leis, trilhando os caminhos da perversão, ignorando-as e fazendo de suas máximas “leis” ou da psicose, negando as leis e mergulhando no abismo da diluição.

Silêncio e Movimento


Falar pouco é o natural
Um redemoinho não dura uma manhã
Uma rajada de chuva não dura um dia
De onde provêm essas coisas?
Do céu e da terra
Se nem o céu e a terra podem produzir coisas duráveis
Quanto mais os seres humanos!
Por isso, quem segue e realiza através do Caminho adquire o Caminho
Quem se iguala à Virtude adquire a Virtude
Quem se iguala à perda, perde o Caminho
Convicção insuficiente leva à não convicção
TAO TE CHING - O Livro do Caminho e da Virtude - Lao Tse - Tradução do Mestre Wu Jyn Cherng

26 de setembro de 2013

Trilhando o caminho do inconsciente




A vida caminha parecendo ir sempre para frente, mas o inconsciente é uma terra a ser desvendada eternamente, onde não existe o tempo como o conhecemos: passado... presente... futuro... passado... Isso Freud nos lembra nesse trecho da CARTA 101
“…Em primeiro lugar: uma pequena parte de minha autoanálise progrediu e confirmou que as fantasias são produtos de períodos posteriores e são projetadas para o passado, desde o que era então o presente até épocas mais remotas da infância; o modo como isso ocorre também emergiu — mais uma vez, um vínculo verbal.
À pergunta: “O que aconteceu nos primórdios da infância?”, a resposta é “nada”. Mas o embrião de um impulso sexual estava lá. Seria fácil e maravilhoso contar-lhe como é a coisa; mas seria necessária uma meia dúzia de páginas para eu escrever tudo isso por extenso, e por isso vou guardá-lo para nosso encontro na Páscoa, com algumas outras informações a respeito de meus primeiros anos [de vida]. Além disso, encontrei um outro elemento psíquico que considero ter significado geral e ser uma fase preliminar dos sintomas, anterior, mesmo, à fantasia”.
S. Freud

23 de setembro de 2013

“A Casa dos Loucos”

Na prática cientifica existe um discurso que diz:
 "nem tudo é verdadeiro; mas em todo lugar e a todo momento existe uma verdade a ser dita e a ser vista, uma verdade talvez adormecida, mas que no entanto está somente à espera de nosso olhar para aparecer, à espera de nossa mão para ser desvelada. A nós cabe achar a boa perspectiva, o ângulo correto, os instrumentos necessários, pois de qualquer maneira ela está presente aqui e em todo lugar".
Mas achamos também, e de forma tão profundamente arraigada na nossa civilização, esta ideia que repugna à ciência e a filosofia: que a verdade, como o relâmpago, não nos espera onde temos a paciência de emboscá-la e a habilidade de surpreendê-la, mas que tem instantes propícios, lugares privilegiados, não só para sair da sombra como para realmente se produzir. Se existe uma geografia da verdade, esta é a dos espaços onde reside, e não simplesmente a dos lugares onde nos colocamos para melhor observá-la. Sua cronologia a é a das conjunções que lhe permitem se produzir como um acontecimento, e não a dos momentos que devem ser aproveitados para percebê-la, como por entre duas nuvens. Poderíamos encontrar na nossa história toda uma "tecnologia" desta verdade: levantamento de suas localizações, calendário de suas ocasiões, saber dos rituais no meio dos quais se produz.
Michel Foucault - Microfísica do Poder

Esse interessante trecho do escrito de Foucault, nos incita a reflexão que por certo, a verdade a que o humano busca, seja em quais lugares e espaços: na ciência, nas religiões, nas diversas formas de terapias, no conhecimento intelectual, nas intuições, nos sintomas, é na busca das respostas ancestrais sobre sua existência e que destinos ou rumos ela pode ou deve tomar, no sentido, seja de uma qualidade de vida, espiritual, de seu autoconhecimento ou nas curas e mudanças que cada sujeito considera necessárias. Há sempre um “espaço”, onde ela reside e é necessário que nos coloquemos nos lugares existenciais para observá-la e compreendê-la. Foi assim com Édipo, e com todas as  tragédias ou provações da existência humana. “A casa dos loucos”, que habita cada um de nós diz respeito às “verdades” inexoráveis da existência. Muitas delas há que o sujeito ter recursos psíquicos para vê, pensar interpretar, aceitar e resinificar naquilo que for possível.  Confúcio lembrará: “Aquele que caminha na verdade, seu caráter é firme e forte, ordenado e claro, encontra correspondência no céu e se move com o tempo”. O caminho do meio é um percurso que se faz sobre brasas até alcançar o equilíbrio e harmonia duradoura, inabalável.

Aprender e Saber


Aprender é apropriar-se de um saber sobre si mesmo

Várias são as terminologias para o estudante que não apresenta os resultados estabelecidos desde a infância para o “sucesso e carreira profissional”: “queixa escolar”, “dificuldade de aprendizagem”, “fracasso de aprendizagem”, “fracasso escolar”. Dificuldades para que exigências e resultado no mercado de trabalho? Por que a demanda é geralmente da escola e não da criança ou adolescente? Qual o nível de pressão que a criança ou adolescente vive seja no ambiente familiar ou na comunidade para resultados de sucesso competitivo? Desde cedo as crianças são confrontadas pelo mercado de trabalho, pois as falas dizem que: “quando chegar sua vez vai ser difícil encontrar um emprego, portanto tem que começar desde cedo”. “Vivemos em um mundo competitivo”. E assim um bebê em frente ao computador é uma “questão importante”.

 Pouco se fala em ritmos diferentes de aprendizagem, em subjetividade. Ao educador cabe “diagnosticar” a criança ou adolescente com “dificuldade de aprendizagem” e encaminhá-la ao reforço escolar. Cabe apresentar para a instituição um bom desempenho, esse é seu indicador. O que “fica de fora” do indicador deve retornar como “dificuldade de aprendizagem”. Já se fala em “diagnóstico de dificuldade de aprendizagem”. Por que a criança ou adolescente é o sintoma? Que transferência está em jogo? A escola tem assumido um papel de “trabalho pedagógico infantil” e os educadores “coordenadores de formação de indivíduos para o trabalho”. A escola tem ao longo do tempo, com a pressão social por sucesso, se colocado não enquanto um lugar de saber, mas de trabalho, o significado enquanto instituição que “prepara” para o trabalho, exerce sobre as crianças e adolescentes um desprazer pouco compreendido, como se o estudar acadêmico fosse a “única” forma de prazer possível para essa forma de relação . Aprende-se pela repetição e não pela aquisição de um saber permeado pela compreensão conceitual e abstrata das realidades vivenciadas. As crianças e adolescentes não sabem por que estão estudando determinados conteúdos. Que o recurso da projeção é exaustivamente utilizado nos grupos sociais, onde é preciso eleger um sintoma e dar um diagnóstico para que todas as ansiedades se acalmem e finalmente seja dado um lugar aquele “não saber” é visível.

Aprender é algo que pertence ao saber. Saber que começa ao nascer. O bebê se apropria de um saber sobre o mamar, sobre as funções excretoras, engatinhar, andar, sobre as diferenças anatômicas entre meninos e meninas. O saber sobre o lugar na relação com os pais, e o saber acadêmico. Assim o saber é algo que se desenvolve de forma dialética com as vivências e o desenvolvimento físico-emocional. Sabemos que o recém-nascido tem a tendência para evitar a dor, e fixar-se nas experiências prazerosas. Durante o desenvolvimento a disciplina e autodisciplina pelo processo da educação, não exclui a tendência para evitar a dor e o psiquismo continua a regular-se num equilíbrio entre dor e prazer mesmo no adulto.

Não cabe aqui ser localizacionista sobre funções cerebrais até porque depois das últimas descobertas da neurociência sobre a plasticidade neuronal, as chamadas zonas cerebrais cada vez mais se expandem. As questões que se apresentam não são para diagnósticos individuais, dizem sim respeito ao processo do viver. Existe a dificuldade de se lidar com o diferente, pois isso é o padrão de valores da sociedade “moderna”, mas levar as “traquinices” próprias da infância a serem inseridas como “distúrbios” é não considerar a história de cada sujeito e tornar a criança adulta “antes do tempo”, sem a infância.

Há que interrogar sobre adequação de conteúdos, de metodologia e a pressão por resultados e o amadurecimento emocional dos profissionais e cuidadores para lidar com questão tão complexa que é o educar. O lar e a escola são espaços do educar. Gerar nomenclaturas é induzir uma demanda generalizada de mercado e de medicamentos. Se vivemos em uma sociedade com diz Ferenczi “a humanidade é atualmente educada para uma cegueira introspectiva”; (p.41) é por que não escutamos o outro, seja esse outro nós mesmos e o outro sujeito separado de nós companheiros(as), filhos, pais, amigos etc. Escutar é compreender as representações, os significantes que nos habita do inconsciente ao consciente de forma dialética. Essa escuta supõe que existe um sujeito que “já sabe sobre si próprio”. Isso implica a cuidadores, educadores, profissionais, “sair” do lugar de “sujeito suposto saber”.

Se o problema da aprendizagem é um sintoma cabe interrogar o que o sujeito não quer saber ou de que forma ele não quer saber? A questão é de que sujeito se trata, ou sob qual olhar vemos o sujeito. Esse sujeito possui uma história e se apropria dela de que forma? como diz Ferenezi compreender “os sentimentos e as ideias assim reprimidos, nem por isso foram suprimidos, e no decorrer do processo educativo, eles se multiplicam, se avolumam, aglomeram-se” (p.40) e demandam uma escuta, uma resinificação. Que os processos emocionais inconscientes interferem substancialmente nos processos intelectuais conscientes não há dúvida. Mas de que forma, as transferências, a personalidade dos educadores influencia? Em que estas bloqueiam ou facilitam o aprendizado? É certo que estudantes imaginam simpatias e antipatias que provavelmente não existam ou que existam. Ao darem ênfase na submissão provocam oposição. Que os estudantes sejam inclinados a amá-los e a odiá-los, a criticá-los e a respeitá-los, faz parte da ambivalência para atitudes contraditórias.

Importante refletir que quando a criança nasce ela já vem sendo inserida no contexto familiar desde a concepção, em suas expectativas, ansiedade. Esse pai e essa mãe são detentores de uma história familiar que comporta desejos, estrutura moral, funções, expectativas masculinas e/ou femininas, possuem uma estrutura psíquica. É nesse e em tantos outros contextos que a criança será inserida. A qualidade das relações da criança com as pessoas do sexo oposto e do próprio sexo será permeada inicialmente nos primeiros seis anos pelas experiências de seus cuidadores. Que ela dará um destino, transformando-as em suas direções é certo. Assim pais irmãos e suas formas de funcionamento estarão irremediavelmente ligados à criança e adolescente. Quando a criança atinge a idade escolar outras relações passarão a fazer parte de seu universo - são os professores. E assim as imagens que a criança tem dos pais, irmãos ou cuidadores serão uma primeira extensão dessa herança emocional, defrontando-se com simpatias, antipatias. Mas, não só isso, as escolhas de amizades e amor seguem as lembranças desses primeiros tempos da infância. Para cada dificuldade apresentada por uma criança, caberá a pergunta: que subjetividade, determinações e forma de relacionamento ela traz em sua vida que a faz agir assim?

No percurso do desenvolvimento os pais amados são um modelo a ser imitado, mas também a ser eliminado para que a autonomia seja construída. Os impulsos afetuosos e hostis convivem lado a lado, às vezes até o fim da vida. Nessa existência de sentimentos contrários, muitas vezes não compreendidos por pais e professores que surgem os conflitos. Que é mais fácil dizer a um professor o que não pode dizer ao pai ou a mãe é certo. Como também é muitas vezes mais fácil ao professor dizer ao aluno o que não pode dizer aos pais ou filhos é também possível. E assim as relações de transferências vão sendo construídas e os conflitos internos de cada um não vão sendo elaborados. Os pais e professores vão se deparar com a criança, o jovem de hoje e com a criança que um dia eles foram e as crianças vão descobrir que os pais não são os mais poderosos e sábios, que possuem equívocos, mentem, quando dizem para eles não mentirem, colaram em provas quando falaram para eles estudarem, não são leais quando exigem deles lealdade incondicional. Então esse jovem revela-lhe isso e assim é inscrito como jovem desrespeitoso, aluno com falta de atenção, indisciplinado etc. Nesse desligamento dos pais e professores ideais, como pais e professores que muitas vezes não se apropriaram do saber sobre seu si próprio, fica esse jovem insatisfeito, aprende a criticá-lo sem compreender qual seu lugar na sociedade; em geral age de forma a que “paguem” pelo desapontamento que lhe causou. A elaboração dessas frustrações, do desligamento dos pais tão importantes na vida da criança, do jovem irá habitar a forma de ser do adulto.

Os professores e alunos são de certa forma pais e filhos substitutos e os colegas possíveis irmãos ou até sentimentos relativos aos pais. Transferindo para eles respeito e expectativas da infância e começam a tratá-los, confrontando com as ambivalências existentes nas famílias. Há que os pais, cuidadores e professores se apropriarem de suas subjetividades, infâncias, histórias acolherem seus sofrimentos, resinificá-los para o pleno exercício de suas funções e talvez assim o processo educacional valorizará não a “cegueira introspectiva”, mas a “verdade interior que liberta”. 

22 de setembro de 2013

Saúde Mental - Sobrevivendo nos conflitos de guerra

O fato de estarmos diante do conflito na síria, bem descrito no artigo: http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2013/09/1342442-horror-na-siria-vai-muito-alem-das-armas-quimicas-diz-presidente-de-comissao-da-onu.shtml leva-nos inevitavelmente à reflexão entre direitos humanos e saúde mental. Das milhares de morte, assassinatos, armas químicas, execuções de pessoas, comunidades, torturas de adultos, crianças, idosos por todas as partes envolvidas no conflitos parece tão grave quanto aos fatos da segunda guerra com judeus, negros, ciganos, homossexuais. A forma de concepção “religião-guerra” é uma questão difícil. São muitos interesses políticos, econômicos, religiosos, estratégicos no jogo do poder. Compreender as origens de um ódio que se estende de geração a geração e marcas traumáticas que alimentam esse ódio, constrói e estruturam o perverso é compreender que algo para além de um obstáculo externo, alcança um obstáculo interno de satisfação, na construção de uma moralidade e dignidade pela vida. Se o superego cultural é esmagado é porque a consciência interna está fragmentada. Qual a história de frustração narcísica dos grupos envolvidos no sentido de construção e irrupção de um Estado doentio? As disposições e os fatores precipitantes sempre estiveram nos sujeitos, grupos envolvidos, e as influências do mundo externo presentes desde o nascimento. É possível que esses sujeitos, grupos tenham sido saudáveis enquanto suas necessidades de amor foram satisfeitas e na perda desse(s) objeto(s) não foi possível substitutos. Assim se não é possível para o destino possibilitar uma cura, há que se pensar no quanto esses sujeitos necessitam de acolhimento, escuta e tratamento, que atendam suas  demandas, cujo cotidiano é marcado pela tragédia, e facilitador a instalação de patologias.

O processo de frustração continuada, dos conflitos armados, e o quanto um sujeito pode tolerar de tensão psíquica e que saída ou recursos psíquicos dispõe para lidar com isso é a questão. Um dos recursos possíveis é transformar a tensão psíquica em “energia ativa”, através de ações que possibilitem permanecerem voltados, para o mundo externo, ou “resolver” a tensão psíquica sublimando. A questão das sucessivas frustrações pode impulsionar o sujeito a virar às costas para a realidade, pois esta perde o seu valor e volta-se para uma perspectiva de fantasia, construindo novas estruturas de desejo, através dos traços mnêmicos esquecidos e alimenta, por exemplo, a ilusão de que nos campos ou nos países em que serão refugiados a realidade pode ser menos ameaçadora. Como confluir subjetividades, identidades, histórias tão diversas entre si, diante do teste de realidade e suas expectativas? O fato é que as frustrações com a realidade vivenciada é considerável. Portanto os sintomas são inevitáveis sejam no nível dos sujeitos ou dos grupos, uma vez que não são possíveis substitutos satisfatórios.

Para os sujeitos que estão envolvidos em conflitos de guerra, a realidade externa é tão adversa, que para manter sua “saúde” é necessário um esforço interno para conseguir a satisfação, que pode não lhe ser acessível pela realidade externa. Mas se esse esforço não é suficiente, em quantidade de energia desprendida, por dificuldades internas insuperáveis, o sujeito adoece, por tentar adaptar-se à realidade. Guerrear pode ter inúmeros significados. Toda guerra por maiores que sejam os interesses econômicos, políticos, religiosos, começa internamente em cada sujeito, pois não é possível diluir este enquanto conjunto. Mas a questão do poder e do ódio inevitavelmente estão envolvidos e diz respeito a uma estrutura perversa. Se a mudança externa é difícil, longa, exige talvez séculos, a mudança interna. 

Uma mudança interna dá-se através de sintomas, que pode ou não, ao renunciar a satisfação cair doente pela incapacidade de reagir. Ou levar a busca de uma resinificação, de “cura”, que sucumbe se não houver flexibilidade. O conflito para permanecer como se é e para modificar-se é inevitável e exige grande dispêndio de energia e aproximações e afastamentos da realidade. Se as escolhas forem incompatíveis, fixações surgirão como consequência de frustrações externas. Essas fixações podem dizer respeito a locais e eventos passados, presentes ou futuros e pode ser tão fortes que impossibilite descolamentos, o que é um ponto importante no destino da saúde mental do sujeito. Transpor as demandas instintivas  e buscar um ideal ético, também pode levar a frustrações devido à incapacidade de correspondência com a realidade externa, que frustra as possibilidades de satisfação, de sentir-se seguro.

Se há confluência entre determinadas tendências do ego e a realidade externa a formação de sintomas é maior, pois já habitavam o sujeito. As experiências adversas e traumáticas da realidade potencializam a formação de sintomas de acordo com o funcionamento estrutural do sujeito. Quando essas exigências ocorrem nos anos da infância, quando ainda não há um amadurecimento emocional, um ser integral, os efeitos na idade adulta ou no sujeito idoso, podem cronificar-se. Pensar a saúde mental nos conflitos armados é pensar a saúde mental de todos os sujeitos envolvidos. Assim talvez sejam possíveis os prognósticos dos enlaces em questão, para os diversos grupos e características etárias. Portanto os efeitos para uma criança, um adulto e um idoso, possam apresentar-se diversos, ou em alguns casos inversos, se o debilitamento do ego fizer parte da disposição do sujeito, facilitando os conflitos internos. Nestas situações a arquitetura psíquica busca estabelecer uma constelação de defesas que preservem o sujeito, ante as ameaças internas e externas, tentando acomodar a individualidade do sujeito as suas condições de vida. Nossa solidariedade aos refugiados de todos os conflitos armados no mundo. O exílio é sempre algo doloroso, pois exige de quem o vive, o desenvolvimento de recursos psíquicos nem sempre disponíveis ou difíceis de serem construídos.  
Referência
FREUD, S.   TIPOS DE DESENCADEAMENTO DA NEUROSE (1912)  Obras Completas de Psicanálise - volume XII. Rio de Janeiro, Imago-1996. 

9 de setembro de 2013

Diálogo entre Almas


...o vento sempre me traz...a melodia de sua voz,
...ouço...sinto sua alma, estarei sempre com você,
...estamos ligados  pelos mesmos caminhos,
...minh ‘alma desde sempre ama você,
...nos desviamos, nos afastamos,
...nos perdemos, mas, sempre estive com você,
...sei que sente minha falta...
...vi seus sofrimentos... seus erros... sua dedicação...sua mudança,
...é difícil está separado de mim,
...por que é difícil  está do outro lado... separada de você,
...sinto falta de seu abraço... de abraçar você,
...do calor de sua alma...de sua amorosidade,
...de ser envolvida em meu manto,
...amo você com devoção,
...um dia... em um tempo,
...meu amor eterno... incondicional,
....já estamos juntos, por toda a eternidade...
Myriam’aya