29 de abril de 2014
20 de abril de 2014
Pensando a estrutura tonal do inconsciente...
Muito se
fala sobre musica e terapia, ou a música enquanto instrumento terapêutico.
Quando pensamos em o inconsciente e a música, há que lembrarmos de que a
tonalidade exerce uma influência pouco estudada. Confúcio acreditava que a boa
música poderia ajudar a aprimorar o caráter do homem. Disse ele:
“A música
do homem de espírito nobre, suave e delicada, conserva um estado d’alma
uniforme, anima e comove. Um homem assim não abriga o sofrimento nem o luto no
coração; os movimentos violentos e temerários lhe são estranhos. Mais do que
isso: uma vez que os indivíduos são os materiais básicos de construção da
sociedade, a música também poderia afetar nações inteiras, melhorando-as ou
piorando-as”.
No filme
Atravessando a Ponte (O som de Istambul) – Fatih Akin faz um percurso pelo
mundo dos sons e começa por citar Confúcio: “Se alguém desejar saber se um
reino é bem ou mal governado, se a sua moral é boa ou má, examine a qualidade
da sua música, que lhe fornecerá a resposta. Para se entender a cultura de um
lugar você precisa ouvir a música que é feita ali”.
Como diz “a musica sempre conta tudo sobre o lugar.
Istambul é uma ponte cruzada por 72 nações”. A interessante fala de Orham
Gencebay de que “na música ocidental são usados os compassos 2/4, 3/4, 4/4 em
grupos de 3, por exemplo: 12/8 fica: 3, 3, 3... 3, 3, 3... 3, 3, 3... na
Turquia usa-se o compasso 5/8: 1, 2... 1, 2, 3... é o que chamam de “acento
turco”. 1, 2... 1, 2... 1, 2... 1, 2, 3... divide-se em 9 tempos. O
ocidente é limitado em termos de sons, porque não olha os sons do mundo”. Questão
interessante, pois o oriente não se desvincula da concepção filosófica que
permeia a Ásia que são os escritos de Confúcio e Lao Tsé, como se compreende os
números e dessa forma como se divide as tonalidades de forma que mantém a
harmonia da melodia no sentido da harmonia psíquica e espiritual. Importante
ressaltar que a música no oriente é emotiva, fala de sentimentos, que o
ocidente compreende em uma concepção materialista. É certo que a música
confere uma emoção diferente às vivências, imagens. Como se estas adquirissem
mais força. Fica a interrogação: Quais as tonalidades musicais do psiquismo?
Transcende a cultura?
17 de abril de 2014
16 de abril de 2014
O Desenlace da Constelação Familiar na Escuta Analítica
“A
constelação – por que não, no sentido que dela falam os astrólogos? -, a
constelação original que presidiu ao nascimento do sujeito, ao seu destino e
quase diria à sua pré-história, a saber, as relações familiares fundamentais
que estruturam a união dos pais, mostra ter uma relação muito precisa, e talvez
definível por uma formula de transformação, com o que aparece como o mais
contingente, o mais fantasístico, o mais paradoxalmente mórbido de seu caso, a
saber, o último estado de desenvolvimento de sua grande apreensão obsedante,
roteiro imaginário a que chega como se fosse à solução da angústia ligada ao
desencadeamento da crise. A constelação do sujeito é formada na tradição
familiar pelo relato de um certo número de traços que especificam a união dos pais”...
(Lacan, p.19)
Apropriada
fala de Lacan, pois desde os estudos freudianos naquilo que ele denominou
“a construção da história do sujeito”, que os estudos referentes ao psiquismo
“navegam em águas turbulentas” sem encontrar “um porto em que possa atracar” e
pesquisar. A escuta analítica é tão complexa, que transcende o inconsciente, a
livre associação, uma vez que a teia de relações da história do sujeito, com
sua arquitetura inconsciente é como um emaranhado, onde desejo, lembranças,
recalque, resistência, afinidades, tradições, enlaçam o sujeito no sentido de
que este não se desprenda e encontre seu desejo, sua essência, sua autonomia,
sua identidade, seu caminho. Encontrar “por assim dizer” o “fio da meada” é uma
tarefa para a fenomenologia ou para a metafísica. O materialismo enquanto
teoria do conhecimento, “não dá conta dessa questão”, do desenlace da
constelação familiar do sujeito, na compreensão e resinificação de
sua história, sem precipitar-se na biologia e no dilema mente-corpo.
Referência
LACAN,
Jacques - O Mito Individual do Neurótico – Jorge Zahar Editores, 2008
8 de abril de 2014
"Unsung Hero" (Official HD) : TVC Thai Life Insurance 2014 : โฆษณาไทยประ...
Simplesmente maravilhoso! O planeta necessita dessas ações amorosas!
5 de abril de 2014
Poesia - Então...
Ausência...
imensa...
tão
grande, que dói...
uma
dor “sem fim”...
não
posso ver você...
uma
dor que não cessa...
como
se respirar não fosse possível...
então,
peregrina... a procura dos similares...
espero
sua imagem... que está em mim...
do
lugar, do tempo...
difícil
ser estrangeira....
viver
em lugares... com almas.... que não amam...
sem
lugar para descansar...
difícil
ser estrangeira...
andar
por caminhos... sem ver você...
difícil
ser estrangeira...
viver
“sozinha”... solidão d’alma...
profunda
dor... .
difícil
ser estrangeira...
encarcerada....
sem poder voar...
encontrar
sua imagem...
Myriam’aya
4 de abril de 2014
Reflexões sobre Comoção Psíquica - Trauma
Para falar sobre trauma, há que nos
lembramos do excelente filme “Separados pelo Destino”, baseado no romance “Aftershock”
de Zhang Ling e dirigido por Feng Xiaogang. Não vamos aqui fazer uma análise da
subjetividade que envolve seus personagens na tragédia, mesmo por que “sobreviver
é apenas o começo”. Vários estudiosos pensaram na concepção de trauma. Freud em
seus diversos escritos utilizou essa concepção, mas ao estudar a sexualidade
infantil implicou o sujeito em sua história e de certa forma retira da
expressão “trauma” a concepção de um sujeito que não se implica, seja pelo
masoquismo ou pelo sadismo. Ferenczi, amigo estimado de Freud, centra muito dos
seus estudos na questão do trauma. O trauma é então tido como um “choque”, “é equivalente à aniquilação do sentimento
de si, da capacidade de resistir, agir e pensar com vistas à defesa do si
mesmo” (p. 125). Ocasiona um impacto psíquico, que faz também seu sintoma
no corpo e um impacto no corpo, pois para a preservação de si mesmo os órgãos
reduzem suas atividades. É então que surge a expressão “comoção psíquica”, ou
seja, o trauma é então semelhante a algo que desmorona, desagrega. Ocorre de
forma “imprevista”. Quando algo “parecia” seguro, desmorona e a confiança nas
pessoas, situações, é abalada. Os noticiários enfatizam as diversas tragédias
humanas, sejam no âmbito familiar, da sociedade, nos países ou na natureza.
Vivemos na sociedade da insegurança, do medo e da ameaça. Assim é como se “de
repente”, algo pudesse inesperadamente causar uma comoção física, psíquica. Há
sempre uma reação de defesa, pois o corpo e o psiquismo possuem sempre
estruturas de defesa, sejam quais forem. Como diz Ferenczi, “até a minhoca se
empina”. Mesmo diante da morte os órgãos lutam até a última de suas forças para
viver, para evitar o choque, a comoção, que inexoravelmente virá.
Diante dessa maior comoção
psíquica e física, que é a morte, muitos sentimentos que a antecipam ainda
permanecem no plano da vida material. Muitos relatam que teriam dedicado mais
tempo aos amigos, à família, que teriam trabalhado menos, viajado mais, teriam
feito o trabalho que sonharam, mas difícil alguém expressar, que teria amado
mais do que odiado, teria servido mais do que exigido, teria tido menos
ressentimentos, teria buscado o autoconhecimento, teria disputado menos, teria
ajudado mais, teria procurado ser mais justo, teria sido menos vaidoso,
arrogante. Teria sublimado mais os impulsos e instintos primitivos, teria sido
mais fiel aos princípios e virtudes, mesmo os que não estivessem na moda. Teria
buscado uma vida com mais sublimidade espiritual. Não teria machucado ninguém,
magoado. Teria tido tempo para sempre ouvir e uma palavra amiga confortadora.
Teria tido compreensão e compaixão para com todos.
Assim diante de uma comoção psíquica a
angústia é inevitável. Como não é possível uma imediata transformação do mundo
circundante, é possível uma representação, uma “reação substitutiva” em relação
a uma mudança futura num sentido favorável. É o que de certa forma faz com que
se suporte o desprazer. Fugir das lembranças, do sofrimento mudo, através de
lugares ou representações é um alento para evitar a autodestruição. E “o mais fácil de destruir em nós é a
consciência, a coesão das formações psíquicas numa entidade: é assim que nasce
a desorientação psíquica” (Ferenczi, p.127). A desorientação psíquica possibilita
um escape do sofrimento, suspende a percepção possibilitando a junção de alguns
fragmentos de princípio de prazer.
Todo esse mecanismo de defesa
funciona no sentido de barrar a inevitável angústia traumática, que possibilita
o medo da loucura. Essa configuração é visível nas pessoas que são vítimas de
manias de perseguição. Elas tentam proteger-se de perigos que imagina acontecer
consigo ou com seus afetos, através de um sentimento de onipotência, de tudo “poder
destruir” ou evitar. Em relação aos traumas que acontece na mais tenra idade,
há por parte dos adultos uma exigência a
criança, no sentido dela ser capaz de conviver com a situação traumática seja
por uma atitude heroica ou pelo silêncio, que a aliena dos significados do
ocorrido e de suas possibilidades de reelaboração e ressignificação. É função
da análise abrir caminho e percorrer esses labirintos do inconsciente, de forma
articulada com os sintomas. Fica a sugestão: “Separados pelo Destino”.
Referência
FERENCZI, Sándor – PSICANÁLISE IV
(1928). Obras Completas – São Paulo, Martins Fontes, 2011
https://www.youtube.com/watch?v=3yFbdrNlw2U
3 de abril de 2014
O Autoconhecimento e a Clínica em Psicologia
“Para tais
pessoas, a utilização de uma terminologia mitológica ou folclórica com
referência a fatos psicológicos é inteiramente "anticientífica".
Com este
preconceito as pessoas barram o próprio acesso à Psicologia e o caminho para um
ulterior desenvolvimento do homem interior cujo fracasso intelectual e moral é
uma das mais dolorosas constatações de nossa época. Quem tem alguma coisa a
dizer, fala em "dever-se-ia" ou em "seria preciso", sem
reparar que lastimosa situação de desamparo está ele, assim, confessando. Todos
os meios que recomenda são justamente aqueles que fracassaram. Em sua compreensão mais profunda, a
Psicologia é autoconhecimento. Mas como este último não pode ser fotografado,
calculado, contado, pesado e medido, é anticientífico. Mas, o homem psíquico,
ainda bastante desconhecido, que se ocupa com a ciência é também
"anticientífico" e, por isso, não é digno de posterior investigação? Se o mito não caracteriza o
homem psíquico, então seria preciso negar o ninho ao pardal e o canto ao
rouxinol. Temos motivos suficientes para admitir que o homem em geral tem uma
profunda aversão ao conhecer alguma coisa a mais sobre si mesmo, e que é aí que
se encontra a verdadeira causa de não haver avanço e melhoramento interior, ao
contrário do progresso exterior”.
JUNG, C.
G. - A NATUREZA DA PSIQUE (Prefácio) - Obras
Completas, Volume VIII/2 5ª Edição - Editora Vozes, Petrópolis, 2000
Essa
reflexão de Jung nos traz uma breve reflexão da clínica em psicologia na
atualidade. Procurar ajuda psicológica é difícil, pois a noção de incapacidade,
“autonomia”, o narcisismo, vaidade, a arrogância são impeditivos de
resistência. Quando muitas vezes essa demanda acontece, ou seja, a busca
terapêutica para um sofrimento psíquico, os valores vigentes na sociedade de
consumo são expressos como se essa busca terapêutica fosse um produto de
prateleira, onde assim que ocorre o acolhimento a escuta, os sintomas se atenuam,
a ansiedade e angústia reduz, abandona-se o percurso terapêutico, pois o
sofrimento foi minorado. A clínica em psicologia revela esse sintoma de consumo
da sociedade atual. Exige-se competência, experiência, espaço terapêutico
confortável, a um custo de R$15,00 a R$ 20,00 por sessão, e contraditoriamente
a visão de que esse valor diz respeito a inexperiência dos profissionais,
validado pelas universidades em nome do que se chama de “clínica social”. Mas
alcançar a nota do curso exigida pelo MEC (ENADE) é uma articulação de valor de
mercado, onde não existe uma articulação com a política de saúde mental, tão
pouco com o compromisso e competência dos profissionais. Há que lembrarmos não
fosse as incursões de Lacan, permanece, desde Breuer, Jung, Freud, um
abismo na articulação teórico-prática. A ideia que se tem é de uma clínica
conceitual. Repetem-se os conceitos como se isso revelasse o domínio
teórico-prático. Diagnóstico diferencial, não se fala. Recorre-se ao DSM. Se as
clínicas de psicologia universitárias, não dão conta da demanda e terceiriza
profissionais recém-formados por valores incompatíveis para se manter as
despesas de um consultório, o profissional vai sobreviver de que? Será que
estamos diante da chamada terceirização dos profissionais de psicologia em
clínica? Assim os cursos não valorizam os profissionais que formam. Essa lógica
que cerca esses serviços, em psicologia, não considera o número de pacientes
que frequentam e não pagam as consultas, o número de pacientes que marcam e não
comparece, o número de pacientes que não comparecem. Tão pouco articula suas
razões clínicas. Há os psicólogos que mantém uma sala alugada e tem poucos
pacientes, podendo cobrar acima da tabela do CRP, pois possuem outras fontes de
rendimentos (Empregos). Os profissionais que fazem opção pelo
mestrado/doutorado dedicam-se a academia ou ao Serviço Público. As estatísticas
de psicólogos que sobrevivem da clínica é trabalharem 14 horas por dia de
segunda a sábado. Em relação aos que trabalham com operadoras de saúde
necessitam atender pelo menos 10 pacientes por dia para sobreviverem.
Esse é apenas um levantamento superficial com alguns profissionais sobre as
dificuldades da clínica em psicologia, que está bem longe do glamour propalado
por profissionais, instituições e universidades. A realidade é de muito estudo,
dedicação, trabalho extenuante. Onde fica a trilogia análise
pessoal-supervisão-estudo? De glamour não tem nada, a não ser a fantasia e o
marketing dos cursos e de profissionais que não precisam da clínica para
sobreviver.
22 de março de 2014
Abuso Sexual e Estrutura Psíquica
"…Estou-lhe
remetendo duas ideias recentíssimas, que me ocorreram hoje e me parecem
viáveis. Baseiam-se, naturalmente, em descobertas analíticas.
(1) O que
determina uma psicose (ou seja, amência ou psicose confusional — uma psicose de
subjugação, como a denominei anteriormente), em lugar de uma neurose, parece
ser o fato de o abuso sexual ocorrer antes do fim do primeiro estágio
intelectual — isto é, antes de o aparelho psíquico ter sido completado na sua
primeira forma (antes dos 15 a 18 meses). É possível que tal abuso remonte a
uma época tão remota que essas experiências permaneçam ocultas atrás de experiências
mais recentes e que a elas se possa voltar de tempos em tempos. Penso que a
epilepsia remonta ao mesmo período… Tenho de abordar de maneira diferente o tic
convulsif, que eu costumava atribuir ao mesmo estágio. Eis como cheguei a essa
outra visão. Um de meus pacientes histéricos… levou sua irmã mais velha a uma
psicose histérica, que terminou num estado de completa confusão. Agora
averiguei qual foi o sedutor dele, um homem de grande capacidade intelectual
que, no entanto, tinha tido ataques da mais grave dipsomania a partir dos seus
cinquenta anos. Esses ataques começavam regularmente, com diarreia ou com
catarro e rouquidão (o sistema sexual oral!) … isto é, com a reprodução de suas
experiências passivas. Ora, até ele próprio sentir-se doente, esse homem tinha
sido pervertido e, consequentemente, sadio. A dipsomania surgiu através da
intensificação — ou melhor, através da substituição do impulso sexual correlato
por esse impulso [para a bebida]. (Provavelmente, o mesmo se aplica à mania de
jogatina do velho F.) Ocorreram entre esse sedutor e meu paciente, sendo que a
irmã deste, que tinha menos de um ano de idade, presenciou algumas delas. Meu
paciente, mais tarde, veio a ter relações com ela, que se tornou psicótica na
puberdade. Disso se pode depreender como uma neurose se agrava e passa a uma
psicose na geração seguinte (o que as pessoas chamam de “degeneração”),
simplesmente porque uma pessoa de idade mais tenra é colhida nas malhas de uma
situação dessas. Aliás, aqui está a hereditariedade desse caso [Fig. 10]:
Espero
poder contar-lhe muito mais coisas importantes a respeito desse caso, que
projeta uma luz sobre três formas de doença.
(2) As
perversões normalmente levam à zoofilia e têm uma característica animal. São
explicadas não pelo funcionamento das zonas erógenas que foram posteriormente
abandonadas, mas sim pela atuação de sensações erógenas, que depois perdem essa
intensidade. Com relação a isto, convém recordar que o principal órgão dos
sentidos nos animais (para fins sexuais, bem como para outros fins) é o sentido
do olfato, que perdeu essa posição nos seres humanos. Na medida em que é
dominante o olfato (ou o paladar), o cabelo, as fezes e toda a superfície do
corpo — e também o sangue — têm um efeito sexualmente excitante. Sem dúvida
está em conexão com isso o aumento do sentido do olfato na histeria. O fato de
que os grupos de sensações têm muito a ver com a estratificação psicológica
parece ser dedutível a partir da distribuição deles nos sonhos e, sem dúvida,
têm uma conexão direta com o mecanismo da anestesia histérica".
FREUD,
S. – CARTA 55 (1950
(1892-1899)), Obras Completas de
Psicanálise - volume I. Rio de Janeiro, Imago - 1996.
Nessa
carta do período 1892-1899, Freud fala de suas descobertas sobre como o abuso
sexual pode desencadear transtornos diversos, possível de sintomas e estruturas
de defesa. Pode ir da neurose histérica ou obsessiva às psicoses e perversões.
No transcurso das gerações, as situações de abuso não circunscrevem somente a
uma geração, perpetuando-se entre gerações, seja como repetição enquanto ato,
seja pelo “inconsciente transgeracional”, até que a interdição e incorporação
da lei se façam. Como em sua grande maioria ocorrem na família, sejam por
cuidadores, familiares em diversos graus, consanguíneos ou não, abusos esses
que fazem uma passagem ao ato ou permanecem como relações sedutoras, que
alimentam a fantasia do desejo, do gozo e vão conformando uma teia de romances
familiares. O mundo moderno e midiático está permeado delas com muito mais
força do que no século XIX. A ênfase da sociedade moderna nos instintos mais
primitivos do homem banaliza a lei, e tudo que a compõe, pois no discurso do
“direito a fazer e dizer o que quiser”, a chamada “expressão de liberdade”,
possibilita a transgressão, e o caminho ao qual se supõe deveria seguir
os instintos, no sentido de realização de desejo em percurso de sublimação, é
impossibilitado, mantendo a patologia das relações.
14 de março de 2014
Poesia - A tua voz fala amorosa...
Qual é a tarde
por achar
Em que teremos
todos razão
E respiraremos
o bom ar
Da alameda
sendo verão,
Ou, sendo
inverno, baste 'star
Ao pé do
sossego ou do fogão?
Qual é a tarde
por voltar?
Essa tarde
houve, e agora não.
Qual é a mão
cariciosa
Que há de ser
enfermeira minha
Sem doenças
minha vida ousa
Oh, essa mão é
morta e osso ...
Só a lembrança
me acarinha
O coração com que não posso.
Fernando Pessoa
Reflexão: Sintomas de Sofrimento na Neurose Obsessiva
Em um mundo ligado ao sentimento de posse, do material, em que o ser, a
essência, o caráter, os valores parecem “esquecidos”, a “obsession”, ou
obsessão está ligado ao mecanismo de obtenção de um suposto prazer pela posse
de um objeto, seja por uma atitude masoquista ou sádica. Há que lembrarmos que
a obsessão vincula-se ao narcisismo, pois a satisfação egoica está em
primeiro plano. A ideia fixa em algo, que se supõe deveria possuir, diz
respeito às representações recalcadas, que são descartadas da consciência, na
neurose obsessiva, pelos atos obsessivos. Obsidia-se a si próprio, que não
deixa de ser extensivo aos outros enquanto objetos de representação do desejo.
Uma representação é imposta através de um estado emocional, que permanece
inalterado, associado a uma representação como a dúvida, o remorso, a raiva, o
ódio, são indicativos de uma angústia persistente, o verificar as portas, o
fazer roteiros confusos, ou repetitivos diariamente, a ênfase em ambientes limpos,
quase esterilizados. As vestimentas parecidas com uniformes, a necessidade de
controle absoluto, o foco em determinados objetos que parecem impossíveis de
obter, a necessidade de que tudo funcione, segundo seu desejo, um apego ao
dinheiro de forma excessiva.
Uma neurose obsessiva severa implicará numa arrogância, que possibilita
um maltrato a outros, a um ódio persistente, a problemas de caráter, a uma
determinação de obediência cega, do outro, ao desejo do obsessivo, uma relação
de dominação, uma disputa com o outro para ser esse outro, o que revela um
conflito de uma inveja, que diz respeito ao ser, seus conflitos e escolhas.
Essa necessidade de domínio sobre si mesmo, seus desejos, impulsos advém de
experiências traumáticas, que favorece o desenvolvimento da neurose obsessiva,
experiências penosas, na mais tenra idade, onde o sujeito faz um grande esforço
para esquecer. As representações penosas são substituídas por outras. O
processo obsessivo é complexo e não se resume em alguns sintomas superficiais:
Aritmomania, preocupação e especulação, hesitação, medo de pedacinhos de papel,
lavagem corporal ou de partes do corpo, limpeza compulsiva, em que tudo parece
contaminado. A intrincada complexidade é algo a se desnovelar no curso do
tratamento. Se a pré-disposição mental herdada encontra circunstancia propícias
ao livre curso, é questão a ser analisada. A neurose obsessiva é um
funcionamento de defesa e seu curso irá depender do nível de comprometimento do
ego e das circunstancias da vida que vão sedimentando comportamentos. A
substituição é uma forma de descarga da ansiedade e mantém de forma persistente
os atos obsessivos. As obsessões são diversas, especializadas. Nesse intrincado
labirinto existe muito sofrimento, sentimento de desagregação, superstições.
Vencer a própria resistência, para dar espaço às lembranças, ao sofrimento, que
necessita ser acolhido, compreendido e resinificado, não é tarefa fácil, mas
possível.
FREUD, S. – OBSESSÕES
E FOBIAS: SEU MECANISMO PSÍQUICO E SUA ETIOLOGIA (1895 |1894|), Obras Completas de Psicanálise -
volume III. Rio de Janeiro, Imago - 1996.
8 de março de 2014
Reflexões: “Degradação da Figura do Pai”
“... a teoria analítica está toda baseada no
conflito fundamental que por intermédio da rivalidade com o pai, liga o sujeito
a um valor simbólico essencial – mas isso, como verão, sempre em função de uma
certa degradação concreta, talvez ligada a circunstancias sociais específicas,
da figura do pai. A própria experiência se estende entre essa imagem do
pai, sempre degradada, e uma imagem cuja importância nossa prática nos
possibilita reconhecer cada vez melhor, além de medir suas incidências no
próprio analista, uma vez que, sob uma forma certamente velada e quase renegada
pela teoria analítica, ele ocupa, de modo quase clandestino, na relação
simbólica com o sujeito, a posição desse personagem muito apagado pelo declínio
de nossa história que é o do mestre – do mestre moral, do mestre que institui
na dimensão das relações humanas fundamentais aquele que está na ignorância, e
que lhe proporciona o que se pode chamar de acesso a consciência, até mesmo à
sabedoria, na aquisição da condição humana” (Lacan, p14).
Por certo vivemos em uma civilização, em que a “necessidade” de
“liberdade”: sexual, livre realização dos instintos e impulsos, “liberdade” de
escolhas fora de todo conceito moral, ético, das virtudes que passaram a ser
tidas como “causa de doenças”, em que a palavra de ordem “liberdade” adquire o
significado de gozo, valendo o imperativo dos instintos, onde a razão e seus
imperativos categóricos da lei moral são tidos como “fora de moda”. Então o que
está na moda? O rompimento com a lei externa, do real e a lei simbólica assumem
características de um sadismo, em que na economia psíquica e na economia
predatória de mercado, tudo é possível e o sujeito se autodenomina com direito
ao prazer material, de viver sua individualidade, mesmo que custe a segregação,
discriminação ou morte do outro, que ao final não passa dele mesmo. Dessa forma
o pai “precisa” romper a lei com seus filhos, para que não se denuncie, e sua
verdade permaneça escondida, e a árvore que poderia dar bons frutos,
apodrece-os, pelo estímulo ao ódio, ressentimento, discriminação, pelo excesso
de gozo mesmo que seja pelo sadismo. Há uma ausência de consciência de si, de
valores, de compaixão, de perdão de amor. Busca-se um mestre. Que mestre?
Referência
LACAN, Jacques - O Mito Individual do Neurótico – Jorge Zahar Editores,
2008
Morrer sem Perecer
Quem
conhece os homens é inteligente
Quem
conhece a si mesmo é iluminado
Vencer os
homens é ter força
Quem vence
a si mesmo é forte
Quem sabe
contentar-se é rico
Agir
fortemente é ter vontade
Quem não
perde a sua residência, perdura
Quem morre
mas não perece, eterniza-se
TAO TE CHING - O Livro do
Caminho e da Virtude - Lao Tse - Tradução do Mestre Wu Jyn Cherng
22 de fevereiro de 2014
Anotações Sobre as Lembranças na Acrópole
Em
Janeiro de 1936 Freud escreveu a Romain Rolland por ocasião de seu setuagésimo
aniversário. Freud tinha especial estima por esse grande escritor.
Considerava-o entre suas preciosas amizades. A carta versa sobre o que Freud
considera Um Distúrbio de Memória na Acrópole, por ocasião de sua viagem a
Atenas. Após as considerações sobre a viagem ele relata aquilo que muito o
impressionou, ao qual citaremos alguns trechos que consideramos significativos.
As reminiscências das lembranças da infância tornam-se para ele enigmáticas,
uma vez que as remete ao inconsciente, a algo do qual não havia se apropriado.
O enigma da memória e as provas às quais ela remete a nossa consciência, que
nem sempre encontra esclarecimentos acalentadores, mesmo nos deslocamentos que
faz ao passado ou aos objetos. Esse estranhamento sobre algo ainda não visto, mas familiar,
quando visto, são difíceis de serem compreendidos, por que nos habita sem o
sabermos, apesar dos longos caminhos que percorrem. Fiquemos com recortes de suas
reflexões.
...“Quando, por fim,
na tarde após nossa chegada eu me encontrava na Acrópole e pousava meus olhos
sobre o cenário; um pensamento surpreendente passou rápido em minha mente:
‘Então tudo isso realmente existe mesmo,
tal como aprendemos no colégio!’” ...
...“Ora, seria fácil
argumentar que esse estranho pensamento que me ocorreu na Acrópole só serve
para acentuar o fato de que ver algo com os próprios olhos é, afinal, coisa
muito diferente de ouvir contar ou de ler a respeito. Mas continuaria sendo uma
forma muito estranha de explicar um lugar-comum sem interesse. Ou então, seria
possível afirmar que era verdade que, quando eu era um colegial, pensara estar convencido da realidade
histórica da cidade de Atenas e de sua história, mas que a ocorrência dessa ideia
na Acrópole justamente mostrara que, em meu inconsciente, eu não tinha acreditado, e que só agora
estava adquirindo uma convicção que ‘atingia o fundo do inconsciente’”...
... “ O Destino, que
esperamos nos trate tão mal, é materialização de nossa consciência, do severo
superego que há dentro de nós, sendo ele próprio um remanescente da instância
primitiva de nossa infância”...
... “Quando relembro
meu vivo desejo de viajar e ver o mundo, que me dominava nos tempos de colégio
e posteriormente, e quanto tempo se passara até que meu desejo se
concretizasse, não me surpreendo com esse efeito retardado na Acrópole; eu
tinha, então, quarenta e oito anos”...
... “a incredulidade
— realmente estava contido na própria distorção: ‘Pela evidência dos meus
sentidos, estou agora na Acrópole, mas não consigo acreditar nisto.’ Essa
incredulidade, essa dúvida quanto a um aspecto da realidade, estava, contudo,
duplamente deslocada em sua expressão real: primeiro, estava atribuída ao
passado e, segundo, estava transportada de minha relação para com a Acrópole,
para a própria existência da Acrópole”...
... “o fator
original deve ter sido o sentimento do inacreditável e do irreal na situação
daquele momento. A situação incluía a mim próprio, a Acrópole e a minha
percepção dela. Eu não podia explicar essa dúvida; evidentemente, não podia
ligar a dúvida às minhas impressões sensoriais referentes à Acrópole.
Lembrei-me, contudo, de que, no passado, tivera uma dúvida a respeito de algo
relacionado precisamente a esse local e, assim, encontrei o meio de deslocar a
dúvida para o passado”...
... “toda essa
situação psíquica, de aparência tão confusa e tão difícil de descrever, pode ser
elucidada satisfatoriamente supondo-se que, no momento, tive (ou poderia ter
tido) um sentimento instantâneo: ‘O
que estou vendo aqui não é real.‘ Tal sentimento é conhecido como
‘sentimento de desrealização’ [‘Entfremdungsgefühl‘].
Fiz um intento de afastar esse sentimento, e o consegui à custa de uma falsa
afirmação acerca do passado”...
“Essas
desrealizações são fenômenos notáveis, ainda pouco compreendidos. Diz-se serem
‘sensações’, mas, evidentemente, são processos complexos, vinculados a
conteúdos mentais peculiares e vinculados a operações feitas a respeito desses
conteúdos”.
“Esses fenômenos
podem ser observados sob duas formas: a pessoa sente que uma parte da
realidade, ou que uma parte do seu próprio eu, lhe é estranha”.
... “Existe mais um
outro grupo de fenômenos que podem ser considerados como suas contrapartidas
positivas — é o que se conhece como ‘fausse
reconnaissance‘, ‘déjà vu’,
‘déjà raconté’, etc. ilusões em
que procuramos aceitar algo como pertencente ao nosso ego, do mesmo modo como,
nas desrealizações, nos empenhamos em manter algo fora de nós”...
... “Tudo isso,
contudo, é tão obscuro e tem sido tão mal dominado cientificamente, que tenho
de me abster de lhe falar mais a respeito dessas coisas”...
... “Mas justamente
minha própria experiência na Acrópole, que realmente culminou num distúrbio de
memória e numa falsificação do passado, ajuda-nos a demonstrar essa conexão.
Não é procedente o fato de que, em meus tempos de colegial, eu, alguma vez,
duvidasse da existência real de Atenas. Apenas duvidava se algum dia chegaria a
ver Atenas. Parecia-me além dos limites do possível, eu, algum dia, viajar tão
longe — eu ‘percorrer um caminho tão longo’”...
...Quando, pela
primeira vez, uma pessoa enxerga o mar, cruza o oceano e sente como realidades
as cidades e os países que por tanto tempo tinham sido distantes, inatingíveis
coisas desejadas, então a pessoa se sente como um herói que realizou feitos de
inimaginável grandeza”...
... “Nosso pai se
dedicara ao comércio, não tinha tido instrução secundária, e Atenas podia não
ter significado muito para ele. Assim, o que interferia em nossa satisfação de
viajar a Atenas era um sentimento de respeito
filial. E agora o senhor não mais haverá de se admirar de que a
lembrança desse incidente na Acrópole me tenha perturbado tantas vezes, depois
que envelheci, agora que tenho de ter paciência e não posso mais viajar”...
FREUD, S. – UM DISTÚRBIO DE MEMÓRIA NA ACRÓPOLE (1936), Obras Completas de Psicanálise -
volume XXII. Rio de Janeiro, Imago - 1996.
19 de fevereiro de 2014
Arqueólogo Psíquico
“Mas assim como o arqueólogo ergue as paredes do prédio a partir
dos alicerces que permaneceram de pé, determina o número e a posição das
colunas pelas depressões no chão e reconstrói as decorações e as pinturas
murais a partir dos restos encontrados nos escombros, assim também o analista
procede quando extrai suas inferências a partir dos fragmentos de lembranças,
das associações e do comportamento do sujeito da análise. Ambos possuem direito
indiscutido a reconstruir por meio da suplementação e da combinação dos restos
que sobreviveram. Ambos, ademais, estão sujeitos a muitas das mesmas
dificuldades e fontes de erro. Um dos mais melindrosos problemas com que se
defronta o arqueólogo é, notoriamente, a determinação da idade relativa de seus
achados, e se um objeto faz seu aparecimento em determinado nível,
frequentemente resta decidir se ele pertence a esse nível ou se foi carregado
para o mesmo devido a alguma perturbação subsequente. É fácil imaginar as
dúvidas correspondentes que surgem no caso das construções analíticas” (Freud
1937, p.277).
16 de fevereiro de 2014
Direitos Humanos e Saúde Mental: O sofrimento silencioso de crianças cambojanas
https://amaa.com.br/blog/missao-camboja/678
O sofrimento das crianças no Cambodja:
"E se o sofrimento das crianças vai fazer-se a soma de
sofrimento necessário para comprar a verdade, então eu afirmo de antemão que toda a
verdade não vale esse preço."
Psicanálise: uma relação intersubjetiva
“... vemos emanar da psicanálise métodos que, eles sim, tendem a
objetivar modos de agir sobre o homem, objeto humano. Não passam, contudo, de
técnicas derivadas dessa arte fundamental que é a psicanálise, na medida em que
é constituída por essa relação intersubjetiva que não pode, como lhes disse,
esgotar-se, pois ela é o que nos faz homens. É, no entanto, o que somos levados
a procurar exprimir, apesar de tudo, numa formulação que dê a conhecer o seu essencial,
e é justamente por isso que existe no seio da experiência analítica algo que é
propriamente falando, um mito”.
“O mito é o que dá uma formulação discursiva a algo que não pode
ser transmitido na definição da verdade, porque a definição da verdade só pode
se apoiar sobre si mesma, e é na medida em que a fala progride que ela a
constitui. A fala não pode apreender a si própria, nem apreender o movimento de
acesso à verdade como uma verdade
objetiva. Pode apenas exprimi-la – e isso de forma mítica. Nesse sentido é que
se pode dizer que aquilo em que a teoria analítica concretiza a relação
intersubjetiva, e que é o complexo de Édipo, tem valor de mito” (Lacan, p.13).
Nesse trecho em que Lacan fala
de poesia e verdade, vemos que, o que se designa por psicanálise, possui uma leve
brisa de arte, pela relação intersubjetiva entre analista e analisando, e que
por nos fazer humanos, transcende. E por transcender ela possui algo de mito,
mítico, naquilo em que não pode ser traduzido em palavras, embora progrida,
contraditoriamente pela palavra. Mas como a palavra exprime uma verdade, mas não
apreende a essência, essência essa que remete às provações triangulares da existência
humana.
Referência
LACAN, Jacques - O Mito Individual do Neurótico – Jorge Zahar
Editores, 2008
14 de fevereiro de 2014
Poesia - Saber Viver
Não sei...
Se a vida é curta
Ou longa
demais para nós,
Mas sei
que nada do que vivemos
Tem
sentido, se não tocamos o coração
das
pessoas.
Muitas
vezes basta ser:
Colo que
acolhe,
Braço que
envolve,
Palavra
que conforta,
Silêncio
que respeita,
Alegria
que contagia,
Lágrima
que corre,
Olhar que
acaricia,
Amor que
promove.
E isso não
é coisa de outro mundo,
É o que dá
sentido à vida.
É o que
faz com que ela
Não seja
nem curta, nem longa demais,
Mas que
seja intensa,
Verdadeira,
pura... Enquanto durar
Cora
Coralina
12 de fevereiro de 2014
Lembrança e Esquecimento – Pensamento, Palavra e Silêncio
“fé dos
antepassados’ não pode ser renegada impunemente quando se é filho e se tem
filhos.”(Freud, 1901 p.103)
Quando Freud pesquisou e escreveu o livro Psicopatologia da Vida
Cotidiana, uma de suas obras mais traduzidas foi um ambicioso projeto de
catalogação dos possíveis sintomas encontrados no dia a dia, que se expressam
na forma de sermos, cujas consequências temos que inserir no binômio quantidade
e qualidade de energia psíquica. O objetivo dessas reflexões, que valeu o
volume VI das obras completas é recolocar a importância e significado desse
recurso da memória, que é a lembrança e esquecimento, principalmente em uma
sociedade de consumo, descartável, em que “esquecer” significa obter um novo
objeto. Lembrança é o que permanece e esquecimento é uma forma de conservar a
lembrança e desloca-la para outros objetos. O esforço de compreender o
patológico pelo saudável é o mesmo esforço de compreender os sofrimentos
psíquicos pelo não sofrimento, portanto um esforço difícil e complexo, quase
impossível, por isso a expressão “psicopatologia”. Sabemos que o psiquismo
retira não só de si mesmo, como do corpo, por isso os sintomas, a energia para
suportar as dores.
Quando nos referimos aos esquecimentos, lapsos da fala, de
escrita, equívocos na ação, o esquecimento de nomes e sequências de palavras, atos casuais e sintomáticos, os erros, o
esquecimento de impressões e intenções, temos que lembrar que nossa memória
existe sob o véu do esquecimento, como recurso de defesa. É o sofrimento que
não é possível ser resgatado naquele momento, daquela forma e assim se faz
presente como recurso simbólico. A resistência à lembrança atua sob a forma do
racionalismo, de arrogância, do egoísmo, do gozo narcísico, dos argumentos
inflexíveis, da equivocada análise sobre o “outro”, dos sintomas. Será, então, necessária
uma construção “paralela”, uma reconstrução simbólica, para que sejam
lembrados, se possível com o mínimo de dor, ou sem dor.
O cotidiano das relações é permeado, por jogos de palavras,
dissimulações, agressões veladas, muitas vezes difíceis de traduzir e de causas
variadas, com substitutos incompreensíveis, pois sem desvelar, lembrar, não é
possível compreendê-las. Assim os fatos psíquicos são determinados por eventos que estão distantes de sua
expressão e diz respeito aos processos anímicos. Nesse sentido o esquecimento
de um nome, motivado pelo recalque, ocorre por um deslocamento (como uma ilusão
de memória) sendo substituído por outro, mais fácil de lembrar, sem dor, sem os
sofrimentos aos quais estão vinculados. Esse deslocamento lembra o que se
desejava esquecer e o que desejava recordar, bem como o tema ao qual se refere
o recalcado, que através da associação retorna ou mantém recalcado, se as
condições para ser revelado não forem satisfatórias. O evento recalcado e a
substituição estão associados e vinculados. É só uma forma de expressão
possível, sem ameaçar o ego. Portanto “eles
exibem então com o elemento recalcado e com o nome ausente a mesma relação que
teriam caso tivessem aparecido espontaneamente” (Freud, 1901 p.23).
É fato que nosso vocabulário é protegido contra o esquecimento.
Embora haja uma predisposição para esquecer palavras estrangeiras, onde são
difíceis substitutos na memória. Isso demonstra o quanto estamos vinculados a
formação inicial das palavras e sua vivência. A continuidade temporal, muitas
vezes não é suficiente para interpretar, relacionar os temas em questão,
ficando no recalque a palavra, que se revelará mediante experiências
reveladoras. O esquecimento de palavras revela que assuntos remotos, investidos
de afeto, continuam com sua demanda em função de sofrimentos latentes. O
esquecido através de uma associação ou substituição a um conteúdo de pensamento
inconsciente, que é fonte do esquecido. O fato de na sociedade atual haver um
volume grande de informações a disposição, de certa forma ela também é
selecionada pelo inconsciente, que se liga aos conteúdos que representa sua
vivência temporal e atemporal. Por certo o estresse, o cansaço, os problemas de
saúde, as perdas, frustações, tragédias da vida impulsionam a necessidade de esquecer.
“O nome perdido toca num complexo pessoal”. Vários podem ser as razões para o
esquecimento de nomes, por exemplo, um ressentimento, não resolvido. Lembranças
carregadas de afeto não reelaborado possibilitam esquecimento.
O mecanismo do esquecimento de nomes sofre a interferência de
uma cadeia de pensamentos inconsciente, pois entre o nome esquecido e o tema
perturbado existe uma conexão pré-existente. É então que muitas vezes ocorrem
os lapsos de fala, onde uma palavra, uma expressão é substituída, contaminada (formação
de compromisso) por outra, o que é o inicio do trabalho de condensação. As
imagens “flutuantes” seguem os processos de linguagem, ou seja, tudo o que se
passa no pensamento de quem fala. O lapso, (o ato falho) ouvido no dia a dia, é
o pensamento que permaneceu inconsciente, que se manifesta e que só é possível
compreender através de uma análise detalhada. Os lapsos na fala, leitura e escrita pertencem à
mesma família. As situações de grande estresse, insegurança, sejam quais forem,
são muito favorecedoras dos lapsos de fala e leitura. Lê e fala-se, muitas
vezes o contrário, pois existe alguma comunicação penosa. O mecanismo do
esquecimento de nomes sofre a interferência de uma cadeia de pensamentos
inconsciente, pois entre o nome esquecido e o tema perturbado existe uma
conexão pré-existente. É então que muitas vezes ocorre os lapsos de fala, onde
uma palavra, uma expressão é substituída, por outra. A censura, recalcada
desaloja da memória a palavra que não deve ser dita e que retorna como lapso de
fala, ou seja, os pensamentos inconsciente desagradáveis, conflituosos, ou
permeados de sofrimentos, ressentimentos, opiniões contrárias, que expõe uma
sinceridade interna. Então há um dito não intencionado, revestido de outro dito
ou de um silêncio. É pelos deslizes da fala, das imagens que o sujeito se
revela cotidianamente. Quando o que incomoda não é a palavra isolada, mas o
som, o ritmo da frase, também estamos diante de um conflito interno.
A velocidade de informação atual atesta a capacidade de nossa
memória, em que o estudo sobre o esquecimento de impressões, intenções e
conhecimentos, está longe de alguma conclusão. Estudos sobre a memória falam da
plasticidade de nossos neurônios e da capacidade de nossa memória. É certo que
o mecanismo da lembrança e do esquecimento, há muito que avançar em estudos.
Esquecemos o que nos faz sofrer e lembramos o que já temos condições de ser
apropriado, compreendido. No esquecimento existe um decurso de tempo, mas o
fundamental ainda é a angústia que o sujeito consegue suportar, ou aquilo que
não desestrutura seu ego. A vida cotidiana é rica em impressões, intenções e
conhecimentos, que são escolhidos para serem lembrados ou não. Essa seleção é
tão complexa de conexões entre passado, presente e futuro, que o tempo parece
não existir, pelo menos como o pensamos numericamente. A resistência sempre se
opõe à lembrança de pensamentos e impressões aflitivas.
Impressões é tudo que captamos sobre o mundo externo e aquilo
que o inconsciente nos sinaliza, mas não temos certeza. Intenções já contém um
“impulso para a ação”, ação esta a ser exercida no momento adequado, quando não
há impulsividade, podendo ser reavaliada, pois as intenções podem ser
perturbadas muitas vezes por razões enigmáticas. O esquecimento de intenções
pode colocar-se naquilo pelo qual pode ser designado de falsas intenções. Como
o sentido simbólico do ato falho compõe inúmeros significantes, não é tarefa
fácil examiná-los sob a ótica corriqueira do dia a dia. Em algum momento do
cotidiano ocorre “equívocos” nas ações diárias, o que leva constantemente a
autopunição ou formação de um sintoma. Embora a autopunição possa ser um
sintoma, portanto expressam algo que não desejariam fosse revelado. “Conhecemos os atos sintomáticos que as
pessoas casadas costumam executar, tirando e recolocando suas alianças”
(Freud, 1901 p.205). Bem como o hábito de perder coisas, que pode significar a
transferência simbólica para outros objetos, ou seja, a perda de objetos menos
significativos.
A relação entre os afazeres do dia a dia e sua representação
simbólica com os sentimentos, decepções, esperanças, desejos é mais profundo do
que imaginamos. Jung (1907) observou “as melodias que cantarola inintencionalmente e com frequência sem
percebê-lo, poderá descobrir com bastante regularidade a relação entre as
palavras da canção e o assunto que está ocupando sua mente”(Freud, 1901
p.214). Da mesma forma que as palavras que revestem os pensamentos, não são
escolhidas livremente, possuem um sentido mais profundo. Não somos livres para
escolher as palavras. Essa é uma conclusão interessante de Freud. Muitos são os
erros de palavras, que não pertencem a o desconhecimento, cometidas diariamente
e onde ocorre um erro existe um recalcamento. O erro nas palavras indica um
conflito que luta, demanda cura, elaboração, permanecendo na obscuridade. O inconsciente sabe impedir a execução
de uma intenção.
Muitas são as crenças, que suportam as dores, os sofrimentos.
Mas na vida anímica há razões, que muitas vezes, são inexplicáveis. Mas na vida
psíquica, nada é arbitrário ou indeterminado.
“Embora
admitamos que estas nossas observações de maneira alguma esgotam a psicologia
da superstição, somos forçados pelo menos a tocar numa questão: se devemos
negar inteiramente as raízes reais da superstição, se de fato não existem
pressentimentos, sonhos proféticos, experiências telepáticas, manifestações de
forças sobrenaturais e coisas semelhantes. Estou longe de pretender condenar
tão cabalmente esses fenômenos, dos quais tantas observações detalhadas têm
sido feitas inclusive por homens de intelecto destacado, e que melhor seria
transformar em objeto de outras investigações. É até de se esperar que parte
dessas observações venha a ser explicada por nosso reconhecimento incipiente
dos processos anímicos inconscientes, sem que haja necessidade de modificações
radicais nas concepções que hoje sustentamos. Se ficasse provada a existência
de ainda outros fenômenos — por exemplo, os afirmados pelos espíritas —,
trataríamos apenas de modificar nossas “leis” da maneira exigida pelo novo
saber, sem abalarmos nossa crença na coerência das coisas no mundo” (Freud,
1901 p.256).
Freud refere-se nesse estudo às suas experiências, que poderiam
ser telepáticas, a crença nos sonhos proféticos, e de como é errôneo “chamar de ilusão o sentimento de já ter vivenciado alguma coisa antes. É que nesses
momentos realmente se toca em algo que já se vivenciou antes, só que isso não
pode ser lembrado conscientemente porque nunca foi consciente” (Freud
10901 p.261). Assim lembremos que da origem das fantasias inconscientes,
retorna um sentimento de familiaridade com as coisas que vemos no dia a dia como
já vividas, ou seja, um fragmento recalcado, guardado, esquecido, que retorna.
Os pensamentos, conflitos, desejos recalcados não produzem por si próprios, atos
falhos ou sintomáticos, para que isso ocorra é necessário inervações de
estímulos externos, que atingindo o recalcado é explorado pelo inconsciente
para retornar a consciência. A questão dos determinantes dos atos falhos e
sintomáticos que transitam entre os motivos inconscientes e fisiológicos, que
se encontram, permanece aberta enquanto questão.
O pensamento relaciona-se com outro pensamento por associações
inconscientes, nas mais diversas origens, por similaridades. São as marcas do
recalcado que se confluem. Nem tudo que supomos esquecido, assim o está. Os
sentimentos de inveja, ódios, rancores, orgulhos, vaidades, arrogâncias, “se
valem dos atos falhos para expressarem seu poder”. Quanto mais efetivo for o
processo de recalque, maiores dificuldades terão os conteúdos em um
“relaxamento” do superego. Mesmo porque as formações de compromisso, as
condensações, as associações externas dos pensamentos inconscientes faz com que
seja expresso de forma modificada. Dessa forma a fronteira entre as estruturas
clínicas é fluida. Freud dirá, “a saber,
que a fronteira entre a norma e a anormalidade nervosas é fluida” (p.272).
A esperança que nos alimenta é que, por mais difícil que seja algumas
lembranças inconscientes podem ser rastreadas.
É fato que as mais remotas lembranças parecem preservar aquilo
que é aparentemente sem importância, embora na memória faça uma seleção das
impressões oferecidas e muitas vezes não se encontre nenhum vestígio das mesmas
enquanto lembranças, bem como dos afetos. Mas nada fica estático, pois o
movimento, a atemporalidade desloca, substitui, na reprodução mnêmica aquilo
que consegue vencer a resistência. Assim as lembranças “indiferentes” ou
difíceis, são preservadas porque associam seu conteúdo a um outro conteúdo
recalcado, sendo denominadas como “lembranças encobridoras”, que falamos em http://www.caminhosdapsiq.blogspot.com.br/2013/02/lembrancas-e-paranoia-memoria.html
em que em seus inúmeros vínculos e sentidos, longe de se perderem no
tempo, retornam até o desvelamento do véu que as encobre. É possível também que
uma lembrança recente se vincule a conteúdos antigos, que não foi possível de
retorno pela resistência. A questão é o que está atrás da lembrança
encobridora. Se a lembrança encobridora se vincula a uma impressão encoberta
pela afinidade temporal, temos aqui algo de contiguidade. Difícil dizer quanto
de lembrança encobridora há em nossa reserva mnêmica, mas a lembrança
encobridora tem por base o esquecimento, e o esquecimento de eventos
importantes. Essa formação substitutiva que se forma por deslocamento, tende
sempre a buscar sua origem. Permanece a interrogação de até onde recuam nossas
lembranças, pois “Forças poderosas de épocas posteriores da
vida modelaram a capacidade de lembrar as vivências infantis — provavelmente,
as mesmas forças responsáveis por nos termos alienado tanto da compreensão dos
anos de nossa infância” (Freud, 1901 p.62).
A angústia de não visualizar a si mesmo, persegue todos os seres
humanos. Esse esquecer-se permite também a reelaboração de sofrimentos talvez
inimagináveis, que sofreu influência de forças psíquicas, ainda desconhecidas.
Assim as lembranças encobridoras, as condensações os deslocamentos são alentos
de que algo está se processando independente de nossa consciência e que pode
remeter simbolicamente a um passado inacessível, onde povoam as fantasias, símbolos,
imagens, lendas e mitos.
Referência
FREUD, S. – SOBRE A PSICOPATOLOGIA DA
VIDA COTIDIANA (1901), Obras Completas de Psicanálise -
volume VI. Rio de Janeiro, Imago - 1996.
9 de fevereiro de 2014
Freud e a Carta 101
…Em primeiro lugar: uma pequena parte de minha autoanálise
progrediu e confirmou que as fantasias são produtos de períodos posteriores
e são projetadas para o passado, desde o que era então o presente até épocas
mais remotas da infância; o modo como isso ocorre também emergiu — mais uma
vez, um vínculo verbal.
À pergunta: “O que aconteceu nos primórdios da infância?”, a
resposta é “nada”. Mas o embrião de um impulso sexual estava lá. Seria fácil e
maravilhoso contar-lhe como é a coisa; mas seria necessária uma meia dúzia de
páginas para eu escrever tudo isso por extenso, e por isso vou guardá-lo para
nosso encontro na Páscoa, com algumas outras informações a respeito de meus
primeiros anos (de vida).
Além disso, encontrei um outro elemento psíquico que considero
ter significado geral e ser uma fase preliminar dos sintomas, anterior, mesmo,
à fantasia.
(4 de janeiro.) Ontem, fiquei cansado, e hoje, não consigo
continuar escrevendo de acordo com o que pretendia, porque a coisa está
crescendo. Há qualquer coisa aí. Está começando a despontar. Nos próximos dias,
por certo haverá algum acréscimo. Então, quando a coisa ficar aclarada, eu lhe
escreverei. Apenas lhe revelarei que o padrão onírico é passível da mais
genérica aplicação, e que também compreendo por que, a despeito de todos os
meus esforços, ainda não concluí o livro dos sonhos. Se eu esperar um pouco
mais, conseguirei descrever o processo mental que ocorre nos sonhos, de tal
maneira que ele também inclua o processo que ocorre na formação dos sintomas
histéricos. Portanto, esperemos.
O interessante nessa carta é a
interrogação de Freud sobre os processos oníricos e as lembranças. Até onde
lembramos? Como está guardado esse material? Nessas interrogações, há que pensar
na possibilidade do trajeto de uma lembrança até sua origem como algo difícil e
complexo. O que diz a fantasia sobre as lembranças e como articulá-las é algo
possível, mas ainda requer pesquisas.
Referência
FREUD, S. – CARTA 101 (1899), Obras Completas de Psicanálise - volume I. Rio de Janeiro,
Imago-1996.
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